Notas iniciais
Essa fic vai para o Perfect Failure, que provavelmente não vai lê-la, mas que me ajudou muito na outra e de quem eu tentei me lembrar em cada frase escrita para melhorar, e para a minha amiga Bu-chan, que me acompanhou em todo o choro enquanto a escrevia, e que é claro compartilha comigo esse OTP. Eu te amo, Bu-chan

— Eu sinto muito — murmurou o doutor. Seus olhos negros estavam voltados para o chão branco e perfeitamente limpo do hospital. Aquele maldito chão branco que se estendia infinitamente como se não pretendesse nunca acabar. E quando finalmente acabava, dava em paredes brancas, que subiam a um teto branco. E à frente do garoto loiro que sempre vestia preto, estava aquele médico, vestido de branco, o branco detestável que compunha todo o ódio que sempre sentiu, o branco que sempre lhe causava raiva e vontade de bater em alguém.

Mas o fato de Mello ter agarrado o pescoço — branco — do médico e prensado-o contra a parede, produzindo assim um som oco que mal pode ser ouvido apesar do impacto, não tinha nada a ver com ódio. Era mais dor, uma dor tão profunda e impossível de ser expressada que o único modo que ele via de mostrá-la naquele momento era passá-la para as outras pessoas, mesmo que apenas fisicamente.

Suas palavras saíram gritadas, mas roucas, como se sua voz estivesse lutando para emergir de um rio que prendia sua boca.

Um rio de lágrimas.

— SEU MÉDICO INCOMPETENTE! O QUE QUER DIZER COM SINTO MUITO?

O doutor apenas suspirou. Seu nome era Dr. Efausto, como estava escrito no crachá simetricamente pendurado em seu peito. Ele havia tentado de tudo, tudo; e se sentia péssimo por ser obrigado a passar aquela notícia a qualquer pessoa, sabendo que ele poderia evitar que ela se tornasse realidade.

Mas não havia o que fazer.

— Eu quero dizer — ele murmurou, sem mover um músculo para fugir daquela prisão de couro preto e raios mortíferos que saíam de seus olhos.

Afinal, raios sempre anunciam chuva.

— Eu quero dizer — começou novamente, olhando para baixo, para longe daqueles olhos dolorosos — que o Sr. Mail Jeevas acaba de falecer.

Esperou pelo soco certeiro que com certeza ia fazer um barulho audível dessa vez, principalmente considerando o ódio de quem estava prestes e desferi-lo. Mas o que veio não foi nada disso. Pelo contrário. Ele foi largado contra a parede. Não havia mais mãos ao seu redor, não havia mais nenhum olhar.

Havia apenas um garoto parado à sua frente, com as mãos agora livres, atônito, cego.

— O... O que você disse? — palavras que saíram gaguejadas e sem força. Logo da parte dele, que normalmente falava com tanta intensidade, tanta emoção, e principalmente, sabia dissimular tão bem o que sentia, soltava aquele tom bizarro que nunca fora parte de seu repertório.

— Eu sinto muito... Não pudemos fazer nada. O câncer foi descoberto cedo, mas seu pulmão já estava muito danificado depois de tantos anos fumando... Nós achamos que daria para ele sobreviver apenas com radioterapia e uma cirurgia, mas... — ele olhou para baixo, finalmente soltando sua confissão que ele sabia que não seria ignorada — estávamos errados.

Olhos azuis se arregalaram e se contraíram, como um caleidoscópio que entra e sai de foco. Matt morto? Os cigarros mataram Matt? Matt, o seu espião que sabia empunhar perfeitamente uma arma, Matt, que sabia como fugir, Matt, o garoto mais inteligente que poderia querer ao seu lado, Matt, o homem com instintos e reflexos tão bons que nunca se deixava ser ferido em uma missão... Matt, aquele que amava... Morto por meros tubinhos de nicotina?

Ou simplesmente morto?

Morto.

E pela primeira vez, o famoso detetive que tanto se orgulhava de seu raciocínio não pensou nem por um instante antes de agir. Apenas saiu dali, correndo sem direção, como em uma maratona sem prêmio nem pista. Não se podia dizer que seu coração havia sido dilacerado, nem que ele sentia dor em seu peito. Na verdade, já não se podia dizer nada sobre ele. O loiro estava vazio, completamente. Não era um amante perdido, não era um deprimido sem rumo, não era Mello triste. Era apenas um corpo, um corpo que agora corria sem direção para encontrar o que quer que o esperasse.

Um corpo que corria, vazio, sem alma ou dor, sem tampouco felicidade, sem nada. Apenas um coração que batia inutilmente, músculos que se contraíam por um caminho e pulmões que buscavam cada vez mais desesperadamente por ar entre as lágrimas e sua corrida. Um corpo, pulsante, vivo, mas agora zumbi.

Ele atravessou uma porta, que felizmente cedeu ao peso de seu corpo, abrindo-se e lhe revelando o banheiro masculino, totalmente vazio. 3 horas da manhã nunca fora o seu pico de qualquer forma. Ele entrou ali, ignorando os vários bancos que se estendiam pelo corredor branco e até mesmo os boxs de banheiro enfileirados por sua extensão, ficando ali onde estava.

Agarrou a parede, como se esta pudesse reestabelecer o equilíbrio de suas pernas. Seus dedos, em formato de garras, pareciam completamente desesperados para conseguir se prender naquela parede, em vão. A parede, lisa e indiferente, não pôde e nem tentou segurá-lo, e assim ele caiu ajoelhado ali mesmo, no chão, agarrando-a. Ela permanecia ali, imponente e indiferente, encarando-o de cima.

Como todos faziam.

Menos Matt.

Que agora estava morto.

Mas aquela parede não ligava, o chão não ligava. Este chegou a ser gentil e permitir que algumas lágrimas caíssem sobre si, manchando-o, mas sua indiferença quanto a elas era completamente óbvia.

E naquele momento, o corpo que corria se transformou em um corpo que chorava, ali mesmo, no vazio do bem-iluminado banheiro de no vazio de si mesmo.

Sem ver, nem ao menos tentar, através da parede de lágrimas, ele se tornou temporariamente cego. Seu orgulho normalmente o impediria de fazer algo tão absurdo, mas já havia deixado de se tornar importante. Nada mais se manifestava dentro de si. Mas é claro que não. Ele estava vazio; o que poderia haver dentro dele para se manifestar?

E por algum tempo, o loiro vazio chorou lágrimas que pretendiam levar toda a dor embora por seu caminho salgado, tirando peso de dentro dele, mas que na verdade não carregavam nada: eram lágrimas completamente vazias. Água e sal, nada mais. Nenhuma dor era extravasada, não havia nada dentro de si, era apenas isso que elas eram.

Lágrimas vazias de um corpo vazio, em um lugar vazio.

— Matt... — ele murmurou para si mesmo, de olhos fechados.

Uma palavra. Quatro letras. E mais algumas coisinhas que, inconscientemente, permitiram que ela não estivesse vazia.

Notas finais
ÊU NÃO QUERIA TER FEITO ISSO.
O MATT É MEU PERSONAGEM PREFERIDO, POXA.
CARA, COMO EU CHOREI.
Mas, enfim...
Consegui passar a emoção para alguém? Querem me matar? Se quiserem eu entendo, venham cá ~chorando~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!