A Kill For A Kill

9 A Cura Para O Sofrimento


As orações aconteceram por horas a fio, pelo menos foi o que Marshal imaginou ao passar tanto tempo sentado naquele banco desconfortável enquanto ouvia versos e mais versos que ele desconhecia e não entendia o sentido. Conhecia muito pouco sobre fé, mas suspeitava que orações deviam trazer sentimentos bons às pessoas, o que não estava acontecendo em absoluto naquele recinto. Era como se as rezas não atingissem o objetivo de trazer a união realmente, e sim uma culpa que ele não se lembrava de já ter sentido antes. Sentiu-se mais mal do que bem com aquilo. Quando tudo terminou, percebeu-se mais aliviado do que podia imaginar.

Enquanto todos se levantavam, o som do arrastar de milhares de pés mesclando-se ao de bancos de madeira raspando no chão, ele também se levantou.

E foi então que uma dor inesperadamente intensa percorreu seu peito, fazendo-o reconsiderar a ideia de se levantar.

Marshal olhou ao redor, a visão turva, mas suficiente boa para perceber que ninguém dava a mínima para seu sofrimento. Entre todas aquelas pessoas, algumas até que se dispunham a conceder um olhar mais demorado ao garoto, mas mais por curiosidade do que por empatia. Por isso, enquanto grunhia com a dor no peito, que latejava como se Marshal estivesse sendo esmurrado contínuas vezes, ele percebeu que não teria ajuda nenhuma para aliviar aquele tormento, pelo menos não ali. Estava no Templo da União, mas ninguém achava importante se unir para ajudar o garoto que precisava de socorro.

Se pudesse falar, naquele momento, Marshal teria insultado cada um dos presentes utilizando de seu imenso acervo de insultos cultivados em seu tempo escolar.

Mila foi a primeira e única pessoa a estender a mão e perguntar o que estava acontecendo. Marshal sentiu repulsa pela garota por demorar tanto para fazer algo, mas ainda assim agarrou a mão confortadora. Olhou-a nos olhos e tentou demonstrar um semblante austero, mas a dor no peito o impedia de demonstrar algo que não fosse sofrimento. Mila conseguiu erguê-lo com um único movimento e, amparando-o com os braços, ajudou-o a se deslocar pela multidão.

- É o tiro – Marshal conseguiu dizer assim que a garota o ajudou a se sentar num canto onde não havia tantos fieis. Mila tomou o seu lado no chão e mirou-o com seriedade, apenas esperando que ele continuasse a falar. – Está doendo muito. – Marshal quase chorava. – O que é isso?!

- Nenhum de nós sabe. – Houve uma pausa. – Ainda.

- Mas... – Marshal sacudiu uma mão no ar, confuso. – Céus, isso é apenas um ferimento de disparo! Sei que devia estar morto, mas não estou, e é justamente isso o que me preocupa tanto!

- Eu não te trouxe aqui por nenhum motivo, Marshal – Mila disse com calma. Finalmente tinha percebido que seu tom indiferente não ajudava em muita coisa quando a outra pessoa estava tão desesperada. – Estamos aqui para procurar a verdade, apenas isso. Há quem a descubra em poucos dias, mas há aqueles que demoram décadas para encontrá-la. Por isso temos a nossa fé, e Walter Sullivan está aqui para nos guiar até a resposta.

- E qual é a sua verdade, Mila? Por que está aqui, então?

Mila franziu o cenho, surpresa, ao ouvir a pergunta. Pensara que a conversa seguiria para qualquer rumo, menos para aquele.

- Eu não vou te dizer – disse, cautelosa, recostando-se na parede. – Não devo. A verdade só é dita – e só deve ser dita – àquele que pode fazer algo sobre ela, e tenho absoluta certeza de que você não é importante o suficiente para que eu compartilhe a minha história.

- Vocês falam dessa verdade como se fosse algo precioso. – Marshal riu. – Eu não me surpreenderia se nenhum de vocês soubesse que “verdade” é essa que buscam.

- E não sabemos mesmo. Por isso estamos aqui.

- E está justamente aí a diferença que eu tenho de todos vocês: não estou em busca de nada! Vim para Silent Hill por engano, e não porque quis! Nunca estive e não estou buscando verdade nenhuma!

- Pois devia. – Mila levou um indicador próximo ao ferimento no peito de Marshal, que estremeceu ao pensar que ela realmente iria tocá-lo. – Ou talvez isso nunca se cure.

- Você fala como se isso fosse uma doença.

- Talvez seja.

Marshal e Mila permitiram-se um minuto de silêncio, muito embora isso fosse praticamente impossível em um ambiente como aquele, pequeno demais para tantas pessoas. Mesmo que o momento de orações já tivesse acabado, ainda havia quem estivesse orando pelos cantos, ou entoando canções macabras que louvavam a um deus que Marshal desconhecia completamente. Mila havia dito que a fé daquele povo era o que os mantinha protegido, mas se a proteção que eles procuravam tinha que estar acompanhada daquela sensação culposa que o garoto sentia, ele preferia estar longe dali o quanto antes.

Só não tinha partido ainda porque, querendo ou não, imaginava que alguma daquelas pessoas, por mais antipáticas que fossem, pudesse ajudá-lo em algum momento.

- E como está o ferimento? – Mila perguntou de repente.

- Como é que é?

- O tiro. Está doendo?

Só então Marshal voltou a conceder uma atenção especial a dor que fulminava em seu peito e percebeu que ela não estava mais lá. De alguma forma, o tormento se fora e ele estava mais tranquilo do que julgara possível, depois de tanto sofrimento. Conseguiu esboçar um sorriso ao perceber que estava tudo bem.

- A dor passou – falou, animado.

- Que bom.

- Mas ainda acho que preciso fazer algo a respeito. Precisamos ir a um hospital, antes que fique pior.

- Um... Um hospital...?

- Isso. Deve haver algum por aqui. – Mila parecia receosa. – Vocês não podem me deixar morrer aqui, sem ver meus pais mais uma vez! Não foi isso o que eu desejei para as minhas férias de verão!

- Hospitais não são tão facilmente acessíveis...

- Deve haver algum!

- Há um hospital, Marshal, mas... Bem, é complicado ir até ele. Fica longe e temos que usar passagens...

- Não deve ser tão difícil se tivermos um mapa.

- Podemos arranjar os mapas, isso não é um problema. O problema de verdade é o percurso. – Marshal abriu a boca para dizer algo, mas Mila o calou tocando-o seus lábios com um dedo indicador. – Não costumamos ir para muito longe da nossa igreja, Marshal, porque há perigos lá fora que você jamais conseguiria imaginar ou enfrentar. Só saímos desse território quando é extremamente necessário – quando precisamos de comida ou demais itens -, mas precisamos sempre estar juntos para que nada de ruim nos aconteça. A mesma fé que criou o que há lá fora é a que nos protege, então nos apegamos a ela para que continuemos vivos.

- Mas Mila...?

- Não é seguro sair, Marshal!

Marshal encarou os olhos suplicantes de Mila, tão lindos àquela luz, e até compreendeu o que ela estava querendo dizer. Não é preciso entender muito de um assunto para descobrir que uma pessoa está escondendo detalhes porque quer poupar alguém de males maiores. Marshal tinha consciência disso, de que não devia sair da igreja se quisesse continuar vivo, mas também sabia de outra coisa.

- Se eu não morrer lá fora, correndo atrás de uma cura, morrerei aqui, Mila – ele disse, sério.

Mila não disse nada. Arregalou os olhos de tal maneira que pareceu estar encarando outra pessoa que não fosse Marshal, como se ele tivesse mudado de lugar com alguma outra criatura que se assemelhava muito com ele, mas que não falava como ele. Talvez seu espanto também fosse decorrente da frase que acabara de ouvir o garoto murmurar. Apesar de ser ilusório, ao mesmo tempo em que era pesado, Marshal tinha dito algo que, Mila sabia, tinha o seu fundo de verdade.

- Preciso partir enquanto ainda tenho tempo – ele voltou a murmurar. – Estou com um buraco no peito, mas sei que conseguiria caminhar por quantos quilômetros fossem necessários até esse hospital. Eu sinto isso.

Marshal debruçou-se para frente, o rosto a um palmo do de Mila, e agarrou a mão da garota. Mila vacilou com o olhar, olhando para todos os cantos, e só quando encontrou o de Marshal foi que o garoto finalizou:

- Se não quiser ir comigo, não precisa. Apenas me diga que caminho seguir, me arranje os mapas de que preciso e já estará me ajudando bastante.

- Isso não vai dar certo – ela sussurrou, a voz demonstrando medo.

- Eu não tenho escolha – ele disse em mesmo tom. – Mas você precisa fazer isso por mim!

- Você não entende, Marshal. Isso não vai dar certo porque eu não sei como ir!

Marshal encarou espantado o rosto da garota.

- Mas sei quem sabe – ela disse, por fim.

- Quem?

- Walter Sullivan. Ele pode ajudá-lo a encontrar o caminho.