A Joia de Indigy
2 A punição
Notas iniciais
— Essa foi a maior estupidez que você já fez Camellia. Eu pensei que você entenderia que essa missão não era para você ainda, e que me escutaria uma vez na vida. Não entendo porque você ainda age como criança, enquanto eu poderia estar resolvendo outros problemas... – Tentei prestar atenção em qualquer lugar da sala de reunião enquanto Nora falava, com a familiar postura em pé e com as mãos na cintura, na outra ponta da longa mesa. Estávamos sós, nós duas na sala de reuniões.
Com “Precisamos conversar sobre a noite anterior” King quis dizer que eu teria que ouvir Nora pela próxima hora. Eu já sabia o que ela iria falar, pois duvidava que mais alguém em Indigy tivesse escutado tantos sermões de Nora quanto eu. Além disso, minha humilhação em ter tropeçado e me machucado daquela forma na minha primeira missão já era punição o suficiente.
Nora era irmã de King e sempre esteve muito ligada à Sociedade dos Azuis, apesar de não residir em sua enorme sede e mansão Toprien, mas sim no abrigo escondido que estávamos agora e que jamais recebera um nome como a maioria dos abrigos pelo resto do país. Ela era melhor que ele em fazer as pessoas quererem se matar de vergonha ou frustração com seus discursos longos. Era uma mulher baixa e ruiva, mas com uma expressão durona eterna que daria medo em qualquer brutamonte. Foi uma das maiores guerreiras azul, mas não hesitou muito ao aceitar a profissão de guardiã dos abrigos e reclamona de qualquer coisa que a incomodasse.
Há muito que eu não ia naquele abrigo beira-mar, mas pouco tinha mudado naquela sala. Ela continuava revestida de madeira, de forma que sempre me lembrava das cabines dos piratas nas imagens de livros que lia quando era mais nova. Quase todas as paredes eram preenchidas com mapas — tanto de nossa região, Indigy, quanto das regiões dos Verdes e dos Dourados -, imagens de pessoas que foram importantes em nossa história e de textos encontrados em missões que esperavam um dia serem uteis. Um baú que eu sabia que possuía armas para o caso de uma invasão estava no mesmo canto, e sobre ele ainda estava uma maleta de primeiros socorros. As prateleiras de livros estavam empoeiradas, e todos eles deveriam ser inúteis, pois nunca vi uma alma usá-los. A grande mesa no centro, onde estávamos, possuía ainda alguns documentos e desenhos que foram usados antes que eu entrasse. Algumas xícaras usadas ainda estavam por lá, e uma delas fora repousada em cima de um dos papeis, manchando-o de café.
Quando voltei minha atenção para a unha quebrada no meu dedinho, Nora finalmente pareceu perceber como eu não ligava para o que ela falava e se aproximou de mim. Ela colocou seu dedo gorducho em meu queixo, fazendo com que eu a encarasse.
—Você vai ficar aqui comigo, ajudando todas as pessoas que precisarem de nós. Irá aprender como com Sarah. Nada de treinos, nada de saídas ou comunicação com qualquer pessoa de Toprien. Você está proibida de voltar para lá pelo próximo mês.
Franzi a testa para ela, me segurando para não fazer cara de deboche.
—Nora, você já foi melhor em punições antes. Sinceramente, eu esperava mais de você. Que absurdo.
Ela afastou seu dedo de meu queixo e aproximou seu rosto do meu, me encarando por um longo minuto antes de responder calmamente.
—Você vai mudar de opinião, querida. – Ela saiu da sala sem olhar para trás.
°°°
No dia seguinte, meu hematoma na bochecha estava curado. Dispensei as muletas e andei normalmente, porém sem retirar a faixa ainda. Eu não tinha encontrado minha alma, por isso me curava rapidamente. Quanto mais velha a pessoa que não tivesse encontrado sua alma fosse, menos ela estava propensa a doenças e jamais teria um machucado de novo. Além disso, depois de atingirem a completa maturidade física, envelheciam com um pouquinho menos de rapidez. Viviam mais, porém ninguém era imortal. A natureza ainda era a rainha de todas as coisas.
Aparentemente as almas continuavam a se ferir e envelhecer normalmente quando se encontravam, pois eram parte de um só. Deveriam morrer juntos, ou a dor do parceiro seria grande demais. Deveriam entender a fragilidade um do outro, e o melhor jeito de fazê-lo era sentindo as feridas.
O abrigo não parecia possuir nenhuma tecnologia além da eletricidade. Não encontrei aparelhos em lugar nenhum, com exceção da grande enfermaria, que esbanjava de máquinas potentes que poderiam ajudar até os piores dos machucados. Não tinha visto nenhum médico ainda – não tinha visto quase ninguém além da família de King desde a minha chegada, o que era estranho.
Quando ia fuçar nas gavetas perto de uma maca na enfermaria, alguém pigarreou atrás de mim.
Sarah estava apoiada na entrada do lugar, com os braços cruzados e uma expressão desaprovadora.
-Que foi? – Perguntei, sem tentar disfarçar o que estava fazendo. Como se aquela tampinha pudesse mandar em mim.
-Pronta para seu treinamento de enfermeira? – Respondeu ela, abrindo um sorriso que considerei um pouco maligno. – Vamos começar lá fora. Nunca se sabe quais objetos você vai precisar em uma missão.
Revirei os olhos e me levantei. Olhei pelas janelas pequenas e vi um céu escuro e intimidador. Perguntei-me se naquele lugar aconteciam tornados. Mas não a questionei, e Sarah pareceu ignorar o temporal que iria logo acontecer.
Ela me levou até uma área afastada da praia onde havia uma variedade de gravetos, conchas e plantas espalhadas pelo chão. Eu conseguia sentir o formigamento da promessa de chuva, que mal nos molhava. Sarah se agachou e pegou um galho um pouco mais resistente. Ela tinha os mesmos cabelos castanhos que um dia King tivera, percebi aleatoriamente.
-Você sabe fazer um torniquete? – Perguntou ela, me entregando o pedaço de madeira.
Apoiei o galho entre as pernas. A blusa amarela que eu estava usando não era minha, mas parecia velha o suficiente para que eu a rasgasse. Peguei a tira resultante dela e segurei o braço de Sarah. O envolvi com o tecido e pressionei-o contra o galho, torcendo...
— Ta bom, ta bom, entendi. Você sabe. – Sarah afastou o braço, rindo – Essa blusa era minha, por acaso.
— Desculpe – Ajudei-a a se livrar do torniquete.
— Certo. –Ela olhou para o chão, procurando algum objeto – Talvez devêssemos tentar algo mais complicado. Que tal...
Escutamos um grito da floresta perto de onde estávamos. Entreolhamo-nos por apenas um segundo antes de sair correndo em sua direção. Xinguei quando passei as mãos pelo corpo, me lembrando que Nora não tinha permitido que eu andasse com qualquer arma. Quando estávamos entre as árvores de tronco fino que o grito finalmente cessou, mas continuamos correndo.
Deitado em cima das folhas caídas estava um rapaz loiro, com o rosto contorcido de dor. Sua perna estava virada em uma posição estranha e seu braço sangrava. Ajoelhado perto dele estava outro rapaz, talvez um pouco mais novo e moreno, com a expressão desesperada e as mãos cobertas de sangue. Havia alguns arranhões em seu rosto.
— Por favor, ajude-o! – Ele gritou quando nos viu.
Avancei para eles, mas Sarah não se movera. Estava avaliando-os. Procurando suas joias, mais especificamente suas correntes.
-Sarah! Não temos tempo para isso – Ela olhou pra mim e correu em direção ao rapaz ferido.
-Você – ela apontou para o moreno – O segure pelo braço que não está ferido. Cuidado com a perna dele. Camellia, vá na frente e prepare os instrumentos que estão ao lado da cama 4.
Assenti e fui correndo para a casa novamente. Assim que saí da proteção das árvores, percebi que chovia com força, o vento fazia meu cabelo molhado chicotear meu rosto. Corri para a enfermaria, em busca da cama 4. Perto dela, uma maleta estava fechada. Coloquei-a sobre a mesa, retirando os objetos e espalhando-os.
Sarah e o rapaz chegaram. O que estava ferido parecia ter desmaiado de dor no caminho, e colocaram-no na cama delicadamente. Sarah me afastou e procurou por gaze, pomadas e agulhas. Ouvi um gemido e olhei novamente para a cama. Ele tinha aberto seus olhos (que eram castanhos, percebi) e avaliava o lugar ao redor. Seu amigo veio em sua direção às pressas, mas ele olhou para mim. Para a joia em meu pescoço. E desmaiou de novo.
-Camellia – Sarah me olha rapidamente – Vá chamar Nora.
Olhei uma última vez para os estranhos antes de sair da enfermaria.
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