A Janela do 13º

2 O 13º Andar


– Senhor, sua última paciente acabou de chegar. — disse a secretária pelo telefone.

Ótimo.

– Mande-a entrar. E venha aqui um minutinho, por favor.

– Sim, senhor.

Logo a secretária abriu a porta, seguida por minha paciente preferida.

– Por favor, acomode-se no divã enquanto eu dou uma palavrinha com a minha secretária. — eu disse, abrindo um grande sorriso.

– Obrigada. — ela respondeu, tentando forçar um sorriso.

Fui até a porta, onde a secretária me esperava. Com um leve aceno de cabeça, indiquei que me acompanhasse até o corredor.

– Eu acabei de me lembrar que terei que ir ao aniversário de um amigo meu, e como meus horários estão todos cheios não terei como comprar um presente. Você pode fazer isso por mim?

– Agora?

– Sim.

– Mas senhor, agora começa a hora do rush. Se eu for, não terei como voltar até o fim do expediente.

– Não tem problema. Essa é a minha última paciente do dia, não creio que terei que interromper a sessão para atender a porta. Compre um relógio, ou abotoaduras. Algo clássico. Vejo você amanhã. — e entreguei a ela quinhentos reais.

– Sim, senhor. Até amanhã.

Voltei para a sala e tranquei a porta atrás de mim. Guardei a chave no meu bolso, peguei minha prancheta e sentei-me em minha poltrona. Deitada no divã, ela parecia mais nervosa que das outras vezes.

– Um fim de tarde magnífico, não?

Sem resposta.

– Pois bem, como você está?

Não parecia muito bem.

– Estou melhorando.

– Muito bom ouvir isso. Conte-me sobre suas melhoras.

Tensa. Talvez tenha começado a juntar as peças do quebra-cabeças. Afinal, já faz dois meses.

– Bom, estou perdendo o medo de sair de casa. Três dias atrás fui à padaria do meu bairro. Ontem desci até o mercado, e hoje fiz uma curta caminhada.

– E como foi?

– A pé.

– Não, como foi a experiência?

– Ah, sim. Foi esquisito, eu acho. Desconfortável. As pessoas ficam me encarando e cochichando. Nada agradável.

– Isso passa. — ela me observava com desconfiança, mas nunca mantendo os olhos fixos nos meus por muito tempo — As pessoas gostam de novidades e desgraças. Principalmente com jovens indefesas. Você é a vítima perfeita. — eu disse, lançando um sorriso travesso, talvez um tanto sombrio. — Logo eles cansarão.

– Assim espero.

Cruzei minhas pernas e coloquei meus braços atrás da cabeça. Estar perto dela sempre despertava em mim um homem diferente, que buscava modos de se satisfazer. Apesar de sua agonia, sua figura era reconfortante. Nem mesmo o desleixo e a amargura nela evidentes conseguiam abrandar o desejo que em mim crescia.

– Algo mais? — perguntei.

– O resto continua igual. Ainda sinto que estou sendo constantemente perseguida e observada de perto. Qualquer barulho me assusta. E ainda tenho pesadelos com, bem... Você sabe.

– O estupro. — proferi, em tom de desafio, descruzando as pernas e inclinando-me em sua direção. Se ela realmente descobriu, agora deixaria isso claro.

Encolheu-se, como se a palavra a ferisse. Definitivamente, havia descoberto, mas ainda relutava em aceitar e preferia desacreditar-se. Talvez isso tornasse tudo mais interessante.

– Só queria saber o porquê. — resmungou.

– Era uma questão de necessidade. Se não fosse você, seria outra. Ele te viu na rua e gostou. Simples assim.

– Você fala como se também fosse um. — quase não pude escutá-la, mas com um aceno mostrei que entendi.

– Já estudei muitos. — dei um leve sorriso e abaixei minha cabeça, fingindo rever minhas anotações.

Tudo é mais divertido quando elas entram no jogo.

Voltei meu olhar a ela.

– Sobre os pesadelos, você conseguiu se lembrar do rosto dele?

– Não, ainda não. É sempre o mesmo. Corro pelo parque gritando por socorro, mas não há ninguém por perto. Eu caio e ele me agarra. E os olhos. — sua voz falhava conforme tremia — Olhos negros e vorazes. Como os de um predador. Como... — parou subitamente.

Levantou-se num salto e correu até a porta. Puxou a maçaneta. De fato, muito mais divertido. Levantei-me com calma e dirigi-me a ela, lentamente. O pânico exalava de seu corpo e se misturava ao seu perfume adocicado. Já não podia mais me conter, e gargalhei. Ela chutou a porta, esmurrou e gritou, mas a secretária não tinha como ouvi-la do centro da cidade. Uma pena.

Virou-se de frente para mim, e pude ver o suor grudando em suas roupas, contornando seu corpo. Aproximei-me mais, encostei as palmas das minhas mãos na porta atrás dela, inclinando-me a fim de deixar nossos narizes quase colados.

– Por que eu?

– É simples. Eu só gostei muito de você. — abri um sorriso zombeteiro e beijei seu queixo. Já não era mais eu. Era o próprio desejo agindo por si.

Continuei a beijá-la, descendo por seu pescoço, o prazer atravessando meu corpo em ondas, aquecendo-me cada vez mais. Embriagado com seu sabor, comecei a rasgar sua blusa.

De repente, ela, antes estática, com esforço me empurrou para trás e me chutou, com força. Caí no chão, contorci-me de dor, o prazer já substituído por ódio. Levantei-me, determinado a concluir o que comecei. Avancei em sua direção, mas ela já havia lançado a cadeira em direção à janela de vidro, e se lançou logo em seguida, antes que eu pudesse segurá-la.

Olhei para baixo, pela janela. Sua figura pequena e frágil diminuía conforme se aproximava do chão. Gritei, frustrado.

Peguei o telefone e liguei para a polícia.

– Por gentileza, alguém pode trazer uma viatura ou o corpo de bombeiros? Uma paciente minha acabou de ter um acesso de loucura e se jogou do 13º andar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.