02 de maio de 2009 — Hotel Savoy, Londres — 00h20

O Savoy exalava um luxo anacrônico, mas para Hermione, o mármore polido e o veludo carmesim da suíte presidencial pareciam as paredes de uma câmara de interrogatório. O ar estava saturado com o perfume de gardênias frescas e o cheiro metálico da chuva que agora fustigava as vidraças, um lembrete de que Londres raramente perdoava aqueles que tentavam ignorar suas tempestades.

— Jean-Luc, chéri — Hermione murmurou, sua voz mantendo a cadência diplomática que usava para desarmar crises no Ministério da Magia francês, embora suas mãos tremessem levemente ao desabotoar o casaco do filho. — Está tarde. Amanhã partiremos cedo. Vá para o quarto e tente descansar.

O menino de nove anos não respondeu de imediato. Ele permitiu que a mãe retirasse seu paletó de alfaiataria parisiense, mas seu olhar permanecia fixo no nada, ou talvez em um ponto no espaço onde a imagem de Lucius Malfoy ainda estava gravada. Jean-Luc tinha a pele pálida dos Malfoy e a teimosia dos Granger; ele era uma obra de arte em constante conflito.

— Ele tinha o cheiro da biblioteca do vovô, mas com algo... mais antigo — disse Jean-Luc, a voz alternando para o francês com a naturalidade de quem habita dois mundos. — Il sentait la tempête, mamãe. Ele tinha cheiro de tempestade e de prata.

— É apenas o cheiro da Inglaterra, Jean-Luc — Marc interveio, a voz áspera, desprovida de sua habitual doçura. Ele estava parado junto ao bar de mogno, os dedos apertando o gargalo de um decanter de cristal com tamanha força que os nós dos dedos estavam brancos. — Vá para a cama. Agora.

Jean-Luc inclinou a cabeça, um gesto que Hermione reconhecia com um pavor crescente. Era a exata inclinação que Lucius usava antes de desferir um golpe intelectual. O menino obedeceu, mas não antes de lançar um olhar cinzento sobre o ombro, um olhar que carregava uma década de perguntas que ele ainda não sabia como formular.

Assim que a porta do quarto de Jean-Luc se fechou, o silêncio na suíte tornou-se uma entidade física, pesada e cortante.

— Dez anos, Hermione — Marc começou, sua voz falhando. Ele serviu-se de uma dose generosa de conhaque, mas não bebeu. — Dez anos olhando para ele, amando-o, chamando-o de filho... enquanto eu era apenas o zelador de um túmulo que eu nem sabia que existia.

— Você é o pai dele, Marc! — Hermione retrucou, aproximando-se, o vestido de seda vermelha farfalhando como um aviso. — Você o criou. Você o ensinou a ser gentil, a ser humano. O que aconteceu na varanda... foi uma colisão de tragédias, nada mais.

— Não minta para mim! Não aqui! — Marc explodiu, e o som de sua voz fez Hermione recuar um passo. — A genética não é uma colisão, é um destino! Eu vi como o Malfoy olhou para ele. Eu vi como Jean-Luc se empertigou. Era como se dois pedaços de um mesmo espelho se encontrassem após um milênio. Como você pôde viver comigo, dormir comigo, sabendo que o sangue daquele homem corria nas veias do menino que você disse ser meu filho?

— Porque Lucius Malfoy é um homem morto por dentro! — Hermione sibilou, sua máscara de diplomata rachando para revelar a leoa que sobrevivera a uma guerra. — Draco morreu. Narcissa morreu. Lucius vive em um museu de fantasmas. Eu não daria Jean-Luc para ser mais uma peça de mármore naquela casa fria! Eu o protegi!

Hermione virou-se para buscar o copo d'água na bandeja do serviço, e foi então que Marc viu. O lenço caiu de dentro da bolsa dela quando ela o abriu — um quadrado de linho branco, desgastado pelo uso repetido de ser dobrado e redobrado, com as iniciais L.A.M. bordadas em prata no canto. Ele se abaixou antes que ela percebesse e o apanhou do chão. Ficou olhando para ele por um momento que durou uma eternidade.

— Dez anos — Marc disse, a voz desprovida de qualquer emoção agora. Ele estendeu o lenço para ela, segurando-o pela ponta como se fosse algo contaminado. — Você guardou isso por dez anos.

Hermione ficou imóvel.

Não era a paternidade de Jean-Luc que esmagava Marc naquele momento. Era aquilo: o lenço de linho dobrado com cuidado, guardado ao lado dos documentos diplomáticos e dos bilhetes de avião. Uma relíquia. Uma confissão silenciosa que ela carregara dentro da bolsa por uma década inteira.

— Você não precisava ter ficado comigo — Marc disse, e havia algo pior que raiva na voz dele. Havia compreensão. — Se você ainda o carregava, você poderia ter ficado.

— Do que você está falando, Marc? — Hermione disse desesperada para voltar ao assunto anterior. — Tudo que eu fiz foi proteger meu filho.

— Você o escondeu — Marc corrigiu, a mágoa sobrepondo-se à raiva. — Você não o protegeu dele, Hermione. Você me usou para apagar um erro; me usou para aplacar sua própria vergonha e frustração. Jean-Luc não é um Delacroix. Ele é o herdeiro de uma linhagem de carrascos e você me fez cúmplice dessa mentira.

No quarto ao lado, Jean-Luc não estava na cama. Ele estava sentado no chão de carpete grosso, as costas encostadas na porta, os joelhos abraçados. Seus ouvidos captavam cada palavra, cada acusação. Ele fechou os olhos e viu novamente a bengala de prata de Lucius. Puer meus. Meu menino. O latim não era uma língua morta para ele; era a língua que fazia seu peito vibrar de uma forma que o francês nunca conseguira. Ele sentia que algo dentro dele, algo que sempre estivera em dormência, acabara de abrir os olhos.

******

Enquanto isso, em Wiltshire, a Mansão Malfoy estava iluminada como não era há uma década. Lucius não se sentou. Ele caminhava pela biblioteca, a bengala batendo ritmicamente contra o piso de carvalho escuro. O aroma de sândalo e tabaco de alta qualidade flutuava no ar.

Ele parou diante de um espelho veneziano. Observou o próprio reflexo e depois as mãos. Eram as mesmas mãos que Jean-Luc usara para segurar o corrimão da varanda; dedos pálidos e longos.

— Redivivus — Lucius murmurou para as sombras. — Ressuscitado.

Um elfo doméstico apareceu com um estalo suave.

— Monsieur, o advogado, Sr. Blackwood, está aguardando seu chamado para a manhã.

— Diga a Blackwood para esperar — Lucius ordenou, sem desviar os olhos do espelho. — Não faremos nada de forma apressada. Não quero uma batalha de lama no Ministério. Quero um cerco. Hermione Granger é uma diplomata treinada; ela conhece a lei internacional. Mas ela esquece que, nestas terras, o sangue fala mais alto que o papel.

Lucius sentiu um calor que não era provocado pelo uísque em sua mão. Era a sensação de propósito. Ele perdera Draco para uma pilastra de mármore, um herdeiro transformado em pó. Mas Jean-Luc... Jean-Luc era a sua segunda chance de ser o pai que o destino lhe roubara a oportunidade de ser plenamente. Ele queria abraçar o menino, ensiná-lo a voar. Ele não queria apenas o nome Malfoy no menino; ele queria ver a mente de Hermione florescendo na estrutura de um Malfoy.

Lucius parou diante do retrato. Abraxas Malfoy estava sentado em seu pose habitual — o cetro de prata apoiado no joelho, as vestes de brocado verde-escuro, a expressão de um homem que havia nascido acreditando que o mundo lhe devia atenção. Os olhos cinzentos — os mesmos olhos que Jean-Luc herdara, que Draco herdara, que todos os Malfoy carregavam como uma sentença — observavam o filho com uma imobilidade calculada.

— Você foi ao baile — disse Abraxas. Não era uma pergunta.

— Eu fui — Lucius respondeu, parando a bengala no chão. — E voltei com uma notícia.

— Notícias do Ministério raramente me interessam, Lucius. Você sabe disso.

— Esta não é do Ministério. — Lucius virou-se para o retrato, e havia algo diferente em sua postura — uma fratura na armadura que Abraxas reconheceu imediatamente, porque ele próprio a havia produzido décadas antes. — Draco tem um irmão.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Abraxas não se moveu, mas algo nos olhos do retrato cristalizou-se em uma atenção afiada.

— Repita isso.

— Você me ouviu perfeitamente. — Lucius cruzou os braços, sustentando o olhar do pai com uma rigidez que custava mais do que aparentava. — Um menino. Nove anos. Cabelo prata, olhos cinzentos, fala latim com fluência nativa e alemão por prazer próprio. Ele se chama Jean-Luc.

— Jean-Luc — Abraxas repetiu o nome com o mesmo tom que usaria para inspecionar uma fatura incorreta. — Um nome francês.

— A mãe é diplomata. Vive em Bordeaux.

— E quem — Abraxas pronunciou a palavra com uma lentidão deliberada, calculada — é a mãe?

Lucius não respondeu de imediato. Ele caminhou até a lareira, pegou o copo de uísque que havia deixado na cornija e tomou um gole lento. A pausa era uma resposta em si mesma, e Abraxas a leu com a precisão de quem passou décadas decodificando os silêncios da família.

— Hermione Granger — disse Lucius, finalmente.

O retrato não explodiu. Abraxas não gesticulou, não se levantou, não brandiu o cetro. Ele apenas fechou os olhos por três segundos — três segundos exatos, como se estivesse contando — e quando os abriu novamente, havia neles uma frieza que Lucius reconhecia como a versão paterna da sua própria cólera contida.

— Você — disse Abraxas, a voz baixa e controlada como uma lâmina saindo devagar da bainha. Abraxas sabia quem eram os Granger, Draco e Lucius haviam debatido exaustivamente naquele mesmo escritório, sobre a garota durante os anos em que Draco ainda estava na escola. — trouxe o sangue dos Granger, um sangue impuro, para dentro desta linhagem.

— Eu trouxe um filho para esta linhagem — Lucius retrucou, a voz endurecendo. — O único que resta.

— O único que resta porque você — Abraxas se inclinou levemente para frente no quadro, os dedos apertando o cetro — serviu um lunático de nariz chato que transformou esta casa em um abatedouro e depois teve a indecência de morrer sem limpar a bagunça que fez. Draco morreu por causa das suas escolhas, Lucius. E agora você me apresenta um bastardo de sangue-ruim como se fosse uma solução.

— Ele não é um bastardo — Lucius disse, a palavra cortando o ar. — Ele é meu filho.

— Ele é filho de uma sangue-ruim — Abraxas corrigiu, implacável. — Eu nunca pensei que viveria para ver o dia — e aqui o retrato fez uma pausa precisa, carregada de veneno — em que um Malfoy me olharia nos olhos e me diria que o futuro desta família tem o sangue de um trouxa inglês nas veias.

— Os pais dela são dentistas — disse Lucius, e havia uma ironia involuntária na sua própria voz que ele não conseguiu suprimir completamente.

— Dentistas — Abraxas repetiu a palavra como se ela tivesse um gosto particularmente ruim. — Lucius Abraxas Malfoy. Você me envergonha.

— Eu o envergonho? — Lucius virou-se bruscamente para o retrato, e a bengala bateu no chão com uma violência que ecoou pela biblioteca. — Eu o envergonho, pai? Eu servi durante décadas uma causa que o senhor mesmo me ensinou a admirar. Eu ofereci esta casa, estes corredores, estes salões para um homem que era menos que um fantasma. Eu assisti Draco morrer sob os escombros da própria escola enquanto o senhor apodrecia tranquilamente nesse quadro. E agora tenho um filho — um filho vivo, que respira, que pensa, que fala latim melhor do que a maioria dos membros do Wizengamot — e o senhor me fala em "vergonha"?

Abraxas deixou o silêncio pousar. Era uma técnica que ele havia ensinado ao próprio filho sem saber, a arte de deixar o outro esvaziar-se antes de responder.

— Sente-se, Lucius — disse ele, finalmente, a voz desprovida agora de escárnio. Havia algo mais seco, mais fundo.

— Eu prefiro ficar de pé.

— Eu prefiro que você se sente...Enfim, faça o que você quiser — Abraxas ajustou a posição no quadro, um gesto de quem estava se preparando para uma conversa longa. — Você quer que eu celebre. Eu não vou celebrar. Mas também não sou tão estúpido quanto sua raiva sugere que você pensa que eu sou. Então vamos conversar como Malfoys, não como dois homens bêbados em uma varanda.

Lucius não sentou. Mas parou de caminhar.

— O menino é real — disse Abraxas. — Você tem certeza.

— Eu olhei para ele e vi Draco aos nove anos. Vi a mim mesmo. A semelhança não é coincidência nem sugestão — é biologia declarando uma verdade em voz alta numa sala cheia de gente.

— Biologia — Abraxas pronunciou a palavra com uma atenção peculiar. — É interessante que você escolha essa palavra. Porque é exatamente aí que o seu argumento tem uma falha que eu esperava que você mesmo encontrasse, mas aparentemente o entusiasmo o está cegando.

Lucius franziu o cenho.

— Explique-se.

— O que faz um Malfoy, Lucius? — Abraxas perguntou, e havia na pergunta o tom de quem já sabe a resposta e está avaliando se o interlocutor também sabe.

— O sangue — Lucius começou.

— Errado — Abraxas o interrompeu com uma precisão quase cruel. — Essa foi sempre a resposta preguiçosa, e o fato de você ainda acreditar nela explica a maior parte dos seus problemas. O sangue é o mínimo. O sangue é o ponto de partida, não o destino. O que faz um Malfoy é a formação do caráter dentro de uma tradição. É saber que existem obrigações mais antigas do que você, e que essas obrigações não são um peso — são uma arquitetura. Você foi formado assim. Draco estava sendo formado assim. Este menino — este Jean-Luc — foi formado por uma diplomata de Bordeaux e por um francês sem sobrenome que provavelmente cheira a lavanda.

— Ele fala latim — disse Lucius.

— Muitos meninos falam latim, Lucius. Os jesuítas ainda ensinam latim. Isso não o torna um Malfoy; torna-o um aluno aplicado.

— O senhor não o viu — Lucius disse, e havia na sua voz, pela primeira vez naquela noite, algo próximo da súplica — não a fraqueza da súplica, mas a urgência de quem precisa ser acreditado. — Quando eu disse que tinha livros em latim, ele se virou para mim com um olhar... Pai, era o olhar de quem chegou em casa. Não de quem encontrou algo interessante. De quem chegou.

O silêncio que se seguiu foi de outra qualidade. Abraxas olhou para o filho por um momento longo, e havia nesse olhar algo que ele raramente permitia: a avaliação honesta, sem o escudo do sarcasmo.

— E a mãe? — perguntou Abraxas. — O que ela pretende?

— Fugir, com certeza. Já estava fugindo quando saiu do país dez anos atrás.

— Naturalmente. — Abraxas tamborilou os dedos no braço da cadeira, um gesto que Lucius reconhecia como o de seu pai calculando. — Você sabe o que me perturba nessa história, Lucius? Não é o sangue da mulher. Não é o nome francês do menino. O que me perturba é o seguinte: ela é inteligente. Você mesmo disse isso, está nos seus olhos quando você fala dela. Uma mulher inteligente que passou dez anos escondendo um filho seu não estava agindo por pânico. Ela estava agindo por estratégia. O que ela sabe sobre este menino que você ainda não sabe?

Lucius ficou imóvel. Era a pergunta que ele não havia formulado, e o fato de que Abraxas a havia encontrado antes dele era, simultaneamente, irritante e o motivo exato pelo qual ele vinha até este retrato em vez de qualquer outro.

— Ela sabe que ele tem a sua mente — disse Lucius, lentamente, como se estivesse pensando em voz alta. — E a minha... natureza.

— A sua natureza — Abraxas repetiu com uma ironia sutil. — Uma definição elegante para o fato de que os Malfoy, quando querem algo, são absolutamente incapazes de largar; que gostamos de nos esconder a sombra de monstros que nós não temos a coragem de ser. Ela criou esse menino longe de você porque sabia que, se você o visse, jamais desistiria. — Abraxas fez uma pausa, ligeiramente pensativo. — Ela o conhecia bem, pelo menos por uma noite.

— Ela me conhecia bem o suficiente — Lucius disse.

— Ah, sim, claro! — O sarcasmo pingava da boca de Abraxas. — Bem o bastante por que foi torturada no chão de parquet dessa mansão, se bem me lembro.

— Eu pedi desculpas à ela por isso — Lucius retrucou em voz baixa.

— Isso é mais perturbador do que tranquilizador, você sabe. — Abraxas inclinou-se novamente, os olhos fixos no filho. — Lucius. Eu vou lhe dizer uma coisa que você não vai querer ouvir, e depois você vai me dizer uma coisa que eu provavelmente não vou querer ouvir, e então nós vamos ter uma conversa adulta sobre o que realmente importa aqui. Concordamos?

— Continue — disse Lucius.

— Eu passei décadas construindo esta linhagem com a convicção de que o sangue era uma lei natural, não uma preferência social. Eu acreditei nisso. Eu ensinei isso a você. E você ensinou a Draco. E Draco morreu por uma versão distorcida disso, servindo um homem que odiava tudo o que os Malfoy realmente representavam — não a pureza do sangue, que sempre foi mais mito do que realidade se você olhar para a nossa árvore genealógica com honestidade, já que temos muitos mestiços ali; mas a excelência. A convicção de que ser um Malfoy significava ser o melhor em qualquer sala que você entrasse. — Abraxas encarou o filho através da moldura — Esse menino. Ele é o melhor em qualquer sala que ele entra?

Lucius não respondeu. Mas o silêncio dele e o olhar pesado foram uma resposta.

— Então o sangue, neste caso — Abraxas disse, e havia uma amargura antiga na voz, a amargura de alguém revisando uma crença com custo alto — fez o seu trabalho apesar de você. Apesar de mim. Apesar de toda a teoria que construímos. Metade de Hermione Granger e metade de você produziu algo que parece mais Malfoy do que muitos Malfoy de sangue puro que eu conheci em vida. O que isso diz sobre a nossa teoria, Lucius?

— Que ela era mais frágil do que pensávamos — Lucius disse, a voz baixa.

— Que ela era mais frágil do que precisava ser — Abraxas corrigiu. — Há uma diferença. — Ele recostou-se. — Agora você me diz a coisa que eu não vou querer ouvir.

Lucius olhou para o retrato do pai por um longo momento. A lareira crepitava. A biblioteca cheirava a couro e sândalo e ao fantasma de cinquenta anos de conversas como esta.

— Eu não quero apenas o nome — disse Lucius. — Eu quero o menino. Eu quero ensiná-lo. Eu quero ser o pai que... — ele parou, e a palavra seguinte custou visivelmente — ...que Draco mereceu e não teve completamente.

Abraxas fechou os olhos por um segundo.

— Isso — disse ele, quando os abriu — é a primeira coisa honesta que você disse esta noite. E também a mais perigosa. Porque você está confundindo dois desejos muito distintos: o desejo de um herdeiro para este nome, que é legítimo e estratégico, e o desejo de reparação, que é emocional e vai nublar o seu julgamento em cada decisão que você tomar daqui para frente.

— Talvez ambos possam coexistir — disse Lucius.

— Talvez — Abraxas concordou, com uma relutância que era, para ele, quase generosidade. — Mas você vai precisar de algo que nunca foi o seu ponto forte, Lucius. Paciência. Não a paciência do predador que aguarda o momento de atacar. A outra paciência. A de deixar alguém chegar até você por vontade própria. — Uma pausa. — O menino já está vindo. Você viu isso nos olhos dele?

— Sim — disse Lucius.

— Então não estrague isso com advogados e ultimatos. — Abraxas olhou para ele com uma seriedade desprovida de qualquer ornamento. — Um lobo não arrebata o filhote de volta à força. Ele deixa o filhote encontrar o caminho. — Uma pausa seca. — E reza para que a mãe não o ensine a odiar o cheiro de sândalo dessa casa antes que isso aconteça.

Lucius olhou para o retrato por um momento. Depois, num gesto que não fazia desde a infância, ele inclinou levemente a cabeça — não uma reverência, mas um reconhecimento.

— Boa noite, pai.

— Boa noite, Lucius. — Abraxas voltou à sua pose habitual, o cetro no joelho, os olhos cinzentos voltando à sua imobilidade calculada. — E Lucius?

— Sim?

— Se esse menino realmente é o que você diz que é — disse Abraxas, e havia na voz algo que não era exatamente orgulho, mas era o que o orgulho se tornava quando passava décadas sendo dobrado e redobrado —, então Draco não foi o fim da nossa linhagem. Foi apenas o capítulo mais doloroso. — Uma pausa mínima. — Não desperdice o próximo.

Lucius não respondeu. Mas, pela primeira vez em dez anos, quando saiu da biblioteca, ele apagou apenas metade das velas.

****

Às cinco e quarenta e cinco da manhã, a luz cinzenta do amanhecer londrino mal conseguia penetrar a névoa. Hermione, Marc e um Jean-Luc silencioso atravessaram o saguão do Savoy. O menino vestia um sobretudo escuro, as mãos nos bolsos, o queixo erguido.

A viagem para o aeroporto de Heston, de onde partiriam em um traslador diplomático para a França, foi feita em um silêncio sepulcral. Marc não olhava para Hermione. Hermione não olhava para o mundo. Ela estava mentalmente revisando cada lei de proteção à criança, cada tratado de extradição mágica entre o Reino Unido e a França.

Ao entrarem na zona de embarque restrita, Hermione sentiu um calafrio na espinha. Ela olhou para trás, para as sombras das colunas do saguão. Não havia ninguém. Mas o cheiro de sândalo parecia impregnado em sua pele, um aviso de que a fronteira que ela cruzava não passava de uma linha imaginária.

Jean-Luc parou diante do portal do traslador. Ele olhou para a mãe, seus olhos cinzentos profundos e analíticos.

— Nós vamos voltar, não vamos? — perguntou o menino. Não era uma pergunta de uma criança assustada, mas de um estrategista avaliando o campo de batalha.

— Não tão cedo, Jean-Luc — Marc respondeu por ela, sua voz soando vazia. Ele tinha um olhar turvo, os tremores nas mãos eram visíveis mesmo estando dentro dos bolsos.

O menino deu um meio-sorriso gélido, um reflexo idêntico ao de Lucius, Hermione percebeu.

— O senhor Malfoy disse que o destino é um mestre sem imaginação. Mas eu acho que ele está errado. O destino tem muita imaginação, papai. — Jean-luc olhou para Marc. — Ele apenas espera o momento certo para se mostrar.

Eles tocaram o traslador e, em um redemoinho de cores e pressão, a Inglaterra desapareceu. Mas, enquanto Hermione caía na segurança da França, ela sabia: a guerra de dez anos havia acabado. O cerco de Lucius Malfoy acabara de começar.


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