A Lenda
13 Momentos de comensal.
Olá gente, mais um capítulo, vcs vão ter que me desculpar se não estiver muito bom, estou com um projeto no trabalho e não tive muito tempo para escrever esse capítulo... espero que gostem... bjuss
Capítulo 13 – Momentos de comensal.
Ao desaparatar em frente àquela mansão, Snape só pôde pensar no desagrado em estar naquele lugar. Estava prestes a encontrar pessoas detestáveis... não, eles não eram pessoas, eram apenas elementos sem denominação, seres sem almas merecedores da pior cólera de Lúcifer. Homens e mulheres desprovidos de sentimento e misericórdia. Odiava a todos e cada um. Toda vez que precisava estar com eles no mesmo ambiente ou pior, cumprir uma missão juntamente à esses ratos, sentia uma forte vertigem que lhe tirava o ar. Mas precisava ficar, era seu dever e maldição.
Sabendo que não adiantava querer fugir, apenas fechou os olhos e empurrou para o fundo as imagens que ainda estavam nítidas em sua mente.
Potter em seu quarto. O menino chorando, com medo. O beijo e o desejo.
Tudo isso precisava ficar devidamente guardado em um lugar protegido por sua oclumência. Na superfície dançavam apenas as imagens que precisavam permanecer ali para serem vistas.
Snape abriu os olhos e enxugou uma gota de suor que aparecera em sua têmpora. Organizar sua mente era extremamente desgastante. Ainda assim o fazia sempre que necessário.
Ao olhar para a mansão novamente, sentiu um forte desejo de apenas permanecer ali. Seria bem melhor apenas ficar parado sem se mexer. Mas Voldemort não permitiria que se atrasasse tanto, ele já o chamava.
Sentindo a dor em seu braço por causa da tatuagem que lhe queimava, respirou fundo e trouxe à superfície o nada, o frio e o vazio. Em seus olhos negros só se captava raiva e ódio. Sentimentos tão cruéis que oscilavam como sua capa em uma noite de ventos fortes. A aura do comensal era sentida no ar como poeira que impregna a pele sem que percebamos.
O primeiro passo foi dado e depois do primeiro não havia como pará-lo. O comensal estava em movimento, se aproximando de seu mestre. O portão negro e alto não se mexeu ao chegar perto, nem mesmo o brindou com um rangido de suas dobradiças antigas, apenas o assistiu se aproximar e passar por si como se fosse fumaça. A marca parara de arder. O mestre já sabia de sua presença. Com um rápido movimento a máscara marcada fora colocada em seu rosto, escondendo sua expressão rancorosa e sombria. Agora o comensal estava completo. Por suas fendas se via dois olhos tão negros quanto o fim de tudo e tão malignos quanto o espírito mais agourento. Ele era nada e simplesmente tudo.
A porta de carvalho abriu com sua aproximação. Snape entrou com o corpo ereto e a cabeça erguida, mostrando superioridade perante os indignos que estavam jogados nos sofás e poltronas da sala. Havia olhares direcionados a si, olhares furtivos cheios de raiva, inveja e alguns com adoração. Esses últimos eram possíveis de se aturar, mas os outros eram descartáveis. Sem dizer uma única palavra, subiu a escada de mármore até a sala de jantar. Parou no último degrau e olhou para a extensão de uma enorme mesa de carvalho esculpida. No fim da mesa, sentado com os braços descansados no encosto da cadeira e a cabeça baixa, estava Voldemort.
Snape não se mexeu, apenas fitou o homem, ou melhor, o ser reptileno que ali estava sentado. Houve um mínimo movimento da face pálida e uma voz grossa e letal reverberou no ar como um veneno dissolvido no oxigênio. O som atingiu o corpo do professor causando lhe um leve tremor que foi controlado rapidamente antes dos olhos vermelhos se erguerem e cravarem nos seus. O peso do olhar de Voldemort era cruel e doloroso. Sua mente lhe dizia para se afastar, aquele olhar era estratégico e ardiloso. O perigo estava estampado nas íris finas e negras que rasgavam o rubro olhar. Era um olhar que podia matar. No entanto, Snape ainda estava ali. Ainda estava parado no mesmo lugar de antes, com as mãos postadas em suas costas olhando diretamente para dentro de seu mestre, sentindo o ardor de suas palavras ainda recente em sua mente.
- Aproxime-se.
Finalmente, quando as palavras pararam de lhe bater nas paredes de sua cabeça, Snape deu um passo para frente, caminhando devagar até o Lord das Trevas. Cada passo tornava-se mais lento e pesado. Sentia como se uma força tentasse o empurrar para longe. No entanto, continuou sem desviar o olhar de seu mestre. Ao parar em frente a Voldemort, sentiu a aura de terror e perigo que a massa corpórea à sua frente lhe causava.
- Ajoelhe-se.
Sem hesitar, ajoelhou-se perante o mestre e sustentou o olhar cada vez mais frio e intenso. Em sua mente não havia um único pensamento. Sabia que aquele momento era de extrema concentração e cautela. Um único pensamento errado e tudo estaria acabado. Era preciso ser cuidadoso perante esse ser.
- Recebi uma informação engraçada hoje, Severus. Pode imaginar qual seria?
- Não, Milorde.
- Alguns filhos de comensais contaram a seus pais que Harry Potter foi seqüestrado e envenenado por meus seguidores no sábado de visita a Hogsmead.
Snape via as palavras saírem da boca fina e sem lábio do homem e entrarem em seu ouvido como veneno. Parecia que tinham o poder de causar-lhe a sensação de ódio. Precisava continuar controlado.
- Achei engraçado o fato de que não mandei que atacassem Potter em nenhum momento. E nem mesmo recebi um aviso de sua parte. Achei a princípio que fosse brincadeira de criança, mas três delas confirmaram a mesma coisa e inclusive disseram que ele sumiu por um final de semana inteiro. Sabe de alguma coisa?
Voldemort sempre soubera jogar com astúcia. Snape sabia que não adiantava mentir naquele momento. Precisava apenas saber jogar com a verdade. Suas palavras tinham que ser estudadas e medidas para que não deixassem escapar aquilo que precisava ser guardado, mas também era necessário lhe dar algo para que a suspeita não caísse em cima de si. Sua lealdade ao Lord era extremamente importante naquela altura. Não podia falhar.
- Houve rumores desse desaparecimento. A escola procurou pelo menino no sábado referido, porém ele só apareceu no domingo à noite. Estava realmente machucado e foi, conforme deve ter ouvido nos boatos, envenenado com uma poção forte.
Voldemort não se mexeu enquanto o ouvia falar, mas suas íris afinaram com a raiva aparente.
- Eu o tratei. – Continuou Snape. — E agora o menino precisa permanecer perto de meu dormitório para receber os antídotos sempre que necessário.
Com facilidade Snape explicou sobre o modo de agir de uma poção que tinha em seu laboratório. Informou que uma vez ingerida, a poção demoraria a sair do organismo da pessoa que a bebeu e que seria necessário muito tempo com antídotos tomados corretamente para que a pessoa não morresse.
- Por esse motivo, Dumbledore exigiu que o menino ficasse instalado em um quarto próximo ao meu, pois como é muito distraído pode acabar esquecendo-se de beber o antídoto e pode morrer por ser tão idiota e inconsequente.
Snape viu os olhos vermelhos se estreitarem. Sabia o que estava por vir e não o impediu. Como uma lufada gélida, sentiu o começo do vasculhar em sua mente. Era doloroso, parecia que Voldemort cavava com suas próprias unhas cada canto de suas lembranças, arranhando e cortando fora o que não era de seu interesse. A dificuldade em permanecer com o contato visual era claramente visto no suor que começava a brotar em sua têmpora. Ainda assim, ficou completamente parado enquanto compartilhava suas memórias com o mestre.
Voldemort era um magnífico legilimente, mas Snape era muito melhor em oclumência. Sabia o que devia esconder e o que precisava mostrar. Por isso não foi surpresa ver a imagem de um Dumbledore sentado em seu escritório com feições de preocupação enquanto mandava uma mensagem para os membros da Ordem da Fênix, para que preparassem as buscas à Potter. Também não foi surpresa ver o quanto procuraram por ele em Hogsmead e muito menos surpresa ao encontrar o menino jogado em um bosque afastado da vila bruxa, machucado e delirando.
Voldemort afastou o olhar e fechou a mão em punho. Snape respirou fundo sentindo o alívio de ter as lanças do olhar do mestre fora de sua mente. Uma gota de suor traçava o caminho até seu pescoço e morria em suas vestes tão negras quanto seu olhar trêmulo pelo esforço da oclumência.
- Por que não me contou?
A voz era tão baixa e letal que arrepiou o corpo de Snape, era o tom que ele usava quando estava furioso, e naquele momento a fúria era direcionada a ele pelos olhos rubros agora mais estreitos e frios.
- O senhor estava em uma de suas viagens, milorde. Pediu que fosse incomodado somente com assuntos importantes.
- E o fato de Harry Potter sumir completamente durante um final de semana inteiro e depois aparecer dizendo que foi seqüestrado e envenenado por comensais da morte não era um assunto importante?
- Não milorde. Potter poderia muito bem ter feito algo idiota para ficar perdido pelo final de semana inteiro. Ele é completamente inconseqüente. Eu precisava saber se aquilo era resultado de mais uma de suas manias de chamar atenção, burrice por se envenenar sozinho devido sua extrema curiosidade ridícula ou se ele falava a verdade. – Disse Snape sem desviar o olhar, sentindo cada vez mais o peso da história contada. – Devido suas ordens de não tocarmos em Potter e de mantê-lo a salvo por enquanto, cuidei dele comprovando que o bastardo realmente estava envenenado e que precisaria de cuidados precisos a partir daquele momento. Só me faltou descobrir como ele ficou naquele estado.
- E descobriu?
- Sim, milorde. Potter realmente foi seqüestrado e envenenado por comensais da morte.
- Quem foi?
- Standford e Dumonth.
Agora sim a raiva era vista a olho nu no homem. Voldemort levantou e passou raspando sua túnica por Snape ainda ajoelhado. Quando o manto negro passou lentamente por seu rosto, uma sensação de mal estar se apossou de seu corpo fazendo-o fechar os olhos e se concentrar em manter-se atento a todos os movimentos e falas de seu mestre. Não podia falhar, todo o jogo estava em suas mãos e sua mente. A inteligência, concentração e astúcia eram imprescindíveis naquele momento. Voldemort caminhou até a ponta da escada e viu os comensais na sala de estar. Uma onda de ódio reverberou nas paredes da mansão causando dor nas marcas tatuadas a fogo em seus antebraços.
- Onde estão Stanford e Dumonth?
De trás de uma pilastra na sala saiu a voz fina e irritante de Belatriz.
- Foram esta manhã para o norte, recrutar seguidores como pediu, Milorde.
Antes mesmo que a comensal terminasse de falar, Voldemort dera-lhe as costas e voltara para próximo de Snape. Com raiva e brutalidade, apertou a mandíbula do homem com sua mão áspera e gelada. Snape foi levantado e estava frente a frente com o Lord. Sentia uma dor excruciante em seu rosto, parecia que seus ossos quebrariam a qualquer momento, mas não podia demonstrar suas fraquezas. Continuou olhando-o intensamente, esperando a próxima dor, próxima legilimência ou próxima tortura. Porém nenhuma delas veio, Voldemort o largou e se sentou novamente. Sem se virar, Snape mexeu em sua boca sentindo-a dolorida.
- Não vou torturá-lo agora, Severus, pois quero que me traga Standford e Dumonth. Sei que seguiu meus comandos quanto a manter o menino a salvo até que eu, e somente eu, o pegue. Mas seu atrevimento em não me contar sobre o ocorrido ainda terá castigo merecido, assim que você voltar.
- Sim, Milorde. – Disse Snape sentindo o aviso nas palavras baixas. – Os trarei o quanto antes.
Voldemort deu-lhe as costas e entrou em um quarto adjacente à sala. Snape fechou as mãos em punho antes de ajeitar suas vestes e descer a escada para ir embora. Os comensais ainda estavam parados olhando atentamente para o local de onde Snape saíra. Claro que nenhum deles conseguiu ouvir sua conversa com o Lord, um feitiço silenciador fora colocado no local, possibilitando a conversa particular. Mas a curiosidade sempre era estampada em seus olhos vazios. Belatriz andara furtivamente até a porta e estendeu o braço para a maçaneta, impedindo que Snape pudesse abri-la. O homem sentiu o ódio queimar em seus olhos ao ver o sorriso de canto que a mulher lhe dava.
- Já vai?
- Não tenho tempo para suas graças, Belatriz. Saia da frente.
Ao invés de obedecer ao seu comando como deveria ser feito, Belatriz apenas riu e se aproximou olhando diretamente em seus olhos enquanto postava sua mão na altura de seu peito e desabotoava um dos botões.
- Estou com saudades de nossos momentos, Severus. – Sussurrou a comensal esticando-se na ponta dos pés e beijando de leve o lóbulo da orelha de Snape. – Vamos para um dos quartos relembrá-los?
Snape franziu o rosto ao sentir a mão da mulher descer por suas vestes e chegar a suas calças. Porém, antes que alcançassem seu objetivo, fechou suas mãos nos pulsos dela e a afastou olhando com raiva para seus olhos castanhos.
- Não me toque, Belatriz, não estou com paciência para você hoje.
- Você nunca tem paciência, e isso só deixa as coisas melhores ainda.
Sem saco para os ataques libidinosos da comensal, a empurrou em cima de um sofá. Belatriz o olhou com raiva e rosnou palavras um tanto quanto malcriadas, mas estava com pressa demais para ficar e dar atenção às maldições ditas. O vento do jardim bateu em seu rosto enquanto abotoava seu sobretudo e ajeitava o que Belatriz havia desarrumado.
- Maldita mulher. – Rosnou amaldiçoando o dia em que cedeu às suas investidas.
Ainda estava nítida em sua mente a imagem de Belatriz seminua entrando em seu quarto na mansão. Aquele dia não fora o melhor que tivera, ainda estava com espasmos pelos cruciatus que o Lord lhe dera pela desobediência à uma ordem direta. E depois de tudo que tivera que agüentar, ainda havia Belatriz subindo em sua cama e o atentando com seu corpo.
- Eu sei que você também quer, Severus. – Sussurrou a mulher quando ameaçou jogá-la da cama. – Há quanto tempo não sente o corpo de uma mulher em cima do seu?
- Vá procurar seu marido para satisfazê-la.
- Rodolphus está em uma missão para o Lord e só volta daqui a dois dias. Temos tempo sozinhos.
- E quem disse que quero você? – Perguntou Snape levantando-se.
- Eu digo.
Belatriz sempre tivera a fama de ser a meretriz dos comensais, mas jamais tentara algo com Snape. O homem sempre fora muito reservado e jamais lhe dera algum sinal de que sentia qualquer tipo de desejo por si. Mas Belatriz sempre conseguia o que queria, e naquela noite, queria Snape. E ele cedeu ao corpo nu que encostou ao seu e a boca esfomeada que atacou seu pescoço. Como odiava lembrar-se desse momento e de outros que vieram depois. Era melhor esquecer isso. Belatriz era um problema que poderia cuidar outra hora. Agora precisava se concentrar nos dois comensais culpados por seqüestrar Potter.
Sorrindo de canto, aparatou em uma vila distante de Leeds. O local era deplorável. Seu chão de terra era escuro e sujo. A pequena estrada que levava ao centro da vila fedia a fezes e urina. Um homem estava deitado na estrada, a garrafa de álcool ao seu lado lhe fazendo eterna companhia. Sua mente já estava cansada e ele pedia, como fazia todos os dias, para que tivessem piedade e levassem sua vida. Arrancassem sua alma e o deixassem partir. Estava no meio do pedido quando viu a figura de preto caminhar em sua direção.
“Sim, hoje serei libertado.” Pensou o homem. Mas não sentiu a liberdade quando a figura se aproximou. Seria a morte? Não. A morte é mais misericordiosa. A aura daquele homem era negra e sombria. Completamente cheia de ódio e rancor. Ele se aproximou e era possível ver sua máscara prateada com marcas ilegíveis. Pelas fendas viam-se dois negros olhos ardentes de satisfação.
“Por favor, deixe-me.” Pediu o andarilho.
Mas o homem nada queria com ele, apenas continuou andando até parar em frente à uma taverna igualmente imunda. A porta se abriu sem que precisasse tocá-la. Dentro do recinto havia mesas com homens bêbados dormindo ou babando enquanto tomavam mais álcool. Alguns discutiam, outros saboreavam o corpo das poucas mulheres que ali estavam vendendo-se por um pouco de trocado.
Era melhor morrer.
Mas os olhos de Snape procuravam por duas figuras especificas. Eles não estavam ali. Nem nas tavernas seguintes. Porém, comensais da morte são fáceis de se achar. Isso era visível ao se abaixar próximo ao corpo de uma menina trouxa de cabelos loiros jogada atrás de uma casa antiga.
- Idiotas. – Xingou vendo os ferimentos no corpo jovem.
Snape não demorou muito até achar os homens dentro de uma casa afastada da vila. Estavam sentados confortáveis em um sofá enquanto os donos da casa contorciam-se no chão pela maldição cruciatus. A mulher que gritava o olhou por um segundo. Fora tempo o suficiente para ver o pedido mudo de misericórdia. Mas naquele momento, não estava ali para ser misericordioso. Precisava completar seu plano e passaria por cima de quem precisasse para fazer tudo dar certo.
- Creio eu que o Lord não os mandou para matar trouxas.
Os comensais levantaram com um pulo e olharam com surpresa para Snape. Os homens sabiam que deviam temê-lo. Ele era o braço direito do Lord.
- Estamos apenas descansando.
- Claro, deixando rastros de morte por onde passam.
- Está sentindo pena desses trouxas nojentos?
- Standford, cale-se. – Disse retirando a máscara. – Vim aqui, porque o Lord os quer de volta, imediatamente.
- Então por que ele mesmo não nos chamou pelas marcas?
- Porque, Dumonth, ele sabia o que eu faria quando os encontrasse.
Os olhos azuis de Standford se arregalaram com o sorriso aberto no rosto de Snape e Dumonth tentou aparatar.
- Não pensem que irão conseguir fugir. Eu os enfeiticei antes mesmo de saberem que eu estava aqui.
Snape adentrou completamente a casa e fechou a porta. Agora era ele e os comensais que seqüestraram Harry Potter.
O Lord lançou o feitiço silenciador na sala de jantar e virou-se devagar olhando para os homens jogados aos seus pés. Havia sangue vertendo de seus rostos enquanto os músculos se contraiam em plena dor. Uma corda os prendia com força impedindo que se mexessem. Os olhos vermelhos brilharam ao vê-los daquela forma. Sim, deveriam sofrer pela burrada que fizeram, deveriam pagar pelo atrevimento descarado de desobedecer a suas ordens.
Snape permanecera parado no fundo da sala enquanto Voldemort lançava as palavras perigosas e afiadas aos dois e depois os amaldiçoava com a dor plena de ter a pele escaldada. Tudo por causa de um ato que não fizeram. Mas Dumbledore sempre lhe dissera que para se ganhar a guerra eram necessários alguns sacrifícios. Plantar lembranças falsas em dois comensais assassinos não era um mal tão cruel assim. No fundo era um bem para a humanidade, pelo menos essa deveria ser a sua motivação e não o fato de simplesmente não gostar deles.
No fim, estava tudo como deveria estar. Os dois comensais jaziam no canto, Voldemort acreditava que estava tudo certo com Potter e nem desconfiava de algo sobre seu casamento. Agora só precisava tentar descobrir sobre a descendente das trevas antes de receber seu castigo.
- Milorde, Dumbledore comentou na reunião da Ordem que tem informações sobre um plano do senhor referente à uma antiga lenda. – Disse Snape sem se mover e observando cada passo de seu mestre.
- E o que tem?
- Ele me questionou sobre isso e quando disse que não recebi nenhuma informação de sua parte, me incumbiu de descobrir algo.
- Dumbledore sempre foi um velho muito bisbilhoteiro.
- Milorde, o que devo dizer à ele? Se não levar qualquer informação quando me chamar ao escritório, vai desconfiar de mim.
- Isso não deve acontecer em nenhum momento, Severus. Dumbledore tem que ter completa confiança em você. Jamais deve falhar, preciso sempre saber o que acontece ao redor do velho e de Potter.
Voldemort sentou-se e entrelaçou os dedos finos com unhas sujas e negras.
- Diga que não há nenhuma informação sobre isso e que ele pode ficar tranqüilo. – Disse Voldemort soltando uma risada baixa e grosseira. – Vamos deixar o gato achar que não tem que se preocupar com os ratos na cozinha. Vamos deixá-lo tranqüilo, afinal, daqui a alguns meses não precisarei me preocupar com as suspeitas dele.
- Refere-se ao dever de Malfoy?
- Sim, Severus. O jovem Draco parece que está com um pequeno avanço, por mais que esteja demorando. Mas tudo bem, tenho tempo para aguardar isso acontecer. Quero ver os olhos azuis e brilhantes morrerem. Assim não terá ninguém que vá me deter e eu poderei ser muito poderoso.
- O senhor já é poderoso, milorde.
- Sim, eu sou, mas daqui a alguns anos, serei o mais poderoso. Tenho a arma certa para isso.
Snape sentiu um arrepio, estava pisando na linha fina que separava os segredos de Voldemort. Era melhor recuar um pouco. Nunca se deve chegar muito perto sem antes conhecer o terreno.
- Eu direi, Milorde.
- Não pense que pode ir, ainda não lhe dei a lição que merece por não me avisar sobre Potter.
- Eu não me atreveria a ir embora, meu senhor.
Snape se aproximou devagar e ajoelhou-se próximo ao Lord. Os olhos vermelhos fixaram-se aos seus com força. Uma dor quente como lava queimava seu corpo subindo pelos seus pés, alcançando seu peito e fazendo arder seus músculos. Foi impossível não gritar quando sua cabeça explodiu em dor. Ele caiu com as mãos na cabeça, gritando, implorando internamente para que tudo acabasse logo. Mas não acabaria. O Lord permaneceria apenas o olhando até quando desejasse. A dor só iria diminuir quando Voldemort achasse que era o suficiente.
Iria demorar.
Já fazia quatro horas que saíra da mansão, e seu corpo ainda doía. Era até mesmo difícil caminhar, pois cada passo causava-lhe um espasmo.
Entretanto, ele não podia parar. Apesar de querer simplesmente deitar naquela rua escura e fria, permanecer ali até que seu cérebro o mandasse para o inconsciente. Tinha que continuar.
Tentando esquecer a dor, continuou caminhando até o portão antigo de ferro. Sua fechadura estava enferrujada e por isso permanecia aberta. Não haveria motivo para trancá-la, os habitantes daquele lugar não iriam impedir se alguém que não devia, entrasse em seu terreno. Eles não podiam fazer mais nada. Estavam mortos.
Com cuidado, andou por entre as lápides sem nem mesmo olhar os nomes deles. Não lhe interessava quem eram, se eram bons maridos, esposas ou filhos. A única lápide que lhe era importante estava no meio do antigo cemitério. Não precisava pensar para chegar até ela, seus pés já o levavam sozinhos, estavam acostumados a visitá-la. Apesar de fazer meses que não aparecia ali, a lápide continuava da mesma forma. Firme e crua. As letras estavam cobertas com sujeira e quase não se via o nome ali escrito. Com cuidado e carinho, retirou a varinha de suas vestes e limpou a parte com o nome mais precioso de sua vida. Lilian Potter.
Não, Lilian Evans.
Foi e sempre será Lilian Evans. A linda menina de cabelos de fogo que lhe estendera a mão da amizade e do amor e que ele tão estupidamente tirou de sua vida. Na base da lápide estavam as flores que colocara ali da última vez que viera. Estavam mortas e secas. Pareciam com ele. Secos e sem vida. Por um momento, apenas ficou olhando para o nome escrito sem conseguir pensar em algo. Mas no momento seguinte fechou os olhos e avistou os olhos verdes sorrindo para si. Eles pareciam dançar ao som de flautas e eram belos. Tão inocentes e puros. Eram olhos de doce contemplação e lhe enchiam com algo estranho e bom, uma sensação de paz e de tola esperança de que tudo podia ser apenas aquilo.
- Lilian. – Suspirou vendo os olhos piscarem em sua direção.
Os olhos ainda lhe sorriam quando se afastou e avistou o dono deles. O sorriso jovem era forte e intenso, mas não eram de Lilian. Eram de Harry. Era Harry que se aproximava e o olhava com carinho e afeto, totalmente desprovido de julgamentos ou condenações. Estava ali somente para ele. O menino em sua mente tocou seu rosto com ternura, como um dia sua mãe tocou. O puxou para mais perto selando seus lábios aos seus, como nunca sua mãe fez.
- Por que não consigo mais te ver?
A pergunta ficou suspensa no ar, sem uma resposta a ser dada. Não havia como responder algo que já estava respondido. Afastando de si a imagem do filho, lembrou-se uma última vez da mãe e se virou saindo daquele lugar sagrado. Quando o portão se fechou e a figura negra sumiu no meio da noite, um ramo de rosas apareceu na base da lápide. Lilian Evans fora mais uma vez lembrada.
Harry estava impaciente. Snape sumira durante um dia inteiro, não apareceu nem mesmo em suas aulas que foram ministradas por Flitwick. Aquilo não estava certo. Algo havia acontecido. Algo ruim. Já era quase uma e meia da manhã e ele ainda não estava de volta. Harry pensou em ir atrás de Dumbledore, mas sabia que o diretor apenas diria que estava preocupado a toa e que deveria ir descansar. Descansar. Como poderia descansar daquela forma? Se bem que realmente estava muito cansado. Não dormira desde segunda e já era inicio de quarta. Se Hermione soubesse que estava acordado acabaria por lhe dar uma tremenda bronca, afinal estava com um filho no ventre que precisava de todos os cuidados possíveis.
Com um sorriso bobo, acariciou a barriga ainda lisa e pediu com todas as forças para que tudo desse certo. Pensando que realmente era melhor ir se deitar um pouco, caminhou até a porta de seu quarto. Mas no último momento entrou no quarto de Snape. A preocupação o assolou novamente quando viu a cama vazia e bagunçada. Chegando perto sentiu como os lençóis estavam gelados.
- Onde você está Severus?
Sentindo-se sozinho e angustiado, puxou o lençol escuro e se deitou encolhido na grande cama. O frio do quarto era doloroso, mas a dor da preocupação em seu coração era pior que qualquer vento cortante. Alguns minutos depois seus olhos cansados abriram-se devagar. Havia dormido sentindo o cheiro de Snape no pano que agarrara. Piscou algumas vezes para focalizar o quarto. Quando olhou em direção a janela, quase deu um pulo na cama. Snape estava parado o olhando.
- Severus? – Chamou Harry antes de se levantar e correr em direção ao homem entrelaçando sua cintura com os braços. – Deus, fiquei tão preocupado.
O homem não respondeu, apenas segurou os ombros de Harry o afastando de leve. Os olhos verdes mostravam claramente a preocupação gritante. Eram tão verdes e intensos. Tão iguais e diferentes dos dela. Uma ruga apareceu em sua testa ao tocar no rosto macio e se aproximar afundando-se nas esmeraldas diante de si. Harry não gostava de ver aquela tristeza estampada nos olhos negros. Snape sempre fora tão seguro e estável. Vê-lo assim o deixava quebrado.
- Agora está tudo bem. – Sussurrou Snape.
O homem afagou a bochecha de Harry antes de desviar os olhos e se aproximar da cama. Seu corpo ainda doía, mas a dor era insignificante perto da confusão que sentia dentro de si. Tudo era tão estranho e novo, tão esquisito que não havia como saber o que fazer. Não queria sentir o que achava que estava sentindo. Queria continuar da mesma forma de sempre, mas os olhos verdes sempre estariam ali para amaldiçoá-lo com sua pureza.
- Eu vou cuidar de você. – Disse Harry começando a desabotoar sua capa.
Com cuidado e movimentos lentos, Harry retirou a veste negra e pesada pelos pesadelos que causou, substituindo-a por um pijama vinho e leve. Devagar o deitou na cama e se sentou ao lado pegando sua mão e a levando até sua barriga. A mão permaneceu ali por alguns minutos enquanto Snape apenas olhava para os olhos verdes. Depois, sem dizer nada, puxou o menino pela cintura e o abraçou escondendo seu rosto no pescoço dele.
- Está tudo bem, Severus. Vai ficar tudo bem.
As palavras de Harry eram quentes e calmas, transmitiam segurança e carinho. Snape o apertou mais perto e apenas sussurrou de leve em seu ouvido antes de finalmente se deixar levar para o inconsciente onde poderia fugir de tudo.
- Não vai não.
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