Sarah

Eu adorava reuniões. Eu observara com admiração meu tio King enquanto explicava as condições atuais de nossa região e nosso país desde que entendi que herdaria seu poder. Quando saía de sala, iria até meu quarto e ensaiava sua expressão séria em frente ao espelho. Eu tinha ficado um pouco frustrada um ano atrás, quando comecei a receber treinamentos diferenciados e não tinha mais tempo de comparecer a muitas reuniões.

Após seis meses no abrigo com minha tia Nora, finalmente voltaria à Toprien, meu verdadeiro lar. E que lar. Toprien era o nome da mansão e sede dos Azuis. Ainda me lembrava do longo caminho cercado por árvores até sua entrada majestosa e brilhante. Do lago Verchromt brilhando perto dos jardins. Nunca tive muito contato com o grande número de moradores do lugar, incluindo Camellia, já que não tinha tempo. Mas agora isso iria mudar. Eu estava cada vez mais perto de me tornar a nova líder e precisava saber sobre tudo que estava acontecendo.

Meu humor estava maravilhoso naquela manhã. Sabia que seria chamada para uma reunião naquele dia devido aos nossos “hóspedes”. Sentei-me em frente à penteadeira, deslizando as mãos pelo cabelo castanho. Trancei-o lentamente, esbarrando o olhar sobre minha joia vermelha, o rubi se destacando com a corrente azul. Observei as sardas pingadas pelo meu nariz um pouco arrebitado e pelas bochechas. Não as escondia mais desde que saíra de Toprien, e decidi que jamais o faria novamente. Meus olhos negros não pareciam mais tão inocentes quanto um ano atrás, mas sabia que parecia mais nova do que realmente era.

Não tive notícias de King desde a chegada de Camellia e supus que ele estivesse em outra missão diplomática mais importante. Decidi levar minha caneca de café para a sala de reuniões, onde Nora me esperava. Ao chegar lá, porém, Lucas também estava sentado, compartilhando risadas com minha tia. Ele era a única pessoa capaz de fazer aquilo.

Quando percebeu minha presença, ele se levantou em veio em minha direção com aquele penteado impecável prateado como a lua e um sorriso brincalhão, depositando um beijo em cada uma das minhas bochechas.

—Fico tão feliz em vê-la, Sarah! Já faz alguns anos.

—É verdade, Lucas – Lhe ofereci um sorriso genuíno – Eu senti sua falta.

Nora se levantou atrás de Lucas.

—Sentem-se, por favor.

O representante da sede sentou-se de um lado da minha tia e eu me sentei do outro, visto que ela ocupava a ponta da mesa. Não havia nenhum objeto sobre a mesa além de minha caneca. Nora estava com círculos azulados em volta dos olhos, o cabelo ruivo e curto apontando para todas as direções. Ela suspirou antes de olhar para mim.

-Sarah você entende nossa relação com os Verdes. Nossos conflitos de ideias não são surpresa nenhuma para você.

Era verdade. Sempre soube o fato de que os Verdes concordavam com a lei anterior à nossa magia de que aqueles que nos seriam inúteis ou poderiam significar ameaça ao poder deveriam ser executados. Há alguns anos o governo de Feulie, a região dos Verdes, começou com a ação de punir todos aqueles que atingissem a idade dos 30 e não tivessem encontrado sua alma. Havia apenas uma exceção, que se aplicava aos líderes. Nossa magia, entretanto, não facilitava a principal das punições, a morte. Os Azuis, porém, contavam com a maior coleção de livros da época dos Primeiros, onde os Verdes acreditavam estar a solução de seu problema, gerando diversos saques. Nós sempre fomos contra a decisão deles, declarando-nos seus inimigos. Eu sempre soube também que estava do lado certo. Os Dourados jamais escolheram um lado, focando apenas na exploração de territórios não conhecidos da forma mais pacífica.

-Passamos por uma situação nova, mas que sabíamos que iria acabar acontecendo uma hora ou outra. –Continuou Nora – Estamos à beira de uma guerra civil. Sempre acreditamos na união de nosso povo, mas agora ela parece estar se rompendo.

-Essa... Guerra interna exige medidas arcaicas. Políticas. – Falou Lucas, com a expressão séria rara, me observando com atenção. – Para que nossa região não se divida nesse momento complicado, enquanto não podemos convencê-los a se unirem a nós novamente, faremos isso com uma aliança.

-Que tipo de aliança? – Perguntei.

Nora se levantou, apoiando-se na cadeira. Sua postura ereta, seu rosto jovem. Seu pescoço com uma corrente azul, sem joia alguma. Ainda sim, sua aliança de madeira no dedo, não comum como todas as suas coisas. Não comum como sua forma de lidar com a perda de seu parceiro. De saber que ela viveria muitos anos sem uma alma. Sua voz, novamente, contrariou aqueles pensamentos frágeis.

-Acredito que se lembra de Peter, o velho amigo de seu tio e pai de Lucas, que coordena o centro de fronteiras no norte.

Fiz que sim com a cabeça.

-Ele está liderando essas ideias divergentes, muito possivelmente convencido pelos Verdes. Lucas aqui não sabia disso, pois estava viajando como representante de Toprien, mas é completamente contra as ideias de seu pai. Ele ainda deve herdar o cargo e possui influência sobre a região. Assim como você possui no sul.

Olhei de minha tia para Lucas.

-O que você quer dizer?

Ela se aproximou de mim, repousando a mão em meu ombro.

-Estou sugerindo que se case com Lucas.

Arregalei os olhos e derrubei a xícara que tinha acabado de segurar. Lucas estava imóvel, me encarando.

-Eu... Não entendo. Nossas joias nem são iguais. Ele carrega um topázio e eu um rubi.

-Eu sei, eu sei. – Nora afastou a xícara estilhaçada de mim, surpreendentemente calma – É só por um tempo. Quando o primeiro de vocês encontrarem sua alma, será desfeito. Ou até mesmo antes. É a única solução que encontramos até que o clima esteja menos tenso. Se você for até lá com o mesmo poder que Lucas, eles terão que te ouvir.

Finalmente saí do torpor e me levantei, ajudando minha tia a limpar a bagunça que eu fizera, com um pano velho que estava por ali. Ela, porém, segurou minha mão. Eu a olhei.

-Esse é nosso plano A, Sarah. Você sabe que possuímos um alfabeto inteiro de planos se você não concordar. Jamais iria deixar que fizesse algo que fosse te prejudicar.

Pensei em como meus tios sempre se preocuparam com a minha opinião antes de qualquer decisão. Em como me criaram desde a perda da irmã querida deles. Pensei sobre a noite em que descobri sobre a morte de meus pais, e sobre como meu tio falara sobre a coragem e responsabilidade que eu deveria ter dali em diante. Eu seria a nova líder. Eu faria qualquer sacrifício.

°°°

Dirigi-me à cozinha, de onde vinha o som das pessoas que estavam tomando café da manhã e conversando. Depois de dias em um silêncio perturbador, o abrigo novamente trazia vida com a volta das pessoas que trabalhavam lá. Eram pequenos famílias ou voluntários que ajudavam pessoas em missão que se feriam e nos assuntos com Nora.

Camellia estava sentada no balcão, com dois garotos pré-adolescentes ao seu lado. Eles estavam enfiando pedaços de sanduíche na boca. Aproximei-me, parando na frente deles e franzindo as sobrancelhas.

-O que você está fazendo? –Perguntei, interrompendo os risinhos.

Ela trouxe a atenção de seus grandes olhos azul acinzentados para mim. Demorou um minuto inteiro para engolir toda aquela comida e responder:

-Estou ganhando uma aposta.

-Você me choca. – Segurei seu braço, puxando-a – Temos que resolver uma coisa.

Ela demorou um pouco para recuperar o equilíbrio e quando o fez se soltou de mim. Eu andava rápido, mas ela não precisava se apressar para me alcançar. Era bem mais alta que eu. Parei na frente de seu quarto. Somente Camellia podia abrir aquela porta, já que não tinha autorizado mais ninguém até onde eu sabia.

— O que Nora falou sobre os Vermelhos? – Ela perguntou.

-Ela não pareceu dar muita atenção a eles. Mesmo assim, os traremos conosco. A presença deles é muito incomum e tenho certeza que King vai querer falar com eles. Principalmente diante dessa situação.

-Que situação?

Assim que entramos no quarto peguei a mochila vazia que estava no chão e joguei para Camellia. Com seus reflexos treinados por anos, ela a pegou com facilidade.

-Nós vamos para Toprien.

Ela estreitou os olhos.

-Isso é algum tipo de teste? Só estou aqui há uma semana. Não tive que fazer nenhuma tarefa nojenta ainda além do o mingau de Nora.

Sentei-me na cama de Camellia.

-Você poderia, por favor, apenas colocar suas roupas na mochila e ir sem questionar?

Ela soltou a mochila e cruzou os braços, esperando.

-É claro que não... – Suspirei. – Nós vamos organizar meu casamento.

°°°

Camellia

Eu não acreditava que já estava saído do abrigo. E que, ao mesmo tempo, Sarah me chamara para ir com ela se casar — ela precisava de uma testemunha que não fosse da família e eu era a única que ela conhecia. Muito menos que fazíamos isso acompanhadas de dois Vermelhos conhecidos há alguns dias que, até onde eu sabia, podiam tentar nos matar no caminho.

Tentei afastar minha vontade de virar o rosto para a janela ao meu lado enquanto o jato subia para o voo curto de duas horas. Em vez disso, encarei Ross e Mason, que se sentavam em cadeiras viradas para nós, sem tirar a mão da adaga presa em minha coxa. Ross não parecia se importar com as algemas quase invisíveis, se não fosse pela fumaça azulada que dançava por seus pulsos. Ele sim observava a paisagem que se despedia do mar pela janela.

Já Mason parecia nervoso. Aproveitei para observá-lo melhor, já que não tinha passado com ele o tempo que passara com Ross. Sua pele morena suava no ar frio do interior do jato. Suas bochechas pareciam ser eternamente coradas e seu cabelo negro quase cobria seus olhos. Quando percebeu que eu o observava, pareceu tentar relaxar. Continuou olhando nos meus olhos quando disse com sua voz grossa:

-As pessoas do lado da cá já estão consciente da profecia do mago?

Sarah e Ross mudaram sua atenção para Mason. Ross tencionou seu maxilar. Como parecíamos confusas, o garoto continuou:

-Dizem que o mago que apareceu no sonho dos Primeiros foi enviado pela divindade que nos deu a magia para um dos Vermelhos. Ele disse que não estavam felizes com a nova guerra que iria surgir entre os Verdes e os Azuis, e que uma nova profecia seria lançada. A profecia dizia que duas pessoas se juntariam como almas, mesmo sem possuírem o objeto precioso de mesma origem, e que isso seria o motivo de nossa destruição. E haveria apenas uma forma de impedir esse destino....

Ele parou.

-Apenas? – Perguntei.

-Ninguém sabe. O mago foi morto antes de terminar a profecia pelas divindades pela ira que causou ao revelar o segredo. Uma boa divindade, porém, não deseja o nosso fim. Como toda a vida precisa de um sacrifício, ela matará uma ou as duas almas para que a profecia não se cumpra.

Silêncio.

-Isso é só uma lenda idiota. –Murmurei.

Sentimos uma sacudida forte. Apertei o cabo da adaga com mais força. O jato vacilou no ar. Estávamos perdendo altitude. As luzes começaram a piscar e as máscaras de oxigênio caíram. Segurei-me no banco e, de repente, o jato pareceu se estabilizar. Senti um formigamento nos pés que logo foi seguido por um barulho cortante. O jato estava raspando na copa das árvores da floresta que sobrevoávamos. Olhei na direção da janela vi um borrão de verde marrom arranhando a superfície. Os garotos pareciam desesperados com as algemas e Sarah encarava-nos paralisada. Toquei em minha joia e a última coisa que vi antes do baque foi a fumaça azul dos pulsos de um dos garotos sumir.