A Lei da Amizade

5 Capítulo 5 - "Entre o Desespero e a Promessa"


Notas iniciais
Hidaka começa a se incomodar com a ideia do encontro entre Nanaka e Kousei.

Paris — Terceiro dia de buscas

A chuva fina continuava a cair, tornando o porto ainda mais cinzento. As equipes de resgate já montavam tendas e equipamentos para mais uma varredura na região costeira.

Kousei estava sentado em um banco, imóvel, com o violino quebrado de Kaori apoiado nos joelhos. Olhava fixamente para o mar como se, a qualquer momento, ela pudesse emergir sorrindo e dizendo que tudo não passava de um mal-entendido.

— Kousei… você precisa comer alguma coisa… — diz Aoi, segurando um sanduíche, sua voz raspando de tanto chorar nesses dias.

Ele não responde.

Seus olhos estavam vazios, fundos, sem brilho.

— Ela está lá fora… eu sei… a Kaori não me deixaria… ela não faria isso comigo… — ele murmura.

Aoi senta ao lado dele e segura sua mão.

— Eu também quero acreditar nisso, Kousei. Mas você precisa ser forte… por ela.

Ele fecha os olhos e as lágrimas finalmente escorrem.

Hiroshima — Preparativos para Paris

A casa de Nanaka estava tomada por malas, documentos e falatório acelerado. Os amigos se reuniram ali para acertar os últimos detalhes da viagem.

— A passagem de vocês sai amanhã às 8h — diz Watari, entregando as impressões dos bilhetes.

— Ainda não acredito que isso está acontecendo… — comenta Shuri, abraçando uma almofada.

— Eu também não — responde Tsubaki. — Cada vez que lembro da Kaori sorrindo, parece que estou sonhando um pesadelo agora…

Nanaka entra na sala com os olhos vermelhos de tanto ler as notícias internacionais sobre o acidente.

— Gente… precisamos ser fortes quando chegarmos lá. O Kousei está completamente sozinho… ele vai precisar de nós.

Hidaka, que estava encostado na parede, observa Nanaka atentamente. A expressão dele é séria, mas havia algo mais escondido — um medo silencioso.

Shuu olha para ele.

— Hidaka? Você está muito quieto.

— Estou só… pensando — responde, desviando o olhar.

— Pensando no quê? — pergunta Nanaka.

Hidaka respira fundo.

— No Kousei. E em vocês… indo lá encontrar ele. E em… — ele para.

Não queria revelar seus sentimentos. Não naquele momento.

Nanaka se aproxima e toca o braço dele.

— Hidaka… todos nós estamos sofrendo. Não fique preso dentro de si mesmo… somos um grupo, lembra?

Ele força um sorriso.

— Lembro sim… os laços inquebráveis, né? — tenta brincar.

Mas Nanaka percebe a tensão.

Ou talvez fosse apenas o momento pesado.

Talvez.

Paris — Noite

A movimentação no porto diminui conforme a noite avança. Os barcos de resgate retornam, um por um.

Kousei se levanta lentamente quando vê o capitão responsável pelas buscas caminhando em sua direção.

— Senhor Arima… — o homem fala com cuidado. — Hoje não encontramos nenhum vestígio novo. As águas estão instáveis… as correntes mudaram… isso pode dificultar…

Kousei fecha os olhos, incapaz de ouvir mais.

— Continuaremos amanhã… ao amanhecer — consola o capitão.

— Amanhã… — repete Kousei, com a voz quase inaudível.

Aoi o pega pelo braço.

— Vamos descansar, Kousei. Você não dorme há dois dias… pelo menos deita um pouco.

— Se eu dormir… eu vou parar de pensar nela… e eu não posso… não posso esquecer nem por um minuto. E se ela aparece e eu não estou aqui? — ele murmura.

Aoi abraça Kousei com força.

— Você não vai perder ela de novo, Kousei… eu prometo que não deixo você sozinho.

Ele finalmente encosta o rosto no ombro dela, em um gesto de completa exaustão.

Hiroshima — Madrugada

Nanaka não conseguia dormir. A ansiedade tomava conta.

Ela pega uma foto antiga do clube de amizade. Todos estavam juntos, ainda crianças, segurando uma faixa que dizia: “Nunca vamos nos separar”.

— Kaori… por favor… nos espere… — sussurra, chorando baixinho.

Hidaka, que estava no corredor, vê a luz do quarto dela acesa e bate na porta.

— Nanaka? Está acordada?

— Sim… pode entrar.

Ele entra devagar. Vê a foto na mão dela.

— Você… gostava muito dela, né? — pergunta Hidaka.

— A Kaori era um raio de sol na vida de todos nós. Não dá para acreditar que isso… — ela engole seco.

Hidaka respira fundo e se senta ao lado dela.

— Eu vou estar com você o tempo todo… em Paris. Não importa o que aconteça. Eu prometo.

Nanaka olha para ele. Pela primeira vez, vê uma vulnerabilidade no rosto do amigo que ela nunca tinha percebido antes.

— Obrigada, Hidaka… de verdade.

Os dois ficam em silêncio por longos segundos.

Mas algo cresce dentro de Hidaka.

Algo escuro.

Algo chamado ciúme.

Ele não queria admitir, mas a ideia de Nanaka correr para consolar Kousei… o atormentava.

Paris — Amanhecer novamente

Kousei acorda sentado no banco do porto, onde acabou cochilando por poucos minutos. Ele abre os olhos devagar. O mar continua cinzento… vazio.

Aoi retorna com dois cafés.

— Aqui… para esquentar um pouco — diz.

Kousei segura o copo com as mãos tremendo.

— Aoi… — ele diz, olhando para o horizonte. — Se… se a Kaori não voltar… eu não sei quem eu vou ser. Eu não sei se consigo sobreviver a isso…

Aoi fecha os olhos, sentindo o coração rasgar.

— Ela te amou mais do que a vida, Kousei. E isso… isso não some assim.

Ele respira fundo.

Tenta.

Um helicóptero de buscas surge no céu.

Aoi segura o braço de Kousei.

— As buscas vão começar de novo…

Kousei se levanta devagar, com o violino de Kaori nos braços.

— Eu vou esperar… ela te fez uma promessa, Kousei — diz Aoi.

Ele olha para o mar, firme:

— E eu… fiz uma promessa a ela.

E naquele momento, sem que ele soubesse, um avião com seus amigos deixava o Japão rumo à França.

O reencontro estava próximo.

E as emoções que viriam a seguir mudariam para sempre a vida de todos eles.