A Lâmina de Ferro
5 Desolação
Notas iniciais
29 de Novembro
Anholt – Dinamarca
–Aceita um chá?
Ela o olha com uma certa atenção... mas, ainda, sua cabeça não estava ali. Os olhos pareciam pesar... como se estivessem cansados, doloridos. Rugas ao redor destes estavam um pouco manchadas, por causa de lágrimas anteriores. Ainda assim... ela acena a cabeça.
–Seria bom – diz, rouca.
Ele respiram fundo, e rapidamente se levanta, se dirigindo à pequena cozinha, próxima. Um chá poderia acalmá-la... ela realmente estava muito tensa, do ponto de vista de Marco. Talvez um chá irá acalma-la... pelo menos até que as coisas possam se resolver.
Demorou dez minutos, até que Marco voltasse para a sala, com duas xícaras em mãos. A sala não era grande... apenas um espaço de espera, com dois sofás em cada canto do pequeno cômodo, e uma minúscula mesinha baixa no centro. A pintura cinza não parecia melhorar o humor dela... muito menos o piso de madeira. Mas Marco tentava o que podia...
Ele repassa a xícara para Giovanna, que aceita silenciosamente. Os cabelos ruivos pareciam não ver uma escova de cabelo à alguns dias... isso até parecia ter deixado os escassos fios brancos à mostra, e até mais numerosos. A idade abatia o rosto da mãe... com linhas finas e leves ficando mais fortes e presentes, ao passar dos anos. Nem o uniforme da loja de doces dava um tom mais alegre à ela. Estava cabisbaixa, e tomava seu chá em silêncio.
Isso preocupava Marco.
Ele toma um gole do chá. Por estarem em um ambiente não-formal, vestia uma calça jeans simples, combinada com um casaco de moletom negro. Ele achava que isso iria fazer as coisas parecerem menos... reais, do que já são. Um ambiente “normal” poderia melhorar as coisas.
Infelizmente, Marco ainda não estava vendo resultado com isso.
–Não sei exatamente como está se sentindo... – ele tenta quebrar o silêncio – mas fique calma. Sabemos que ele não faria besteiras por aí.
Ela o encara. O olhar era sofrido.
–Eu sei... mas... ao mesmo tempo, não sei. Ele anda tão tenso nesses últimos meses...
Ela leva os dedos às bordas dos olhos, para enxugar uma lágrima. Logo, continua.
–Nem parece mais o de antes.
Marco pareceu pensar... como se estivesse se sentindo culpado por tudo aquilo.
–Sentimos muito. Não sabíamos que o Kevin estava namorando... e quando soubemos a verdade...
Ela volta a encarar um Marco cabisbaixo.
–Você não tem culpa, Marco. Como iríamos saber aquilo?
–Não sei... se tivéssemos prestado mais atenção nisso... não nos preocuparmos tanto com a Guerra...
–Marco.
Ele encara os olhos de Giovanna.
–Vocês não tiveram culpa disso. E, mesmo se tivessem... aconteceu. E é normal que Kevin se sinta revoltado... só que... nunca pensei que veria ele nesse ponto...
–Fique calma – Marco tenta acalma-la – Nós o mandamos para essa missão para descontrair... do jeito que nos falou, não seria saudável ele ficar trancado no quarto dele.
Ela acena com a cabeça.
–Mas ainda estou com medo. Kevin não fica nada bem quando está instável...
–Sim, eu sei. Mas agora temos que sentar e...
Ouve-se um barulho de uma porta se fechando bruscamente.
Os olhares se seguiram rapidamente para o corredor. A salinha era conectada com o resto da base por um corredor, com uma porta no final... e uma porta na outra extremidade, que ligava a sala aos outros cômodos do setor. Mas foi para o longo corredor que dois pares de olhos ficaram concentrados... esperando o melhor.
E ele aparece.
Kevin aparece, caminhando lentamente pelo corredor. As botas, molhadas pela neve derretida, rangiam a cada passo. O manto balançava com o movimento das pernas, revelando algumas manchas negras aqui e ali. A facha vermelha estava no mesmo estado do manto branco... sujo com mancha pretas. Parte dos botões do manto, perto do pescoço, haviam sido soltos, revelando o “Reforço para Inverno” branco, suado e pontilhado por gotas de sangue. Os braceletes dos braços estavam com seus lustrosos detalhes manchados com um vermelho coagulado.
Mas não era essa a parte que mais deixou preocupados os dois adultos.
Kevin para na entrada da sala, e ergue lentamente a cabeça, em direção à eles. O cabelo estava desengonçado, espetado, pareciam até secos... como se não tivessem sido lavados à mais tempo ainda do que os de sua mãe. Mas o olhar faz os dois darem um pequeno passo atrás... era algo gelado, sinistro. Os olhos negros pareciam encarar mortalmente os dois... e as olheiras em torno destes não melhoravam a situação.
Ele suspira. Logo enfia a mão dentro do manto, de onde retira um pequeno pacote de papelão. Em poucos segundos, ele voa em direção à Marco, que o agarra com agilidade.
–Aqui está a maconha – disse ele, sem emoção.
–Kevin? – ouve-se a voz de Giovanna no ar.
Kevin mal olha para ela, mas ainda responde.
–Oi, mãe.
–T-Tudo bem com você, filho?
A resposta não veio bem como ela esperava... já que Kevin encara Marco, e começa a falar.
–Um traficante qualquer na Noruega?
Ele suspira.
–Apesar da Guerra, temos ainda coisas importantes a resolver, Kevin...
–Importantes?! – Kevin explodiu – Eu lutei! Eu lutei contra os Negros em São Francisco! Sofri falsas acusações! Derramei sangue pelos Brancos... e é isso que eu recebo?!
–O que você esperava...? – Marco tentava manter a calma.
–Reconhecimento! Eu quase morri por vocês lá... e, até agora, fui tratado com desprezo! E a única missão em meses... foi essa!
Nenhum dos outros dois perceberam... mas lágrimas começam a escorrer do rosto de Giovanna.
–Eu... eu mereço alguma coisa! Qualquer coisa... qualquer coisa...
Marco logo fica chocado. Pela primeira vez, desde que vira o garoto... um fio brilhante de lágrimas corria dos seus olhos.
–...Se não... eu não tenho nada... me tiraram a alegria... a felicidade... me tiraram o sentimento... me tiraram a própria esperança! E... pior...
Os olhos de Kevin estavam fixos ao chão... mas logo eles sobem, e encaram os de Marco. Ele fica ainda mais chocado com aqueles olhos, antes negros e sombrios, reluzindo a luz pelas lágrimas... mas ainda lançando o mesmo olhar tenso...
–...Me tiraram a alma!
Marco fica estático. Não precisava olhar os punhos cerrados, o rosto vermelho, os dentes a mostra... nada. Apenas o olhar já conseguia dizer tudo. Aquela mesmo olhar cruel, sinistro, sério, pensativo... estava encoberto de lágrimas, encoberto de tristeza.
Encoberto de dor.
Marco nem teve tempo de reagir... nem de dizer nada, quando vê a mãe do garoto correndo, desesperada, aos seus braços. Giovanna o agarra, encostando sua cabeça no ombro do filho... que era apenas um pouco mais alto que ela.
Não foi trocada uma única palavra. Enquanto Giovanna chorava no ombro do único filho, este abaixava a cabeça, fazendo o mesmo no ombro da mãe.
Para qualquer um... a cena era triste, pensativa. Mas para Marco... não era apenas isso. Era chocante. Para quem havia visto tudo o que viu naquele ano... a cena era de trincar a alma. O pior... era que aquilo não acontecia apenas com Kevin... mas sim com vários Brancos, de todas as bases do mundo.
Marco suspira, enquanto senta no sofá.
Aquilo não ia ser nada fácil.
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