A Lei do Amor
23 Capítulo 23
Notas iniciais

Capítulo 23
Adentrar o hospital com Kiba inconsciente e sangrando foi como reviver um pesadelo mil vezes ampliado. A chegada intempestiva do Alpha atraiu todos os olhares das pessoas na recepção e mobilizou a equipe de enfermeiros no mesmo instante.
Graças a algum tipo de milagre ou providência superior, Tsunade já estava no hospital. Inclusive conversava perto do balcão principal com Haruno Sakura. A mulher tomou a frente dos procedimentos. Em questão de minutos Shino entregava Kiba aos cuidados médicos e o assistiu ser levado pelo corredor, após receber ordens expressas de esperar ali e dar todas as informações necessárias para ajudar a entender o que estava acontecendo.
Abalado, Shino fez o que lhe foi pedido. Preencheu as fichas com a recepcionista e resumiu o pouco que sabia, implorando secretamente que aquele pouco servisse de alguma coisa.
Só então ele foi sentar-se numa das poltronas vazias, alheio aos olhares condoídos que recebia das outras pessoas. Mal percebeu quando Sakura acomodou-se ao seu lado.
A garota tinha ido ao hospital confirmar as suspeitas causadas por Kiba, durante o encontro no lago. Fizera uns exames preliminares para atestar se estava grávida ou não. Apenas esperava o resultado.
Acompanhar os acontecimentos recentes deu certa dose de remorso a Sakura, por ter brigado com o Ômega. Ele tinha um jeito muito incomum de falar e agir em situações adversas, isso causou o conflito entre ambos. Mas, no fim das contas, tanto o gesto peculiar quanto as palavras absurdas foram a maneira que ele encontrou de dar uma notícia maravilhosa. Se não fosse por Kiba, talvez demorasse muito mais tempo para descobrir sobre seu bem-vindo filhotinho.
— Shino kun — ela falou suave — Precisa de alguma coisa?
O Alpha não respondeu por alguns segundos, completamente atordoado.
— Inuzuka san — por fim lembrou-se do detalhe — Tenho que avisá-la.
Sakura colocou uma mão sobre o braço dele, tentando passar algum conforto.
— Não se preocupe, eu aviso — e levantou-se para pôr em prática a oferta. Avisaria a mãe de Kiba, depois voltaria para buscar os resultados de seus exames.
Shino sequer agradeceu. Estava mais do que estarrecido, mais do que estonteado. Diferente daquela madrugada, cerca de dois meses atrás, não sentia o desconforto de Kiba através do vínculo. Não havia dor, sofrimento. Não havia nada.
Pela primeira vez desde que podia se lembrar, mesmo na época da simples amizade, quando o que os ligava era um tipo de intuição; naquele momento, a presença do Ômega não estava lá.
Só sentia um grande vazio
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Tsume chegou rápido. Seguindo orientações de Sakura, trouxe uma troca de casaco limpo para que Shino substituísse o que vestia e estava sujo de sangue.
Em poucas palavras ele explicou o que acontecera. E contou sobre a completa falta de notícias sobre Kiba. Ficar sem ter informações só aumentava a angústia.
A matriarca Inuzuka apoiou as costas na parede, em pé ao lado da poltrona de Shino, e cruzou os braços.
Juntos, assistiram a recepção do hospital se esvaziar e se encher novamente. Viram alguns funcionários trocarem de turno, inclusive a moça da recepção. Acompanharam pacientes chegar e sair após receber cuidados, enquanto as horas passavam lentas e morosas e a noite vencia o dia.
Foi apenas na manhã seguinte, ao fim de uma das piores madrugadas da vida de Shino; quase doze horas depois de ter chegado ali, que Tsunade veio pelo corredor que interligava a área de entrada ao interior do hospital.
Imediatamente Shino ficou em pé, mal deu-se conta das manchas de sangue que sujavam o jaleco branco, abstraído pela expressão de seriedade que ela ostentava na face. Nunca tinha visto aquela mulher apresentar um ar tão soturno, que sobrepujava a exaustão de mergulhar no procedimento por doze tensas horas.
— Aburame kun, venha comigo. Precisamos conversar.
Shino lançou um breve olhar na direção de Tsume, agora sentada, que acenou com a cabeça. A médica chamara apenas o companheiro de seu filho. Ela teria que aguentar a aflição por mais algum tempo. Pelo menos Kiba estava vivo, ou Tsunade teria dado a notícia ruim imediatamente e para ambos.
Em silêncio, Shino seguiu Tsunade pelo corredor até um dos consultórios médicos. No caminho, ela aproveitou para pegar copos cheios de café de uma máquina e oferecer para o garoto.
Assim que se sentaram à escrivaninha, a mulher tomou a palavra.
— Não vou atenuar a situação ou pôr panos quentes. O estado de Inuzuka kun é crítico — lançou de uma vez.
— O que aconteceu? — Shino sofreu um abalo visível. O rosto tornou-se lívido e a voz saiu rouca.
— Inuzuka kun sofreu um aborto.
Cinco segundos. Shino demorou cinco longos segundos para entender o que Tsunade lhe revelava e colocar algum sentido lógico nas palavras que ouvira.
— O quê?
A médica girou o copo de papel nas mãos, adrenalina evitava que ela se rendesse à exaustão, contudo as horas passadas em procedimento cobravam seu preço.
— Levamos esse tempo todo para estabilizar o Chacra dele. Mas não posso garantir que seja suficiente. Nunca vi um caso desses antes. Minha equipe e eu sequer chegamos perto de curar o desequilíbrio, mesmo essa estabilidade que conseguimos parece ser algo temporário.
— Aborto...? — Shino repetiu desnorteado. As informações conflitantes anestesiaram sua mente. Acabara de descobrir que poderia ter tido um filho, mas o perdera!
— O que eu vou dizer agora é muito grave e sério, Aburame Kun. Ômegas não sofrem abortos. A não ser que sejam provocados. Precisa me dizer se Inuzuka kun tomou algum remédio para...
— O quê? — Shino cortou a acusação — Provocado? Como? Nós nem sabíamos sobre... a... — sua voz falhou — Tenho certeza de que... isso... não foi provocado.
Tsume recostou-se na cadeira e respirou fundo.
— Força, união e equilíbrio. Essas são as marcas das castas no mundo shifter. Alphas detém a força, não apenas física, mas mental. Betas personificam a união, sem a adesão dos números, um clã não sobrevive. E Ômegas são a harmonia. A vida só existe se houver equilíbrio. Ômegas são vida, Aburame kun. E não sofrem abortos espontâneos — Tsunade falou firme — Seu companheiro está lutando pela sobrevivência, lutando para estabilizar o próprio Chacra. Se ele não conseguir, você não vai perder apenas o filhote. Mas alguma coisa está impedindo a energia de voltar ao normal, provavelmente algo que ele bebeu. E eu preciso saber o que foi, para poder salvar-lhe vida.
— Não... — Shino tentou argumentar.
— Você não está entendendo... — Tsunade cortou o protesto.
— Você não está entendendo — Shino acusou com palavras pausadas, ficando em pé — Você não o conhece como eu. Kiba nunca, nunca beberia algum remédio para...
Desesperado, levou a mão a testa e massageou, antes de dar as costas para a médica e afastar-se um pouco da mesa. Era informação demais para processar!
Tsunade tornou-se precavida. Como uma das pessoas mais fortes de Konoha, sua força era lendária. Mas ainda assim, pertencia a classe Beta. Naquele ponto, o rancor do Alpha a atingiu em cheio e a paralisou por alguns segundos. O tom de voz frio era sinal de perigo maior do que se ele se descontrolasse. Impressionante para alguém tão jovem. Ou talvez não, afinal, era a segurança de seu Ômega que estava em jogo. Sua postura cautelosa aumentou ao ouvir um som estranho e olhar na direção da janela fechada, notando alguns insetos que se jogavam contra o vidro.
— Sinto muito, Aburame kun — ela falou com traços de suavidade em cada palavra — Doze horas de procedimento não é fácil. Você tem toda razão, eu não conheço Kiba tão bem quanto você. Venha aqui, vamos conversar. Me ajude a salvar seu companheiro.
Ela usou o primeiro nome de Kiba, querendo trazer Shino para a realidade. Funcionou. O rapaz relaxou visivelmente, aceitando voltar a sentar-se. Pelo canto dos olhos, a médica percebeu os insetos se dissipando.
— Me desculpe — Shino pediu também — Não estou sabendo lidar com tudo o que me disse.
Tanta humildade fez Tsunade se sentir culpada. Sua atitude até então foi muito mais de acusação do que de suporte. Estava atendendo duas crianças, era a pessoa experiente e madura ali. Precisava saber agir, sem permitir que o desespero por salvar o Ômega atrapalhasse suas ações.
— Não. Eu fui injusta com você, sem necessidade. É óbvio que você não sabia da gestação e é claro que conhece Kiba muito bem.
— Eu não sabia. Nem desconfiava. E Kiba também não, ou eu perceberia através do vínculo — estavam falando de Kiba! O garoto não conseguia ocultar nada por muito tempo, logo dava na pinta e se entregava sem dificuldade. Ele jamais esconderia algo tão grandioso sem deixar a mínima pista. Havia certo desassossego ultimamente, que Shino associava ao desgosto de Kiba em não participar das missões — Quando cheguei em casa, ele não estava sentindo-se bem. Não tivemos tempo de conversar, mas ele pode ter bebido algo para melhorar, sem saber que teria essa consequência.
— Possível — Tsunade anuiu. Apesar de não acreditar ser provável. Apenas uma medicação muito exclusiva e forte conseguiria tamanho efeito em um Ômega. Nada que um casal comum teria em casa para uso corriqueiro. Claro, existiam produtos naturais que induziam ao aborto. Mas nesse caso o uso precisava ser continuo, frequente. Não ocasional.
Ela sentiu urgência. Não estava nem um passo mais perto de descobrir o que causara o triste fato ao garoto Inuzuka. O Chacra dele estava tão desestabilizado que agir às cegas poderia piorar. Tsunade precisava saber exatamente o que tratar e qual contramedida usar. Havia inúmeras técnicas especificas para cada tipo de toxina. Não podia ir testando cada uma delas no corpo do garoto!
Estava de mãos atadas.
— Não o sinto — a voz entristecida de Shino tirou Tsunade de suas reflexões — Pelo vínculo. É como se Kiba não... como se ele...
— Notei essa peculiaridade. A forma de reação do Chacra dele está cem por cento defensiva e voltada para ele mesmo. Nunca vi algo assim e não sei explicar, a não ser, talvez, um grande desejo de se proteger e sobreviver. Mas... o campo é vasto e pouco explorado. Ômegas são maravilhas que não creio possam ser compreendidos em sua totalidade.
Ela passara mais de um mês na aldeia da Areia estudando com os especialistas de lá. E nem tal precaução a preparara para o que enfrentavam.
— Não tem nada que eu possa fazer? — Shino perguntou. Pouca coisa era pior do que apenas esperar.
Tsunade olhou para o copo de café que ainda segurava e no qual não dera nenhum gole. O líquido já estava frio, provavelmente tal qual o de Shino, igualmente intocado. Sentiu-se apiedada pelo rapaz. Que provação era obrigado a passar! Tão jovem ainda... Só não enfrentava algo pior do que o Ômega trazido ali, que agarrava-se a vida com unhas e dentes. Com tanta força de vontade que a energia desestabilizada não conseguira derrotá-lo.
— Vá para casa, Aburame kun — ela suspirou. Culpa ainda pesava sobre seus ombros, por ter agido do jeito errado. Agora precisava dar apoio aos garotos, depois teriam tempo de entender o que causara o aborto. Prioridades antes de tudo.
— Não...
— Vá para casa, procure nas coisas de Kiba com cuidado. Tente encontrar algo que não deveria estar lá, algum remédio, pílula... qualquer medicação. Mesmo que ele tenha ingerido sem querer, ainda precisamos descobrir o que é.
Shino hesitou. Não tinha intenção nenhuma de sair daquele hospital, porém o pedido de Tsunade era muito sensato. E se disso dependia a vida de Kiba, obedeceria mesmo doendo se afastar.
— Tudo bem — rendeu-se.
Tsunade sorriu de leve e colocou-se de pé.
— Ótimo. Por hora é tudo que podemos fazer.
— Posso vê-lo? — Shino a imitou.
— Temo que não — partiu o coração da mulher ter que rejeitar o pedido — Colocamos Kiba em uma sala isolada. Você não tem noção, Aburame kun, mas o Chacra dele está tão instável que a mínima interferência que não seja da equipe médica treinada pode acabar com a frágil estabilidade que conseguimos. Não creio que ele resista a mais doze horas de intervenção...
A revelação atingiu Shino em cheio. Ter que enfrentar a realidade causou um abalo para o qual Shino não se sentia preparado; nem naquele momento, nem nunca.
— Céus... — sussurrou, passando a mão sobre o rosto cansado.
— Kiba não desistiu, Aburame kun. Você também tem que ser firme.
O Alpha balançou a cabeça, concordando.
Juntos seguiram de volta para a recepção. Pesado silêncio os acompanhou. Assim que chegaram ao hall principal, notaram Yamanaka Ino parada perto de Tsume, no lugar vazio de outros pacientes.
Tsunade despediu-se de Shino, dando a ele a tarefa de informar as duas sobre o estado de Kiba e a situação em geral. Depois virou as costas intencionando voltar para seu posto e tentar achar nos livros alguma substância que pudesse afetar um Ômega a ponto de causar-lhe um aborto e ocasionar os sintomas que ele sofria. Entretanto, mal chegou a dar dois passos.
Ino adiantou-se, contorcendo as mãos em aflição. A voz traiu todo o nervosismo quando ela começou a falar:
— Shino... eu... sinto muito! Não pensei que... encontrei com a Sakura e ela me contou sobre o Kiba. Ela disse que... ouviu uns enfermeiros conversando quando voltou para buscar os exames... eu... droga, Shino. Sinto tanto.
O rapaz balançou a cabeça. As notícias corriam rápido! Enfim, todo apoio era bem-vindo. Kiba sentia falta das visitas ocasionais de Ino, por isso ficou feliz ao vê-la ali, tão preocupada.
— Kiba vai sair dessa. Eu sei que vai.
Ino começou a chorar.
— Sinto muito — ela fechou as mãos em punho e abaixou a cabeça — É minha culpa. É tudo minha culpa! Não pensei que depois de... o... chá... o chá de camomila... esse tempo todo... estive fazendo Kiba beber...
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