A Jornada

2 A Liberdade do Pássaro Engaiolado


Capítulo 2 – A Liberdade do Pássaro Engaiolado

Kimberly ficou surpresa quando seu professor disse que iria liberá-los mais cedo naquele dia. Ela sabia que, provavelmente, Dylan estaria ocupado com o treino de futebol, então decidiu que iria a pé para a sua casa. Não faltava muito tempo para que Ramona saísse da escola, então ela poderia passar em casa para pegar biquínis e outras coisas e então elas poderiam ir à praia. Estava um dia quente e ensolarado, perfeito para um mergulho no mar.

Enquanto caminhava para a mansão dos Hayes, que ficava a apenas cinco quarteirões da universidade, Kimberly pensava na sua vida e em como ela não pertencia mais a si mesma. Naquele momento, em que ela havia decidido que ia à praia com Ramona, ela gostou da sensação de ser dona da própria vida. Mas sabia que aquilo era passageiro. Ela havia aprendido a gostar do curso de medicina, mas ainda preferia que estivesse cursando literatura e também sentia falta dos amigos de infância, os quais gostavam dela não por ser uma Hayes, mas por quem ela era de verdade.

Assim que chegou em casa, subiu para o seu quarto arrumar a bolsa para ir à praia. Depois que estava pronta, desceu para a cozinha, na intenção de arrumar alguma coisa para que ela e Ramona comerem. Estava mandando mensagem para Ramona, avisando que iria passar na escola dela para busca-la, e para Hannah, pedindo que ela cuidasse da organização da festa de Dylan, e não percebeu que havia aberto a gaveta errada.

Kimberly só desviou a sua atenção do celular ao sentir o toque de folhas de papel. Notou, então, que aquela era a gaveta especial de sua mãe. Aquela gaveta onde sua mãe guardava de tudo e que ela sempre dizia que o conteúdo daquela gaveta dizia respeito apenas aos adultos daquela casa. Kim deu de ombros, que mal faria ela olhar o que se tratava aqueles papéis afinal?

Dominada pela curiosidade, Kimberly começou a ler. Seus olhos violetas se arregalaram e sua pele ficou pálida. Foi então que Justice entrou na cozinha. Ao ver a filha mais velha tão pálida, ela franziu o cenho.

— Kimberly? Está tudo bem? Parece que viu um fantasma. – assim que a última palavra saiu de sua boca, Justice percebeu o que Kimberly segurava. Primeiro, viu o símbolo do tribunal judiciário de Los Angeles e aquilo foi o suficiente para fazer seu sangue gelar.

— O que diabo é isso? – Kim perguntou, sacudindo a folha para a mãe.

Justice não sabia o que dizer. Mas ela sabia do que se tratavam aqueles papéis e também sabia que Kimberly não lhe perdoaria por ter escondido aquilo dela.

— Vamos! Responda-me! O que significa isso? – ela elevou o tom de voz e quando percebeu que sua mãe não lhe responderia, ela voltou os olhos para o papel e começou a ler em voz alta. – “Caros senhor e senhora Hayes, o juiz Collins aceitou o pedido de adoção legal da criança Kimberly Hayes. E, acatando o pedido dos senhores, o caso será mantido em sigilo”.

Kimberly ia continuar, mas Justice arrancou o papel das mãos dela.

— Pare com isso, Kimberly! Você é minha filha e ponto final. – a mulher afirmou e fixou os olhos cor de mel no rosto da garota. Kimberly estava em estado de choque e pálida como uma folha de papel, com os olhos violetas arregalados e incrédulos.

— Quem são meus pais biológicos? Por que você escondeu isso de mim?

— Eu sou sua mãe, Kimberly! – exclamou Justice, como se aquilo respondesse todas as perguntas da filha. A garganta já apertava em um nó. – Você foi deixada na nossa porta. Ninguém viu quem lhe deixou e a pessoa não deixou sequer um bilhete.

— Se foi isso mesmo que aconteceu e vocês não sabem quem são meus pais biológicos, então por quê? – Kim finalmente voltou a cor normal e sentiu as lágrimas caírem por suas bochechas. – Por que esconderam isso de mim por dezenove anos?! Eu tinha o direito de saber!

— Saber o que, minha filha? Que seus pais não queriam você?

— Você não pode afirmar isso! Você não sabe o que aconteceu! Eu tinha o direito de saber! – ela repetiu a frase e se abraçou, como se aquele ato fosse o suficiente para recompor os pedaços de si mesma. – Vocês alguma vez pensaram em me contar? Em tentar procurar meus pais biológicos?

— Não. – Justice respondeu veemente. – Você sempre foi nossa filha. Não achávamos que deveríamos contar que seus pais biológicos tinham te abandonado.

— Eu quero conhece-los. – Kimberly afirmou, a voz firme apesar de chorar copiosamente. Justice apenas negou com a cabeça, impassível. – Por que vai me negar isso?

— Seus pais não a queriam, Kimberly. Por que iria querer conhecer as pessoas que a abandonaram?

— Porque, pelo menos assim, eu saberia a verdade. E não as suposições da mulher que mentiu para mim todos esses anos, a mulher que controlou a minha vida e me fez me tornar alguém que eu não sou! – Kimberly limpou as lágrimas com raiva. – Por 19 anos, eu fiz o que você queria porque eu morria de medo que você quisesse fazer com a Ramona o que fazia comigo. Por 19 anos, eu fui infeliz porque não podia conversar com qualquer pessoa, porque eu tinha que fazer um curso que você queria, porque eu tinha que sair com as pessoas que você achava que eram boas o suficiente, porque eu tinha que namorar alguém que você achava bom o suficiente. Por 19 anos, eu coloquei a sua felicidade acima da minha, porque eu queria proteger a Ramona e porque eu queria que sentisse orgulho de mim. Por 19 anos, eu fui a filha que você queria que eu fosse, mesmo que eu odiasse essa Kimberly que você criou. E, agora, depois desse tempo todo, eu descubro que minha vida inteira não passou de uma grande mentira!

— Kim, eu... – Justice tentou tocar a filha, mas ela se esquivou.

— Não! Não quero ouvir suas mentiras. Eu cansei de ser quem você queria que eu fosse. Eu cansei de viver esta mentira que é a minha vida. – ela balançava a cabeça desesperadamente. – Se vocês não vão me ajudar, então vou acha-los sozinha.

Kimberly saiu dali como um furacão e sequer se virou para a mãe, mesmo depois de ser chamada diversas vezes. Subiu até o seu quarto e pegou as chaves do seu carro. Desceu as escadas e passou novamente na cozinha para pegar a bolsa que havia arrumado. Justice ainda estava na cozinha, sentada em uma das cadeiras com o rosto entre as mãos.

— Kimberly, por favor... – ela chamou a filha, destampando o rosto assim que ela entrou no cômodo.

— Vocês vão me ajudar a encontra-los? A encontrar a verdade? – ela interrompeu e quando recebeu outra resposta negativa, apertou a alça da bolsa. – Então, não tente me impedir.

Como um furacão, ela desceu até a garagem e foi até o seu carro. Jogou a bolsa na poltrona do passageiro e colocou a chave na ignição. Ela sabia aonde ir e sabia a quem deveria recorrer.

[...]

Notas finais
Acho que todo mundo já esperava essa revelação, então não é uma grande surpresa que a Kim é adotada, não é mesmo? Algum palpite sobre onde ela vai? E o que ela fará em seguida? Tudo isso nas cenas dos próximos capítulos, pessoal ;) Bom, eu acredito que a Kimberly pode parecer dramática e boba por se achar traída pelo fato de não saber que ela era adotada, mas é como se ela tivesse vivido uma mentira porque ela passou a vida inteira tentando agradar a mãe dela, permitindo que ela controlasse totalmente a sua vida, e agora ela descobre que, na verdade, ela fez tudo aquilo em vão porque Justice sequer é sua mãe de sangue... Ah, e sabe as folhas de papel na cozinha? Eu sei que isso parece totalmente anormal, mas é aquele negócio de mãe, às vezes, ela larga coisas pela casa e cria uma gaveta 'secreta' que acha que ninguém nunca vai descobrir kkk. No caso da Justice, ela deixou na cozinha por, talvez, não ter outro lugar, ou por achar que nenhuma das filhas iria um dia cozinhar... Vai saber, né?! Mas, enfim, espero que vocês tenham gostado desse capítulo, xuxuzinhos! Por favor, não esqueçam de deixar seus comentários ^^