A Lei do Amor
36 Capítulo 36
Notas iniciais

Fevereiro foi um mês menos frio, sem as tempestades de neve que diminuíam ainda mais a sensação climática. Com o tempo limpo, Shino conseguiu terminar o berço do bebê. Um trabalho rústico, perfeito aos olhos de Kiba.
Naruto e Sasuke apareceram para ajudar a subir com o berço pelas escadas. O móvel feito em madeira artesanal acabou mais pesado do que parecia!! A peça final na decoração do quarto do bebê, que ficou colorido e lindo, cheio dos presentes que o casal recebeu. Como último gesto da arrumação Kiba colocou a manta de lã dobrada sobre o colchãozinho, depositando junto todos os votos calorosos que recebera dos velhinhos Shiroyama.
O quarto ficou pronto para a chegada do filhote.
Fevereiro também foi o mês em que o casal passou um grande susto. Não por eles próprios, mas por uma amiga próxima.
Haruno Sakura teve uma complicação na gestação e o parto ocorreu prematuro. Um mensageiro do hospital bateu na porta da casa deles, em uma quarta-feira pela manhã, e entregou um pergaminho onde explicava a situação em poucos detalhes. Também convidava o Ômega a ir ao hospital, caso estivesse em condições, pois a presença dele ajudaria a consolar Sakura, conforme pedido dela própria. Uma vez que experimentara a sensação do que um Ômega podia fazer, pareceu-lhe natural lançar mão da solicitação egoísta em um momento de tristeza.
Kiba não pensou duas vezes. Vestiu um casaco grosso para se proteger bem e saiu rumo ao hospital com Shino em seus calcanhares, claro.
Ao chegar lá, teve permissão imediata para ir ao quarto de Sakura. O Alpha precisou ficar no hall de entrada, junto aos pais de Sakura e Rock Lee que andava de um lado para o outro dominado pelo nervosismo. Daquela vez não era por algo ruim acontecido ao seu companheiro, então Shino podia se sentar e ficar mais relaxado.
No quarto, Kiba descobriu Sakura deitada no leito, muito abatida.
— Yo — ele disse antes de se sentar na cadeira vaga ao lado da cama.
— Olá — Sakura respondeu oferecendo um sorriso fraco. Os olhos vermelhos eram de dar pena.
— O que aconteceu? — Kiba não era de segurar a curiosidade ou de se preocupar com sutilezas.
— A bolsa rompeu antes. Fiz o pré-natal sem faltar a nenhuma consulta, mas não deu para evitar.
— E o bebê?
A pergunta fez Sakura recomeçar a chorar. Kiba aproveitou a chance para segurar a mão dela que descansava sobre o lençol.
— Está bem. Mas como nasceu antes da trigésima semana tiveram que colocá-la na incubadora. O corpinho dela ainda está em desenvolvimento — soluçou ao final.
— Sinto muito.
— Como vocês conseguiram? Como passaram por isso? Quando senti a bolsa romper e vi o sangue eu sabia que o pior podia acontecer. Nem na guerra passei tanto medo! Eu a vi antes de levarem, é uma menina tão pequenininha... uma Beta.
Kiba não respondeu. Ele imaginou que a pergunta retórica não exigia uma resposta, sendo apenas uma forma de Sakura extravasar o sofrimento.
Diante do silêncio, a garota voltou os olhos para ele com uma súplica atípica nas íris esmeralda. Era a primeira vez que Kiba via uma menina tão forte e determinada quanto Haruno Sakura parecendo frágil a ponto de quebrar. Ele entendeu que um filho mudava todas as prioridades na vida de um casal, de uma pessoa. Que a preocupação pelo bem-estar da criança seria companhia para o resto da vida.
E compreendeu que Sakura queria respostas sim. Queria ouvir sobre o sofrimento terrível de alguém que superou essa dor e encontrou uma luz para guiar o caminho e seguir em frente.
Queria ouvir que não estava sozinha.
— A gente ainda tá passando por isso. A gente não conseguiu superar tudo. No começo foi difícil, eu só conseguia chorar... e eu também pensei que não ia superar tão cedo. Mas eu recebi muito apoio das pessoas, da minha mãe. E do Shino. Sem ele eu não conseguiria sair do lugar. Às vezes me dá vontade de chorar do nada... eu tenho tanto medo que aconteça de novo, daí eu olho a minha barriga e coloco a mão só pra ter certeza que o bebê ta aqui e tá bem. E outras vezes eu sinto tanto rancor vindo pelo vinculo... e raiva... daí eu sei que o Shino guarda esses sentimentos no coração e isso nunca vai mudar. Nossa vida foi transformada, e a gente tem que conviver com a perda, mas também com uma vitória. Nem sei se posso chamar de vitória.
— Kiba... — a esse ponto Sakura não chorava mais, ouvindo o discurso com atenção.
— No meu caso eu não sabia como reagir. Eu perdi um bebê sem nem imaginar que ele existia! Dai era meio assim “vou ter um bebê” e em seguida era tipo “eu perdi um bebê”. Eu queria chorar por ele, mas queria ficar feliz pelo que sobreviveu. Minha cabeça era a maior confusão, ainda tem um pouco de confusão aqui e aqui — ele usou a mão livre para tocar a fronte e o peito — Sinto receio pelo futuro, de olhar para meu filhote, sempre lembrar que deveriam ser dois e... e... sofrer mais, o resto da vida. Iruka sensei me ajudou a ver de um jeito diferente. Mas ainda fico preocupado.
— Eu não fazia ideia, Kiba. De como foi ruim para vocês. Me desculpa não ter te visitado no hospital.
— Não precisa se desculpar. A gente não era tão próximo assim — ele tentou aliviar a barra.
Sakura balançou a cabeça. Sabia que o casal recebera a visita de pessoas desconhecidas que ofereciam apoio. Ela poderia sim ter mostrado mais solidariedade. Só ao sentir na pele algo similar, se deu conta de quão assustador era a possibilidade de perder a filha que já amava.
— Você salvou o meu bebê. Jamais vou agradecer o bastante por isso.
— Que nada, eu... — então percebeu o significado do que ouvira — EU?!
Sakura sorriu um pouco mais.
— De certo modo. Tsunade sama estava aqui no hospital, pesquisando possibilidades de parto prematuro antes da trigésima semana de gestação. Ela me disse que quer estar preparada para ajudar você e o Shino caso aconteça qualquer coisa. Então quando cheguei ela me atendeu na mesma hora e sabia exatamente o que fazer. Isso protegeu minha filha de danos mais graves e sequelas. Tsunade sama me garantiu que ela pode se desenvolver e ser uma criança saudável mesmo ficando as últimas sete semanas na incubadora.
— Caralho! Que bom, Sakura.
A garota balançou a cabeça. O ar de desamparo suavizara um, tanto assim como o desgaste emocional. A simples presença de um Ômega já amenizara os efeitos do susto passado. Antes, Sakura tinha um pouco de inveja dos Alphas, por sua força e poder natos. Agora, sentia um pouquinho de inveja de Ômegas também, criaturas que podiam fazer tamanho bem a um semelhante sem recorrer a nada mais além de oferecer sua presença, a premissa que afastava o vazio na alma, dando a oportunidade de preenchê-la novamente com coisas boas como acalento e esperança.
— Sua filhinha vai crescer e ficar igualzinho a você. Não se preocupe! Tsunade san é a melhor!!
Sakura respirou fundo.
— Na verdade, Yume nasceu parecida com o Lee — se viu revelando o nome da bebê e a informação sobre o que vira ao tê-la nos braços por poucos minutos.
— Ah, relaxa, o que importa é crescer saudável, beleza não é o... — interrompeu a frase ao sentir o olhar de Sakura sobre si — Quê?
— Idiota — ela resmungou. Não soou brava de verdade.
—--
Pouco antes do almoço Tsunade apareceu no quarto. Sakura estava dormindo finalmente, então ela liberou Kiba e disse que ele podia voltar para casa. Se quisesse visitar Sakura em outra ocasião seria bem-vindo. Não tão já, como a médica deixou claro. Ele também precisava se cuidar e evitar se expor no tempo frio. Haruno Sakura era forte, a ajuda pontual de Kiba naquele momento mais frágil cumprira bem o seu propósito. Dali para frente a Beta seria capaz de dar os próximos passos.
Ao atravessar o corredor, Kiba recebeu abraços e cumprimentos dos funcionários e enfermeiros que trabalhavam no turno. Ele ficou feliz ao reencontrar Yamamoto san, a mulher que o mimava com comida extra durante o período de internação. Ela o envolveu desajeitada e com cuidado por causa do barrigão, de um modo bem caloroso.
Na recepção, Rock Lee não poupou agradecimentos para a boa vontade de Kiba em atender o pedido de sua esposa e prometeu que quando precisasse, suas chamas da juventude estariam a disposição do casal de Alpha e Ômega. Os pais de Sakura agradeceram com igual emoção. Era a vida da netinha deles que corria perigo, afinal. Qualquer pessoa que fizesse bem a Sakura e a Yume teria sua eterna gratidão.
— O que acha de almoçar fora? — Shino perguntou enquanto voltavam para casa.
Kiba olhou para o céu límpido do meio dia, tão característico do final de inverno, sinal clássico da primavera que se aproximava. Não fora intencional, mas seu bebê nasceria durante o Hanami.
— Ótima ideia — ele concordou, segurando na mão do companheiro para andarem lado a lado — Que bom que foi só um susto. A Sakura tava tão abatida... foi de cortar o coração. Sorte dela que a Tsunade san vai tomar conta do caso.
— Hn.
— Ne, Shino... a gente não pensou em nomes, né? A filhinha da Sakura se chama Yume.
— Tem razão.
— Acho que precisa ser algo relacionado à flores. Ela vai nascer durante o Hanami!
— “Ela”? — Shino ergueu uma sobrancelha.
— Eu te falei, minha intuição diz que nosso bebê é uma menina.
— Sim, mas se pretende pensar em nomes agora é bom escolher nomes de meninos também. Por garantia.
— Que tal “Hana”? Ou “Hanako”? “Sakura” não, já tem uma por aí e é o bastante... Hum... “Kiku”? — Kiba ignorou o conselho. Se a sua intuição dizia que teriam uma menina, então menina teriam, oras!
— São bons nomes. Minha família tem a tradição de esperar a criança nascer e só então dar um nome — o Alpha revelou.
Kiba não esperava ouvir algo assim.
— Você não era “Shino” até nascer? — soou uma coisa esquisita aos ouvidos do Ômega.
— Hn. Quando olhar para o filhote o nome dele vai aparecer em sua mente. É natural.
— Ah... nunca perguntei como minha mãe escolheu meu nome. Seu método é interessante, mas e se eu escolher um nome estranho ou errado? Acho que vou ficar muito emocionado e meu cérebro vai bugar e eu vou cagar com isso também. Já pensou?
— É um risco.
— É um risco...? Não seja tão tranquilo, maldito. Não quero que zoem nossa filha na escola! Meninas são assustadoras e não tem limites.
— “Hayato”? — acabou sugerindo. Kiba era a pessoa mais dramática e exagerada que conhecia. O amava tanto!
— “Hayako”, será uma menina.
— “Hayako” parece um ótimo nome.
— Mas não tem nada a ver com flores. Caralho, esse lance de arrumar um nome é muito sério. É pra vida toda!
— Então pense com calma, tem quase dois meses para decidir, não precisa ser agora.
— Hai, hai — Kiba concordou fácil até demais — Podemos comprar a comida e ir pra casa? To começando a ficar cansado.
Shino olhou para o garoto, compreendo a aceitação rápida com sua sugestão. Notou que os passos iam mais lentos e pesados. Aquele andar engraçado estilo “pato” dava um pouquinho de vontade de rir, ato que sequer ousava fazer.
— Claro, sem problemas.
Kiba lhe ofereceu um sorriso cheio de gratidão.
— Me deu vontade de comer uma montanha de takoyaki. Hum... takoyaki... “Yakiko” ou “Koyako” não são bons nomes? Sempre que chamar nossa filha eu vou pensar em takoyaki!! O que acha?
—... — Shino resolveu não manifestar opinião. Era mais prudente. Porém sua relutância fluiu pelo vinculo e fez Kiba se arrepiar todinho.
— To brincando, maldito. Nunca vou por nome de bolinho na nossa criança. Besta — terminou resmungando.
Shino respirou fundo, aliviado. Estavam falando de Kiba, não? Noção era uma palavra bem rara no dicionário do garoto.
No fim das contas o assunto “nomes de bebês” ficou em segundo plano. Pensariam naquilo em outra ocasião.
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