A Jornada do Louco
11 A Torre
Notas iniciais
Ser colocado para dormir com um calmante direto na veia é o análogo a bater a cabeça muito forte na quina da escada enquanto foge do seu irmão e apagar. Sei disso porque já passei pelas duas situações, os sentidos desligam completamente e você só desmaia. Quando acordo, estou meio grogue e me sinto aéreo, preciso me esforçar para lembrar do que aconteceu. Enquanto tomo café as memórias começam a vir á tona e me recordo dos beijos trocados com Garret, da massa caseira com camarões e do incêndio que atingiu a prefeitura.
— Argie. Vocês conseguiram encontrar ele? — Pergunto para Laurel assim que ela aparece na sala de estar.
— Ele está bem. Sua família está no hotel, ninguém se feriu. — Ela me tranquiliza, sentando-se em minha frente.
— Por que me apagaram?
— Apagaram todos os tributos, a justificativa foi que vocês precisavam dormir bem para enfrentar a arena. — Ela bebe seu café em um único gole. — Você precisa vestir a roupa que Sabina deixou no vestiário. Vocês serão transportados dentro de meia hora.
Todos os anos as roupas dos tributos mudam para se adaptar ao clima. Fico surpreso quando visto uma calça com quatro bolsos, feita com um material leve, e tênis com elevação igualmente respiráveis. O cadarço dos tênis tem a cor habitual do distrito, e a camiseta preta tem as mangas e a gola também vibram em amarelo areia.
— Roupas leves. Não deve ser uma arena fria, do contrário eles colocariam roupas grossas. — Explica Laurel enquanto me acompanha até o andar térreo. — Na sala de lançamento, você vai encontrar com Nefertiti e ela vai te explicar mais sobre o traje. E provavelmente você receba um símbolo para levar para a arena.
— Obrigado por tudo, Laurel. Espero te ver novamente.
— Eu tenho certeza que sim. — Ela me abraça com força, e me permito abraçar de volta.
— Diga ao Garret que vou pensar nele o tempo inteiro. Até mesmo se eu…
Minha voz morre na garganta. Ela apenas confirma com a cabeça e me dá um sorriso solidário, apertando meu braço.
— Ele vai pensar em você também. O tempo todo.
No aerodeslizador, todos os tributos estão enfileirados em poltronas com cintos laterais. Uma mulher de máscara e luvas brancas insere uma enorme seringa no braço de cada tributo, que contém o rastreador que monitora nossa localização e batimentos cardíacos. Sobrevoamos a Capital em silêncio, apenas com Briar cantarolando baixinho a música que cantou na entrevista com Ceasar. O trajeto dura em torno de quarenta e cinco minutos, e desembarcamos em uma plataforma com vinte e quatro elevadores formando uma meia lua, com o número de cada distrito e o nome do tributo embaixo.
Meu elevador fica ao lado esquerdo, entro na caixa metálica e ela desliza silenciosamente para o andar debaixo. No subsolo, Nefertiti me espera sentada na única cadeira existente no recinto. Um tubo transparente está ao seu lado, que imagino que seja a plataforma onde serei alçado para a arena.
— Olá, pequenino. Essa roupa é horrorosa, mas você fica charmoso mesmo nesse trapo. — Ela folga um pouco a gola com as unhas, sem danificar o tecido.
— Preferia o vestido de cobra ou o terno da entrevista.
— Todos nós preferíamos. Já falei para Snow que os tributos não precisam morrer feios, mas ele não me deu ouvidos. — Ela faz um som com a língua de indignação. — Como está se sentindo?
— Bem, eu acho. Algo me diz que a arena vai ser quente, mas não muito.
— Você tem razão. Eles não deram jaqueta pra vocês, então não vai ser frio mesmo de noite, e o tecido da camiseta é respirável, com tecnologia para evaporar rapidamente. Arrisco dizer que possa ter água corrente, pois a calça tem sistema de flutuação. — Ela passa os dedos pela manga da camiseta delicadamente. — As mangas tem sensor de regulação sensorial, para aquecer as roupas caso sua temperatura corporal caia e esfriar caso a temperatura suba. Eles não querem ninguém morrendo por condições climáticas.
— Uma arena só de água?
— Dificilmente, entregariam facilmente para o Distrito 4. Arrisco dizer que seja uma floresta tropical.
Uma voz metálica anuncia a hora do lançamento, e devemos estar posicionamos no tubo acrílico em um minuto. Olho para Nefertiti apreensivo, e ela passa a mão em seus cabelos volumosos.
— Essa é nossa despedida. Vou te dizer até breve, considerando suas chances. — Ela tira meu colar de contas do bolso e coloca em meu pescoço. — Não vá esquecer de usar isso.
Meus olhos se enchem de lágrimas quando lembro da existência colar, da promessa que fiz a minha mãe que voltaria com ele e com a coroa para casa. No calor da emoção, abraço minha estilista com força.
— Obrigado.
— Tá, tudo bem. — Ela dá pequenos tapinhas no meu ombro. — Tente sobreviver, eu ganho um extra se fizer seu traje de vitorioso.
Entro no tubo e ela sorri para mim, a porta desliza pra o lado e controlo minha respiração enquanto aguardo a plataforma subir. Minha cabeça lembra dos beijos com Garret e do incêndio na noite anterior, e preciso afastar as lembranças quando a plataforma começa a subir lentamente.
Por alguns segundos, tudo o que vejo é escuridão. Quando atinjo a luz, percebo que estou entre o garoto do cinco e a garota do três, e em nossa diagonal se encontra a cornucópia. Neste ano, ela é construída em pedra de mármore preta, com uma enorme cruz no centro, as armas concentradas na boca da construção: Tridentes, espadas, maçãs, lanças e outras armas menores. Algumas mochilas estão espalhadas de forma aleatória pela arena. Várias coroas de flores estão penduradas na estrutura, com faixas douradas com escritos que não consigo identificar.
— Senhoras e senhores, a 63º Edição dos Jogos Vorazes começa em 60 segundos. — A voz de Claudius Templesmith ecoa por toda a arena e um cronômetro digital dourado começa uma contagem regressiva no topo da cruz.
Olho em volta pela primeira vez e começo a identificar o espaço em que estou. Atrás da cornucópia, árvores de folhagem roxa se misturam com copas de árvores verdes, e consigo identificar as folhas roxas como jacarandás.
Cinquenta. Quarenta e nove. Quarenta e oito.
Atrás de mim, um riacho cristalino corre em direção a floresta, com rochas amarronzadas e grama ao redor.
Trinta e seis. Trinta e cinco. Trinta e quatro.
Á esquerda, no final de um caminho de cipestres e pedras brancas, existe outra meia lua que se encontra a floresta, mas não identifico o que há no local.
Vinte. Dezenove. Dezoito.
Á direita, várias construções se estendem até o horizonte, com pedras de diferentes cores e tipos. Pequenos prédios lapidados com pedras similares ocupam o espaço irregular, os caminhos estreitos ligam cada pequena construção.
Seis. Cinco. Quatro.
Cada construção ostenta uma cruz. Algumas maiores, outras menores.
Três. Dois.
A arena é um cemitério.
Um.
Uma sirene grave soa entre os alto-falantes e pulo da plataforma já tomando velocidade, o vento quente de verão atinge meu rosto e vislumbro de soslaio outros tributos correndo em direção ao banho de sangue. Me aproximo o suficiente da cornucópia para não sair sem nada, e meus olhos correm pelo espaço a procura de suprimentos, quero uma mochila pequena que seja fácil de carregar e não me ofereça grandes dificuldades.
Alguém quase esbarra em mim, e percebo Carter invadindo o centro da cornucópia como um animal selvagem. Localizo uma mochila á minha esquerda e consigo encaixar meus dedos na parte de cima, erguendo-a e abraçando forte contra meu peito. Ouço gritos atrás de mim e barulho de metal afiado se chocando uns contra os outros, e vejo Sirena golpear a garganta da garota do 5 com uma espada. Fico dividido entre correr para a floresta ou para o meio dos túmulos. Na minha direita, uma flecha acerta o pescoço da garota do 11 que corre na mesma direção que eu, ela tropeça e cai imóvel no chão.
Meu corpo se move quase automaticamente tomando o caminho da floresta, uma flecha zune rente a minha cabeça e se aloja em uma árvore, e começo a me embrenhar na floresta sem olhar para trás pra saber se alguém está me seguindo. Alguns minutos se passam quando alçando distância o suficiente do banho de sangue e espremo meu corpo entre dois troncos para descansar em uma clareira pouco iluminada.
— Escapei do banho de sangue. Bom. — Falo sozinho em voz baixa. — Vamos ver o que temos aqui.
Abro o zíper da mochila evitando fazer barulho, espiando por entre os dois troncos para garantir que estou sozinho. Dentro da mochila encontro um saco de dormir, alguns metros de corda de cânhamo, comprimidos em cápsula em um pote sem rótulo, uma garrafa de um litro com água, um pacote de carne desidratada, duas maçãs, uma caixa de fósforos é uma adaga média.
— Pelo menos consegui uma arma. — Concluo. Não é minha primeira opção, mas é melhor estar armado do que não ter nada.
A adaga possui uma espécie de coldre para prender á coxa, e passo o elástico ajustável pela perna esquerda, apertando o utensílio contra mim. Se precisar sacar a adaga, estando próxima a coxa terei mais sucesso.
Abro a garrafa e tomo um gole de água. Precisarei racionar essa garrafa até descobrir se o riacho é seguro ou se precisarei roubar água de outro tributo. Analiso minhas opções e percebo que não tinha me preparado para o que fazer após escapar do banho de sangue.
O espaço que estou é pequeno e circundado por três grandes árvores, com uma parte coberta com grandes rochas que acredito ser um desfiladeiro. Tenho certeza que foi projetado para ser um esconderijo, e minhas pernas mal esticam completamente quando decido sentar. Por entre a festa, consigo ver a cornucópia distante o suficiente para se destacar apenas a grande cruz central, com alguns pontinhos correndo ao redor dela. Até o momento, não houve o disparo de nenhum canhão.
Tateio os troncos em busca de alguma fissura que possa conter uma câmera, sabendo que ficar fora do radar dos patrocinadores pode comprometer meu jogo. Identifico uma protuberância redonda em um dos troncos, na altura da minha cabeça, e meus olhos se fixam em um furo que contém um dispositivo que se movimenta de forma periódica. Uma lente.
— Oi, bonitões. Que prazer ter vocês aqui. — Sorrio para a câmera, mostrando a mochila. — Olha o que o papai conseguiu. Quantos dias vocês acham que a arena vai durar? Eu chego vivo até meu aniversário? Vamos descobrir.
Quinze minutos se passam quando ouço o disparo do primeiro canhão. Começo a contar nos dedos a quantidade de disparos, cada um anunciando a baixa de um tributo. Conto cinco disparos, o que significa que grande parte dos jovens conseguiram escapar do banho de sangue, e restam dezoito de nós lutando pelo prêmio.
Penso nos irmãos Seashell e se conseguiram escapar ilesos da cornucópia, na garota do 11 que recebeu uma flecha no pescoço e caiu imóvel e se Argie e Garret estão vibrando que escapei com vida. Quando o céu começa a escurecer, decido que é hora de mastigar pequenos pedaços da carne desidratada.
— Amanhã de manhã preciso aprender a caçar. — Viro para a câmera, jogando meu charme. — Conseguem imaginar uma belezinha como eu esfolando um esquilo?
E então o hino da Capital estoura dos alto-falantes, forço minha cabeça para fora da abertura e direciono minha atenção para o céu, onde a imagem dos tributos deve ser transmitida. O brasão da Capital ilumina o céu com a escrita “BAIXAS” centralizada logo abaixo do brasão, e as imagens dos tributos pinta o céu escuro.
Fico embasbacado que o garoto do 2, Cassian, foi morto no banho de sangue, e a imagem da garota do 5 vem logo a seguir. Os dois assustadiços do 3 sobreviveram e respiro aliviado por não ver a imagem de Cassie e Carter. Os outros canhões anunciaram a morte da garota do 6, a garota do 11 e de Elara, do 12.
Sinto um aperto no peito quando vejo projetado a foto de Elara, não chegamos nem perto de nos tornarmos aliados, mas ela compartilhou seu conhecimento comigo mesmo sem ter obrigação. O distrito 12, que tem a menor quantidade de vitoriosos de todos os distritos, vai dormir mais um banho de sangue de luto.
— Elara era uma boa menina, sentirei sua falta. — Digo baixinho, sem me preocupar se as câmeras estão captando som.
Me encosto em uma das árvores e fecho meus olhos para tentar dormir, agradecendo por ter sobrevivido ao primeiro dia da arena e calculando qual a melhor rota para seguir no dia seguinte. Meus olhos estão quase se fechando quando um baque surdo atinge uma das árvores.
— Mas o que..? — Movo a cabeça para a lateral e meus olhos se fixam no cabo de madeira de uma machadinha que está presa ao tronco da árvore. Quando olho entre a fresta, o tributo do distrito sete segura outra arma idêntica, olhando fixamente para meus olhos.
— Sett? — Me espremo de volta para dentro da clareira.
— Oi, nove. Você está nos meus domínios. — Grita Sett, correndo em minha direção.
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