Notas iniciais
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Andei em linha reta por um bom tempo, ouvindo os passos da Mindy ecoarem pelo corredor escuro, me equilibrava na parede úmida e tentava não fazer barulho. Pensei que aquela passagem nunca ia acabar, até ver uma luz bem ao longe, corri mais rápido, como eu já tinha uma graciosidade nos pés, não fiz muito barulho. Quando cheguei a grande passagem que dava para uma caverna imensa e clara, ouvi a conversa que duas pessoas tinham, uma delas eu reconheci:

— Você fez uma barganha perigosa, Filha do Mar. – disse uma voz dentro da minha cabeça, eu tive que segurar o grito de susto, pois era como se meus pensamentos tivessem vontade própria.

— Só quero o que você me prometeu! – falou Mindy irritada, eu tinha visto ela brava, mas irritada? Nunca me atrevi a ver.

— Eu não lhe prometi nada, — disse a voz novamente com calma – Eu lhe ofereci uma proposta, você veio até mim por conta própria.

— Então não vai me dar o que eu quero? – perguntou a ruiva.

— Eu não articulei isto. Aprenda, você e seus amigos vieram para um Mundo que o destino é tudo, ele já está certo, para todos, se você o transforma, é sujeitada a entregar algo em câmbio. É como as coisas são feitas por aqui. – A mulher pronunciava as palavras vagarosamente, com um sotaque nobre.

— Quem você pensa que é para exigir algo de mim? Mindy Levesque? – ela não podia deixar seu ar de superioridade, nem que isso fosse a sua decadência.

— Há. – riu a mulher alto demais, eu tentei tampar os ouvidos, mas não adiantou, era simplesmente inútil – Eu sou uma Dríade Principius, sabe o que é? Sou a ancestral de todas as Dríades! Muito mais antiga que esse lugar terrível! E você acha que pode dizer o que quer?

— Como acho que vou ter o que eu quero! – gritou Mindy furiosa.

— Vamos concordar se você resolver me dar o que eu quero. – a Dríade voltou a falar com calma. – É mais que justo.

— O que você quer não é justo! Não que eu me importe com ela, mas é impossível, eu não vou virar uma assassina! – aquilo me deu calafrios, a Mindy poderia estar falando em me matar, não era impensável.

— Achei que o que você queria era mais importante que a garota. – disse a Dríade esperta. – Eu preciso dela, não falamos em morte.

— Sei que vai matá-la, estranharia se não. – declarou Mindy – Agora me dê o que eu quero!

— Senão vai me entregar a garota... Eu me satisfaço com a sua vida! Ah, seu pai choraria ao ver sua única filha morrer. – a Mindy não era filha única, tinha dois irmãos gêmeos mais velhos, mas eu começava a perceber que nossos pais não eram aqueles que nos criaram a vida toda.

Eu saí de trás da porta e entrei na grande caverna, e não pude conter um suspiro, a caverna era linda, muito linda mesmo. Ela era revestida por cristais e havia água por toda parte, uma luz proveniente do lago refletia nos cristais e fazia cores dançarem por toda parte. A Dríada Mãe estava no centro do lago, flutuando lindamente, ela era um pouco transparente, mas era deslumbrante – um deslumbrante sinistro – Ela demonstrava poder dos pés a cabeça (o que era uma metáfora, pois ela não possuía pés), ela usava um vestido que mais parecia ondas em movimento que tampavam seus pés ou sei lá se tinha pés. Ela trazia olhos verdes como os de Mindy, que pareciam ser tirados do mais límpido e profundo mar, seus cabelos eram azuis e sua pele tão clara que parecia que também refletia a água do lago subterrâneo.

Mindy estava parada na frente da criatura, com a água nos joelhos, ela estava com uma cara irritada a me ver, mas eu já era acostumada, não seria comum se ela sorrisse e falasse: “Que bom que veio! Agora podemos morrer juntas, amiga!”. O rabo de cavalo que Mindy havia feito já tinha deixado de existir e agora só restava um amontoado de cachos ruivos, mas eu tinha que admitir: ela continuava linda, como é possível? Tínhamos lutado o dia todo, as roupas dela estavam rasgadas e sujas, mas Mindy continuava linda, era possível alguém ser assim?

Ela estava com uma espada na mão, não me pergunte como, mas ela estava com uma arma na mão – um cabo de aço que, de longe, parecia refletir o mar – Mindy me encarou e depois voltou a olhar para a Dríade com – por poucos segundos, mas existiu – medo, e eu acho que era um por mim, se não estivéssemos longe daria um abraço nela.

— O que faz aqui? – Mindy voltou a me encarar, agora sem resquícios de afetividade – Estava tudo sobre controle, agora nós duas vamos morrer!

— Acho que você morreria sem mim. – declarei.

— Não tenho paciência para briga de família, as duas podem morrer igualmente. – disse a Dríade.

— Família? – perguntamos simultaneamente.

— Ah! Vocês não sabem? – a Dríade sorriu e depois me encarou com ferocidade – Esse destino é assim, não se culpem por não saberem que são primas, pena... Que as duas irão morrer.

— Não haverá mortes hoje, — falei – desculpe acabar com a sua festa.

Não me pergunte como, mas era como se eu já soubesse o que devia ser feito, só estiquei as mãos e mandei uma rajada na cara daquela Dríade metida, ela cambaleou e me deu tempo de correr até Mindy. Ela correu até mim, se afastando do fundo do lago, íamos correr para fora, se a caverna não começasse a tremer e a única saída fosse completamente fechada por pedras gigantes. Olhamos uma para outra sem saber o que fazer, a Dríade já tinha se recomposto e seu rosto não estava nada, nada, feliz.

— Vão sofrer como todas as pessoas que eu já assassinei! – a voz dela mudara para um som estridente dentro de nossas cabeças, se eu não morresse, com certeza ficaria surda. – O meu bebê vai matá-las, e não vão poder se salvar.

A Dríade sumiu, mas eu tinha a impressão que ela não estava mentindo. A água começou a se juntar no centro do lago, parecia que ia demorar, isso poderia nos dar tempo para pensar no que fazer, pois não existia saída. Mindy olhou preocupada para a grande torre que se formava no centro, eu acho que ela sabia o que estava por vim.

— O que é aquilo? – perguntei.

— Um Basilisco. – ela olhou para água – Olha! – Mindy falou com esperança – ondulações!

— Nossa! Agora podemos pular ondinhas enquanto esperamos ser mortas por um monstro lendário que mata só pelo olhar!

— Não... – ela começou a falar, mas se interrompeu e olhou para mim – Como sabe disso?

— Harry Potter e Percy Jackson! – falei irritada – Você nunca leu na sua vida? – ela negou – Ah! Esqueci com quem estou falando... Enfim, o que tem as ondulações?

— Quer dizer que tem saída para o mar, podemos ir nadando e encontrar uma saída. – ela disse com tanta naturalidade que meu deu vontade de dar um soco nela, para Mindy era fácil falar, sete vezes campeã nacional em natação, era a primeira e capitã do time, batera todos os recordes. Eu não sabia nadar e não gostava de praia, eu não teria a menor chance de sair viva dali.

— Eu não sei nadar! – gritei.

— Vai ter que dar um jeito! – ela olhou para cima e depois para mim – Aquele troço já está vivo!

— Aconteça o que acontecer, não olhe nos olhos dele! Vamos tentar fugir pelo mar, é a nossa única saída! – eu dei uma rápida olhada para cima antes de abaixar o olhar pra o reflexo da criatura.

O Basilisco era uma cobra gigante de algum tom de verde, pelo reflexo, seus olhos pareciam vermelho sangue, havia algum tipo de guelras logo abaixo da sua cabeça assustadora, sem contar a boca gigante com milhões de dentes afiados. Nosso problema era: O monstro estava na frente do que poderia ser a nossa saída, tínhamos que matá-lo ou ser mortas por ele.

— Vamos ter que lutar! – disse puxando Mindy da onda gigante que vinha em cima de nós. Caímos na água e fomos jogadas uma longe da outra, mas era impossível lutar com algo que não se pode ver, eu tinha que cortar aqueles olhos demoníacos. – Tente distraí-lo, eu vou subir e cortar os olhos dele!

Mindy pareceu hesitar, mas não tínhamos escolha. Ela jogou a água no bicho, porém não surgiu nem um efeito, o Basilisco era grande e forte de mais, só que Mindy não desistiu, ela continuou e cada vez com mais força, desviando da calda do bicho e não olhando para cima. Mas eu sabia que ela não poderia ficar lutando para sempre.

Pulei e tentei alcançar a cabeça do monstro, tive que me segurar em sua guelra e ele urrou de dor,eu subi pela extremidade do pescoço não sabendo onde me segurar, aquele bicho mexia de mais. Segurei em suas pálpebras e desembainhei a espada e cravei no olho esquerdo sem olhar. Tirei a espada e cravei no outro, mas o monstro me jogou longe, deixando a minha espada presa no seu olho direito, agora eu estava desarmada. Bati com tudo na parede e senti alguma costela minha quebrando, mas não era importante agora.

Enquanto o bicho se recuperava do golpe, Mindy correu até mim e me ajudou a levantar, eu tive que segurar um grito de dor, mas eu não mostraria fraqueza naquela hora. Ela olhou para mim preocupada.

— O que faremos agora?

— Eu não sei. – declarei – Agora podemos olhar nos olhos do Basilisco, vamos ter matá-lo!

— Como? – ela olhou para a espada e eu tive uma ideia.

— Entre na água e fique imperceptível para ele, eu vou tentar pegar a minha espada, tem um ponto nas costas dele que é um ponto fraco, suba em uma onda sei lá, e ataque aquele ponto com a sua espada.

— Vou tentar.

— E Mindy...

— O que foi? – ela perguntou já meio submersa.

— Confio em você. – não que eu acreditasse muito nisso, mas ela precisava de um incentivo e algo para não me deixar e sair nadando para fora da caverna. – Olha eu aqui! – gritei para monstro e o Basilisco voltou a olhar para mim. – Ainda tenho sangue dos seus olhos na mão!

Ele mergulhou na minha direção e eu levantei uma parede de água na minha frente, não sei como pude controlar outro elemento, mas as perguntas teriam que ficar para depois. Ele continuou batendo na parede d’água até que conseguiu perfurá-la, me joguei com tudo no chão saindo da reta dos dentes. A caverna continuou tremendo, e cristais começaram cair, só que não era como uma linda chuva de brilhantes, era uma terrível tempestade de objetos pontiagudos e mortíferos. O Basilisco continuou a me procurar pela água com os dentes, eu tentei desviar, mas um dente ainda conseguiu me cortar, o ferimento começou a sangrar e a queimar, queimação era normal né?

Pulei o mais alto possível e joguei os cristais que voavam para cima do bicho, ele virou para a minha direção e veio com tudo, eu cai de pé na água e estiquei o ante braço para que meu escudo invisível me protegesse. A cabeça dele bateu com tudo na parede invisível e rachaduras apareceram no ar, ele continuou batendo e meu braço começou a doer como se mil facas estivessem sido cravadas nele. O meu escudo se quebraria em alguns segundos e eu não teria para onde fugir, era a hora da Mindy dar o golpe final, mas ela não aparecera. O monstro deu uma cabeçada tão forte que me jogou no chão, essa seria a defesa final do meu escudo. Eu estava toda molhada e gotas d’água tampavam a minha visão, eu só vi quando o Basilisco pulou em cima de mim e meu escudo se desfigurou por intero.

— Kassie! – uma voz fraca chamava por entre o corpo gigante em cima de mim. – Dá um sinal que está viva! – eu estava viva, mas morreria em poucos segundos se o corpo do bicho gigante não saísse de cima de mim, eu estava sendo sufocada e engolia água a todo o momento.

Então aquilo aconteceu.

Exatamente como da última vez, minha consciência foi jogada para um canto imperceptível em minha mente, enquanto algo tomava conta do meu corpo. Eu gritei e levantei os braços jogando o Basilisco para longe de mim, a água foi dispersada ao meu redor e eu pude respirar novamente. Levantei tossindo e voltando ao meu estado normal.

— Nunca mais – falei fraca – demore a matar um monstro! – Mindy chegou perto de mim, ela estava com vários cortes e totalmente seca, isso era extremamente injusto.

— Bom... Vamos sair daqui. – ela caminhou em direção ao fundo do lago.

A minha espada, lembrei. Estiquei a mão e ela saiu do olho do Basilisco e veio até mim, porque eu não podia saber disso um pouco antes? Eu a embainhei e fui atrás de Mindy até a água passar do meu peito.

— Pode me dar a sua mão? – perguntei sem jeito, ela olhou para mim e riu.

— Está com medinho?

— Não! É só que assim vou poder respirar de baixo d’água como você, vou poder sair. – ela titubeou, mas acabou me entregando a sua mão.

— Me lembre de desinfetar depois.

***

Saímos do outro lado da ilha, tivemos que ir voando até onde estavam os outros. Mindy ficou quieta todo o trajeto, e eu me perguntando o que tanto ela queria que seria pago por uma vida, mas eu não perguntei, nós duas estávamos cansadas demais. Pelo menos, Mindy estava seca, com toda essa descarga de adrenalina eu não havia percebido como a água estava fria, e com o vento soprando em minha roupas molhadas eu tinha certeza que ficaria resfriada.

— Hãm... Kassie? – perguntou Mindy quando estávamos quase chegando.

— Sim.

— Obrigada, se não fosse por você eu teria morrido. – ela olhou para baixo e acrescentou – se disser a alguém que eu te disse isso, eu mato você.

— Pode deixar patricinha, estamos juntas nessa. – eu sorri e eu sei que ela também segurou um sorriso.

Pousamos quando o dia já estava nascendo, todos estavam de pé aguardando a nossa chegada. Quando Dracon voltou a ser colar, Frank já estava perto de mim preocupado.

— O que vocês aprontaram enquanto dormíamos?

— Bem... – Mindy olhou para mim e sorriu. – Só vamos dizer que nunca mais entramos em uma caverna com um monstro marinho dentro.

— Como assim “um monstro marinho”? – perguntou Lily vindo me dar um abraço super apertado.

— Um Basilisco gigante, coisas normais. – eu disse mais logo depois cai no chão.

— Kassie! – Frank gritou e me segurou. – O que aconteceu?

— Eu só acho que o dente do Basilisco tem veneno. – mostrei a minha perna cortada – Acho que é mortal.

— Vamos chamar o Roterford! – escutei Brian antes de a minha visão sumir.

Sonhos.

— Sei que não quer, mas Maia, você é única pessoa em que eu confio. – uma voz terna e conhecida falava com a minha mãe, Maia estava mais nova e mais bonita, o temo havia sido cruel com ela.

A mulher estava com um longo vestido a azul e seus cabelos presos um coque bem feito, ela sorriu para alguém que estava me carregando, mas era impossível ver quem era. Eu só sentia seus braços me envolvendo com tamanho cuidado e precisão, algumas gotas de água caiam em mim, mas eu sabia que não era chuva, pois estávamos dentro de um corredor luxuoso e dourado, com quadros de pessoas desconhecidas.

— Céline, eu não disse que não quero a menina, eu disse que não sei se posso protegê-la – minha mãe declarou.

— Eu sei que pode, e nesse mundo não existe perigo como no nosso, eu sei que cuidará dela com sua vida.

— Eu farei, minha Rainha, tudo o que for preciso. – Maia me pegou no colo e me olhou atentamente antes de voltar um olhar preocupado para a amiga. – Tem certeza de que vão fazer isso?

— É o único jeito, se não fizermos isso, Ele irá matar todos e tudo, não podemos correr esse risco, essas crianças ainda vão lutar muito, o que podemos fazer é atrasar o máximo. – a voz da mulher era de preocupação e urgência. – Vou sentir sua falta e de todos, cuide bem da minha menina.

— Se eu pudesse fazer algo... Mas não tenho mais meus poderes.

— Mas assim estará a salvo! Sei que vai dar tudo certo e a minha filha ainda vai tomar o lugar que é dela por direito. O destino nunca erra.

— Faltam pessoas no mundo que acreditam como você.

Eu acordei com um pulo e bati a cabeça em outra cama, estava deitada em um beliche e tinha trocado de roupa, agora estava com uma calça de pano e um casaco vermelho listrado fechado com botões pretos. Levantei com calma e olhei para pessoa que estava sentada em uma cadeira com botas pretas um casaco aberto sem blusa – por que isso só acontecia comigo? – e uma calça preta. Ele estava de olhos fechados, mas abriu assim que me viu em pé.

— Acho que você não deveria se levantar depois de quase morrer duas vezes seguidas. – eu não me importava em quanto estava desgastada, eu só não queria ficar no mesmo quarto do que o Brian.

— Vou procurar a Lily.- me dirigi até a porta, mas ele foi mais rápido e tampou a passagem.

— Ela está dormindo e Liam também.

— Então Frank. – ele continuou na frente da porta.

— Ele está ocupado tentando acalmar os raios lá fora e Mindy está ajudando com a chuva, você não tem desculpas para ir. – eu odiava perder em uma discussão, será que ele não entendia que eu não queria falar com ele?

— Vou ajudá-los então, podem precisar da minha ajuda. – só que ele continuou parado enfrente a minha única saída.

— Está fraca demais, não pode ajudá-los.

— Só me deixe sair daqui! – soltei – Não quero ficar perto de você!

— Por que eu tentei matá-la? – ele cruzou os braços e me encarou com brutalidade.

— Por isso, por dizer que eu não sou importante, por me magoar e por ser um completo babaca, Brian Shay! – grite o mais alto que pude. – Eu nunca deveria ter acreditado em você, nunca deveria ter te beijado, nunca deveria ter ido para aquela maldita viagem e conhecer você! Agora saia da minha frente.

— Então se arrepende? – ele gritou no mesmo tom. – Eu acho que não.

— Você não sabe nada sobre mim! – declarei. – Nada! Só quero que suma da minha vida, é um favor que você me faz, e eu não vou me importar!

— Você quer voltar para aquele idiota do seu ex-namorado! Ela vai magoá-la novamente!

— O que você tem com isso? Você não foi diferente! E eu acho que não se importa, você mesmo disse isso, agora saia daqui ou eu me deixa sair! Não sei porque ainda está aqui, o que mais você quer?

— Você! – eu estava pronta para gritar com ele, mas o barco de um solavanco e caí em cima dele, agarrando o seu pescoço e ele me segurou com aqueles braços fortes e perfeitos, minha cabeça pousou no peito nu e pude ouvir seu coração acelerado, batendo em um ritmo frenético.

Cheguei para trás e olhei para seu rosto, bem perto do meu, com seus lábios a um centímetro do meu, seu olhar era indecifrável, mas tinha algum tipo de emoção, e por isso me dava vontade de beijá-lo e abraçá-lo, mas eu sabia que não era isso. Ele não gostava de mim, tinha deixado isso claro, mesmo que mil coisas em mim me dissessem para agarrá-lo e nunca mais soltá-lo eu sabia que era pura mentira. Soltei o seu pescoço e ele afrouxou os braços, Brian fechou os olhos e deixou que eu me soltasse e o contornasse até a porta. Antes de sair eu declarei:

- Só... Só me deixa em paz, ok? Eu só te peço isso e mais nada. – fechei a porta e não me atrevi a olhar para trás.

***

Quando cheguei ao convés, Mindy e Frank estavam levando a pior com a tempestade, o barco voador já estava praticamente destruído e não agüentaríamos por muito tempo. Cheguei perto e Frank me olhou e sorriu, depois voltou a se concentrar na tempestade, Mindy não olhou, mas eu sabia que tinha me notado lá.

- Vamos aterrissar! Antes que esse barco quebre no meio. – falei tentando fazer o vento parar, mas Brian tinha razão, estava fraca demais.

- Não sabemos pilotar esse treco! – disse Mindy.

- Vá chamar ou outros! – gritei tentando ultrapassar o som da tempestade. – Acho que temos companhia!

Mindy olhou rapidamente para frente antes de sair correndo para baixo, Frank ficou do meu lado e segurou a minha mão.

- E olha que nem falamos: Pelo menos não tem Sombras. – ele pegou a espada, que eu nem me assustei por agora ele ter uma. – Fique atrás de mim.

- Negativo. – olhei para ele com preocupação – Vou pular.

- O que?! Você está maluca? – ele apertou mais forte meu pulso – Não pode fazer isso, está fraca demais.

- Você não entende... Essas coisas só podem estar aqui por causa dessa tempestade estúpida, eu vou me afastar e acabar com ela, você vai aterrissar e combater as Sombras para me dar tempo.

- Kassie... – ele tentou, mas sabia que não ia conseguir me fazer parar. – Cuidado, por favor.

Eu o abracei forte e liberei Dracon e nós dois pulamos na tempestade.

“Os seus planos são sempre ridículos assim ou você está em uma fase ruim?”

- Você tem ideia melhor? – disse me agarrando no dragão com medo de cair em queda livre a cem metros de altura.

“Morre e acaba com isso logo”

- Ah cale a boca e voe!

“Já estou fazendo isso, e, afinal, temos companhia.”

Olhei para trás, e, por trás da massa de gotas espessas de chuva, uma Sombra vinha em alta velocidade em cima de nós. Dracon voou mais rápido, só que a Sombra tinha algum poder super especial de voo. Pensei para Dracon pousar e ele me ouviu, descemos com força total até que aterrissamos com brutalidade.

- Dá conta dele por mim. – achei uma caverna não muito longe e comecei a correr. – Vou fazer a tempestade parar!

“Agora sou seu dragão de estimação?”

- Só faça, senão nós dois morremos. – ele não retrucou mais, parou esperando a Sombra chegar até ele e se transformar em um bicho gigante que eu não preferi não olhar.

Cheguei à caverna e me joguei no chão, só que estava um breu, a tempestade cobrira toda luz proveniente do sol, eu não enxergava nada. Mas o meu colar começou a brilhar em branco, como uma lanterna e eu abri o Livro. Mil e uma utilidades, pensei.

- Livrinho lindo e perfeito, por favor, me mostre como acabar com essa tempestade! – as página começaram a passar e param um uma página escrito: “Movimentação de Elementos”, mas não como fazer uma tempestade parar e eu não tinha nada para dar em troca.

Dracon continuava lutando e apanhando muito, os outros não estariam tão diferentes, talvez até pior. Só que uma luz surgiu, “Movimentação de Elementos”, as nuvens eram feitas de água, seria possível que eu as movimentasse? Tinha que ser possível. Olhei para os dizeres, que estavam em uma língua estranha, mas eu conseguia entendê-las perfeitamente. Comecei a dizer as palavras em voz alta, e cada vez que eu repetia a mesma falava mais alto, o vento ao meu redor começou a ficar agitado e tudo começou a tremer, eu só sabia que não conseguia parar, falei cada vez mais alto, até que por fim gritei:

- Tertiliar Arquinatos! – a chuva parou abruptamente e os raios solares começaram a aparecer, a Sombra que estava atacando Dracon começou a queimar e a diluir.

Fechei o Livro me sentindo inteiramente poderosa, não sabia como tinha conseguido, mas estava tudo certo agora. Dracon voltou a ser um colar e eu saí da caverna, vi uma Sombra vindo e me desesperei, achei que não podiam aparecer com a luz do sol.

- Até que enfim te achei! – uma voz estranha veio atrás de mim, eu olhei e fiquei surpresa e aliviada.

- Desde quando você fala, Roy? – não é todo dia que você vê o seu cachorro que esteve sempre com você falar, mas até que ele ficava fofinho falando.

- Desde sempre, você sabe que mandou um sinal para todos que você está aqui, quando fez esse feitiço? – meu cachorro era um yorkshire marrom com preto, pequeno e indefeso, que sabia falar e também sabia sobre feitiço, o que na vida minha foi normal?

- Como... Como...? – não consegui reformular uma frase.

- Sou seu protetor, um poderoso feiticeiro que... – ele parou quando viu que eu não consegui segurar uma gargalhada, era engraçado, um cachorrinho ser um poderoso feiticeiro. – É assim que você me agradece?

- Me desculpe... É que é muito hilário. – segurei a risada novamente,

- Agora... – ele foi interrompido por uma voz conhecida me chamando.

- Estou aqui! – Liam veio e me deu um abraço forte e depois encarou o pequeno yorkshire abanado o rabinho. – É o meu cachorro, ele fala sabia?

- Eu não me assusto mais com nada... – ele encarou o Roy – Prazer.

- Esse sim é um garoto educado! – Roy gritou – Ainda bem que achei o garoto, preciso de uma ajuda na floresta e só você pode me ajudar.

- O que? – perguntei curiosa.

- Só ele pode saber, é muito sério.

- Liam não precisa fazer isso...

- Eu quero ajudar em algo também! – ele olhou para Roy e depois para floresta – Vamos totó!

- Mais respeito hem! – Roy começou a andar com suas pequenas patinhas.

- O resto está logo ali atrás, não vou demorar! – Liam gritou e logo sumiu por entre as árvores da floresta, eu fiquei preocupada, mas era um cachorrinho, quão mal ele podia fazer?

Andei até onde estava os outros e logo Lily veio preocupada.

- Cadê o Liam?

- Foi fazer alguma coisa na floresta com meu cachorro falante. – ela me olhou confusa e depois riu. – É sério, eles...

- Kassie! – Frank veio descendo do barco e veio ao nosso encontro. – Alguém está aqui para vê-la.