A Lenda Dos Encantrios
14 Noticias de morte
Notas iniciais
~Ana
– Como assim? – Liam e eu falamos em uníssono, como isso poderia ser possível? Brian não pode morrer.
– Quando eu e Kassie encontramos o Jared, ele pediu para que eu o matasse e pegasse as memórias dele. – Brian fez uma pausa longa. – Eu ando vendo essas memórias todas as noite e eu acho que ele queria que eu descobrisse isso. As Ninfas falaram que um Guerreiro do Fogo foi procurar algo, o seu único erro foi pedir a elas. Esse Guerreiro era o meu tataravô, ironia não? Só que como já pode perceber, aqui não se pode pedir alguma coisa sem dar algo em troca, e o meu tataravô deu o meu destino.
– Por que ele faria isso com a própria família? – Liam tirou as palavras da minha boca.
– Poder! – Brian gritou indignado – A Cidade do Fogo sempre fora a mais “rejeitada” dentre as outras por algo chamado “A Ordem dos Magos” , eu não sei o que é, mas ele detém o poder aqui em Pórfiron. Meu tataravô queria algo que o fizesse mais poderoso, algo que o fizesse ser notado pela Família Real. Ele tentou em todos os lugares possíveis, e conseguiu somente com elas, e o preço foi a vida do seu tataraneto. Ele aceitou é claro, para ele, sacrificar uma vida não seria nada comparado ao poder que todos os descendentes da família Withford teria. – Brian soara cansado e abatido.
– E qual era o poder afinal?
– Ler mentes, acredita? Uma coisa tão idiota vale uma vida, a minha vida! – Brian fez uma pausa, mas depois voltou a falar rindo. – Não faz essa cara, não sei o que você está pensando, eu só consigo... Ah cara, isso vai soar muito gay.
– O que? – perguntou Liam curioso.
– Consigo ver seus sentimentos, é uma aura que emana das pessoas, sei lá! Eu só consigo, tá bom? Eu preferiria a minha vida.
– E o seu tataravô conseguiu o que queria?
– Bem... Acho que sim, ele virou conselheiro do Rei Arcamant – os dois ficaram em silêncio por muito tempo. – Eu penso que as Ninfas sabiam, o tempo todo, elas sabiam que seria eu a morrer. Como alguém pode querer me matar? Elas se arrependeram muito quando me viram, tenho certeza!
– Brian... Acho que você pode diminuir seu ego em ocasiões como essa. – Liam fez uma pausa e suspirou. – Quantos anos você tem?
– Dezessete, faço dezoito dia 21 de dezembro.
– Ótimo! Temos um ano para resolver o que fazer.
– Não sei o que podemos fazer, Liam, isso já foi decidido há muito tempo.
– Se as Ninfas fizeram, acho que podem desfazer! Pense Brian, deve haver um jeito!
– Eu queria que houvesse. Tentei contar a Kassie, mas ela não me ouviu, pensei que talvez o Livro que ela tem poderia me ajudar, de alguma forma, me ajudar a viver.
– Não conte a Kassie! – Liam disse rapidamente – Se vamos ter que falar com as Ninfas, é melhor que a Kassie não esteja envolvida. Como você me contou à tarde, as Ninfas odeiam a Kassie e esse sentimento é recíproco.
– Eu sei, é só que... – Brian não terminou a frase.
– Você não pode querer que ela se machuque.
– É claro que eu não quero! – Brian respondeu bem rápido – Pode parecer que não, mas eu me importo com as pessoas.
– Achei que ela era um caso especial...
– E é, só que eu não sei de que forma, é estranho pensar em gostar de alguém, você se sente preso, não como em um relacionamento, é seus pensamentos, sempre presos a ela. Quando eu vejo já estou pensando nela. Como isso é irritante! As pessoas deveriam pensar em mim, não eu nelas!
– É quase impossível conversar com você! Brian, meu caro, você está apaixonado, e o que vai fazer?
– Eu... – mas eu não soube o que ele ia dizer, algo bateu na minha janela e eu perdi a concentração da conversa e não consegui recuperar.
Eu não podia acreditar no que acabara de ouvir, Brian não podia morrer, ele não podia! Não era justo que ele morresse, com qual motivo ele teria que morrer? Estava me sentindo egoísta por não ter ficado e conversado com ele, agora ele não iria me contar, porque temia por mim. Brian precisava da minha ajuda, e eu o abandonei, agora ele teria que encontrar aquelas Ninfas traiçoeiras, e se caso não ajudassem – o que era bem provável – ele morreria. Não podia imaginar Brian morto, eu podia estar sendo egoísta, mas ele não poderia morrer.
Com esse pensamento, e as lagrimas que molharam o meu rosto até meus olhos doerem, eu peguei no sono, junto, vieram os sonhos.
– As Seis Velas! – Gritava o Rei para alguém que eu não conseguia ver. – Precisamos atrasá-lo até que os Seis estejam na idade.
– Meu senhor, a idade é daqui a dezesseis anos, como o senhor pretende atrasar Ele por dezesseis anos? – perguntou o homem indignado e com raiva – Você sabe que não vai ser o senhor a matá-lo.
– Eu sei Jared, eu sei, só os Seis juntos, somente juntos, nenhum a mais e nenhum a menos, eu conheço muito bem a profecia. – Jared apareceu na visão embaçada do sonho, o ruivo usava roupas de gala e conversava com o Rei em um gabinete luxuoso.
– Então o que o Rei pretende?
– Pretendo atrasá-lo, eu sei que posso, vou precisar dos Governantes. Quero que marque um Conclave para amanhã bem cedo, mande o povo se preparar para a batalha.
– Meu Rei, você sabe que na Batalha Final, só os Seis poderão ganhar... – Jared não conseguiu terminar.
– Não estou falando sobre a Batalha Final, estou falando em uma batalha, o que eu puder fazer, vou fazer Jared, é meu povo, é a minha família. – O Rei olhou para o Colar no pescoço e sussurrou. – Lembre-se disso, Clara, somente Seis, senão, Ele vai ter o que procura.
– Acho melhor acordar, mia bella, estão todos te esperando. – sorri ao escutar aquela voz logo cedo, era simplesmente a melhor voz que eu podia escutar depois da outra noite.
– Bom dia, Bri... – só que não era Brian que estava sentado a beira da minha cama, era um garoto magricela com cabelos pretos pontudos e olhos díspares – um prata e o outro dourado – usava uma capa brilhosa e roupas de pano vermelhas. Pulei puxando o lençol para junto de mim. – Quem é você?
– Ah Kassie, então é o Brian que você ouviu. – ele riu e depois viu que eu não entendia a piada. – Não está me reconhecendo? Sou eu, Roterford versão jovem, o que achou? Era assim que eu era quando tinha a sua idade, há uns mil anos atrás.
– E por que está assim agora? – abaixei o lençol e levantei da cama enrolando meu cabelo em um coque improvisado – Mas gostei, bem... Chamativo.
–Sério? Eu adoro essa capa, os brilhos chamam atenção para os meus olhos... – Ele sacudiu a cabeça e voltou com um olhar sério. – Temos que conversar sobre o oráculo.
– Agora não Diford. – ele me olhou sem entender – Seus olhos são díspares e você se chama Roterford, não gostou? Enfim, eu gostei. O que eu quero dizer é que você pode esperar, tive uma noite terrível e estou totalmente estressada.
– Que tal uma roupa nova? Isso sempre ajuda os ânimos. – Roterford levantou e estalou os dedos e eu comecei a trocar de roupa involuntariamente.
– Então... Por que eu escutei o Brian? – perguntei curiosa.
– Essa não. – disse ele para uma roupa azul que não caia bem. – Esse é um feitiço do coração, um dos muitos que existem, você só escuta a voz da pessoa amada, interessante você escutar a voz do bonitão do Fogo, achei que você gostava do moreno.
– Eu não gosto de nenhum dos dois, Diford, não quero pensar em garotos hoje, qualquer coisa menos garotos! –ele fez uma careta para outro conjunto. – Definitivamente não.
– Então pense em garotas. Esse não! – e estalou os dedos novamente. – Uma coisa interessante sobre a sua Terra, é o único lugar onde dois sexos podem ficar juntos, aqui em Pórfiron isso é impensável, mas eu acho bem interessante. O que você acha, Kassie?
– Na Terra também não é totalmente aceito Diford. Gostei desse! – ele fez uma careta para o conjunto simples que eu havia escolhido. Era uma calça preta e uma blusa branca grande, com um cinto marrom, com um par de botas marrom. – Ah não reclame, vou enfrentar um Oráculo, não desfilar!
– Deixe pelo menos eu fazer um coque, sente aqui. – ele apontou para cama e eu obedeci.
– Di... O que é a profecia das Seis velas? – no mesmo instante Roterford parou o coque e ficou sombrio, mas logo o sorriso voltou ao seu rosto.
– Por que quer saber? Essa profecia é muito antiga, ninguém mais se importa com ela.
– Eu tenho certeza que ela fala sobre mim, eu sou uma das Velas, tenho direito de saber não é mesmo?
– Bem... Você não pode vê-la até que seja a hora, todos nós sabemos disso, mas saiba que você está certa, você é a primeira vela e eles são as outras cinco. Escute-me Kassie – disse ele mais severo – Somente os Seis, tudo estará perdido se não for os Seis, ao caminho certo eles seguirão, eu não sei qual é o caminho, mas você saberá. – Ele fez uma pausa e olhou para o meu cabelo – Divino! Agora um reto...
- Não, obrigada, mas estou bem assim! Agora fale sobre o Oráculo...
- Muito bem, para entrar no Oráculo é preciso encontrar a chave no Poço Sem Fim, colocá-la na pedra escolhida e pedir uma ponte,me escute, só a Ponte, nada mais! Só que essa não é a parte perigosa, o perigoso é o Labirinto Mortal. Esse lugar prega peças com a nossa mente, não se engane, não pare, continue firme senão você morre. Entendeu Kassie? Não se engane!
- Entendi. – disse como uma boa aluna. – Mas...
- Kassie, temos que... – Frank entrou no quarto e encarou Roterford. – quem é ele?
- É o Roterford versão jovem. – nós rimos e depois fomos para o hall.
***
- E como vamos chegar lá, e quem é esse? – Brian chegou por último no hall e não sabia o que estava acontecendo.
Ele apareceu correndo pela escada velha de madeira, com olheira nos olhos e o cabelo todo bagunçado, era óbvio que ele não tinha dormido bem à noite, e a culpa era minha. Eu quase não aguentava sustentar o olhar nele, toda vez que eu tentava, algo doía em mim, eu sabia que perderia algo, logo. Só que eu não me continha, ele chamava a minha atenção no canto do olho, e toda vez fazia meu coração disparar. Quando nos beijamos na casa abandonada, eu sabia que era muito pouco para eu gostar dele assim, mas agora já fazia um bom tempo. Tinha certeza que eu gostava dele mais do que eu pensava, mas tentava me conter, ele ia morrer, ele ia embora, nos dois sentidos, ele ia embora.
– Ah sim, bem... Vamos procurar esse tal Poço. Onde fica, Elton John? – Brian estava se segurando para ficar acordado.
– Bem aqui! – ele abriu os braços e depois fez uma careta – Quem é esse Ethan Joshener?
– Como assim aqui? – perguntou Lily – Estamos no meio do nada, não pode ser aqui.
– O Poço muda toda noite, eu fiz questão de deixar vocês aqui, pois o Poço estaria aqui de manhã, agora só precisam de uma caminhada de meia hora em direção ao Leste.
– Bem perto... – zombou Mindy – Como eu vou andar por meia hora com esses saltos? É claro que não!
– Damos um jeito nisso. – Roterford estalou dedos e apareceram botas lindas no lugar dos sapatos da Mindy, ela sorriu.
– Agora sim, Rote, deveríamos conversar sobr...
– Depois vocês conversam – disse Liam – Temos que enfrentar um Labirinto Mortal.
***
Tínhamos andado por quinze minutos na mesma direção, sem encontrar nada além de árvores e arbustos. Eu queria ficar sozinha, então fiquei mais atrás pensando no Oráculo, tudo menos pensar no Brian. Estávamos indo buscar o último presente, logo, logo iríamos embora, iríamos nos despedir de tudo o que tínhamos passado. Pórfiron ficaria para trás, assim como tudo o que passamos, tudo o que descobrimos sobre nós mesmos seria dispensável e esquecido. Será que todos sentiam isso? Pareciam que todos queriam embora, mas como eles podiam querer isso? Como alguém podia virar as costas para o próprio passado?
– Não terminamos nossa conversa ontem, mia bella. – Brian parou do meu lado e sorriu, mesmo que tenha sido forçado, eu amei aquele sorriso.
– Eu não quero terminar. – falei severamente.
– Nós precisamos terminar. – pediu ele com urgência.
– Não Brian! Não temos que terminar. – eu já estava chorando, odiava chorar, mas eu não podia suportar a ideia dele falar aquelas palavras na minha frente, eu não queria ouvir.
– Para. – ele puxou o meu braço e me fez encará-lo, me fez olhar nos olhos que eu vinha tentando desviar desde manhã, me fez olhar naquele azul, porém doeu, doeu saber que veria por ouço tempo. – Por que você está chorando? Eu não consigo entender, você está com raiva de mim?
Então era isso? Se ele podia ver meus sentimentos, sabia que eu estava com raiva. Estava com raiva por perdê-lo, raiva por ser tudo culpa minha, raiva por ter gostado de uma pessoa que iria morrer e não havia nada que pudesse ser feito. Então comecei a soluçar, eu queria parar, queria ser forte, mas nada que tinha haver com Brian eu tinha controle, nada.
– Vem aqui. – Brian me puxou e me apertou entre seus braços, por um minuto eu pensei que tudo ia ficar bem, que se eu não saísse do seu abraço, eu não ia perdê-lo. – Me diz por que está chorando... Não quero ver você chorar.
– Eu... Eu... – eu estava prestes a falar tudo a ele, mas alguém interrompeu.
– O casal vai vir? – Frank chamou irritado, ele estava a ponto de pular no pescoço do Brian.
– Não enche o saco, Raio de Zeus, eu quero falar com a Kassie.
– Ele está certo... – sequei as lagrimas e voltei a andar chegando mais perto do Frank, dei uma última olhada para trás para encarar o rosto decepcionado do Brian. – Me desculpe, eu não consigo.
– O que você não consegue, Kassie? – Frank sorriu e esticou o braço para mim.
– Nada, Fran, eu só quero me ocupar com algo, logo.
– Então você tem sorte, encarar as Fúrias vai ocupar bem a sua mente.
– Fúrias? Como você sabe disso?
– Ando tendo sonhos, sonhos sobre o passado, já passou por isso? – ele andou mais rápido – É estressante, você vê poucas coisas, vê sombras e não imagens completas, tenho que imaginar mil coisas que podem acontecer depois que ele corta, não sei o porquê desses sonhos, é obscuro e ridículo. Eu descobri que...
– Chegamos! – gritou Liam. – Venham, tem realmente um poço.
Chegamos a uma clareira que tinha várias pedras dispostas em um círculo, pedras como epitáfios satânicos, havia uma pedra maior no centro com vários escritos estranhos, esses eu não entendia. Envolta da grande pedra, havia um poço com uma água preta e borbulhante como petróleo, o céu escureceu e os ventos começaram a sua agitar, e novamente a culpa não era minha.
– Como vamos achar uma chave ai? – Lily perguntou com nojo.
– Alguém vai ter que entrar ai. – Frank chegou mais perto e depois recuou com um grito. – Isso queima.
– Não aguenta, Frankizinho? – Brian não estava sorrindo.
– Venha cá e meta a mão dentro do Poço, é sempre o melhor, não é mesmo? – a rixa deles já era algo realmente grande, já não era uma simples disputa.
– Desculpe meninas, mas é a minha vida de ser a heroína. – Mindy não esperou ninguém contradizer, colocou a mão no Poço e começou a procurar. – Eu acho que tem bichos aqui – ela fez uma careta e levantou a mão com uma sanguessuga – Ah, eu preferia não ter visto isso! – ela mexeu mais o braço até sorrir e levantar a mão com uma chave cinza – Pelo menos não é um bicho ou uma charada, esse lugar é todo errado. – ela se retirou para tirar os bichos da mão.
– Agora o que faremos? – perguntou Liam encarando a chave na sua mão – Onde encaixamos isso? – olhei para a Grande Pedra.
– Acho que ali, me dê a chave, vou tentar. – ele me entregou e eu pulei para o alto da Grande Pedra, havia ali um buraco que parecia infinito, mas eu encaixei rapidamente e caí no chão.
– E aí? Funcionou? – perguntou Lily.
– Acho que si... – eu não pude terminar, começaram a aparecer mulheres, não aparecer, mas era como se o vento criasse imagens, imagens de mulheres com o rosto pálido e roupas cinzas.
– Filha do Vento, Filho do Raio, Filho do Fogo, Filho da Terra e Filha da Floresta, que honra nós temos por receber a visita de vocês, as Seis Velas. – elas diziam todas de uma vez, com uma voz velha e estridente, como se não falassem há muito tempo.
– Queremos a passagem para o Oráculo. – falei sem rodeios.
– Tem certeza? Eu não acho que seja isso, eu sei que você quer descobrir seu passado, vamos, pergunte, eu posso dizer o que quiser. – os rostos sorriam e rodopiavam a nossa volta.
– Ela quer a passagem para o Oráculo. – reforçou Frank.
– Mas você nem quer ir embora, nós sabemos que você quer ficar, sabemos que você quer saber quem é o Traidor, sabemos que você quer, é só pedir, nós lhe daremos tudo.
– Vocês não sabem de nada, eu não quero nada disso. – mas algo me dizia que elas não estavam mentindo, eu queria muito saber de tudo aquilo, mas como elas sabiam?
– Fomos nós que criamos seu Encantrio, nós te criamos, a sua essência é nossa, você pertence a nós. – todas sorriram e continuaram – Todos a sua volta possuem um segredo, não deveria confiar em nenhum deles, são todos Traidores, ainda mais um.
– Chega! – gritou Mindy – Eu não quero saber de nada, quero meu celular, minhas roupas e um shopping que não seja um mago brilhoso. Quero a passagem agora, suas barangas!
– Você não pode pedir, Filha da Água, só quem a chave pertence pode fazer o pedido.
– Então é ai que eu tenho mais razão, eu achei a chave, não a Kassie, eu não quero saber de Traidor algum, agora a passagem.
– Dessa vez passa Filha do Vento, mas você ainda irá se arrepender, quando morrer por causa do Traidor, você irá lastimar muito. – então elas sumiram e, ao invés de árvores, o círculo que estávamos virou um penhasco, não tínhamos saída, porém havia um portão dourado ao leste que dizia: “O Puro abrirá a Ponte e o Traidor a fará cair.”
– Puro? – perguntei chegando perto do Portão dourado. – Não é no sentindo que eu estou pensando, é?
– É exatamente o sentindo que você está pensando. – Brian riu – Eu não posso abrir.
– Nem eu. – disse Mindy.
– Nem Lily e eu. – declarou Liam.
– Eu também não. – Frank me surpreendeu, os outros eu já sabia, mas ele?
– Que ótimo! Vou ter que andar em um penhasco. – parei na ponta o penhasco, nunca tinha ficado tão envergonhado pelo fato de ser “Pura”, pedi muito que não ficasse corada.
Fechei os olhos e dei o primeiro passo, eu estava sem Dracon, não poderia voar, mas se eu caísse? Poderia controlar o vento para que eu não morresse com a queda? Mas quando eu abri os olhos e estava de pé em uma grande ponte cinza que dava passagem a um Castelo, nada de Labirinto Mortal, somente um pacífico castelo rosa claro.
– Podem vir. – disse, mas um segundo depois, a Ponte estava se desfazendo, parte por parte.
Traidor estava lá.
Quando me dei conta do que estava acontecendo, comecei a correr, me senti egoísta de deixar meus amigos para trás, mas eles também teriam que correr, nossas vidas dependiam disso. Não pensei em olhar para trás até ouvir o grito da Lily, ela tentava parar, mas a Ponte a impedia.
– O Liam! – ela gritou desesperada – Ele caiu!
Não pensei no que fiz depois, corri na direção contraria e pulei de ponta – agradeci meus treinamentos de bungge jumping – caindo atrás do Liam. Foi fácil alcançá-lo, eu não tinha medo de altura e é claro que o ar me ajudava, mas quando eu cheguei perto dele eu já não sabia o que fazer.
– Me dê as suas mãos. – ele obedeceu, mas eu não sabia mais o que fazer, eu não tinha mais um dragão e o do Liam não voava, fora uma ideia completamente idiota a minha.
Tentei fazer uma plataforma com o ar, mas não estava conseguindo, Liam era muito pesado e cada vez mais ele estava escorregando. Qualquer coisa, pedi, não podia morrer de um jeito tão idiota. Mas quando percebi, estava ganhando altitude, mas não havia plataforma, não havia vento a nossa volta, porém estávamos conseguindo subir aos poucos.
– Não sabia que tinha asas. – Liam sorriu tentando esconder o medo.
– Eu não tenho. – quando olhei para trás havia asas, não asas normais, mas o vento se juntando em correntes aleatórias nas minhas costas, era bonito de se ver, só que era estranho, eu não podia controlar. – Como você caiu?
– Eu não sei, eu fui logo depois de você, quando vi, estava tudo caindo. – não podia ser Liam, ele não era o Traidor, não podia ser.
Mas na verdade, eu não queria descobrir que algum de nós era o Traidor, eu confiava em todos, já dependi deles para salva a minha vida. Mas eu não sabia por que o Liam tinha ido à floresta com o Roy, ele havia voltado só, dizendo que o meu cachorro tinha fugido, entretanto, nunca contou o que aconteceu lá. Se ele fosse o Traidor explicaria muita coisa, Liam sempre estava quieto, sempre escondendo algo, faria sentido, eu só não queria acreditar.
Chegamos a entrada do Castelo e logo Lily veio desesperada, eu não podia contar a ela quem era o seu namorado, logo eles iriam embora e tudo acabaria. Brian veio me perguntar se eu estava bem, eu só me limitei a assentir, falar ainda não era possível, porém eu sabia que tudo acabaria bem rápido. Segui até a porta sozinha e hesitei na maçaneta dourada.
– Um de vocês é o Traidor. – não quis olhar parar trás, fixei meu olhar na grande porta de madeira. – Isso ficou claro na Ponte, contudo, não vou julgar nenhum de vocês, vamos pegar a Flor de Lótus e levar vocês para casa.
– Como assim “vocês”? – perguntou Frank já sabendo a resposta – Você não vai?
Hesitei.
– Não posso, mas espero que consigam voltar. – não esperei a resposta, abri a porta e encarei um grande labirinto que se estendia magicamente por dentro do Castelo.
Não conseguir achar coragem para olhar para trás, eu só queria que esse dia acabasse logo, que Liam fosse embora logo, que Brian sumisse logo da minha vida para que eu pudesse esquecê-lo antes de morrer. Com passos largos, entrei no primeiro corredor do Labirinto que se estendia em três ramificações, uma a direita, outra a esquerda e a última para frente. Eu não fazia ideia de que rumo tomar, então me virei para trás rapidamente, mas não havia ninguém.
As portas havia se fechado novamente sem fazer barulho, eu corri para a maçaneta, mas estava trancada, o jeito era enfrentar o Labirinto Mortal. A minha escolha mais óbvia foi começar pela frente, decidi que não podia perder tempo e comecei a correr. Não fazia ideia aonde ir, só virava à esquerda e à direita ocasionalmente. Os muros eram espessos e havia heras cobrindo qualquer cor que os tenha pertencido. Os corredores mudavam a cada volta, sendo mais finos ou mais largos, mais novos e alguns caindo aos pedaços.
O cansaço me dominara, estava pronta para descansar quando vi algo no próximo corredor. Segui calmamente até a ponta do corredor em T e avistei duas pessoas conhecidas brigando no corredor à direita. Brian estava com a mão no pescoço do Fran enquanto encurralava na parede espessa. Primeiro eu senti um alívio ao ver pessoas conhecidas, aquele labirinto me dava medo, mas depois eu percebi o que estava acontecendo: Brian tinha sacado sua adaga e estava a ponto de cravar no peito do Frank. Eu tentei desesperadamente gritar ou sair do lugar, mas nada disso aconteceu, quando eu pude ter alguma reação, Frank já jazia no chão. Uma luz brilhou a esquerda no canto dos meus olhos, por alguém motivo eu sabia que era o caminho certo. Lembrei do que Roterford dissera: Não pare. Talvez tenha sido somente coisa da minha cabeça, mas também poderia ter sido verdade. O mago dissera que o Labirinto mexia com a mente das pessoas, Brian e Frank poderiam ter pirado e queriam se matar.
Não queria ver mais nada daquilo e me afastei correndo para a esquerda e não parei. A corrida foi ainda mais sufocante com a imagem do corpo do Frank no chão, imóvel, com o sangue escorrendo pela terra sem vida daquele Tártaro com muros. Parei diversas vezes chegado em um corredor sem saída. Os minutos passaram como horas e meus pés já começavam a latejar em uma dor alucinante. Diminui o passo e comecei a andar, só que fora um erro.
As heras ganharam vida e começaram a roçar no meu pé, querendo prendê-los em uma trança mortal. Eu quis correr e fugir, mas era impossível. Tentei cortar, mas era grossa demais, logo elas já estavam nos meus joelhos. Entretanto, o movimento foi retraído por um grito agudo mais a frente, aproveitei a brecha e corri para a direção do grito. Lily estava sendo enforcada na parede pelas heras, seus olhos estavam arregalado e sem vida, olhando para um ponto a frente. Eu tentei tirá-la, mas era inútil, logo as heras estavam roçando em meu pé novamente. Segui o olhar morto de Lily e corri para frente. Tentei não chorar, mas como era possível? Sendo uma visão ou não, parecia tão real, eu pude encostar na Lily, era de carne e osso.
Agora era somente carne e osso.
Não demorou muito para eu poder ver a próxima vitima. Mindy estava incinerada no chão, totalmente em preto. Eu só sabia que era ela, pois com certeza era uma mulher, e Lily já tinha morrido, pois não havia jeito de saber. Cheguei a pensar que Brian tivesse feito aquilo, mas logo vi que nas paredes havia algo que soltava chama de segundo em segundo. Não sei como pensei em um plano, eu não sabia como podia pensar em qualquer coisa. A única coisa que mantinha alerta era a esperança de sair daquele lugar e ver que era tudo da minha cabeça.
Quando os canhões de fogo saíssem para mais uma rajada, eu pularia em cima dele e passaria, não seria difícil, eles faziam isso a cada três segundos. Contei: 1,2,3 e pulei, sabendo que qualquer errinho poderia ser letal. Fora fácil, me limitei a lançar um olhar abatido para o corpo incinerado de Mindy, é tudo da minha mente, repetia. Quando avistei Liam, tive que sufocar um grito se horror. O garoto se encontrava no chão, tremendo e se debatendo com algum tipo de espuma saindo pela boca. Senti-me uma egoísta sem coração ao passar por ele sem ter alguma reação, era feio demais para ver, eu sabia que estaria morto em alguns segundos.
Continuei correndo por mais cinco longos segundos, era agonizante pensar quem seria a próxima vítima, como eu ia aguentar ver a morte dele? Poderia até ser ilusão, mas doeria muito.
Ele estava em frente à saída, sorrindo para mim, como se estivesse me convidando para participar do seu festival de horror. Estava feliz, como ele poderia estar feliz? Se não fosse pela faca que ele mesmo apontava para o coração eu acharia realmente que estava tudo bem.
– Não faça... – mas eu não precisei terminar, ele cravou o metal frio no peito. Caiu logo depois.
Não queria deixá-lo e nem sair do Labirinto, queria chorar com o seu corpo sem vida no chão, seus olhos azuis não eram mais meu universo sem fim, eram apenas círculos sem vida de um corpo morto. Eu fiquei paralisada até perceber que as portas estavam se fechando, passei no último segundo. Quando eu cheguei ao local para onde dava a passagem, percebi que era tudo verdade.
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