A Lei do Amor
12 Capítulo 12
Notas iniciais

Capítulo 12
Shino chegou pouco tempo depois da saída de Ino, o que impediu Kiba de pensar muito na conversa que tivera. O garoto ouviu o barulho na porta, e apenas moveu os olhos naquela direção, continuando deitado no sofá.
— Tadaima — Shino disse em tom cansado.
— ‘Kaeri — Kiba respondeu, depois de limpar a garganta. Os olhos, de íris peculiar, mantinham-se fixos no rosto do recém-chegado, de um jeito bem estranho.
Mal tirou os sapatos no gekkan quando Shino notou que Kiba girou sobre o próprio corpo e deitou-se com o rosto contra as costas do sofá. Ficou intrigado com o comportamento, mas era Kiba. Não precisava perguntar, mais cedo ou mais tarde ele deixaria escapar o que estava incomodando agora.
Em silêncio, foi sentar-se no outro sofá.
Kiba, meio que ouviu, meio que sentiu ele acomodando-se, momento que achou seguro retomar a posição inicial. Nesse momento ele notou que o Alpha usava o casaco de sempre e sentiu-se meio idiota por não ter percebido antes.
— Como foi o treinamento?
— Não foi bem um treinamento. Kakashi sensei nos passou algumas tarefas para testar o nosso entrosamento.
— E deu certo?
Shino tirou os óculos de sol e inclinou-se para os colocar sobre a mesinha de centro.
— Naruto e Sasuke não tem uma técnica certa. Eles agem sem planejamento ou sem um plano definido. O jeito é ir no improviso, mas correu tudo bem.
— Kakashi sensei vai supervisionar as missões? — Kiba perguntou curioso.
Antes de responder, Shino deu-se conta de que ele estava a um bom tempo sem piscar, apenas com o olhar fixo em seu rosto.
— Aconteceu alguma coisa?
— Por que tá perguntando?
— Você está agindo estranho...
— Ah... não to agindo estranho, que besteira. A Ino veio aqui e a gente conversou um pouco só isso — pois só de lembrar da conversa ele sentiu o rosto esquentar. Acabou exclamando irritado e levou as mãos até a cabeça para bagunçar os cabelos — Maldita Ino! Encheu meu cérebro de minhocas! Não consigo parar de pensar no que ela disse! E... e... eu to meio curioso agora... pra... hum... olhar... mesmo com o seu casaco seria... meio... MERDA!
— Olhar o quê? — Shino franziu as sobrancelhas.
Antes de responder, Kiba voltou-lhe as costas e escondeu o rosto no sofá. Do angulo onde estava, Shino viu a ponta do indicador, que terminava em uma pequena garra, fazendo desenhos imaginários no estofado do encosto.
— Ne, você sabia que as meninas ficam encaixando os meninos em... escalas de... tamanho?
— Como assim?
— Tipo o que os garotos fazem, medindo o tamanho dos peitos.
Shino coçou a nuca antes de ajeitar-se melhor no sofá. Sim, ele sabia perfeitamente disso. Ou melhor, não sabia com detalhes, é claro. Mas se homens agiam desse jeito infantil, havia grande chance de as mulheres terem atitudes similares. Então Kiba e Ino ficaram conversando sobre rankings femininos e masculinos. Logo somou dois mais dois e entendeu o jeito que seu recém adquirido companheiro estava agindo.
— E em que escala me colocaram?
— Primeiro! — a palavrinha escapou antes que pudesse evitar. Os desenhos com a ponta do dedo pararam — Eu fiquei em quarto.
— Esse foi o assunto da conversa?
Kiba virou-se no sofá e encarou o outro.
— Mais ou menos. Você não ficou incomodado? Mulheres são assustadoras, não pensei que a Ino fosse tão avançadinha em algumas coisas.
Pois Shino passou a mão pelo rosto e pensou por um longo instante em como rebateria aquelas afirmações. Ponderou se deveria mostrar para Kiba que surpreender-se na narrada situação era resultado de um pensamento machista. Um pensamento que restringia a liberdade feminina a um limite menor do que a dos homens. Mas no fim das contas não entrou naquela discussão. Tinham acabado de fazer as pazes no dia anterior por algo similar, não acreditava que Kiba estivesse pronto para outra. O certo era seguir com uma reflexão de cada vez, um pouquinho de cada vez.
— Incomodar-se com algo que não posso mudar ou controlar não faz parte da minha personalidade. Além disso, o que a Ino ou qualquer outra mulher pensa sobre mim não me interessa. A não ser a sua mãe...
— Que tapa!
— Não foi proposital — Shino sorriu. Às vezes seu jeito direto dava a impressão errônea de grosseria. Era algo inerente a sua natureza, que não conseguia mudar ou sequer amenizar.
— Eu sei. Não foi um tapa, mas eu mereci.
— Você ficou incomodado?
— Claro! — Kiba bufou. Quem não ficaria irritado com uma mulher falando sobre o tamanho do órgão genital do seu companheiro? Quer dizer... com o órgão genital de qualquer outro homem! Quer dizer... quer dizer...
Shino ergueu as duas sobrancelhas ao notar que Kiba corava sem poder evitar, chocado com o rumo dos próprios pensamentos. Ele estava mesmo ciumento em relação ao shininho do Shino? Ou melhor, de acordo com o ranking da Ino, com o shinão do Shino? Sério? De verdade?
— Eu... eu... preciso resolver um negócio. Volto logo!!
Kiba saltou do sofá e escapuliu da sala. Exclamando um breve “Itekimasu” ao calçar os sapatos no gekkan. Aburame respirou fundo, divertido. Nem tentou desvendar o comportamento daquele garoto. Não queria acabar com uma dor de cabeça.
Quando saiu da casa, Kiba assobiou chamando Akamaru, mas o cachorro não respondeu. Provavelmente estava bagunçando na floresta. Caminhou com as mãos no bolso, chateado com a vida. De uma hora para outra parecia ter passado por um portal e caído em uma Konoha que o surpreendia a cada segundo.
Mal deu-se conta do que caminho que fazia, até perceber que estava em frente a casa de Naruto, uma das mais afastadas da vila.
— Que droga! — não tinha intenção de ir até lá! Sua distração o havia traído!!
Ia dar meia volta e regressar os próprios passos quando a porta se abriu e Sasuke surgiu por ela como um raio, disparando rua abaixo com passadas velozes. Ignorou Kiba, que devolveu na mesma moeda.
— Ei, Kiba! Não liga pro Sasuke, ele está de mau humor— a voz de Naruto chamou-lhe a atenção. O outro rapaz estava parado à porta, com os braços cruzados atrás da cabeça — O que faz por aqui?
— Nem eu sei. Quer dizer, foi meio sem querer, mas já que eu to aqui vou aproveitar e pedir uma coisa emprestada.
— O quê?
— Uns filmes. Hum... pra me ajudar.
— Entra aqui. Vou te mostrar os que eu tenho.
Kiba sorriu aliviado. Naruto era mais esperto do que pensava!! Obedeceu animado, entrando na casa simples, modesta. Era a primeira vez que entrava ali, descobrindo uma sala pouco mobiliada sem nada de muito destaque.
— Aqui — Naruto mexeu na estante, fuçando entre os livros e bibelôs, pescando algumas caixinhas de DVDs — Tem ação, suspense, desenho. Qual você prefere?
Okay. Conclusão precipitada, Naruto não era assim tão esperto.
— Não... não é esse tipo de filme — Kiba resmungou parando ao lado do dono da casa, aproveitando para observar os itens na estante. Por algum motivo sentiu-se mais a vontade com Naruto. Talvez porque ambos costumavam correr por aí, sempre se metendo em todo tipo de molecagem traquina, o que os aproximava bastante.
— Que tipo então?
— Hum... um filme mais adulto...
Naruto sorriu cheio de dentes, finalmente sacando o que Kiba queria dizer.
— Quer um filme de sacanagem?! Problemas no ninho de amor?
— Teu rabo! — Kiba acertou um tabefe sonoro na nuca de fios loiros.
— Então o que foi? — Naruto perguntou com um bico, esfregando a cabeça dolorida — Filme pornô serve pra duas coisas: adolescente bater uma ou casal esquentar as coisas.
— Não é bem esquentar as coisas — Kiba afastou-se e foi observar a paisagem através da janela — Vocês brigaram?
— Hã?
— Você e o Sasuke. Ele saiu daqui soltando fogo pelas ventas. Aquele dia que a gente se encontrou ele também estava irritado.
Naruto coçou o topo do nariz e foi sentar-se no sofá, enviando um gesto de cabeça para que seu visitante o imitasse. Kiba preferiu ficar onde estava.
— A gente briga noventa e nove por cento do tempo. Nem imagino nosso vinculo sem as brigas.
— Caralho, Naruto. Não consigo me ver discutindo com Shino o tempo todo. A gente teve uma briga domingo e foi meio foda.
— Cada casal tem sua dinâmica, sei lá. Um não é igual ao outro — ele mostrou os dentes em um sorriso de pura felicidade — Ahh você quer o filme pra fazer as pazes com o Shino?
Antes de responder, Kiba foi sentar-se no sofá em frente o dono da casa, meio cabisbaixo e desanimado.
— Não. A gente já tá bem. O filme é pra ajudar porque... porque... a gente não fez ainda... nem uma vez — terminou de dizer e esperou as piadinhas sobre ser um pirralho infantil, mas elas nunca vieram.
— Entendi — foi a única coisa que Naruto disse.
Um pouco mais confiante, Kiba ergueu a cabeça e o encarou.
— Ino disse que esse tipo de filme ajuda.
Naruto cruzou os braços e recostou-se no sofá, ganhando um ar analítico que o deixou um tanto engraçado.
— Ano sa, ano sa... garotas são bem perceptivas sobre esses assuntos, filmes pornô ajudam a esquentar as coisas, mas eu acho que você não devia usar para a primeira vez.
— Não? — Kiba inclinou a cabeça um pouco pro lado.
— Sexo pode ter nenhum significado. Ou muito significado. Se for o segundo caso, eu não levaria algo falso e ensaiado pra servir de incentivo. Ne Kiba, o que você tá fazendo?
— Fazendo como assim? — ele não compreendeu a pergunta.
— Sei lá, essa... coisa boa no ar...? Não tá sentindo?
— Não — Kiba prestou atenção, mas não captou nada de diferente — Ah, deve ser o lance de Ômega que a Ino falou.
Naruto arregalou os olhos.
— Ômegas fazem isso? Posso sentar do seu lado...? Tá gostoso!
— Sim e não — a resposta veio em um resmungo — Não sei porque isso “ativou” nos últimos tempos. Acho que vou perguntar pro Iruka sensei.
O outro esticou os lábios em um sorriso animado e fechou os olhos, como se pudesse aproveitar mais da agradável sensação. Não saberia explicar, mas gostava do que sentia. Muito.
— Naruto, posso te perguntar uma coisa? — Kiba indagou um tempo depois, meio incomodado pelo silêncio e pela expressão de felicidade de Uzumaki. Era estranho!
— Hai, hai — reabriu os olhos e mirou o visitante.
— Como diabos você e o Sasuke ficaram juntos?! Pensei que era afim da Sakura desde sempre...
Por longos segundos, o ninja de cabelos loiros ponderou na resposta que daria. Não havia muito o que explicar. E foi justamente isso que colocou na mesa.
— Nem eu sei. Só aconteceu. Foi... foi durante uma das grandes batalhas. A gente enfrentou um cara muito forte, e o Sasuke foi atingido. Pra valer. Eu... eu pensei que ele morreria. E então senti como se o mundo fosse desaparecer se o Sasuke morresse — Naruto respondeu um tanto sério, reflexivo — E naquele momento não havia Sakura, nem Konoha ou guerra, nem nada. Só o Sasuke sangrando nos meus braços. Nunca senti uma dor como aquela, sabe? Eu não estava ferido, mas sentia que também poderia morrer.
— Que foda, Naruto!
— Ne, Kiba, eu nunca fui inteligente ou maduro, mas aprendi muito com a guerra. Eu aprendi que um segundo muda tudo, em um segundo você perde o que é mais importante na sua vida. Antes mesmo de perceber que é tão importante assim. Quando pensei que ia perder o Sasuke eu senti medo e solidão, mais do na época que eu era criança e ninguém falava comigo. E entendi que o que sentia pela Sakura não era nada perto do que eu sinto por ele, que estava camuflado em competição infantil e antipatia.
Kiba não disse nada, absorvendo as palavras que ouvira. Não um relato detalhado, mas emocionado o bastante para satisfazer sua curiosidade inicial.
— A gente briga bastante, porque temos visões bem diferentes sobre as coisas. E apesar disso continuamos juntos. Ele também não aguenta ficar muito tempo longe de mim — Naruto afirmou um tanto cheio de si.
— A guerra marcou a vida de todo mundo. Pelo menos aconteceu uma coisa boa pra vocês, no meio de tantas ruins.
— Não sei se tenho um conselho pra te dar. Mas uma coisa eu digo: o lance do filme parece furado.
— Então o que eu faço?! — Kiba soou meio desesperado.
— Relaxa! Sexo é uma coisa natural e flui. É tipo bater uma, mas com alguém ajudando. É bom, tem calor e contato. Você baixa todas as barreiras e entrega tudo que tem de melhor, pra receber o melhor em troca — Naruto deu de ombros — É o que eu acho. Sasuke sempre me chama de idiota quando eu falo essas coisas. Mas se ainda quiser o filme eu empresto e você tenta.
— Você mudou, Naruto! — o outro soou sinceramente surpreso.
Uzumaki riu e cruzou as mãos atrás da nuca.
— A gente passou por uma guerra, cara! Quem não muda depois de algo assim?
A pergunta foi uma punhalada em Kiba, a ponto de fazê-lo encolher-se de modo quase imperceptível. Ele teve um insight. Sabia qual era a resposta nua e crua para a indagação.
“Eu. Foi eu quem não mudou”.
No fim das contas, Inuzuka Kiba saiu de lá sem levar nenhum filme, mas carregado de ponderações e pensamentos reflexivos. E com um convite enfático para voltar ali quando quisesse, com sua “coisa de Ômega”.
Ele fez o caminho de volta sem pressa, com tranquilidade e animo renovado. Acompanhado de duvidas? Sim. E também um novo sentimento de leveza.
Ao chegar em casa, anunciou-se enquanto tirava os sapatos no gekkan. A resposta de Shino soou da cozinha. E foi para lá que se dirigiu, parando encostado no batente da porta.
Permitiu-se assistir enquanto Shino, de costas, picava alguma coisa no balcão. Pelo cheiro, eram ervas e temperos.
— Você demorou.
— Desculpa, estava conversando com Naruto.
Partes da conversa voltaram a mente de Kiba. Principalmente sobre como aqueles dois ficaram juntos. Como a guerra e a iminência da perda os uniu mais do que qualquer coisa.
Como seria? Como seria ver Shino ferido em seus braços? Como seria viver em um mundo em que ele não existisse?
Forte emoção impediu Kiba de formular uma resposta. A garganta se fechou, dolorida e ele deu-se conta de que sequer queria pensar em tal hipótese. Em tal possibilidade. Um mundo sem Shino? Piada de mau gosto. Ele estivera sempre ao seu lado. Como imaginar algo diferente? Fosse como amigo, fosse como companheiro, precisa dele junto a si.
Um passo de cada vez.
Mas é preciso dar o primeiro.
Shino estranhou o silencio prolongado e a sensação pálida de desespero que recobriu o ambiente. Antes que dissesse alguma coisa, sentiu um toque leve em seu ombro. Virou o rosto para atender ao chamado mudo de Kiba, surpreendendo-se ao vê-lo tão perto, invadindo-lhe o espaço pessoal sem hesitação.
O garoto esticou-se um pouco, apoiando-se nas pontas dos pés para alcançar a altura certa. Os olhos semicerram-se.
E os lábios se tocaram.
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