A Jogadora
1 Inesperado
Ellen Ludwig folheava uma revista velha na casa da amiga Lucy Radel, estava lá naquela tarde com o pretexto de estudar trigonometria, na verdade, fora somente para colocar as fofocas do colégio em dia. Um passatempo inevitável, quando se mora em uma cidade pequena e não se tem muito o que fazer. Debruçada sobre a cama de madeira velha de Lucy, virava as páginas impacientemente, olhando de minuto em minuto para a janela do quarto.
A amiga pareceu perceber isso.
– O que você tem Elly? — perguntou Lucy, sentada numa poltrona perto da cama, concentrada num livro de capa azul. — Tá estranha!
– É o Peter – respondeu ela – ficou de me pegar a meia-hora e até agora nada! – justificou Ellen, preocupada, sem tirar os olhos da janela.
– Acha que aconteceu alguma coisa?
– Não sei. Ele tem andado estranho esses dias. Perguntei se é por causa das provas finais. Mas ele insiste em dizer que não é nada com que eu tenha que me preocupar.
– Já tentou ligar pra ele?
– Já. E é isso que me preocupa. Ele nunca sai sem o celular. E quando eu ligo só chama, ninguém atende.
– Ah Elly! Não acho que seja nada demais. O Pitt sabe se cuidar muito bem. Além do mais, ele ainda deve estar abalado com tudo o que aconteceu... Foi trágico — Lucy fez uma careta.
– Não vamos falar sobre isso. O.k.? – Ellen estremeceu, substituindo a expressão preocupada por uma ininteligível.
A amiga Lucy percebeu que tinha aberto uma ferida e emendou:
– Elly! Não fique assim. Ele vai superar. É triste, mas a vida continua – deu palmadinhas no ombro da amiga, o rosto sério mudando para um sorrisinho malicioso — Ei, eu tenho uma coisa aqui que substitui qualquer namorado ausente – Lucy abriu um largo sorriso e jogou o livro de capa azul sobre a cama. Levantando-se num rompante.
Ellen demorou um pouco para digerir as palavras da amiga antes de perguntar.
– O que é?
– Advinha?
– Ah, eu não sei Lucy, diz logo!
– Pense um pouco Elly – seus olhos encararam os da amiga como se tentasse estimulá-la a adivinhar o que era.
Meio minuto depois, Ellen retribuiu o sorrisinho malicioso de Lucy e pulou da cama. As duas ficaram de pé e se entreolharam por alguns segundos.
– BRIGADEIRO! – Gritaram em uníssono. Uma expressão estranhamente entusiasmada no rosto de cada uma.
Lucy correu com um prazer incomum na face para a escada que dava para o térreo antes que terminassem a frase. Ellen foi em direção à janela e olhou através dela mais uma vez, sem conseguir enganar a si mesma sobre os sentimentos que a desagradavam naquele instante. Apesar das palavras da amiga, não se convencera totalmente do bem-estar do namorado. Pegou o celular, acessou a agenda e apertou a tecla P, em seguida, "chamar" quando o cursor chegou ao nome Peter. Levou o telefone ao ouvido numa fração de segundos, como se a rapidez pudesse interferir no fato dele estar ou não do outro lado da linha.
Para sua surpresa, o telefone foi atendido depois do terceiro toque.
– Alô, Pitt, é você? Onde você esteve? Fiquei preocupada sabia? – ela esbravejou, sem dar tempo para que o namorado respondesse uma pergunta de cada vez.
– Não é o Peter quem está falando. E talvez, ele nunca mais volte a falar. A menos que você siga exatamente o que eu pedir de agora em diante. Instruções básicas. Quero jogar com você. – respondeu uma voz rouca de homem, do outro lado da linha. Ela jamais ouvira aquela voz.
Ellen perdeu a fala. Sentia o sangue fugir lentamente do rosto e um calafrio desconcertante lhe subir a espinha. "E talvez, ele nunca mais volte a falar"... Um jogo? O que estaria por trás daquela ameaça? Quais perigos o seu namorado estaria correndo? De início, ela não acreditou na veracidade das palavras do homem, achou que fosse alguma brincadeira sem graça, mas algo naquele tom de voz a fez mudar de opinião depois de algum tempo analisando e decidiu não contrariá-lo.
– Est-tá bem – gaguejou ela, sem conseguir esconder o medo em sua voz – O que quer que eu faça?
– Boa garota. Primeiramente, nada. Entrarei em contato com você em breve, não se preocupe.
A idéia de manter contato com um desconhecido que a ameaçava e o receio de não rever o namorado novamente a fez explodir:
– Que tipo de brincadeira estúpida é essa? Onde está o meu Pitt? O que fez com ele? Quem é você e o que realmente quer? É dinheiro? É isso? – disse ela, a raiva tornando vermelha a face pálida.
O homem permaneceu em silêncio e então ela percebeu o que ele estava fazendo, quando a voz de outro homem ofegante, respondeu suas súplicas.
– ELLY, NÃO CAIA NESSA, NÃO FAÇA O QUE ELE MANDA, FUJA DAÍ, ELE SABE DE TUD... – gritou Peter, antes de ser interrompido pela voz rouca.
– Perguntas demais, impulsividades demais, nem tudo se resolve com dinheiro Ellen. Paciência. Eu sei que você é mais inteligente do que isso, siga as regras, aproveite as pistas e tudo sairá bem, certo? – e o homem desligou o telefone.
Ellen não conseguia organizar os pensamentos que lhe eram assomados ao cérebro. O desespero a fazia tremer e a sua respiração falhar. Isso não podia estar acontecendo. Não com ela. Não com Peter, que já passara por tanta coisa nos últimos meses.
Um assassino em série? Um seqüestro?
Não.
Peter estava tentando avisá-la de algo ou só estava tentando assustá-la, na intenção de que ela não se envolvesse nisso tudo? A voz do namorado na linha era presunçosa e como ela bem o conhecia, tentava dizer alguma coisa. As palavras cruciais que a fizeram perceber com quem poderia estar lidando foram: "ele sabe de tudo".
Nesse caso, alguém sabia demais. Os segredos que ela mantinha com Peter, que eles tanto tentavam omitir foram revelados a alguém. Definitivamente, era um problema, e como todo problema, deveria ser resolvido logo.
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