A Jornada da Fênix: O Ressurgir das Cinzas
10 Green'Cough
Asa Branca correu para fora e foi chamar Estrela de Fogo, o qual rapidamente subiu na Pedra Grande e anunciou ao acampamento sobre a suspeita da Tosse Verde ter voltado, logo pediu aos outros gatos que tinham ficado de vigília para que fossem ver Poça de Folhas e conferir se também não tinham pegado a doença.
No sol a pino, a curandeira já tinha acabado de examinar os outros gatos, felizmente nenhum deles estava doente também. Fênix estava cansada e sentia-se indisposta, parecia que tinha levado uma surra de dois cachorros, no entanto, se recusava a deitar e dormir.
—Poça de Folhas: Devia descansar, a Tosse Verde vai esgotar suas energias mais rápido se continuar acordada. Aliás, coma essa planta, vai te ajudar. (Falou empurrando a planta a qual se referia para as patas da mais nova).
—Fênix: Não preciso dormir, eu estou bem, e quero fazer minhas tarefas de aprendiz.
—Poça de Folhas: Nessas condições? Nem que os texugos criem asas! Eu não vou deixar você sair daqui! E é melhor que já tenha comido essas plantas antes de eu voltar!
—Fênix: Aonde você vai? (Fala abocanhando uma planta).
—Poça de Folhas: Voo de Esquilo quer que eu dê uma olhada nos filhotes, mas ela achou mais seguro eu ir até lá ao invés de ela vir aqui.
—Fênix: Sabe que se você sair, eu vou escapar daqui, não sabe?
—Poça de Folhas: Você não fará isso se tiver um pouco de juízo e respeito pelo seu clã. Se sair, vai espalhar a doença e muitos podem morrer.
Fênix abaixou a cabeça e começou a pensar no quão egoísta estaria sendo se ela simplesmente saísse e entrasse em contato com seus companheiros de clã, Poça de Folha tinha razão, nem todos eram jovens e fortes o bastante para sobreviver a Tosse Verde, nunca tinha pegado antes, mas já tinha ouvido falar sobre o quão mortal ela pode ser se não for tratada corretamente.
Assim que Poça de Folhas saiu, outro gato entrou, logo reconheceu pelos olhos azuis e o pelo cinzento que era Pelo Gris, percebeu que sua expressão séria e indefinível da última noite havia sido substituída por uma expressão compassiva e preocupada, mas Fênix sabia que ele estava entrando escondido, pois apenas a curandeira poderia vê-la.
—Pelo Gris: Fênix, eu vim assim que pude. Estrela de Fogo me colocou na patrulha do amanhecer e na patrulha do sol a pino, fiquei ocupado o dia todo, mas foi merecido, não sei onde estava com a cabeça ontem à noite.
—Fênix: Está tudo bem. Que bom que eu estava lá pra impedir que você fizesse uma baita burrada de novo.
—Pelo Gris: Pelo menos, você não guarda rancor de quem te joga contra a parede. (Falou com ironia). Mas preciso que saiba que não era a minha intenção fazer mal aos filhotes, eu nem sei por que eu fui até o berçário, minha cabeça anda confusa ultimamente.
—Fênix: O que Estrela de Fogo te disse ontem a noite?
—Pelo Gris: Me deu um sermão daqueles, ele disse que eu seria tratado como um aprendiz até que ele decidisse me tirar do castigo, me encheu de tarefas desde que o sol deu os primeiros sinais no céu, e só pude sair acompanhado de guerreiros nas patrulhas. (Reclamou). Felizmente ele me liberou agora há pouco e disse que da próxima vez ele vai me expulsar, mas não dei muita importância já que só o que eu queria era ver você, e aqui estou.
—Fênix: Pelo visto, você conseguiu mesmo tirar Estrela de Fogo do sério. (Falou irônica). Agradeço a preocupação, você deveria estar visitando Asa Branca agora, ela está esperando que você esclareça algumas coisas que deram errado entre vocês.
—Pelo Gris: Eu sei, mas eu vim ver você. Não conversamos já faz muito tempo, eu sei que agora não é o melhor momento, mas eu preciso falar com você.
—Fênix: Você não pode esperar até que eu fique melhor? Você vai ficar doente também.
—Pelo Gris: Eu não ligo, só preciso da sua presença na minha frente.
—Fênix: Já chega, Pelo Gris. Você nem deveria estar aqui, se alguém te vir aqui dentro, você terá mais problemas. Estrela de Fogo vai... (Interrompida).
—Pelo Gris: Eu não ligo! Eu tenho que te dizer uma coisa! Já faz muito tempo que estou planejando te contar isso, eu sei que soa estranho, mas não posso esperar mais! Eu preciso te contar a verdade, Fênix, eu... (Interrompido).
Fênix começou a tossir intensamente, engasgada com um pouco da erva que estava comendo, seus olhos lacrimejavam pela tosse seca, logo começou a tremer de novo e todo o seu pelo se arrepiou, então sentiu a cabeça pesada e desmaiou.
Poça de Folhas voltou logo em seguida, ao ver Pelo Gris tão perto de Fênix, correu para afastá-lo de lá.
—Poça de Folhas: Pelo Gris, você tem que sair! Vai ficar doente também! Vá se lavar no rio ou eu mesma te arrastarei pelas orelhas até lá! (Falou o empurrando para fora).
O guerreiro cinzento saiu e se dirigiu à saída para fazer o que a curandeira lhe disse, se não se lavasse rápido poderia contrair a doença, enquanto isso, Poça de Folhas tentava acordar Fênix para que terminasse suas ervas, mas a aprendiz negra estava em sono profundo, com certeza a tosse a deixou sem fôlego de novo e a derrubou.
O dia passou, o sol estava se pondo, Fênix já estava acordada outra vez, mas ainda proibida de sair, só o que a jovem queria era sair e fazer qualquer coisa que fosse útil ao seu clã.
Logo avistou Coração de Cinzas saindo com a patrulha da noite, com ela estavam Listra Cinzenta, Cauda de Nuvem e Coração Brilhante, os quatro já saiam da toca dos guerreiros, até que sua amiga de pelo cinza se afastou dos outros e foi até a toca da curandeira.
—Coração de Cinzas: Como se sente, Fênix? Eu teria vindo antes, mas os guerreiros foram proibidos de vir aqui a menos que fosse uma emergência.
—Fênix: Não sinto minhas orelhas. (Fala com uma voz rouca).
—Poça de Folhas: É o efeito da erva, quer dizer que você está melhorando. Coração de Cinzas, pode trazer alguma presa para Fênix?
—Coração de Cinzas: É claro, inclusive a minha patrulha está esperando, vamos fazer uma última caçada antes de irmos dormir. Vejo vocês depois. (Sai se despedindo com um aceno de cabeça).
Fênix a observou indo ao túnel, logo se sentiu desanimada e, de certa forma, excluída, já que tudo o que mais queria era sair do acampamento com sua amiga, ambas criaram uma amizade inabalável desde que Fênix foi aceita no Clã do Trovão.
Algumas semanas se passaram, Fênix já se sentia melhor, sabia o quanto havia perdido ficando apenas deitada na toca de Poça de Folhas, mas o importante era que tinha conseguido combater a Tosse Verde, além disso, seu adoecimento foi um aviso de que a doença voltara e poderia causar grande devastação no Clã do Trovão novamente.
Fênix foi correndo em direção a toca dos guerreiros para se encontrar com Coração de Cinzas, no caminho, viu Garra de Amora Doce brincando com seus filhotes, eles pareciam muito felizes, era uma pena que aqueles não fossem mesmo seus filhos, no entanto, todos deviam acreditar que sim, então, apenas continuou a agira naturalmente. Ao entrar notou que Voo de Esquilo estava lá, e há muito tempo não falava com ela.
—Fênix: Voo de Esquilo, é bom te ver. (Fala se sentando ao seu lado).
—Voo de Esquilo: É bom ver que venceu a Tosse Verde, são poucos os que conseguem. Fiquei preocupada com você.
—Fênix: Fico feliz por saber disso. (Disse sorrindo e realmente feliz). Você viu Coração de Cinzas?
—Voo de Esquilo: Deve ter saído na patrulha do amanhecer, não a vi o dia todo, mas ela deve voltar logo, já é quase sol a pino.
Fênix acenou com a cabeça para sua companheira e saiu para a clareira, há muito tempo não esticava as pernas ou sentia o vento balançar seus pelos, tinha ficado doente durante quase todo o resto da estação sem folhas, já que era a sua primeira estação fria na floresta e não estava acostumada com um clima tão baixo assim.
Logo viu Estrela de Fogo saindo de sua toca e indo encontrá-la, aparentemente já sabia de sua melhora e queria falar com sua ex- aprendiz depois de tanto tempo.
—Estrela de Fogo: Olá, Fênix. É bom te ver, queria mesmo falar com você, estive pensando e quero que você saia com uma patrulha hoje, mas irão apenas para procurar ervas medicinais.
—Fênix: Eu? Liderando uma patrulha? (Fala com os olhos brilhando de surpresa e expectativa).
—Estrela de Fogo: Quero que leve Perna de Aranha, Pelo Gris e Coração de Cinzas.
—Fênix: Obrigada, Estrela de Fogo. (Agradeceu satisfeita).
O líder e a aprendiz negra continuaram a conversar durante um bom tempo, o mais velho até comentou sobre uma possibilidade de colocar Fênix para treinar como guerreira de novo e colocar outro filhote como aprendiz de Poça de Folhas. Claro que a mais nova gostou da ideia, mas estava já acostumada com sua mentora e até gostava de ser aprendiz dela, no entanto, não comentou sobre isso com Estrela de Fogo.
O sol a pino já estava apresentável no céu, era a hora de Fênix levar os gatos solicitados pelo líder para uma busca de ervas medicinais, só o que a mais nova não entendia era a razão de o gato rubro estar enviando uma patrulha para uma tarefa tão simples sendo que Poça de Folhas e Fênix poderiam ir facilmente procurá-las.
—Fênix: Perna de Aranha, Estrela de Fogo me disse pra te levar em uma patrulha. (Fala enquanto trotava para o lado do companheiro).
—Perna de Aranha: Eu sei, ele já tinha me avisado. Coração de Cinzas está lá dentro, vá chamá-la. (Fala em um tom seco, enquanto lambia o ombro).
Fênix apenas ignorou o modo grosseiro que ele respondeu e foi encontrar sua amiga dentro da toca, mas não pôde deixar de notar que até mesmo Perna de Aranha ainda não a via como uma semelhante, isso doía em seu peito, pois mesmo estando no Clã do Trovão por mais de uma lua, ainda sentia que muitos de seus colegas de clã não admitiam que uma gata de gente da linhagem de Flagelo fora aceita com eles.
Coração de Cinzas estava sentada conversando com Cauda de Castanha, a sua mãe, que estava deitada de lado lambendo as almofadinhas de uma de suas patas dianteiras, Fênix trotou até lá.
—Fênix: Olá, Coração de Cinzas. Cauda de Castanha. (Falou acenando com a cabeça respeitosamente para a gata tricolor).
—Cauda de Castanha: É bom ver que melhorou, Fênix. (Falou com um leve sorriso e um cumprimento de cabeça).
—Coração de Cinzas: Concordo, agora podemos finalmente fazer nossa primeira patrulha juntas. Está pronta? (Falou se levantando).
—Fênix: Sim, só falta chamar Pelo Gris.
As duas saíram da toca, encontraram-se com Perna de Aranha, Pelo Gris e partiram para a patrulha. Coração de Cinzas e Fênix estavam finalmente passando juntas pelo túnel de tojo pra a sua primeira patrulha juntas, Perna de Aranha estava atrás do grupo, caminhava de cabeça baixa, Pelo Gris estava com a cara fechada e mantinha o olhar fixo no chão. O clima estava começando a ficar tenso.
Fênix queria quebrar o gelo, mas não sabia o que fazer, olhou para Coração de Cinzas para ver se ela também percebera que todos estavam calados demais, pareciam estar fazendo essa patrulha só por obrigação, a gata cinza a encarou nos olhos com preocupação, parecia sentir que algo estava errado, até que ergueu o seu nariz para tentar captar alguma coisa estranha, ergueu as orelhas em modo alerta e arregalou os olhos ao farejar o odor de gatos estranhos no vento.
Logo virou a cabeça para Fênix e deu-lhe um sinal com os olhos, para apontar-lhe de onde vinha o cheiro, a gata negra acenou com a cauda para que todos parassem de andar.
—Fênix: Todos, tentem encontrar os invasores, mas não deixem que eles peguem vocês. (Fala cochichando).
Todos continuaram a caminhar lentamente seguindo o cheiro, até que ouviram sons próximos, pareciam ser passos de um ou dois gatos e, pelo cheiro, pertenciam ao Clã do Rio, deviam estar caçando.
Fênix fez um leve movimento de cauda para seus companheiros, mandando que eles se separassem para atacarem os invasores de direções diferentes. Perna de Aranha e Coração de Cinzas os cercaram pela direita, Pelo Gris foi pela esquerda e Fênix ficou atrás dos invasores.
Já estavam prontos para atacá-los, mas o gato do Clã do Rio que estava vigiando deu um alarme para seu companheiro, que pegou rapidamente as presas e correram na direção do rio, sendo seguidos pela patrulha logo em seguida.
A corrida se estendeu até o rio, quando os gatos do Clã do Rio atravessaram pela água congelada para o seu território. Perna de Aranha correu em disparada atrás do último gato que atravessava o gelo, no entanto não teve tempo de pegá-lo.
—Perna de Aranha: Ótimo, eles fugiram. (Falou sarcástico). Se Garra de Amora Doce estivesse nos liderando, já teríamos acabado com todos eles.
—Fênix: O que quer dizer com isso? (Falou se aproximando).
—Perna de Aranha: Poderíamos ter acabado com eles, mas deixamos eles fugirem com nossas presas, qual era o seu plano afinal? Mas é claro que as coisas dariam errado com uma aprendiz de curandeira liderando um ataque, nem foi pra isso que viemos. (Acusou gritando).
—Coração de Cinzas: Não jogue a culpa nela, Fênix nunca liderou uma patrulha na vida, além disso eles foram embora, poderia ter sido pior.
—Fênix: Vamos voltar e entregar um relatório a Estrela de Fogo. (Falou com a voz fraca, mantendo a cabeça baixa).
Os quatro voltaram ao acampamento, já estava escurecendo, as únicas luzes no céu eram os últimos sinais do sol poente, logo só o que se via eram os olhos brilhantes dos gatos que ainda estavam acordados. Rapidamente o líder se dirigiu a eles.
—Estrela de Fogo: Algum problema, Fênix? A patrulha correu bem?
—Coração de Cinzas: Encontramos alguns guerreiros do Clã do Rio caçando no nosso lado do rio, nós íamos atacá-los, mas eles nos farejaram e fugiram com o que pegaram.
—Estrela de Fogo: Tudo bem, Estrela de Leopardo ainda deve estar zangada pelo que contei sobre Geada de Falcão, ela é boa em guardar rancor.
—Fênix: Mas por que ela faria isso só agora? Por que não fez antes?
—Estrela de Fogo: Provavelmente por causa da estação fria, os clãs precisam de todos os seus guerreiros dentro dos territórios nessas épocas, mas isso não importa, o que importa é que agora sabemos que essa não será a última vez que veremos invasores em nosso território.
As gatas se entreolharam com preocupação, abaixaram a cabeça em sinal de respeito para com seu líder e trotaram lado a lado para a toca dos guerreiros.
—Fênix: Eu sinto que ainda teremos problemas mais sérios com o Clã do Rio, eu gostaria de ir a uma assembleia e ter uma conversa séria com Estrela de Leopardo, quem ela pensa que é para invadir assim?
—Coração de Cinzas: Eu sei que ela parece egoísta e ignorante, mas ela só quer proteger seu território, assim como nós queremos proteger o nosso. (Falou colocando a cauda sobre as costas da amiga).
—Fênix: Não sei como você sempre consegue ter razão, você daria uma ótima líder, teria ótimos argumentos em uma discussão.
—Coração de Cinzas: Talvez, mas não tenho um bom senso de liderança, além disso, estou feliz sendo apenas uma guerreira. Espero que um dia possa ser mentora de pelo menos um aprendiz.
—Fênix: Sei que Estrela de Fogo um dia vai te dar um aprendiz, mas você também poderia dar aprendizes ao clã.
—Coração de Cinzas: Ainda não está na hora de ter filhotes. Mas acho que você daria uma boa mãe. (Falou dando uma piscadela para a amiga).
—Fênix: E quem iria querer ter filhotes comigo?
Nesse momento, Cauda de Nuvem deu uma resmungada em seu ninho enquanto dormia, com certeza as duas estavam acordando todos na toca com o tom alto em que falavam. Ambas se entreolharam com preocupação de todos ficarem bravos por não conseguirem dormir com as vozes das duas, então se despediram e cada uma foi para o seu ninho.
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