A Lei do Amor
6 Capítulo 06
Notas iniciais
Capítulo 06
— Sim, senhor — Kiba observava a caneca com chá — Shino vai conversar com a minha mãe na quarta-feira. O vínculo deve ser feito no sábado — ele remexeu-se na cadeira, inquieto — Ahhhh, Iruka sensei! Tem uma coisa que tá fritando o meu cérebro! Como é que um Ômega macho pode engravidar?! Isso não é coisa de fêmea? E.. bem... eu nunca vi um Ômega gravido — terminou lançando um olhar que era pura angustia para o professor.
Iruka respirou fundo. Aproveitou aquelas questões como a ponta do fio que desataria toda a meada.
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— Você sabe qual é a característica mais importante para a sobrevivência de uma raça? — o professor perguntou.
Kiba pensou por um instante. O primeiro impulso foi responder algo como “força” ou “poder”. Reconsiderou e refletiu um pouco mais.
— Adaptação...? — perguntou incerto.
— Exato — Iruka assentiu — Muitas espécies fortes passaram pelo mundo antes dos shifters, mas eram criaturas pouco adaptáveis ao meio ambiente em que viviam e isso as levou à extinção. Por outro lado, tem espécies que sobrevivem desde eras ancestrais, que não são fortes, mas reagem rápido e de modo eficiente a qualquer mudança repentina.
— A gente aprendeu isso na aula.
— Sim. Por exemplo, tem espécies de animais que podem mudar de gênero no decorrer da vida para atender as necessidades de perpetuação da espécie(1) e conseguir...
— Eu vou virar uma fêmea?!! — Kiba saltou da cadeira e interrompeu a explicação. O rosto estava lívido.
Iruka ergueu as sobrancelhas, assombrado com a rapidez e o rumo da conclusão que seu aluno alcançara.
— Não, Kiba kun. Você não vai virar uma fêmea.
— Ah, que susto! Eu não quero virar uma garota. Eu gosto muito de ser macho, obrigado. Eu nunca saberia viver sem o meu pin... pa... pênis! — tentou corrigir a gafe, apesar de o rosto corado trair o constrangimento que sentiu. Sentou-se novamente.
Iruka limpou a garganta, ignorando a parte final.
— Você não deixará de ser macho. Embora o seu corpo vá se adaptar para atender as necessidades da concepção. O vínculo, mesmo que temporário, é o primeiro passo para a mudança. Depois da primeira cópula...
Nesse ponto Kiba inclinou as costas e deixou a testa bater de um jeito doloroso contra o tampo da mesa.
— Professor!
Iruka conseguiu não sorrir.
— Sim...?
— Não sei se quero saber de detalhes “desses”. Tipo, por dentro vai aparecer coisas de fêmea em mim? — ainda não teve coragem de erguer o rosto.
— É o que chamamos de uterus nullus. Um processo que se inicia após a primeira cópula e demora em média três meses para se concretizar. Além do desenvolvimento de um útero e um número limitado de óvulos, o corpo também propicia uma ligação entre o canal retal e...
— Professor! — Kiba cruzou os braços em cima da cabeça.
Dessa vez Iruka se permitiu sorrir.
— Muita informação?
— Pra caralh... digo, sim, senhor! Muitíssima informação! Pra que mudar isso assim? Não é mais fácil um macho engravidar uma fêmea? Só porque eu sou um Ômega tenho que passar por isso? Por que com Ômegas?!
— Por que os pássaros voam? — Iruka perguntou suave.
Depois de alguns segundos de silêncio, Kiba levantou-se um pouco, cruzou os braços sobre a mesa e descansou o queixo sobre eles.
— Porque eles tem asas.
— E por que eles têm asas?
— Sei lá, porque são pássaros e nasceram desse... Ah. Entendi o ponto.
— As questões filosóficas sobre porque as coisas são como são fogem ao meu alcance. Se Kiba kun quer debater sobre isso, para ajudar a entender a situação, posso pedir para que outro sensei te ajude. O próprio Hokage chegou a escrever alguns pergaminhos sobre filosofia. Seja uma questão existencial ou evolucionaria, o fato é que Ômegas passam por isso.
— Tá. Não quero ficar debatendo filosofia porque não vai mudar nada e eu não tenho uma cabeça boa pra ficar refletindo — Kiba sentou-se direito e pegou um biscoito — Pássaros voam, Ômegas engravidam, vida que segue.
Dessa vez Iruka riu. Queria acreditar que o garoto estava tão relaxado e tranquilo quanto tentava parecer, mas era óbvia a tensão por trás do jeito descontraído.
— Então vamos continuar sem muitos detalhes.
— Essa mudança vai ser pra sempre? — Kiba perguntou.
— Enquanto durar o vínculo e as relações sexuais. Caso continuem juntos depois do período obrigatório e não queira mais filhos, você pode tomar hormônios de inibição que vão forçar seu corpo a voltar a ser o que era, e isso inibe futuras gestações.
— Ah! — o menino sorriu mais animado — Entendi. É por isso que Iruka sensei e Kakashi sensei não tem filhos?
A pergunta já era esperada por Iruka. Afinal, ele próprio era um Ômega, casado há alguns anos com um Alpha.
— Não exatamente. Eu não tomo nenhum remédio. E essa é uma questão bem controversa na lei. O Hokage tentou usar para não obrigar os shifters a se unirem, mas não adiantou muito — suspirou — Nem todo casal consegue conceber, por vários motivos. O ponto principal na natureza é o equilíbrio e a harmonia. Quando algo abala essa estrutura, a própria natureza toma as providências.
Iruka não entrou em detalhes. Achou que seu aluno não precisava ir tão a fundo na intimidade dele e de seu parceiro. Kakashi era um Alpha nascido na mesma época em que um número acima do normal de Alphas também nascera. E, surpreendentemente, alguns desses homens era estéril e não teria filhos jamais. A chance de um Alpha gerar outro Alpha era maior do que um Beta dar a luz a um Alpha. Evitar a reprodução em demasia da casta era nada mais do que a mãe natureza igualando a balança, em tempos de vários Alphas e poucos Ômegas, tempos de desiquilíbrio.
— Oh! Pode ser que Shino e eu não tenhamos nenhum filho então?
O professor aproveitou o momento para repor os biscoitos de gengibre e colocar mais chá quentinho nas canecas.
— Existe a chance — Iruka balançou a cabeça, embora não acreditasse seriamente na possibilidade. O argumento usado pelo conselho e que derrubara os protestos do Hokage era esse: viviam tempos de ausência de shifters de todas as castas, não o contrário.
— Daí a gente vai ter que ficar um ano juntos e prorrogar o tempo à toa?
— Sim. E depois recorrer da decisão da lei e conseguir a dissolução do vínculo, se for o caso.
— Ah — Kiba ponderou o assunto mais um pouco — Mesmo assim não é comum ver Ômegas grávidos por aí.
— Questão de estatísticas. Quantos Ômegas macho você conhece? De qualquer idade.
— Contando comigo e com Iruka sensei, conheço mais um.
— Três. Desses três, quantos tem relacionamento homoafetivo?
— Só o senhor — a resposta veio sem hesitação, seguida por breve rubor — E eu.
— E quantos Betas macho você conhece?
— Um monte! — sorriu — E vários deles tem relacionamento com outros caras.
— Viu, mera questão de números. Existem muitos Betas, logo a diversidade entre eles é maior. Mas Betas macho não engravidam, por isso não é comum ver homens dando a luz.
Kiba balançou a cabeça satisfeito com a explicação que fazia muito sentido.
— Ômegas fêmeas também passam por isso, se tiverem um vínculo com uma Alpha fêmea?
— Não — Iruka respondeu — Esse é um processo que afeta apenas os machos.
— Que injusto! Por quê?! — Kiba revoltou-se.
— Hum... por que os pássaros voam? — Iruka devolveu a pergunta, sorrindo.
— Ah, todo o lance filosófico lá. Entendi. Quer dizer, entendi que tem coisas que não adianta querer explicar, a natureza que sabe o que faz.
— Algo assim.
— E vai sair pela barriga né? — Kiba lançou a pergunta de supetão. Ao ver a confusão expressa na face do professor, tratou de reformular a pergunta, sentindo a face esquentar — A... criança... o bebê... meu... hum... filhote... Pelo menos isso eu sei, Iruka sensei!
— Ah, claro. O procedimento para o parto é a cesariana. Já é usado há muito tempo, inclusive por fêmeas. É muito seguro.
— E depois eu que cuido da criança?
Iruka balançou a cabeça.
— Não conheço a lei profundamente, mas os pais podem optar por ficar com a criança ou entregá-la para a adoção. Caso resolva ficar com o bebê, existem ainda duas possibilidades: se manter o vínculo com Shino kun, serão uma família, simples assim. Se escolher dissolver o vínculo temporário, você terá a guarda integral por dois anos, o outro pai tem direito a visitas nos fins de semana. Após os dois anos a guarda torna-se compartilhada, o Hokage estabelecerá os termos da divisão.
— Quanta coisa!! — Kiba pareceu meio apavorado.
— São detalhes nos quais não precisa pensar agora — Iruka tratou de tranquilizá-lo, um tanto comovido.
— Isso vai mudar minha vida pra cara... ca... — corrigiu o palavrão a tempo — Mas vai mudar a vida de todo mundo, não é? Encontrei com a Ino e ela parecia bem chateada.
— Tem obrigações que um shifter não pode fugir.
— Um Inuzuka nunca foge! — Kiba riu — Mais fácil parir o filho do que enfrentar a minha mãe. Iruka sensei, obrigado por me receber. Acho que já chega por hoje!
— Não tem mais dúvidas?
— Um monte! Mas não sei se vai caber mais alguma coisa na minha cabeça, meus miolos já tão fervendo. O principal já to sabendo e me deixou muito mais tranquilo. Eu não fazia ideia de como ia botar um filhote na barriga, quer dizer, até tinha uma ideia do “como” — ele corou mesmo sem querer, movendo-se desconfortável na cadeira — Bem, o senhor sabe o que eu quis dizer. Também gostei que não foi uma aula tipo as da academia, foi mais um bate papo. Muito obrigado.
Iruka sorriu.
— Kiba kun, Caso tenha mais alguma dúvida, qualquer dúvida, venha falar comigo. Não busque informação em revistas, muitas delas são bem fantasiosas.
— S-sim, senhor — ele respondeu depressa.
— Pode vir quando quiser conversar. Não tenho previsão de retomar as aulas na totalidade imediatamente. E as missões não tomam muito tempo. Como você disse, a vida vai mudar bastante daqui pra frente, mas você não está sozinho nessa. Ninguém quer que o vínculo seja uma tortura ou uma situação por demais desagradável.
Kiba balançou a cabeça com gratidão. Estava frente a frente com um desafio imensurável e não planejado. Enquanto recebesse apoio e compreensão das pessoas ao seu redor, sabia que poderia cumprir o que a lei exigia.
Sentiu que tudo daria certo no final.
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