A Lei do Amor
15 Capítulo 15
Notas iniciais

Capítulo 15
Na manhã de sábado Shino recebeu um chamado para uma missão classe C, que acabou demandando mais tempo do que o esperado. Embora viesse em boa hora, já que dinheiro em caixa nunca era demais.
Quando voltou, pela hora do almoço, encontrou um Kiba provando sua qualificação de DESASTRE na cozinha, meio desesperado em meio às vasilhas sujas e a tentativa um tanto duvidosa de fazer oden.
— Quer assumir daqui...? — ele ofereceu com desânimo.
Pois a carinha de cachorro abandonado comoveu Shino. Ele não pensou duas vezes em recusar a oferta:
— Pode continuar. Parece delicioso.
Kiba olhou incerto para os legumes cortados (em tamanhos desproporcionais) e os temperos separados (escolhidos meio que na sorte).
— Parece?
— Com certeza.
— Já que insiste!! — ele voltou a atenção para a preparação do almoço, enquanto Shino dobrava as mangas da camisa e ia lavar as vasilhas sujas. Como, em nome de qualquer cozinheiro de Konoha, Kiba conseguira sujar tantas louças ao fazer a versão mais simples da sopa?
No fim das contas, ao sentar-se para comer, descobriram (e não sem surpresa) que a comida estava gostosa. Inesperadamente gostosa. As verduras cozinharam bem, principalmente as trouxinhas de repolho que foram recheadas com carne, o ovo absolveu o sabor do caldo. O shoyu estava na medida certa, combinando com os outros temperos que compunham o gosto um tanto exótico.
— Bom — Shino elogiou com sinceridade.
— Ficou mesmo! — o garoto respondeu com um sorriso, sorvendo um tanto do caldo quente. Era uma comida típica de inverno, mas Kiba não tinha restrições quando batia a vontade.
— Hoje você vai me contar? — Shino lançou como quem não quer nada — O que conversou com Iruka sensei?
— Não! — Kiba respondeu de boca cheia. Até parece que ele ia repetir aquela informação sobre ambos serem almas gêmeas!! Contudo, a expressão de Shino acabou por comovê-lo um pouco. Captou traços de confusão e ansiedade através do vínculo, sensações que lhe lembraram que Shino também tinha dúvidas e preocupações. Principalmente sobre fazer a coisa certa.
— Okay — ele não insistiu.
— Espera. Eu te conto, só que não agora. Iruka sensei disse uma coisa bem embaraçosa sobre nosso vínculo. Mas você tem direito de saber também.
Shino não respondeu, sentia-se curioso sobre o que poderia ser, conquanto não gostasse de insistir e ser repetitivo. Quando Kiba decidisse falar, estaria ali para ouvi-lo.
Depois do almoço, limparam a cozinha juntos. Com Aburame narrando por alto o sucesso da missão, as brigas entre Naruto e Sasuke que pareciam infinitas, a perspectiva de receber mais missões no futuro próximo, já que, apesar dos pesares, o trio se saíra bem.
Aproveitando o clima, decidiram treinar um pouco. Kiba adorou a sugestão, pois andava sentindo-se um tanto quanto enferrujado. Valeram-se do cenário das árvores atrás da casa de Shino, que se estendia até o começo da floresta, para testar ataque, defesa, camuflagem, entre outros truques. A certa altura, Kiba ganhou o apoio de Akamaru, o que lhe garantiu uma boa vantagem nas ações mais agressivas. Isso até Shino apelar para os insetos e empatar a situação.
— Isso foi divertido! — Kiba esticou-se todo, relaxando o corpo. A tarde ia avançada, começava a sentir fome.
— Bastante — Shino, parado ao lado dele, estendeu o braço para fisgar uma folhinha presa nos cabelos castanhos bagunçados, sem que Kiba percebesse — Vamos pra casa.
— Oba. Já acabou o efeito do almoço, aposto que Akamaru está faminto.
O cão latiu como se confirmando a afirmação. Shino só ergueu uma sobrancelha. Akamaru? Apenas ele? Tá certo...
Assim que entrou em casa, Shino virou-se para Kiba e informou, como se não fosse grande coisa:
— Vou tomar banho. Quer vir junto?
O garoto interrompeu-se a um segundo de jogar-se no sofá.
— Quê? — não teve certeza de entender bem.
— Eu disse que vou tomar um banho. E perguntei se quer vir junto.
O queixo de Kiba despencou um pouco. Então ele tinha ouvido certo da primeira vez...? Tomar banho? Juntos? Só os dois? Na mesma banheira? Dividindo a água? Tipo isso tudo...?
E qual o problema? Já tinham feito missões juntos o bastante no qual compartilhavam o banho. Não seria a primeira vez.
Okay, seria a primeira vez na condição de companheiros e... hum... “almas gêmeas”. Se bem que Shino não sabia dessa última informação.
— T-tudo bem — Kiba decidiu em um rompante de coragem.
Shino balançou a cabeça com tranquilidade. E foi assim, depois de tudo o que haviam passado, com tal simples troca de palavras, que deram o derradeiro passo para a grande mudança na vida de ambos.
Kiba foi na frente, colocar a banheira para encher e deixar tudo pronto para o pré-banho. O coração batia forte, mas era algo além do seu controle. Se pudesse escolher mudar alguma reação do seu corpo, seria a possibilidade de parar de corar feito uma garota. Era só um banho, infernos! Por que ficar tão constrangido?
A banheira ia pela metade, quando Shino entrou trazendo as toalhas. Num gesto automático, Kiba levou a mão ao rosto, para ter certeza de que não derretia de vergonha, tão quente sua pele ficou. Pois foi impossível não dar uma olhada completa no peitoral desnudo de seu companheiro.
— Você está bem? — Shino perguntou tentando ocultar a diversão na voz, dando a Kiba uma vontade irresistível de chutá-lo. Estava tudo incrivelmente bem, ele podia sentir através do vinculo que os unia. Então pra que perguntar? Só pra vê-lo corar ainda mais de vergonha?
Não. Simplesmente porque era o Shino e ele se importava o bastante para pôr em palavras todas as suas preocupações.
Incapaz de responder, Kiba apenas balançou a cabeça, virando-se de costas para tirar as próprias roupas. Coisa que fez depressa, muito consciente da presença do outro rapaz.
Rapidamente sentou-se no pequeno banco de madeira e pegou o chuveirinho. Quando ia alcançar o sabonete, Shino se adiantou e o fez em seu lugar.
— Eu esfrego as suas costas.
Kiba concordou com novo aceno de cabeça, aproveitando para direcionar o jato de água sobre sua cabeça, molhando os cabelos e todo o resto do corpo. A água quente caiu bem-vinda, e tirou-lhe um suspiro de aprovação. Então ele sentiu o cheiro de sabonete e em seguida um toque suave em suas costas. As mãos de Shino vieram leves e gentis, deslizando fácil graças à espuma perfumada. Estavam quentes, embora causassem um arrepio em Kiba que eriçou-lhe os pelinhos da nuca.
— Tudo bem aí? — Shino perguntou em um tom de voz rouco, que teve o poder de desviar todo o sangue de Kiba direto para o rosto.
— Hn — foi tudo o que conseguiu dizer. Com certeza estava bem. Na verdade, mais do que bem. Era a primeira vez que alguém o tocava assim. Ainda que um tanto constrangedor, a sensação que reinava era de apreciação!
Isso até os dedos ágeis e leves descerem por ambas as laterais das costas de Kiba, rumo a curva do quadril, o que arrancou uma crise de risos do garoto. Cócegas! Ele tinha cocegas naquele lugar!
O riso cristalino ecoou alguns segundos, para se transformar em um gemido lânguido quando Shino, surpreso pela risada, parou de mover as mãos e as manteve firme sobre a cintura do outro. Ops. Revelado ali um ponto sensível...
Mortificado, Kiba levou uma mão aos lábios, querendo puxar o gemido de volta e engolir. Mas já era tarde! Que vergonha! E que vontade de sentir aquele toque de novo... desejo que aumentou quando Shino se afastou um pouco, dando o pré-banho por encerrado.
Kiba sabia que devia retribuir a gentileza e se oferecer para ajudar o outro; porém, sinceramente, a única coisa que fez foi saltar do banquinho e apressar-se para a banheira, cuja água se aproximava perigosamente da borda. Quase a ponto de transbordar. Desligou a torneira e enfiou-se em um dos cantos, deixando que Shino se virasse sozinho.
Alguns minutos depois, com Shino tendo se lavado completamente, ele também foi acomodar-se no outro extremo, imergindo na água quente e agradável, espirrando-a no chão. A banheira enchera demais.
Ficaram se encarando um tempo, as pernas dobradas para que pudessem caber sem se tocar. Um clima... diferente no ar.
— Kiba...
— Cala a boca, maldito. Não fala nada — ele respondeu de mau humor. Então escorregou um pouco e afundou-se na água, deixando só os cabelos de fora. Talvez a água quente ajudasse um pouco. Não ajudou, óbvio. Submergir de olhos abertos foi a pior das ideias que poderia ter.
Meio sem folego, ergueu-se de novo. Shino suspirou.
— Kiba...
— Ahhh!! — ele exclamou e tampou os ouvidos com as mãos — Não diga! Seu besta.
Shino obedeceu. Recostou-se melhor na borda da banheira, para aliviar a pressão nas costas.
— Você tá sentindo...? — claro que Kiba não aguentou o silêncio, puxando o assunto constrangedor ao mesmo tempo em que abaixava as mãos.
— Que você está excitado?
— Merda, Shino! Minha pergunta é de resposta “sim” ou “não”, desgraçado.
— Sim.
— Você também está! — Kiba acusou, ganhando uma postura defensiva.
— Muito.
— Iruka sensei explicou que a gente pode ser almas gêmeas — ele revelou baixinho, tentando distrair-se do que sentia naquele momento — Tipo companheiros perfeitos ou amigos pra vida toda, por causa do nível de combinação.
— Ah... — Shino entendeu a relutância do outro em trazer o assunto a tona.
— Ele disse que não é uma obrigação. Que a gente sempre será livre para escolher o que quiser — Kiba continuou falando em um tom reflexivo, mais parecendo conversar consigo mesmo — Mas... mas... se ver você sem roupa me deixou assim... então eu gosto de você mais do que amizade? To tão confuso!
— Eu acabei de sentir seu conflito através do vínculo. Não sabia porque estava assim, me desculpe por te chamar pra...
— Para — Kiba cortou — Para de se desculpar por tudo, Shino. Eu acho louvável que se preocupe tanto comigo, sério. Mas quando faz isso, você tira um pouco da minha responsabilidade. Eu aceitei estar aqui, não foi? Não é culpa sua. Me deixa arcar com as consequências.
O rompante surpreendeu Shino. Havia verdades naquelas palavras que nunca pensara antes. Seria o seu cuidado um exagero que mais atrapalhava do que ajudava?
— Você se afastou de novo! — Kiba compreendeu a mudança, captando-a através do vinculo — Está relutante! Por quê? Só porque eu disse que estou confuso?
— Sim — Shino respondeu — Se você está confuso com o que sente, não posso avançar e forçar nada sobre a sua vontade. É errado.
— Forçar...? — Kiba balançou a cabeça, jogando gotinhas de agua sobre a superfície da banheira — Forçar?! Isso ainda é por causa da porra da noite do vínculo? Você ainda tá com a minha burrada na cabeça, Shino?
— Não — ele apressou-se a responder.
— Que caralho! Eu não vim contra a vontade, não me forcei a entrar nesse banheiro — Kiba colocou a mão sobre o coração — Aqui tá batendo acelerado, mas não é de medo nem nada ruim. A minha confusão hoje é diferente daquela noite!
Ele terminou o discurso um tanto ofegante, esperando que Shino lhe desse algum argumento contra tudo o que dissera. Receber apenas o silêncio aumentou-lhe o descontentamento.
— Que medo todo é esse, Shino? Não entendo sua atitude. Entendo menos ainda que brigue comigo porque não consigo conversar sobre certos assuntos, quando você também não consegue! Não me ajuda vencer a confusão se apenas se afastar...
Terminou a frase desviando os olhos e encolhendo as pernas contra o corpo, para abraçá-las.
Por longos segundos o silêncio foi peça descomunal naquele cômodo, mais contundente do que a presença de ambos os shifters. Começando a sentir-se sufocado, afinal; Kiba não aguentava ficar quieto muito tempo, ele ousou espiar o outro de canto de olho. E o que viu lhe surpreendeu um pouco.
Aburame tinha abaixado a cabeça de um jeito que sombras escureceram seus olhos, numa expressão séria e tensa que surpreendeu Kiba. Uma sensação inenarrável fluiu pelo vinculo e o arrepiou de um jeito bem ruim.
— S-Shino! — em todos aqueles anos de convivência, era a primeira vez que via aquele rapaz mostrar uma expressão tão pesada. Em seguida as íris revelaram tristeza, incapazes de esconder por mais tempo o tormento que trazia na alma.
— Foi durante a guerra — Shino finalmente encontrou coragem para revelar o que tanto o afligia. Kiba tinha razão, não podia mais guardar aquilo apenas para si — Eu estava fazendo patrulha na fronteira de Konoha. Era noite e estava tudo calmo. Pensei que seria só mais uma ronda normal, mas... eu escutei os gritos. Alguém estava sendo atacado e pedia socorro.
O rapaz fez uma breve pausa, Kiba apenas aguardou, meio entorpecido pela onda de sentimentos que fluíram através do vinculo e o atingiram em cheio. Raiva. Rancor. Ferocidade. Medo. Desespero.
— Quando cheguei no lugar... eu juro... foi a pior coisa que vi até então. Era um Alpha inimigo. Ele estava tentando estuprar uma garota.
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