Uma lufada de vento empurrou Marshal alguns passos para trás, mas não porque fora suficientemente forte para isso, e sim porque pegara o rapaz desprevenido. No centro do aeroporto, de costas para o painel que consultara não mais do que alguns minutos atrás, ele contemplava cada canto do ambiente com minúcia, como se, com aquilo, fosse capaz de enxergar qualquer detalhe que pudesse ter deixado passar na primeira vistoria. Se essa fosse mesmo a realidade, ele não se surpreenderia, uma vez que estivera tão nervoso que não se sentira capaz de vasculhar muito bem todos os lugares do aeroporto. Nessa nova revista, que se propôs a fazer pelo menos uma hora depois de o ambiente ter sido praticamente evacuado, Marshal estava decidido a não deixar nenhuma pista passar.

- Só pode ser uma piada... – ele falou ao olhar debaixo das mesas da lanchonete. Dali, partiu para o Café, depois para a área de fumantes, o lugar destinado à fila de check-in, os balcões de informações e o de compra de passaportes. Pulou cada uma das barreiras que foram outrora impostas, as mesmas que determinavam as áreas onde os funcionários e os clientes deviam circular, e verificou todas as lacuna. Não tinha ninguém ali que pudesse dizer a ele o que era errado e certo, então Marshal não viu problema em inclusive arrombar a porta que dizia “ACESSO RESTRITO A FUNCIONÁRIOS”. Mas ainda assim não encontrou sequer uma alma viva. Saiu de lá um pouco decepcionado, pois imaginara que pelo menos ali fosse encontrar alguém perdido.

Sua mente lhe dissera mais de uma vez que não havia mais ninguém no aeroporto, que todos haviam sumido num passe de mágica, que o mundo em que ele vivia não era mais o mesmo, mas Marshal não se sentia confortável o bastante para acreditar nisso. Na realidade, seu coração, que batia com tanta força no peito, desesperado, queria acreditar que ainda pudesse haver alguém ao redor para explicar o que tinha acontecido aos outros. Na melhor das hipóteses, queria poder ver o pai ou a mãe, e abraçá-los com ternura, firmando a relação amorosa que já tinham. Se pelo menos os encontrasse, teria um pretexto e uma carona para voltar para a casa e desistir da ideia ridícula de viajar para o Havaí num dia como aquele. Até lavar a louça do almoço era melhor do que sofrer os sentimentos que ele sofria naquele momento.

Uma nova brisa fria percorreu todo o salão, mas essa também estava só de passagem. Contudo, fora suficiente para fazer com que Marshal sentisse calafrios e batesse os queixos. Somente nesse momento que ele percebeu que ainda carregava uma mala de rodinhas, os seus pertences que tinha planejado levar para a viagem. Sabia que tinha guardado um casaco por ali em algum lugar, por mais que soubesse que dias de calor o aguardavam no Havaí. Agachado, ele abriu um bolso na mala e retirou o primeiro casaco que encontrou, um de marca, verde – ele não podia fazer feio num território que lhe era desconhecido. Depois disso, tornou a postar-se de pé e, automaticamente, esquadrinhou uma última vez todo o perímetro do aeroporto.

- Não sei que merda houve aqui, mas não há mesmo ninguém – Marshal pronunciou em voz alta, finalmente assumindo aquilo que tanto temia. As palavras saíram com certa dificuldade de sua boca, fazendo inclusive com que seus olhos lacrimejassem, emocionado ao concluir a frase. Ainda assim, ele sentia como se precisasse proclamar a ideia, esperando que alguém surgisse do nada e a negasse. Não foi o que aconteceu. Uma vez dita a frase, ela pairou no ar e sumiu na mesma neblina que impedia que o alto teto do prédio fosse enxergado.

- Vou embora – decidiu, por fim. – Não tenho nada o que fazer aqui, não há nem mesmo aviões decolando nessa porra de aeroporto. Além do mais, com essa neblina, é bem provável que todos os voos programados tenham sido cancelados.

Marshal agarrou sua mochila de rodinhas e caminhou decidido em direção à saída do aeroporto. Não conseguia enxergá-la, quando a neblina estava tão tensa, mas sabia em que direção ficava. Quando se aproximou dela, percebeu as portas escancaradas exatamente da mesma forma como ficaram quando aquelas sete pessoas vestidas em preto entraram e começaram a atirar para todos os lados. E se estavam mesmo assim, era sinal de que nada do que Marshal vivenciara fora uma ilusão.

De fato, houvera uma invasão ao aeroporto, a mesma que fizera com que todos ficassem apavorados e corressem a fim de salvar a própria vida. E Marshal também se lembrava de ter corrido e de ter entrado no banheiro, onde se manteve escondido. No entanto, não passara nem dois minutos lá dentro e, pelo que parecia, esse fora tempo suficiente para fazer com que milhares de pessoas desaparecem num piscar de olhos. Agora ele conseguia se lembrar.

E diante de tantas recordações, ele também se lembrou do tiro que tomara no peito.

Marshal estremeceu no lugar. Abriu com cautela o casaco que vestira e verificou se o ferimento ainda estava lá. E estava. Sua camiseta, branca e também de marca – ele não poderia fazer feio numa viagem como aquela – estava suja com um filete de sangue e manchada na região onde a bala o havia atingido. Curioso, ele levou um dedo ao buraco no peito e tocou a pele ao redor. A dor que sentiu foi instantânea e continuou a pulsar durante muito tempo, fazendo com que ele não conseguisse reprimir a vontade de gritar, tamanho o sofrimento. Talvez aquilo fosse mais grave do que ele pudesse imaginar.

Fechou o casaco e prosseguiu no caminho. Passou pelas portas e alcançou a rua. O que viu por lá poderia ser facilmente enxergado por alguém que não tinha nenhuma visão, já que não havia nada. A neblina estava tão densa que não permitia que fosse enxergado sequer um palmo diante dos olhos. Marshal nem mesmo conseguia ver o chão em que pisava. Tal perspectiva lhe causou certa fobia, o que fez seu coração bater mais rápido e o sangue do ferimento vazar em maior proporção. Uma vez que não viu nada o que fazer por ali, voltou ao interior do aeroporto, onde sentia que tinha certa segurança.

Tomou como rota o banheiro mais uma vez. Aquele era um lugar fechado e ainda mais seguro do que o aeroporto tomado por neblina. Além do mais, precisava dar um jeito de impedir que o ferimento sangrasse mais do que o necessário, e lá poderia encontrar papel higiênico suficiente para isso.

Entrou pela porta e largou a mala à entrada. Foi direto para a pia e abriu o casaco. No espelho, seu ferimento mostrou-se como algo horrível de ser olhado. Marshal sentiu pena de si próprio. Mordeu os lábios com força a fim de retomar a consciência. Contou até dez e virou-se para ir ao primeiro box pegar o papel higiênico para primeiro limpar um pouco do sangue.

Foi então que se deparou com um grande buraco na parede ao lado.

- Mas o que é isso...? – disse num sussurro.

Ele não tinha reparado no buraco antes, ou pelo menos não conseguia se lembrar de já tê-lo visto. Era perfeitamente redondo e grande o suficiente para que uma pessoa obesa pudesse entrar nele e andar de quatro para onde quer que levasse. Estava escuro demais para saber se realmente tinha um fim. Ao redor desse buraco, desenhos feitos com canetas grossas e vermelhas foram feitos, coisas aparentemente sem significado, mas que chamavam ainda mais atenção do que o buraco em si. Para quem o olhasse rapidamente, poderia confundi-lo como um arrombo provocado por um tiro de canha na parede.

Marshal apurou os ouvidos e pensou ter ouvido sussurros vindos da abertura.

- Puta que o pariu, mas que droga é essa?! – exclamou, apavorado.

Apavorado ao mesmo tempo em que se sentia seduzido.

Marshal até voltou a olhar para o ferimento em seu peito, verificou que o sangue continuava a gotejar e que a dor, apesar de pouca, ainda existia. Mesmo assim, por ora, entrar no buraco lhe pareceu mais importante do que cuidar do ferimento – os cuidados podiam ficar para depois. Por isso, ele levantou os olhos do peito e voltou a fitar o imenso buraco e novamente a sensação de sedução voltou a possuí-lo. Preciso saber o que há do outro lado, seu cérebro lhe dizia, como se tivesse vida própria. Preciso entrar nesse túnel e saber no que vai dar.

- E eu vou entrar – sussurrou.

Largando tudo para trás, Marshal dobrou-se para o interior do buraco, mergulhando na escuridão. Uma vez lá dentro, não teve como voltar atrás.

E, de qualquer forma, ele não voltaria tão cedo.

Notas finais
E que tal dizer o que achou do capítulo?