A Lei do Amor
2 Capítulo 02
Notas iniciais

Capítulo 02
Inuzuka Kiba achava que estava enrascado. Ele tinha que estar enrascado, não? Por que outro motivo o Hokage convocaria aquela reunião, chamando não apenas ele próprio, mas sua mãe?
Incrivelmente, Inuzuka Tsume não parecia nervosa, como seria de se esperar da mulher de pavio curto. Pelo contrário, sua mãe estava em pé no corredor, apoiada na parede, com os braços cruzados, observando distraída os poucos shifters que iam de um lado para o outro, apressados.
Isso deixou Kiba intrigado. Seria os efeitos da guerra sobre sua mãe? Em uma situação normal já teria levado uns dois tabefes doloridos na orelha e sido interrogado à exaustão até confessar o que sequer tinha feito...
Suspirou desanimado. O pós-guerra era tão complicado quanto passar pelo conflito. Quer dizer, não tinha as lutas, os feridos e os mortos, a insegurança do ataque e o medo de perder uma pessoa importante; alguém da família ou um amigo.
Mas sem a luta, o que restava? Encarar os estragos sem poder desviar os olhos. Enfrentar o vazio de quem partira e nunca mais estaria ali com eles, reconstruir sobre os destroços físicos e emocionais herdados por quem tinha a sorte de continuar vivo. Sorte...?
A garganta do garoto apertou. Não sabia dizer se era sorte ou não. Sua única certeza era a dor de ter perdido a irmã mais velha. Hana e ele eram muito unidos, como os bons irmãos devem ser. Uma das primeiras vítimas da guerra, que falecera em um ataque traiçoeiro durante uma vigília.
E ainda doía tanto pensar na irmã.
Estava distraído na reflexão a ponto de quase não notar Naruto passando pelo corretor. O colega de escola ia com as mãos cruzadas atrás da cabeça e um ar estranho de certa satisfação. Ainda que não sorrisse, Naruto parecia feliz com alguma coisa.
Cumprimentou-o com um aceno de mão e seguiu seu caminho. A presença do garoto intrigou Kiba. O que significava? Que não tinha aprontado nada na verdade, como imaginara a princípio?
Passou o indicador pela marca vermelha na bochecha, gesto que fazia sempre ao se sentir nervoso. Todavia, nem ponderou muito nas dúvidas. Ouviu a voz do velho Hokage solicitando-lhes a presença. E eles o obedeceram.
— Kiba — Tsume falou baixo, um pouco antes de entrar na sala — Você é um Inuzuka, não me faça passar vergonha.
A ordem foi dada de forma um tanto seca, graças ao jeito pouco afetuoso e selvagem da mulher. Nada que causasse estranheza. Quer dizer... nada além do próprio pedido em si. Sem responder, a seguiu até que estivessem em frente ao responsável mor por Konoha.
— Agradeço muito que tenham vindo, Inuzuka-san, Inuzuka-kun — ele foi dizendo enquanto fazia um gesto para que sentassem — O assunto é de certa urgência, e temo que não pode ser classificado como ‘agradável’.
— Faço uma ideia do que seja — Tsume revelou do seu jeito direto, ao contrário de todos os rodeios que o Hokage fizera naqueles breves segundos introdutórios.
A frase ganhou um olhar surpreso de Kiba. Sua mãe sabia o motivo da convocação?! E por que não lhe dissera nada? Por que o deixara no escuro da ignorância? Entendeu, em partes, o motivo de não ter levado aqueles tabefes...
— Isso facilita nossa conversa. Vou explicar ao jovem Inuzuka, já que diz respeito a ele, especificamente. Creio que, como outros da sua geração, nunca ouviu falar sobre a Marriage Law.
Kiba franziu as sobrancelhas. Olhou da mãe para o Hokage, os olhos inquietos revelando mais do que tudo seu desconhecimento sobre a mencionada lei.
— Não.
— É uma lei muito antiga, de tempos primordiais na sociedade shifter, que só é clamada após grandes conflitos. Todos nós, povos do continente, perdemos pessoas importantes durante a guerra. Konoha não foi exceção à regra.
Kiba balançou a cabeça depressa, a garganta apertou. Claro que sabia disso. Sua querida irmã perdera a vida em um dos primeiros embates. Tudo o que tinha agora era sua mãe, da já reduzida família.
— Sim, senhor — foi o que disse com a voz meio rouca de emoção. Pelo canto do olho notou a postura firme de sua mãe. Sabia que ela sofria muito mais do que qualquer um por perder uma filha, porém Tsume era dura, dificilmente demonstrava os sentimentos.
— Tantas mortes trazem consequências a longo prazo para a raça shifter. Consequências que podem ser irremediáveis, caso não tomemos alguma providência. Principalmente a renovação da próxima geração — o Hokage continuou a explicação — A Marriage Law foi instituída com essa intenção, a de unir shifters que se enquadrem em certos requisitos em um vinculo, que pode ser definitivo ou não, para que juntos ajudem a aldeia nos abençoando com um filhote.
Kiba moveu-se desconfortável na cadeira. Não era a criatura mais inteligente da sua turma do colégio, mas que um raio caísse na sua cabeça se ele não tivesse entendido cada uma das palavras nas entrelinhas.
— Tipo... tem uma lei obrigando os shifters a se casar e ter filhos?! — perguntou um tanto chocado.
— Não necessariamente “casar”, o vinculo também pode ser temporário. Nos termos da lei, existe o período mínimo de coexistência do casal, ou seja, um ano morando juntos e unidos por um laço, tempo suficiente para um filhote ser gerado e nascer. Depois disso o casal está desobrigado a continuar unidos pelo vinculo, a opção fica a critério de ambos.
Isso fez o garoto engolir em seco. Até a mais lenta das criaturas entenderia claramente. O Hokage o chamara ali para cumprir a lei. E por isso sua mãe viera junto, ainda era menor de idade e precisava do responsável legal.
Precisaria escolher uma garota, morar com ela, engravidá-la e ser pai! Era um bocado de informação pra processar. Notou que o Hokage continuava falando, forçou a mente a se concentrar nas palavras dele.
—... nossa prioridade são os shifters solteiros em idade equivalente, porque assim temos maior chance de que os vínculos se tornem definitivos — ele começara com os mais velhos, agora chamava os adolescentes.
— Sim, senhor — foi a única coisa que conseguiu dizer. Quem iria escolher? Sabia que Sakura estava fora de questão, a garota era muito chata! Hinata era apaixonada por Naruto (todo mundo sabia disso). Ino...? Não, ela tinha aquela paixão obsessiva pelo besta do Sasuke. As opções não eram muitas.
— Nossa hierarquia é muito rígida em determinados aspectos, Inuzuka-kun. E isso nos coloca em posições... delicadas. A prioridade foi chamar os Alphas da vila, porque eles tem preferência sobre outras castas. Os próximos serão os Betas, mas como o seu nome já foi escolhido, o conselho achou por bem convocá-lo e adiantar os procedimentos do caso.
Kiba sentiu um arrepiozinho chato eriçar os pelinhos da sua nuca. Como assim já fora escolhido? Sakura, Hinata e Ino, nenhuma das três era Alpha. Talvez a Tenten? Ela era um ou dois mais velha... não lembrava se a menina era uma Alpha ou Beta. Teria preferência por garotos mais novos? O que sabia dela? Parecia uma boa pessoa...
—... pode declinar da escolha, claro, Inuzuka-kun. Não é obrigado a aceitar o vinculo com alguém que seja do seu desagrado. A intenção da lei não é punir ou causar sofrimento. Não queremos que os novos filhotes venham ao mundo em um lar hostil.
— Se ele declinar da escolha quais são as opções? — Tsume interferiu na conversa.
— Aguardar até que um novo Alpha faça a escolha. Se não houve compatibilidade com nenhum, será a vez dos Betas.
— Mas... mas... — ele fitou o Hokage de um jeito aflito — Pensei que eu que ia escolher a fêmea!
— Quieto, Kiba — Tsume rosnou — Tá me fazendo passar vergonha.
— Por quê?! — o menino soou inconformado.
O velho Hokage limpou a garganta chamando a atenção para si e tentando desanuviar a situação que podia ficar embaraçosa.
— Simples questão de hierarquia, Inuzuka-kun — ele afirmou de modo gentil — Na nossa sociedade Ômegas não escolhem. Ômegas são escolhidos.
Kiba sentiu o rosto esquentar, num tom de vermelho que quase se igualou as marcas que eram características do seu clã. Na sociedade shifter, a harmonia entre as castas era quase de contos de fadas. Poucas vilas podiam se gabar de ter tanto respeito entre Alphas, Betas e Ômegas quanto Konoha tinha. Embora tal fato não eximisse cada seguimento de seus direitos e obrigações. Alguns bem injustos na opinião de Kiba. Mas não evidentes no dia a dia, a ponto de sentir-se amargo por não ser um Alpha ou Beta. Apenas em momentos singulares ser um Omega chegava a ser realmente um impasse.
Pensou em reclamar da injustiça, mas o olhar de sua mãe o congelou no lugar. Lembrou-se que ela já desconfiava do assunto que os trouxera ali, talvez ouvindo de um dos amigos mais velhos. Principalmente, recordou-se das palavras dela momentos antes de entrarem naquela reunião. Acabou se calando.
— Eventualmente você terá que aceitar o vínculo com alguém. A lei é muito rigorosa com Ômegas, por sua posição social.
— Quantos anos de reclusão? — Tsume perguntou sem rodeios. Sentiu o olhar confuso que seu filhote lhe dirigiu, acabou amaciando a voz — Se não cumprir a lei, você vai preso, Kiba.
— De cinco a oito anos em regime fechado — Sarutobi cruzou as mãos sobre a mesa — Não queremos obrigar ninguém a nada, mas também não podemos abrir exceções ou permitir que alguém não cumpra a lei.
— Se eu não me vincular e tiver um filho... vou preso?!! — o garoto soou chocado.
— Sim, Inuzuka-kun — o olhar do Hokage era cheio de compaixão, embora firme — A pena para Ômegas são mais duras, porque vocês são os mais importantes na questão da reprodução shifter. E a Marriage Law é exatamente sobre isso. Reprodução da espécie.
Kiba forçou saliva garganta abaixo mais uma vez. Que situação miserável!! Foi impossível não se sentir um pouco humilhado por não poder escolher a parceira. Mas não adiantava nada reclamar. Não mudaria a realidade, nem resolveria o problema imediato.
Quão ruim poderia ser? Ia conviver com uma fêmea por um ano, teria que fazer sexo com ela, engravidá-la e tornar-se pai. Depois era só desfazer o vinculo, ainda que continuasse cuidando da criança. Nunca daria as costas pra um filhote Inuzuka.
Tudo acontecia muito rápido e sem planejamento. Mas assim era o mundo shifter, não? Sobreviver na sociedade era mais questão de adaptabilidade do que força.
Das fêmeas que conhecia, Kiba só tinha um pouquinho de medo de Haruno Sakura (a garota era doida de pedra e tinha um gênio terrível). Poderia conviver bem com qualquer outra menina da qual se lembrava.
E se uma shifter o escolhera (fosse lá quem fosse), significava que havia sentimentos envolvidos, não?
— Não vou fugir do meu dever. Sou um Inuzuka — ele falou confiante, notando como a mãe estufava o peito de orgulho — Eu conheço a menina? Ela tem a minha idade? Não é a Sakura, é? Por favor, diz que não é ela!
Sarutobi sorriu de leve, recostando-se na cadeira. Parecia tocado com a inocência da juventude, a inocência de quem mal começou a vida; que está acostumado a admirar o todo, sem prestar atenção aos detalhes.
— Ômegas são criaturas realmente incríveis, Inuzuka-kun. Sabia disso?
— O-obrigado — Kiba respondeu incerto.
— Sua condição especial é precedente para que situações especiais se descortinem a nossa frente. Exatamente como a que está prestes a enfrentar.
— Não entendi... — o garoto olhou rapidamente para a mãe, sondando a expressão neutra. Se ela compreendia o que o Hokage estava falando não deixou transparecer — Ela é muito mais velha do que eu? — isso excluía até mesmo a Tenten da lista.
— Não é “ela”, Inuzuka-kun — o hokage não viu como amaciar a revelação — É um Alpha macho que te requisita.
— O-o quê?! — ele estremeceu tamanho o impacto do que ouvira. Até mesmo Tsume parece surpresa — Q-quem... quem...?
— Um amigo muito próximo — Sarutobi voltou a sorrir — Aburame Shino.
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