A Jogadora
2 Lembranças
Após desligar o celular pelo qual fora ameaçada e quase ter um ataque de pânico imersa em pensamentos com perguntas sem respostas, Ellen cambaleou e caiu de joelhos ao lado da cama da amiga Lucy, que se encontrava na cozinha preparando brigadeiro de panela para as duas. Ellen se sentia péssima, também... Não era pra menos. Quem não se sentiria péssimo, caso fosse ligar para alguém, recebesse uma ameaça de uma voz rouca desconhecida do outro lado da linha forçando-o a entrar em um jogo doentio que mal se soubesse como começar? Era demais para a sua cabeça.
Mal uma lágrima que escorria pelo seu rosto conseguiu chegar ao chão do quarto de Lucy, Ellen ouviu um bip vindo do celular. Seu coração disparou e sem respirar apertou uma tecla. Segurava-o com as duas mãos para conseguir ler, devido ao tremor colossal que atingia sua coordenação. Ao ler a mensagem ela paralisou, deixando o celular escorrer pelos seus dedos, assim como as lágrimas escorriam pela sua face desesperada.
A mensagem era clara:
"Não faça besteiras. Volte para casa e dê um jeito de levar a sua amiga Lucy com você. Lá você encontrará sobre a mesa de cabeceira um envelope que lhe dará os próximos passos. É melhor não abrir a boca, nem para a sua amiga. Boa sorte. O jogo começou."
O choque que aquela mensagem lhe causou fora tão terrível como quando ela viu Vanessa Hoffman, a irmã do seu namorado, morrer. E, analisando toda a situação, lembrou-se de algo que a cunhada dissera minutos antes de dar o último suspiro.
Era uma tarde sem muito sol, as nuvens cobriam a maior parte da luz que tentava, inutilmente, entrar pela janela do quarto minúsculo que mais parecia uma UTI improvisada reservada para Vanessa. Peter segurava a mão da irmã. Chorava como um bebê enquanto fitava a máquina que a mantinha viva. Após muito tempo em coma, sem conseguir ao menos respirar por conta própria sem que fosse por equipamentos, Vanessa abriu os olhos assustados, analisando o ambiente. Olhava com um olhar lento e sem foco por todo o quarto. Os olhos indo de Peter a uma Ellen pesarosa recostada no vão da porta. Peter segurou mais firme a mão de Vanessa antes de bombardeá-la com perguntas inúteis.
- Van, como se sente? Você... Você... ESTÁ VIVA? — gritou Peter, antes de perceber que sua irmã tentava puxar os aparelhos que a impediam de falar. Peter arrancou o balão de ar e passou a mão pelos cabelos dourados da irmã quando ela sussurrou assustada:
- Pitt... Pitt... Eu perdi, o jogo acabou para mim.
- Do que você está falando Van? Você está bem, está viva, aqui conosco. — retrucou Peter, com um olhar lacrimejante de esperança para o olhar sem foco da irmã.
- O jogo acabou Peter, o jogo acabou...
Recostada no vão da porta, despedaçada por dentro, Ellen já sabia como seria a vida dali em diante. Ouvia as últimas palavras de Vanessa sem dar muita atenção, sem entender muito o significado por trás delas, imaginou que fossem somente as alucinações que se tem antes de morrer.
Mas agora, vendo-as de outra forma na mensagem que recebera e levando em conta a situação em que estava metida, não restava mais dúvidas, quem quer que tenha matado Vanessa, tentava matá-la também. "O jogo começou", dizia a mensagem.
Ellen se recompôs em um salto, pensando como convenceria a amiga Lucy a ir com ela até sua casa proibindo a si mesma de pensar no pior.
E foi procurando uma solução enquanto descia as escadas e guardava o celular na bolsa que segurava com a mão esquerda. Chegando à cozinha, viu Lucy despejando leite condensado em uma panela com uma colher de pau e, tentando ser o mais convincente possível sentou-se numa cadeira perto do fogão virando-se de lado.
- Lucy, eu preciso de um favor seu. — ela disse, sem olhar nos olhos da amiga.
- Com o quê eu posso ajudá-la amiga? — os olhos de Lucy tentavam entender a expressão esquisita de Ellen.
- Eu preciso que você me leve pra casa, o Pitt não vem me buscar mais. — ao pronunciar essa última frase, Ellen não agüentou, e mais lágrimas escorreram pelos seus olhos
- Ow Elly, você conseguiu falar com ele? Vocês brigaram? — perguntou Lucy, largando a colher dentro da panela para consolar a amiga. — Pode me contar tudo Elly, pode confiar em mim, talvez eu possa ajudar. — emendou.
Ellen sabia que Lucy acreditaria nela, embora essa história fosse um pouco mirabolante e a amiga nada pudesse fazer para que as doses de adrenalina diminuíssem no seu organismo. Mas, um pensamento subitamente a fez se sentir mais calma. Por que Ellen estava se preocupando em guardar segredo com a amiga Lucy? O maníaco não a estaria vigiando a todo minuto. Estaria? Ele nunca saberia que ela teria contado, a menos que Lucy abrisse a boca na hora errada, algo impossível, levando em consideração o quanto Lucy gostava dela. Então, simplesmente, Ellen resolveu abrir o jogo e tirar metade do turbilhão do medo que sentia pesar sobre ela.
- Lucy, a verdad... — mas Ellen foi interrompida antes mesmo de terminar a palavra pelo som da campainha da casa de Lucy que tocava.
- Quem pode ser? O Andrey não, eu acabei de falar com ele. — comentou Lucy, correndo para a sala de estar para abrir a porta.
O medo agora consumia cada minúscula parte do corpo de Ellen, assim que a campainha tocou seu coração quase saiu pela boca. ELE estava ali. ELE podia ouvir tudo. ELE iria matar as duas. E os pensamentos negativos não pararam de chegar, até que Lucy apareceu novamente na cozinha, com um papel nas mãos.
- Q-quem era? — gaguejou Ellen, respirando fundo.
- Era só o carteiro. — e Lucy sorriu, depositando uma conta de luz na mesa em frente à Ellen e correndo em direção ao brigadeiro que agora queimava no fogão.
- Droga — gemeu ela. — Nosso brigadeiro foi pro brejo Elly, desculpa. — ela apontou para o fundo da panela com um olhar desconsolado. — Quer ir agora ou quer ficar um pouco mais?
- Não faz mal Lucy, não estou com fome, quero ir agora, se não se importa.
- Claro que não.
Ellen fingiu um sorriso torto.
- Obrigado pela força Lucy
- Pode contar comigo Elly. Amigos são pra essas coisas. O que você ia dizer mesmo?
- Não é nada, querida. Por favor, vamos.
E as duas seguiram para a sala, Lucy, carregando a chave do seu carro que esperava pelas duas do lado de fora.
Fale com o autor