A Jovem das Cores
1 A Jovem Das Cores
A jovem e inspirante Clara, garota astuta e dedicada, mora numa casa entijolada vermelha numa rua de atmosfera grená regada de flores ascendentes e ramos de folhas secas. Na rua estreita espalha-se uma malha de paralelepípedos acinzentados que vibram com o caminhar brusco de Madame Magalhães, a estilista metida a francesa que derrete o batom magenta nos lábios até escorrer e usa saltos de trinta centímetros. O céu nubla-se todo dia, uma imensa tropa de nuvens cinzas que colorem-se com o violeta dos pássaros e com o tom alaranjado do sol nascente recheiam o céu de cor, evidenciando o frio e anilado orvalho escorrido nas árvores.
Clara ainda se vê diante de toda as dificuldades, o franzir da testa, o tênis maltrapilho, o casaco abarrotado; Olha pela janela embaçada de pó de seu quarto no andar de cima e passa seus dias e momentos de ermo observando os telhados das casas.Em cada chaminé fumegante vive uma vida se aquecendo do frio e uma xícara de chá sendo consumida. Os pássaros pousam e repousam nos fios dos postes de luz, ajeitando as penas, cantando, como luzes coloridas de natal que percorrem os quarteirões de casa em casa alegrando os bonecos de neve em cada quintal. Ao chegar em casa todos os dias, a jovem Clara adentra o quintal esverdeado e caminha calmamente até a porta de sua casa. Senta-se no sofá amarelo da sala de estar, comendo os doces que sua tia faz no final de semana e leva para ela. Consigo leva sua bolsa branca repleta de cadernos e lápis onde desenha e escreve histórias no colégio. O mais incrível da arte de Clara são os tons de luz e sombra que os finos dedos de suas mãos conseguem imprimir no papel. Seus lápis caminham como um riacho na seda lisa do papel, enfatizando em seus traços a disparidade entre o caos obscuro das sombras e a luz celestial. Sua mente trabalha com clareza as cores e o espaço dos desenhos. Ela se aproxima muito da genialidade. Mas apesar de tudo, Clara possui uma peculiaridade. Acromatopsia. A jovem garota não enxerga cores. Todo seu mundo é um imenso branco e preto que invade sua íris como uma essência branda e enfraquecida. Toda a magia que brilha e permeia pela sua vizinhança, tão valiosa e exuberante, é imperceptível aos seus serenos olhos. O que Clara vê é apenas o resultado de uma mistura intrínseca de elementos sensíveis; o aroma das gotas de orvalho que respingam das árvores, o som do borboletar dos jardins de seu vizinho, o vibrar do solo frágil da rua, o sabor dos doces de sua tia; é um singelo sentimento neutro que ligeiramente corre pelos nervos da jovem que incendeiam seu cérebro e fervem sua criatividade. A sua forma de ver o mundo é diferente; sua candura na hora de pensar é o que molda essa intuição criativa tão simples e complexa ao mesmo tempo. Como uma máquina, mesmo sem conhecer sensitivamente as cores e seus aspectos, ela reconhece seus espectros. Sabe como funciona o bate-rebate dos raios de luz e sua tradução. E é assim que Clara vê as cores; como um idioma. Ela traduz o comportamento do ambiente, analisa os contextos mais e menos sórdidos das coisas e consegue absorver toda essa filosofia para si. Mesmo vivenciando uma realidade entristecida, convivendo diariamente com o desrespeito por parte de seus "colegas" de escola, Clara vive de cabeça erguida. Os que poderiam deixa-la mais confortável com sua situação tentam derruba-la emocionalmente dia pós dia, mas Clara não liga. Sabe que vive uma dualidade ao viver em um mundo branco e preto; ao mesmo tempo que enxerga tudo diferente, vive em um mundo mentalmente branco e preto, sem graça, sólido e apático. Mas apesar do pessimismo social que a rodeia, ela prefere sorrir, ajeitar o gorro na cabeça e enxergar o otimismo. Por trás de suas horas perdidas sentada na velha mesa de cedro de sua casa desenhando o mundo que imagina existir, existe uma mente regular e sucinta; existe uma forte fonte de inspiração, que vai desde a campainha desbotada de sua casa até o poste de luz enferrujado; desde o anão de jardim de Madame Magalhães até a chave velha escondida debaixo do tapete empoeirado de Seu Manoel; desde a maçaneta quebrada há anos de seu sótão até seu casaco abarrotado listrado que usa quando chove. Nesse mundo de descobrimentos onde a imaginação floresce e desperta as aventuras e desventuras consequentes, o explorar do porão e o acender das luzes; o aroma do café preto que percorre os corredores da casa e os baralhos velhos das gavetas tornam-se barris de petróleo prontos para abastecer a mente da jovem das cores. Mesmo vivendo em um mundo sem cores, Clara é o ser humano que tem o mundo mais colorido.
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