A Lei da Amizade

6 Capítulo 6 - "Quando os Laços Encontram o Abismo"


Notas iniciais
Aoi comunica a todos a ida de Asami para Paris.

Paris — Aeroporto Charles de Gaulle — 5h42 da manhã

O avião vindo do Japão aterrissa suavemente, mas o clima que envolve seus passageiros está longe de ser tranquilo. Nanaka desce primeiro, com a mochila apertada contra o peito, e respira o ar frio do amanhecer parisiense. Seu coração batia tão forte que parecia ecoar dentro dos ouvidos. Os outros amigos descem logo em seguida: Shuri, Shuu, Tsubaki, Watari e Hidaka, que observa Nanaka com expressão indecifrável.

— Estamos mesmo aqui… — murmura Shuri, olhando ao redor, emocionada.

— Infelizmente não pelas razões que gostaríamos… — diz Tsubaki, apertando os braços.

Nanaka engole seco.

Ela sente uma mistura estranha: medo, expectativa, dor, urgência. Em sua cabeça, as imagens de Kousei chorando sozinho no porto martelam sem parar.

— Precisamos encontrar o Kousei o quanto antes — diz Nanaka, firme.

— Sim — responde Shuu. — Já marquei com a Aoi. Ela vai nos encontrar no porto. Kousei não quer sair de lá desde que chegou.

Watari ajeita a mala nas costas e suspira profundamente.

— Vamos, então. O quanto antes chegarmos lá, melhor. Se ele está daquele jeito que a Aoi descreveu… a gente precisa ser rápido.

Hidaka, silencioso até então, coloca uma mão no ombro de Nanaka.

— Você dormiu? Nem um pouco, não é? — pergunta ele, tentando ser gentil.

— Não consegui — responde ela. — Não paro de pensar no Kousei… e na Kaori.

A palavra Kaori faz todos ficarem quietos.

Dói.

Arde.

Corta.

Táxi para o porto — 6h20

O grupo se aperta em dois carros. Nanaka, Tsubaki e Shuri vão no primeiro. Hidaka, Shuu e Watari seguem no segundo.

Nanaka olha pela janela, vendo as ruas francesas ainda despertando. Flores nas janelas, padarias abrindo, o cheiro de pão quente escapando para o frio da manhã. Tudo tão bonito. Tão vivo. Tão irônico.

— A Kaori ia amar ver isso… — diz Shuri, com a voz embargada.

Tsubaki baixa o olhar.

— Não consigo imaginar Paris sem ela… parece errado… parece que a cidade inteira ficou cinzenta.

Nanaka fecha os olhos por um instante.

Ela lembra da última mensagem que Kaori enviou antes do acidente:

"Estou voltando para Dragon City. Tenho uma surpresa preparada para o Kousei."

Nanaka aperta suas mãos no colo.

— Kousei deve estar em pedaços…

No carro atrás, Hidaka observa o carro da frente pela janela.

— A Nanaka está… diferente — comenta Shuu, percebendo o olhar fixo do amigo.

— Diferente como? — pergunta Watari, curioso.

Hidaka hesita.

— Mais… conectada ao Kousei. Desde que fizemos a reunião no clube… ela só fala nele. Ela vai se machucar se continuar assim.

Watari cruza os braços.

— Hidaka… com todo respeito… esse não é o momento. A Kaori desapareceu. O Kousei está destruído. A Nanaka só quer ajudar.

Hidaka aperta os lábios, desconfortável.

— Eu sei. Mas… — ele olha pela janela novamente — …isso me assusta.

Shuu o encara por alguns segundos e então diz:

— Hidaka… não é hora de você querer disputar nada. O Kousei está quebrado. A Nanaka está assustada. Não coloque mais peso nisso.

Hidaka não responde.

Mas dentro dele, algo se contorce.

Porto de Paris — 7h02

A névoa ainda cobre parte da água quando os amigos chegam. Não é difícil encontrar Kousei, ele estava sentado exatamente onde Aoi havia dito. Com as costas arqueadas, mãos entrelaçadas, cabelo bagunçado. Parecia ter envelhecido dez anos.

Aoi está ao lado dele, segurando um copo de café já frio.

Quando vê o grupo se aproximando, ela se levanta rapidamente.

— Vocês vieram… vocês realmente vieram — diz Aoi, com os olhos marejados.

Nanaka corre até ela e as duas se abraçam com força.

— Aoi… estamos aqui agora. Não vamos deixar vocês sozinhos.

— O Kousei está… — Aoi tenta falar, mas sua voz falha. — Ele está pior do que vocês imaginam.

Os amigos respiram fundo.

Tsubaki é a primeira a dar um passo à frente em direção a Kousei.

Ela se ajoelha ao lado dele.

— K-Kousei… — sua voz falha. — Estamos aqui… nós viemos… por você… e pela Kaori…

Kousei não reage no início.

Ele só continua olhando para o mar.

Nanaka se aproxima devagar, com o coração na garganta.

— Kousei… — ela diz suave, quase sussurrando — …você não está sozinho.

E então, finalmente, ele vira o rosto.

Os olhos dele…

Eram os olhos de alguém que perdeu o chão, a alma, o ar.

Ao ver os amigos, Kousei simplesmente desaba.

As lágrimas escorrem de imediato, e Nanaka se ajoelha ao lado dele, abraçando-o sem hesitar.

— Eu… eu não sei… o que fazer… — ele chora. — Não sei como respirar… não sei como existir…

Tsubaki abraça os dois.

Watari se junta logo atrás.

Shuu, Shuri e até Hidaka se ajoelham também.

Era como se, num único abraço coletivo, todos tentassem segurar um coração despedaçado.

Aoi limpa as lágrimas vendo aquilo.

O clube dos laços inquebráveis estava reunido novamente — não da forma que sonharam… mas unidos pela dor.

Depois do reencontro — 8h10

Os amigos estão todos sentados em volta de Kousei. Alguns tomam café, outros apenas encaram o mar.

Hidaka olha para Nanaka, que permanece o tempo todo colada ao lado de Kousei, segurando a mão dele discretamente.

Aoi percebe.

— Nanaka… obrigada por ficar perto dele. Ele precisa disso.

Nanaka sorri fraco.

— Ele sempre foi forte… mas ninguém aguenta perder tudo sozinho.

Hidaka aperta o copo nas mãos.

Algo dentro dele queima.

Shuu percebe novamente, mas não diz nada.

Mais tarde — 10h45

O capitão da equipe de busca aparece.

— Senhor Arima, senhorita Aoi… e vocês, amigos… — ele começa. — Hoje continuaremos as buscas por toda a área leste. A correnteza mudou durante a madrugada.

Aoi se levanta.

— Isso significa alguma esperança? — pergunta, ansiosa.

O capitão respira fundo.

— Significa… mais possibilidades. Mas também mais dificuldades.

Kousei fecha os olhos.

Nanaka segura sua mão.

Hidaka vê.

O estômago dele se revira.

Um pouco distante — 12h00

O grupo se espalha um pouco pelo porto. Kousei permanece sentado, enquanto Nanaka se aproxima dele com um casaco.

— Aqui… está muito frio, Kousei.

— Obrigado… — ele murmura, quase sem voz.

Ela ajeita o casaco sobre os ombros dele.

Os dedos se tocam por um segundo.

Um segundo que não passa despercebido.

A poucos metros dali, Hidaka observa.

O olhar dele endurece.

— Assim não vai dar certo… — ele sussurra para si mesmo.

Tsubaki, que estava ao lado dele, ouve.

— O que não vai dar certo? — ela pergunta.

Hidaka pisca rápido, surpreso.

— A situação… tudo isso. O Kousei… destruído. A Kaori sumida. A Nanaka se desgastando. Isso tudo vai machucar todo mundo.

Tsubaki suspira profundamente.

— Hidaka… todos estamos machucados. Mas só existe um inimigo aqui: a tragédia. Não transforme os amigos em inimigos. Não agora.

Ele não responde.

Mas o conflito dentro dele cresce.

Porto — 16h30

O dia avança. Buscas vão e voltam, sem resultados novos.

Kousei está exausto, imóvel, quase apagado pelo cansaço e pelo desespero.

É justamente nesse momento que algo inesperado acontece.

Aoi, que havia se afastado para atender uma ligação, retorna com uma expressão estranha — um misto de tensão e anúncio ruim.

— Kousei… Nanaka… pessoal… — ela respira fundo — temos um problema.

Nanaka se aproxima imediatamente.

— O que houve, Aoi?

Aoi olha diretamente para ela.

— A… Asami está vindo para Paris. Ela já embarcou e deve chegar ainda hoje.

Todos se entreolham.

Watari franze o rosto.

— A Asami… Hoshino? A prima da Nanaka?

Nanaka fica paralisada por um instante.

— A-Asami? Mas… por que ela viria para cá agora?

Aoi hesita antes de responder.

— Porque… ela ouviu sobre o acidente. Ela disse que não ia deixar “o Kousei sozinho” e… — Aoi engole seco — …e que agora era a chance de ajudá-lo a superar tudo isso.

Nanaka empalidece.

Shuri leva a mão à boca.

Tsubaki solta o ar devagar, já prevendo confusão.

Shuu se aproxima.

— Aoi… “ajudar o Kousei”, como assim?

Aoi fecha os olhos por um instante.

— Ela disse… claramente… que sempre foi apaixonada pelo Kousei desde a pré-escola. E que abdicou da sua felicidade por gostar muito da Kaori, mas que agora, ela se vê "obrigada" a cuidar de Kousei nesse momento difícil.

O silêncio cai pesado sobre o grupo.

Kousei levanta o rosto devagar — olhos cansados, confusos.

— A-Asami… vem… pra cá? — ele murmura, abalado.

Nanaka sente um nó se formar em sua garganta.

Qualquer pessoa que conhecesse Asami sabia perfeitamente o tamanho do problema que estava prestes a pousar em Paris.

Hidaka, por sua vez…

abre um pequeno sorriso quase imperceptível.

Um sorriso que ninguém deveria ver naquele momento — mas que Shuu percebe.

Hidaka via ali uma oportunidade. Uma chance distorcida de afastar Nanaka de Kousei.

Enquanto isso, o mar continuava sem responder nada.

E Kaori… ainda não tinha sido encontrada.