A Lei do Amor
33 Capítulo 33
Notas iniciais

Novembro se insinuou como um arremedo de inverno que obrigou as pessoas a colocarem roupas mais quentes. E saírem menos de casa. Um mês frio que não combinava em nada com o humor fervoroso de Kiba. O garoto não cabia em si de felicidade. Sua barriga estava crescendo. Crescendo!! Ele começava a parecer mais redondo do que o normal. Perdia muito tempo se observando no espelho e controlando as medidas; fato que o obrigou a comprar várias roupas novas se precavendo para o futuro.
Tsunade reduziu as consultas preventivas para uma vez a cada quinze dias, explicando com riqueza de detalhes todas as mudanças que seu corpo sofreria, agora que entrava na décima sexta semana.
Entre as tais mudanças, ela revelou sobre o deslocamento pélvico. O corpo masculino não era próprio para a gestação, mas Ômegas conseguiam se adaptar, por isso haveria algum deslocamento dos ossos e Kiba poderia sentir dores no local. A princípio não era nada para se preocupar. Mas ela insistiu que deveriam procurá-la, caso o incomodo fosse muito forte ou reincidente.
A primeira vez que sentiu dores, no fim das contas, nem foi por causa disso. Aconteceu numa quarta-feira a tarde, com Kiba deitado no sofá, observando enquanto Shino lia um livro sobre jutsu avançado. Morria de tédio e um pouco de sono, mas não queria dormir.
O Alpha captou certo incomodo súbito e interrompeu a leitura.
— Tudo bem aí?
— Mais ou menos — Kiba mudou de posição no sofá — To sentindo uma dor estranha aqui — colocou a mão no lado do corpo.
— Quer ir pro hospital?
— Não, não precisa.
— Tem certeza?
— Hum... acho melhor a gente ir — Kiba mudou de ideia.
Shino ficou de pé, largando o livro no assento.
— Vou pegar um casaco.
— Não! Espera!! — Kiba desistiu de levantar-se, as sobrancelhas franzidas com força, dando-lhe um ar engraçado, enquanto o rosto corava forte — Acho que... acho que...
— Kiba...?
O garoto deu uma risadinha sem graça.
— São apenas... gases. Já passou — ele deitou-se melhor e puxou o cobertor até o pescoço — Marido, se prepara pra dormir com alguém podre essa noite.
Shino suspirou longamente, mais de alívio do que por outra coisa. Só de pensar no seu companheiro sentindo qualquer tipo de dor, estremecia. As duas experiências passadas cunharam uma marca em Shino, não queria vivenciá-las nunca mais.
Para resumo da história, eventualmente, Kiba teve mais problemas com gases acumulados do que com os ossos da pelve.
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Novembro foi o mês em que Shino recomeçou a receber missões. Ele hesitou a princípio, sem querer que Kiba ficasse sozinho em casa e tivesse que lidar com possíveis emergências.
Por isso, na primeira ausência, Tsume foi cuidar do filho. Para garantir que tudo corresse bem.
Na segunda vez, Kiba não quis incomodar a mãe. Okay, ele ficou meio sufocado com o tratamento dela, que agiu tão gentil que nem parecia sua mãe! Não estava preparado para a nova atitude dela, então depois de uma briga cheia de argumentos inflamados, algumas lágrimas e certa chantagem emocional, Kiba conquistou o direito de não ter babá, nem a própria mãe. Entendia a preocupação dos dois. Mas ele estava bem de verdade, pra valer, sério.
Relutante, Shino concordou. Seria dureza se concentrar na missão, e ainda assim ele cedeu, acreditando nas palavras convictas do Ômega.
A missão foi bem sucedida. E Kiba saiu-se ótimo sozinho (ou não tão sozinho, já que permitiu que Akamaru entrasse um pouco e assistisse televisão deitado no sofá por boa parte da tarde).
Depois disso Shino ganhou confiança para sair em missão, com Naruto e Sasuke, tranquilo de que Kiba realmente estaria seguro. Era como Tsunade garantira: a essência de um Ômega garantia a segurança em toda a gestação, era a natureza dessas criaturas. O contrário só acontecia quando havia interferência externa. Não restava mais motivos para se preocuparem.
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Novembro foi um mês marcante em outros sentidos também. Alguns bem dolorosos.
Depois daqueles meses, quando dezembro se anunciava pronto para chegar, o Conselho de Konoha finalmente se pronunciou a respeito do destino de Ino.
Num sábado pela manhã, um mensageiro bateu na porta dos garotos, entregando uma notificação para ambos, com a sentença pronunciada.
Não foi preciso julgamento ou nada do tipo. Ela confessara tudo, a culpa e o remorso agindo como os maiores incentivos que poderia ter. Porém, o caso esbarrava em entraves jurídicos, por não ter previsão em lei e se mostrar um crime atípico em alguns pontos.
Custou tempo e estudo detalhado da Marriage Law, para que o conselho chegasse a decisão unanime. Infelizmente, para a indignação da população da vila, o aborto causado nos dois primeiros meses não era considerado crime, apenas contravenção de menor teor e Ino não responderia por isso. Mas conseguiram encaixar o mal causado a Inuzuka como tentativa de assassinato, dada a sua condição de Ômega em gestação. E a pena foi aumentada de quarta parte, por ser considerado um crime qualificado. Como sentença, Ino foi condenada a cumprir dez anos em privação de liberdade, sem direito a condicional.
Resultado que não trouxe alegria nem raiva para Kiba. Como poderia se alegrar de algo assim? A decisão egoísta e inconsequente de Ino destruíra a vida da garota e quase destruíra a vida do casal que a consideravam amiga, impondo-lhes uma perda imensurável, dor incalculável. Kiba sentia apenas um grande vazio quando pensava na menina, junto com a certeza de que nunca a perdoaria.
A publicação da sentença atingiu toda a família Yamanaka. Os pais de Ino decidiram fechar a floricultura e partir da vila. Vinham sofrendo hostilidade dos demais moradores, as vendas despencaram gradativamente a ponto de não receberem um pedido sequer naquele mês. Diante das perspectivas ruins, mudar-se e começar vida nova em outra vila pareceu a opção natural.
Essa notícia incomodou Kiba mais do que tudo. Queria ter devolvido o dinheiro deles antes, para sentir-se totalmente livre da família Yamanaka. Talvez um dia descobrisse como, quem sabe.
Tem coisas na vida que não se consegue controlar, por mais que a gente queira.
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Novembro se despediu com um último grande momento. Shino meteu na cabeça que ia construir o berço do bebê com as próprias mãos! E isso era algo que Kiba pagava para ver.
O pai de Shino possuía algumas ferramentas ainda usáveis e foi a elas que o rapaz recorreu. Ele derrubou uma das árvores do quintal e se dispôs a trabalhar na madeira nas folgas entre as missões.
Quando a obra começou a tomar forma, Kiba passou a assisti-lo com interesse.
— Ei marido, esse lado tá mais fino — o Ômega gracejou, distraindo-se em seguida com a nuvem de vapor que escapou de seus lábios e criou desenhos diáfanos no ar.
Era a última sexta-feira do mês, eles tinham almoçado depois de voltar de uma consulta com Tsunade e saíram para a área dos fundos, onde Shino começou a lixar uma das barras laterais do berço por algumas horas. Kiba se agasalhara bem, colocara uma manta ao pé de uma árvore e se acomodara por lá, parecendo uma bolinha de lã por causa das várias blusas e da barriga meio arredondada. A ponta do nariz estava vermelha, denunciando a pouca tolerância ao frio. Roía três palitinhos de Pocky de chocolate; no chão ao seu lado, uma pilha com duas caixinhas vazias e quatro cheias davam o clima de improvisado piquenique. Akamaru, deitado bem coladinho ao seu dono, ajudava a aquecê-lo, além de vigiar cada movimento da mão de Kiba, desejoso de que um Pocky escapasse direto pra seus dentes (o que seria milagre se acontecer).
— Muito mais fino? — Shino ergueu a barra de madeira à altura do rosto, para analisar com cuidado.
— Não muito. Ah, não falei como crítica! Eu gosto de assimetria, quando o móvel é rustico fica mais bonito — Kiba soou distante, como se a mente estivesse a quilômetros dali.
Shino balançou a cabeça. Ele preferia tudo certinho e bem alinhado. Vai entender... logo ele tão sistemático e metódico, se apaixonara por alguém que era o oposto. Almas gêmeas...
Antes de recomeçar o trabalho com a lixa, lançou um olhar para seu companheiro. Kiba estava brincando com um palitinho de Pocky, segurando entre dois dedos enluvados como se o doce fosse um cigarro e soprava vapor no ar frio, dando a impressão de expelir fumaça de nicotina. Tão infantil!
— Tudo bem aí? — o Alpha perguntou como quem não quer nada. Desde a consulta médica, Kiba parecia avoado.
— Hã...? Tá sim, tudo ótimo. Dois dias sem problema com gazes. E sem azia no estomago! Melhor impossível — ele sorriu. Azia era um ponto recorrente e novo. De acordo com Sakura, era indicação de um bebê cabeludo... pelo jeito o filho deles sairia ao Alpha nesse quesito.
— Que bom.
— É impressão minha ou esfriou mais? Minhas mãos parecem cubos de gelo! Nem parece que to de luva!
— Não é impressão não. Nesse inverno teremos neve.
— Oba! Faz tipo mil anos que não neva em Konoha! Vamos construir um boneco de neve? E chamar o pessoal pra uma batalha na neve?
Shino balançou a cabeça, concordando. Apesar disso, duvidava que Kiba conseguisse batalhar naquelas condições. A barriga crescia a olhos vistos. De acordo com Tsunade, a partir da décima sétima semana o crescimento do filhote era ainda mais rápido. Tempo que em que ele começava a “sondar” o ambiente em que estava, brincando com o cordão umbilical e logo, logo, movendo-se e dando os primeiros chutes. Que emoção.
— Será divertido.
— Ne, Shino...?
— Hn? — interrompeu o serviço recém iniciado para dar atenção ao Ômega.
— Vem aqui um pouco... — ele bateu no espaço vago da manta.
Shino largou a madeira e a lixa no chão e foi sentar-se ao lado do companheiro. Imediatamente Kiba enroscou a mão gordinha pela luva na mão de Shino, que trabalhava sem agasalho nos dedos por causa das farpas da madeira que se enroscavam e desfiavam a lã.
— Desse jeito suas mãos vão congelar. Que tal parar por hoje e tomar um banho quente?
O Alpha olhou para o céu. O tempo estava cinzento e frio. A sugestão de Kiba era tentadora, poderiam acabar o dia enrolados no sofá, assistindo algum filme na televisão.
— Parece ótimo.
— É bom, não é? Só ficar juntinho...?
— Com certeza.
— Eu... eu não falo muito isso, hum... acho que nunca falei isso, mas... obrigado — Kiba confessou, com um sorriso singelo que não exibia muito, geralmente dono de sorrisos enormes e risadas indiscretas. Notou a confusão de Shino e continuou: — Por ter me escolhido. Por ter tanta paciência. Por nunca desistir de mim.
A declaração pegou Shino de surpresa. Veio sem nenhuma indicação de constrangimento ou ansiedade pelo vínculo. Tão natural, que ele só pode sentir o impacto.
— Gosto de você. Pra caralho. Como companheiro, como marido, como amigo...
— Kiba...? Tem certeza de que está tudo bem...?
Ao ouvir a pergunta Kiba corou.
— Besta! Claro que to bem! To aqui abrindo o coração e você fica me...
Shino preferiu cortar a reclamação. Passou a mão pela nuca de Kiba, que se arrepiou tanto pelo contato gelado quanto por antecipação. Os lábios se uniram em um beijo cheio de saudade. A primeira vez em mais de dois meses que surgia clima para tal contato mais íntimo.
O palitinho meio roído de Pocky caiu da mão de Kiba, enquanto ele entrelaçava os dedos atrás do pescoço de Shino, em busca de melhor equilíbrio. Akamaru viu ali a chance de matar a vontade e abocanhar a guloseima! Milagres acontecem!
— Tsunade... san... hoje... ela... me disse... — a voz entrecortada ia escapando através do beijo que parecia longe de acabar.
— Disse... o... quê? — Shino não soou nada curioso, mais preocupado em continuar com o carinho do qual sentira muita falta.
— Que... que a gente... pode... fazer... sabe...? Que... não tem... OEEE! — Kiba exclamou de susto quando Shino interrompeu e beijo e se pôs em pé, já erguendo o Ômega em seus braços. Até Akamaru saltou pro lado, surpreendido — SHINO!
— Se são ordens médicas...
Kiba sentiu o rosto pegar fogo. A voz de Shino saíra em um tom rouco que arrepiou cada pelinho do seu corpo!
— T-tarado! — falhou completamente em tentar parecer ofendido. Ansiedade e desejo fluíram pelo vínculo entregando como se sentia de verdade.
Shino não perdeu mais tempo. Foi para dentro da casa em passos apressados, feliz em descobrir porque seu companheiro parecera tão avoado desde que saíram do consultório.
Akamaru assistiu os donos sumirem pela porta, sem grande interesse. Apenas levantou-se e deitou-se na manta, no lugar em que Kiba estivera, e continuava quentinho; sem saber que as coisas no quarto do casal ficariam muito mais quentes. Ou melhor, quase pegariam fogo enquanto tiravam o atraso nos caminhos do amor.
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