Notas iniciais
AAAA Esqueci que é sexta! xD Foi mal...

O casal Shiroyama não foi a única visita que receberam naquela tarde. De repente o comportamento dos funcionários do hospital fez todo sentido aos olhos de Shino.

Ali dentro, presos naquela tristeza, não faziam ideia da grandiosa comoção que a tragédia deles causara aos moradores de Konoha. A história se espalhara e angariara amplos níveis de simpatia de quem nunca viram na vida.

Ganhavam presentes importantes, não pelo valor material; mas pelo calor humano e generosidade que representavam. Pelo apoio que traziam junto. Um sinal claro de que não precisavam enfrentar tudo sozinhos.

Shino sabia que Kiba ainda chorava a noite. Podia sentir a tristeza dele através do vínculo, deitado sozinho em casa, uma sensação pálida pela distância do hospital. Óbvio que não seria fácil para ele simplesmente seguir em frente. Mas estavam tentando, juntos. Um passo de cada vez, até que a dor esvaecesse o suficiente para se tornar uma simples cicatriz, mais uma peça do quadro que compunha a história do casal.

A primeira semana se arrastou lenta. Kiba não tinha permissão de Tsunade para sair da cama. Ela queria evitar qualquer gasto ou uso inapropriado de energia, para garantir que a estabilidade do Chakra fosse permanente.

A dosagem de boldo continuou duas vezes ao dia, para chateação de Kiba, que ficava de péssimo humor por ter de engolir aquilo!! Nada que os mimos da equipe do hospital não acalmasse.

Yamamoto san, a mulher matrona que trazia as refeições, tornou-se a melhor amiga de Kiba, sempre deixando sobremesa extra pro garoto, ganhando-o justamente pelo estomago.

O momento mais marcante da semana aconteceu na sexta-feira. Era um meio de tarde moroso, o ar frio obrigava a fechar a janela. Shino estava sentado no canto perto da porta, foleando o jornal do dia anterior. Já tinha feito as palavras cruzadas, agora relia as manchetes. Kiba estava entediado na cama. Faltava paciência para ler algo e sobrava mau-humor. Se sentia cada vez mais recuperado, queria voltar pra casa!

Suspirou pela terceira ou quarta vez, bem exagerado. Quis deixar claro todo o seu enfado por continuar confinado na cama. Shino ignorou o gesto de rebeldia, já estava acostumado. E Tsunade falou absoluta: repouso total até segunda ordem. Não permitiria que o companheiro escapasse da cama, nem cometesse algo que o prejudicasse.

Emburrado, Kiba cruzou os dedos sobre a barriga, vestia um dos pijamas quentinhos de flanela que a mãe trouxera outro dia, descansando-os ali por dois segundos. Então levantou as mãos como se tivesse levando um choque. Quase praguejou alto! Tinha sentido alguma coisa ali... alguma coisa bem fraquinha...

Cheio de precauções, abaixou as mãos devagarinho, foi se aproximando e... afastou de novo, receoso. Esperou alguns segundos, respirando pesado. Redobrou as precauções, voltou a abaixar ainda mais devagar. Não conseguiu tocar o próprio corpo! Ergueu os braços pela terceira vez, mexendo os dedos com nervosismo e ansiedade.

— Coragem.

Kiba estava tão concentrado que a voz de Shino lhe deu um susto memorável. Ele quase saltou da cama.

— Caralho, Shino! Tive um mini infarto agora, maldito.

O Alpha anuiu.

— Desculpa.

— Hunf.

— Você está sentindo alguma coisa?

— Sim!

— Quer que eu chame Tsunade san?

— Ah, não! Não é ‘sentir’ de sentir mal. Acho que... acho que... — engoliu forçando saliva na boca seca.

Shino levantou-se e foi para o lado da cama.

— Kiba...?

O Ômega fechou as mãos em punho, perto do rosto e desviou os olhos para o lado.

— Acho que... é o Chacra do nosso bebê...

O queixo de Shino despencou. Surpreendê-lo não era nada fácil, mas a revelação de Kiba o pegou como um jutsu indefensável. Foi tão impactante, que roubou a maior característica do clã Aburame, pois ele agiu de modo impulsivo, passando os braços pelo corpo de Kiba e puxando-o de encontro ao peito, aprisionando-o em um forte abraço.

Kiba aceitou o gesto tanto quanto aceitou a emoção que veio pelo vinculo. E felicidade. O abraço foi quentinho e confortável. Então ali, nos braços do Alpha que aceitara por companheiro, teve o pensamento mais inusitado possível.

— Ah! — acabou exclamando — Entendi! Acho que a Sakura não engoliu ninguém...

Shino nem perguntou a que ele se referia. Na verdade, o rapaz estava tão feliz que sequer prestou atenção na frase.

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Na segunda semana, Tsunade permitiu passeios curtos na área interna do hospital, onde os pacientes capazes de andar se espalhavam em busca do fraco sol de outono.

A liberação só não fez Kiba mais feliz do que a redução do bendito extrato de boldo, agora restrita a uma vez por dia, meia dose antes do café da manhã.

As visitas não diminuíram, por isso Tsunade restringiu o acesso ao quarto do Ômega aos amigos mais próximos e parentes. O diretor do hospital não estava gostando do movimento que poderia incomodar outros pacientes. Já quebrara regras demais para ajudar o jovem casal. Era hora de trazer a normalidade de volta.

Foi naquela semana que receberam a visita de Hinata, que trouxe consigo um pote enorme de compota de morangos. Seu marido deu a sugestão, pois para Chouji comida era o melhor presente!

Kiba abraçou o pote e deu dois beijinhos no vidro. Adorava aquela guloseima. E, apesar do que Ino causara ao enganá-lo com comida para camuflar o chá de camomila, não queria pensar que todo mundo era assim. Ou que alguém mais tentaria lhe fazer mal. Principalmente Hinata que, além de parceira de time, era uma grande amiga. Era guloso? Sim. Desconfiava dos gestos de bondade? Nunca. E não começaria agora. Sua fé na humanidade foi reafirmada no decorrer daqueles dias, na presença de cada desconhecido que atravessou a porta do seu quarto e para oferecer simpatia e conforto.

— Obrigado! — ele agradeceu com um sorrisão.

— Por nada, Kiba kun — Hinata balançou a cabeça, corada — Eu que fiz. Estou aprendendo pratos novos.

Porque Chouji kun ficava muito feliz quando a esposa temporária colocava novos tipos de comida na mesa. E a alegria dele fluía através do vínculo, acalentando Hinata. Ela resolvera fazer o seu melhor durante o casamento improvisado, para não ter arrependimentos. E receber algo em troca, bons sentimentos em troca, era reconfortante! E novo! Por tanto tempo alimentara a paixão platônica por Naruto, conformada em nunca ser correspondida, que ao aceitar a gratidão de Chouji, não se sentia mais tão vazia. Não se iludia pensando que era amor, no entanto algo surgia ali na união entre duas pessoas tão diferentes. E era muito bom.

— Vai aprendendo muito mais pratos diferentes — Kiba falou um tanto ofegante, lutando para abrir a tampa lacrada do vidro. Até Shino ir a cama e tirar o pote de suas mãos para colocar fora de alcance. Não era hora de se encher de doces — Ei! Eu ia comer!!

— Depois — Shino soou inconformado. Como Kiba era cara de pau, estava pedindo comida para Hinata sem vergonha nenhuma.

— Hunf — Kiba resmungou. Virou-se para a companheira de time e fez um gesto positivo com o polegar — Parabéns.

— Pelos morangos? — Hinata inclinou a cabeça para o lado, confusa.

— Fiz de novo! Que caralho — Kiba cobriu os olhos com uma das mãos e apontou a barriga de Hinata com a outra — É meio foda ser o único a sentir...

A menina olhou para baixo, encarando o próprio corpo sem entender nada. Shino limpou a garganta, mudando de ideia. Abriu o pote de morangos em compota e entregou para Kiba comer. Com a boca cheia era mais difícil cometer aquelas gafes.

—--

Na terceira semana a especialista da Vila da Areia foi embora. Ela agradeceu muito pelo chamado de Tsunade, porque aprendera tanta coisa nova e inesperada! Levava consigo cópias dos exames de Kiba, que podiam ser uteis em outros casos. Também levava um caderno de notas completamente preenchido, com riqueza de detalhes impressionante.

Os planos de Tsunade eram manter Kiba no hospital por pelo menos um mês. Fato que se mostrou impossível no decorrer da terceira semana. O equilibro do Chacra estava completo, não podia saber com certeza se toda a camomila tinha sido eliminada, mas se sobrou algo no corpo de Kiba seria em quantidade ínfima e inofensiva. Se é que restara alguma.

Em contrapartida, ficando cada vez mais saudável, era um desafio e tanto mantê-lo na cama. Ação que exigia um preço alto: ele ficava chateado e meio deprimido. Sentia-se bem, só queria voltar para casa! Nem o aumento gradual do tempo que ficava no pátio aliviava a tristeza, porque no fim das contas, a parte do repouso continuava maior.

Também sentia a pequenina energia do filhote. Era a maior garantia que poderia querer.

Pesando os prós e os contras, avaliando tudo com calma e tentando ser imparcial, sempre com o melhor para seu paciente em mente, Tsunade concluiu que era seguro assinar a alta de Inuzuka Kiba. Ele já estava pronto para voltar para casa.

A notícia foi bem recebida por ambos, durante uma longa conversa cheia de preponderações e ordens médicas. Kiba não coube em si de alegria por saber que não precisava mais ficar confinado na cama! Podia voltar para casa, sentia saudades do lar. De Akamaru! De ar puro e liberdade!!

O alívio de Shino veio em igual proporção. Tsunade não permitiria que fossem embora se houvesse o menor risco para Kiba ou para o bebê. Finalmente o medo se dissipou por completo, medo que nem o Alpha se dera conta de carregar nos ombros.

A alta hospitalar foi inesquecível, vinda em um final de tarde meio gelado. Shino juntou as poucas coisas que ainda estavam ali. Toda vez que alternava de turno com Tsume, ele levava embora os presentes recebidos. Kiba trocou-se no banheiro, quase chorando de alegria por livrar-se do pijama e colocar seus trajes de sempre.

Voltou pro quarto e encontrou Tsunade ali, falando algo para o Alpha. Shino tinha uma expressão estranha no rosto. Consternação fluiu pelo vinculo a ponto de assustar Kiba.

— Eu não vou voltar pra cama! — afirmou depressa — Juro que to bem! E que vou tomar cuidado! Shino! — apelou para o companheiro, em busca de apoio.

Tsunade sorriu e balançou a cabeça.

— Acredito em você, Kiba kun. Sei que vai respeitar todas as minhas recomendações e cuidar da saúde seguindo as orientações. Só vim me despedir.

Kiba olhou para Shino, em dúvida. Viu o marido tirar os óculos do bolso do casaco e ajeitar no rosto. Ele só balançou a cabeça, sem dizer nada. Shino também não contou o motivo de seu incomodo.

Enquanto esperava Kiba se trocar no banheiro e Tsunade entrou no quarto, Shino aproveitou para perguntar sobre as despesas médicas, para começar a se organizar para pagar, provavelmente pegando umas missões extra. E a médica apenas colocara a mão sobre o ombro do rapaz com gentileza, descartando a pergunta. Todas as despesas já estavam pagas, ela informou. Pela família Yamanaka. Isso que deixou o Alpha tão consternado, sem saber como reagir a notícia. Por hora Kiba não precisava saber daquilo.

Por fim, Tsunade deu um abraço em Shino e um mais apertado em Kiba. Agradecendo silenciosamente por todas as lições que aprendera com dois garotos tão jovens. Sua vida nunca seria a mesma.

A maior surpresa do último dia foi quando Kiba abriu a porta para ir embora. Grande parte da equipe estava parada em frente ao quarto e gritou “Banzai” a uma só voz para comemorar o restabelecimento completo e o retorno ao lar do casal que todos estimavam. A despedida foi cheia de cumprimentos e algumas lágrimas (foi especialmente difícil se despedir de Yamamoto san), assim como promessas de visita na casa dos garotos.

Quando colocaram o pé fora do hospital, notaram Tsume encostada no muro, evitando de propósito a bagunça que sabia que fariam para seu filhote. Kiba sorriu para ela e, enquanto avançava para ganhar um abraço, só conseguiu pensar no quão sortudo e abençoado era por ter aqueles dois em sua vida (em breve três).

Com a ajuda deles passara por uma segunda guerra.

E vencera.

Notas finais
Pronto gente! O pior já passou :D Até sexta-feira!