A Jornada
1 Capítulo Um: O Demônio do Oriente
Notas iniciais
-Acho que já está bom, não é?
Os dois homens estavam parados debaixo da sombra de uma frondosa arvore, ali nos arredores do pequeno vilarejo. Ambos trajavam o uniforme do Exército Imperial. Armaduras de aço escovado com uma capa azul mostrando o símbolo do Norte; a cobra devorando a quimera.
Os dois soldados estavam vigiando aquele pequeno vilarejo já fazia algumas semanas, coletando informações para levar ao seu superior, que se encontrava a alguns quilômetros de distância dali. Precisavam de algo para poder invadir e saquear aquele lugar. Mas aparentemente não havia nada que poderiam usar como desculpas para atacar a vila.
-Ah, não tem nada de nada nessa droga de lugar! – Reclamou um dos soldados. O homem suava por debaixo do elmo. Seus cabelos castanhos grudados na testa. – Esse povo não faz nada demais.
-Calma James... – o outro soldado disse analisando com mais cuidado o que via. Esse homem era mais velho do que James, e exibia uma longa cicatriz na ponte do nariz. – Nós podemos achar outro jeito para atacar... outra desculpa...
-Só me falar o que. – James revirou os olhos, sem paciência. – Olha, já estamos a tempo demais aqui, e tudo que fazemos é olhar, senhor! Ou voltamos agora, ou matamos todos dali!
-Fora de cogitação... – murmurou o outro soldado. – Não podemos deixar fugitivos...
-Bom então estou sem ideia, Harold.... – Ele se levantou com dificuldade, a armadura pesava muito. – Além do mais para que precisamos dessa droga de vila? Não tem nada útil ali.
Harold, o soldado mais experiente se levantou também.
-Eles escondem os mantimentos em alguma das casas, ou em algum armazém, para que gente como nós não peguemos. E deve ter outras coisas escondidas, como ouro, joias e é claro, mulheres. Jovens donzelas nos esperam James. – Ele sorriu maliciosamente.
-Você é muito asqueroso, senhor. – James retirou o elmo e suspirou aliviado. – E eu fiz um juramento para minha mulher.
-Não lembro desse juramento quando fizemos aquela festinha a uns três meses atrás...
-Ora, — James ruborizou – vocês me embebedaram!
-O que você esperava numa festa? Leite? – Harold gargalhou.
-Cale! Eles vão nos ouvir!
-Ok, ok.... Vamos garoto, vamos voltar para nosso acampamento, devem estar quase morrendo sem a gente.
Os dois começaram a caminhada de volta para o acampamento, que se encontrava a uns quinze quilômetros e meio do vilarejo, perto da grande polis de Sollona, a cidade comercial. O grupo de que Harold e James faziam parte era formado por aproximadamente oitocentos e trinta homens. Entre eles, besteiros, arqueiros, soldados da infantaria leve e pesada. Além de dois ferreiros que ajudavam na manutenção das armas. Havia também o General, o grande soldado de elite do Imperador, Raroshim (Guerra) que era o líder da expedição. James estava ansioso para poder voltar para perto do soldado de elite. Com seus quarenta e um anos, Raroshim exalava uma aura de liderança e força. Os guiava sem medo diante de batalhas que pareciam impossíveis. Por isso e por sua extrema habilidade e brutalidade contra os inimigos que ele era considerado o aliado número um na guerra contra o Sul.
Já estava escurecendo quando eles decidiram descansar. Incrível como estar completamente vestidos com armadura pesava e atrasava a viagem. James armou seu leito improvisado enquanto Harold preparava algo para cozinhar.
-Então será que já apanharam o cara que estava nos espionando? Lembra? Raroshim disse que havia alguém nos seguindo e talvez coletando informações para o Sul? Malditos ratos sulistas...
James ergueu os olhos de seu livro, ele parecia entediado.
-Não importa né? Acho que a essa altura, o Mestre Raroshim já deve ter matado esse rato.
Harold esboçou um sorriso.
-Você não vai acreditar no que eu ouvi.
-Mais fofocas? – Apesar do comentário, James se ajeitou melhor para poder ouvir o colega.
-Há, há, você diz isso, mas sei que quer ouvir. Pois bem. Tempo atrás enquanto Raroshim desconfiava que havia alguém nos espionando, ele falou com os soldados mais experientes que talvez pudesse ser um antigo aliado do Império, que se virou contra nós, que pudesse estar nos seguindo.
-Como assim? – James parecia interessado agora.
-Você já ouviu falar dos Cavaleiros Brancos?
-Hum, acho que sim. Não foi a muito tempo assim, mas eu ainda não era um soldado. Refresque minha memória.
-Bom, eles eram um grupo de elite que destruía os inimigos do Norte, mas que mantinham uma fama de serem justos e de nunca, digo nunca fazerem algo que queimassem sua reputação. Era chamados assim, porque nunca se corrompiam. Até que chegou um dia que o líder dos Cavaleiros Brancos decidiu se rebelar e não seguir mais as ordens de nosso Imperador. Talvez achassem que estivessem acima disso tudo. Claro, que nosso Imperador não poderia deixar isso de lado. Deveria acabar com o grupo que a essa altura já se somava mais de sessenta soldados. Não poderia deixar uma rebelião começar. Isso foi o fim dos cavaleiros Brancos.
-Está bem, lembrei da história. Mas o que tem a ver com o cara nos espionando?
-Raroshim disse que talvez pudesse ser um remanescente desse grupo fadado, ou até mesmo o seu líder, que antigamente era intitulado como um soldado de elite também, chamado de Bloodzethar! E que esse homem deveria a todo custo ser derrotado, afinal ele era do mais alto escalão do Império, tem todo tipo de segredos e sabe todo tipo de coisa, coisa que pode derrubar o Norte inteiro!
James pareci maravilhado agora.
-Isso significa que além de termos Raroshim nos liderando, agora temos outro soldado de elite nos seguindo? Imagina uma luta entre esses dois! Você sabe o que dizem né? Que ver dois soldados de elite lutarem é como ver a fúria da natureza, e que o próprio céu e mar se silenciam para poder acompanhar a batalha!
Harold riu asmaticamente.
-Você é muito cheio de fantasias, garoto.
James ainda parecia maravilhado.
-Eu só fico feliz em viver numa época como essa!
-O que? Cheia de guerras, mortes e decepção? Eu não garoto...
James olhou com raiva para o colega e se levantou num salto.
-Digo, viver numa época cheia de fantasia e historias tão fantásticas! Como essa dos Cavaleiros Brancos e de seu líder Bloodzethar. E tem muito mais ainda! Bruxas, dragões, o Imperador enfrentando feras de gelo no extremo norte e claro uma das mais famosas, o demônio do oriente-
-Calado garoto! – Disse Harold nervoso. – Você sabe muito bem que dá azar falar dele!
-Ora, você está com medo? Pensei que não acreditasse nesse tipo de fantasia.
Harold remexeu na fogueira, que se apagava aos poucos, e falou num sussurro:
-Existe diferença entre não acreditar em algo e remediar algo. E além do mais, não pode ser só uma lenda. Tantos relatos, tantas evidencias... tantos... cadáveres.... Todos deixados no mesmo estado. Cortados por algo tão mortal e afiado que alguns dizem que possa ter sido a ira do próprio Deux.
-Nossa, isso até me arrepiou Harold, dizem que ele uma vez enfrentou mais de quinhentos soldados e saiu sem um único arranhão. Estava somente banhado em sangue dos inimigos!
-Isso já é demais garoto. – Riu Harold. – Chega de falar baboseiras por hoje.
Algo acima deles fez barulho.
“Chega de ouvir” pensou o homem empoleirado no topo de uma das arvores acima dos dois soldados. Espiara os dois homens ali já fazia um dia e finalmente tinham soltado alguma informação valiosa. Havia alguém que poderia ajuda-lo e destruir e matar o Imperador e ele talvez sabia onde estava tal pessoa. Só precisava ter certeza disso, conferindo a localização do lugar e limpando os rastros. Não havia mais por que de deixar vivos os dois soldados, claramente não sabiam de mais nada útil. Ele esticou o braço, apanhando a arma em sua bainha, e devagar e sem fazer barulho tirou a fina katana de aço do lugar. Media exatos noventa e nove centímetros e era a arma mais afiada do continente, capaz de cortar facilmente um corpo de um ser humano adulto. Seu cabo era negro e tinha um laço azul na ponta, destinado a um tipo só de inimigo, gostava ele de pensar. Ele olhou o lugar ao redor e se preparou. Aparentemente não havia nada que poderia atrapalha-lo a matar os dois homens. Respirando três vezes e sentindo a velha sensação de frio na barriga, o homem saltou da arvore bem a tempo que Harold dizia:
- Isso já é demais garoto. Chega de baboseiras por hoje.
Correto. Pensou o Demônio do Oriente, enquanto caia.
Ele caiu com joelhos dobrados em cima da fogueira que se apagou na hora. James se assustou tanto que caiu de costas, a cabeça batendo com força numa arvore próxima. Harold, mais experiente, se recuperou do susto e correu para buscar a espada que estava em sua sacola. O Demônio se virou rápido na direção do velho e com um golpe cortou a mão do homem. Harold exclamou de surpresa ao ver o toco ensanguentado. Com reflexo ele pegou a espada com a mão canhota e partiu na direção do vulto encapuzado.
Houve um som mínimo de duas armas se chocando e segundos depois o velhote caia de borco no chão, a espada quebrada, o peito dilacerado, o sangue saindo aos montes. O vulto se virou ligeiro para trás, ao sentir que James havia tomado postura de ataque. O jovem aproveitara o tempo e pegara o escudo e a espada curta que costumava usar. Parecia com medo, mas também furioso.
-Quem diabos é você? De onde veio.
O Vulto ficou em silencio. Naquela escuridão, não tinha como o jovem ver seu rosto, que estava protegido por um capuz de couro. Ao ver que não iria conseguir arrancar nada do inimigo, James partiu para luta. Ergueu o escudo na frente do corpo para receber o impacto. Que não veio. O vulto desviara para direita e com movimento de perfuração acertou a parte de trás da coxa do jovem soldado, que se ajoelhou gritando de dor. Com outro golpe suave a katana perfurou a omoplata de James que se rendia por completo largando a espada e escudo, se retorcia no chão agora.
O vulto pegou o jovem pela perna e o jogou na arvores mais próxima com uma força surpreendente. James gemia e suplicava.
-Por favor, por favor, não, não!
A voz que saiu de dentro da escuridão do capuz era fria, rouca e tinha um leve sotaque.
-Aonde é a localização do acampamento de seu grupo?
James segurava o ferimento da perna, que sangrava muito.
-Eu... eu.... nós estávamos sozinhos! Somos guardas de uma cidade próxima daqui! Posso te falar aonde é, tem muitas coisas para saquear-
-Meu objetivo não é saque. – O vulto se aproximou de James. – Meu objetivo é tirar a verdade de você. Mas vejo que não estou conseguindo. Talvez somente com um pouco de dor você me fale, a verdade!
Ele ergueu a katana mais uma vez e a abaixou de uma vez. Abriu um corte raso no pulso da mão direita de James, que guinchou de dor mais uma vez.
-Agora, aonde é?
Dessa vez não houve resistência por parte de James.
-Não fica muito longe daqui! Estávamos indo até lá, siga nessa direção ao oeste, ao lado da estrada e em menos de meio dia você chega lá. É... é perto da cidade de Sollona, o centro comercial dessa área! Por favor, me deixe viver!
O vulto ficou em silencio por um instante e depois deu meia volta e se aproximou do corpo de Harold. O velho ainda estava vivo, viu ele. Girando a espada com uma mão, o homem perfurou o crânio do soldado para certificar de que estava morto. Ao ver isso James se desesperou, imaginando o que aconteceria com ele.
-Não, não, NÃO! Por favor, não faça isso comigo!
O vulto limpou a lamina da arma nas vestes do cadáver de Harold. E embainhou a katana. De pé olhou para o jovem soldado sangrando diante de si. Ele então, abaixou o capuz e mesmo no escuro James podia ver o rosto que o atormentaria pelo resto da vida.
O homem devia medir um metro e oitenta, não muito alto. Tinha uma pele amarelada e olhos puxados. Seus cabelos eram negros e estavam amarrados num rabo de cavalo, ele exibia um bigode ralo e tinha cicatrizes ao longo do queixo e da testa. Sua boca era fina e parecia não ter mais do que trinta anos. Ele disse mais uma vez com aquela voz fria e áspera.
-Se eu te matar, garoto, quem contará a história do Demônio do Oriente? Viva, e espalhe a mensagem de que nem no Norte, nem no Sul, os meus inimigos estarão a salvos.
James parecia petrificado.
-E quem são seus inimigos?
O Demônio voltou a vestir o capuz. E dando meia volta se misturou as sombras.
-Todos aqueles que uma vez destruíram a minha vida, ou seja, o próprio Norte e Sul.
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