A Janela do 13º
1 A Janela
- Como você está? — disse a voz grave.
De novo, no divã. Talvez não tão bem.
- Estou melhorando.
- Muito bom ouvir isso. Conte-me sobre suas melhoras.
Por alguma razão, a voz grave e suave que deveria me reconfortar sempre me dava arrepios. Há algo errado. Algo nele.
- Bom, estou perdendo o medo de sair de casa. Três dias atrás fui à padaria do meu bairro. Ontem desci até o mercado, e hoje fiz uma curta caminhada.
- E como foi?
- A pé.
- Não, como foi a experiência?
- Ah, sim. Foi esquisito, eu acho. Desconfortável. As pessoas ficam me encarando e cochichando. Nada agradável.
- Isso passa. — ele me olhava com interesse, observando minhas olheiras e minha figura ainda desleixada — As pessoas gostam de novidades e desgraças. Principalmente com jovens indefesas. Você é a vítima perfeita. — disse, ao me lançar um sorriso travesso e sombrio, enquanto se movia em sua poltrona e fazia anotações em sua prancheta — Logo eles cansarão.
- Assim espero.
Agora sentado com as pernas cruzadas, com os braços dobrados atrás da cabeça, relaxado e exalando poder, observava atentamente minhas reações e meu olhares, como se minha desgraça o divertisse.
- Algo mais? — ele perguntou.
- O resto continua igual. Ainda sinto que estou sendo constantemente perseguida e observada de perto. Qualquer barulho me assusta. E ainda tenho pesadelos com, bem... Você sabe.
- O estupro. — ele proferiu, em tom de desafio, descruzando as pernas e inclinando-se em em minha direção.
Encolhi-me no divã. A palavra soava ainda pior vinda de seus lábios que, espremidos para disfarçar um sorriso, tentavam ocultar seu escárnio. De repente, senti-me ameaçada, prestes a ser atacada.
- Só queria saber o porquê. — resmunguei.
- Era uma questão de necessidade. Se não fosse você, seria outra. Ele te viu na rua e gostou. Simples assim.
- Você fala como se também fosse um. — a frase saiu, quase inaudível. Não consegui dizer o quê, mas com um aceno de cabeça ele me mostrou que entendeu.
- Já estudei muitos. — deu um leve sorriso e abaixou a cabeça, revendo suas anotações.
Em uma pequena pausa, reconstruiu sua face impassível e impenetrável, e então voltou seu olhar pra mim.
- Sobre os pesadelos, você conseguiu se lembrar do rosto dele?
- Não, ainda não. É sempre o mesmo. Corro pelo parque gritando por socorro, mas não há ninguém por perto. Eu caio e ele me agarra. E os olhos. — murmurei, tremendo — Olhos negros e vorazes. Como os de um predador. Como... — parei subitamente.
Como os seus.
Levantei-me num salto e corri até a porta. Puxei a maçaneta. Trancada. Ele se levantou e vinha lentamente em minha direção. Ao ver o pânico estampado em meu rosto, gargalhou. Chutei a porta, esmurrei e gritei. Nada.
Virei-me de costas para a porta, olhando meu carrasco de frente. O suor frio escorria por minha nuca e grudava em minhas roupas.
Ele se aproximou mais, encostou as palmas das mãos na porta atrás de mim, seu nariz a dois centímetros do meu.
- Por que eu?
- É simples. Eu só gostei muito de você. — abriu um sorriso zombeteiro e beijou meu queixo, provocando náuseas em mim.
Continuou me beijando, descendo até meu pescoço. Olhei para a janela, grande e ampla, de vidro, que ia do teto ao chão. Fechada. Uma cadeira entre ela e eu. Calculei minhas chances de saltar do 13º andar e sobreviver. Nenhuma.
Começou a rasgar minha blusa. A janela parecia a melhor saída.
Com muito esforço, empurrei-o um pouco para trás e o chutei, com força, lá. Corri em direção à janela, peguei a cadeira e a atirei, quebrando o vidro. Atirei-me logo em seguida, antes que ele pudesse me segurar.
Escutei um grito de frustração. Olhei para baixo, e vi pessoas alvoroçadas abrindo espaço na calçada de concreto. Fechei os olhos e abracei o destino que escolhi.
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