A Janela
1 Conto a Janela
Notas iniciais
Cuidado com quem te observa pela janela.
De sua janela ele podia ver tudo, o céu brilhando com um enxame de estrelas, a lua com um sorriso tímido, a chuva de estrelas cadentes, o intenso amarelo da lua. Ou então a cidade inteira, onde começavam as luzes das casas, e onde acabavam. No meio do borrão escuro que as montanhas viravam a noite, no meio delas, se enxergava alguma casa perdida.
Ele sem ninguém saber, era o morador privilegiado com a mais bela vista da cidade. Mas em vez de olhar o horizonte, ou admirar a imensidão do céu. Ele mirava seus olhos para baixo, numa rua qualquer. E a iluminação dos postes, clareavam o que mais ele gostava de olhar.
Andando de um jeito saltitante de criança, balançando partes do corpo de uma jovem mulher. Cabelos soltos ao vento, e um semblante que exibia serenidade. Ele gostava de observá-la sempre. De dia ela saia bem arrumada com as amigas, mas de noite sempre voltava sozinha e linda, com os cabelos rebeldes, a maquiagem suada ou já retirada, e com uma expressão de paz. Ele a observava entrar em casa, via a luz de seu quarto ser acesa, sua sombra na cortina revelava quando esta despia a roupa, ou quando rebolava engraçado ao som de uma musica que ele não ouvia.
E depois a luz ser apegada, restando só a escuridão. E então ele voltava os olhos para o céu sempre presente.
De segunda a sexta eles andavam juntos pela mesma rua, debaixo do mesmo céu as vezes estrelado, as vezes não. No começo ela o acompanhava em silêncio, mas sempre nos passos saltitantes e alegres quase como passadas de crianças ansiosas. Os cabelos armados voavam com o andar agitado, ou com a brisa que soprava.
Ela gosta é da brisa, ele percebia, sempre saltitando para provocar uma brisa de leve, e quando ventava seus olhos se fechavam, e um sorriso delicioso espelhava-se por suas feições, as bochechas coravam.
De terça a sexta eles voltavam juntos, ela o esperava na saída, e o cumprimentava com um sorriso tímido. Andavam em silêncio, até que vez ou outra ela comentava gostar de sorvete, ou preferir a noite ao dia. E ele querendo que a conversa continuasse, lhe perguntava coisas que já sabia à seu respeito, e coisas que gostaria de saber.
De quarta a sexta eles caminhavam lado a lado, ela se equilibrava na guia do passeio, ele observava a perfeição de seus defeitos. Ela sempre ria, sempre mostrava-se interessada em tudo o que este outro dizia. Retrucava quando achava necessário, fazia uma cara engraçada quando não entendia algo, que mais tarde após ouvir a explicação, se transformavam em feições pensativas. E por fim esta acabava dando de ombros com um sorriso de "isso não acaba por aqui", e um suspiro.
Ainda de quarta a sexta, eles se demoraram mais na despedida, não queriam acabar com a conversa. Ficaram mais minutos do que o julgado necessário, na esquina que os separavam. O sorriso dela o prendia, e o jeito como ele a olhava, a prendia ali também.
De quinta a sexta, eles se encontraram e trocaram abraços. Decidiram sair mais cedo da aula, e se encontraram de novo. Conversaram, riram, ele a elogiou, Ela corou, ela cantou baixinho uma musica que ele gostava. Eles fizeram o caminho mais demorado, ela não saltitava, ia colocando um sapato na frente do outro bee-ee-em de-va-gar, e o olhava com olhares curiosos, e com um sorriso de menina no rosto.
Eles chegaram de novo na esquina que os separava, fez-se silêncio depois de várias horas de conversas, musicas e risadas. Ela o espiava debaixo da nuvem de cabelos, ele a olhava com carinho. Ele precisava fazer alguma coisa, era aquele o momento que os filmes representavam ser o ato perfeito.
E então, ele disse tchau, ela respondeu com outra despedida. Eles se abraçaram forte e deram-se as costas. Ele se xingou, queria dizer tanta coisa, fazer outras, e simplesmente não tinha tido coragem, o medo de ser rejeitado.
— Ei, posso te pedir uma coisa? — Ela falou a algumas passadas de distância, ele virou-se para ela, que estava muito mais corada que o normal.
— Pode.
Ela se aproximou, ficou bem próxima dele, e depois de gaguejar e se embaralha com as palavras e com a língua, respirou fundo.
— Posso te beijar? — Ela perguntou.
De sexta a sábado.
Eles voltavam com o andar torto, encabulados porém felizes. Ela o olhava travessa, ele fingia não perceber, ela provocava com piadinhas, ele se esquivava. Chegaram na esquina da separação, ela tinha um olhar decidido.
— Hoje é sexta. — Ela declarou.
Naquela noite, ela olhou as estrelas pela mesma janela que ele costumava observá-la. Ficou fascinada, o brilho de seus olhos parecia refletir nas estrelas, a luz da lua que entrava pela janela iluminava sua pele macia. O vento acariciava seus cabelos sedosos. Ela ficou minutos que pareçam horas debruçada na janela, com uma expressão de paz e felicidade, parecia transbordar esses sentimentos, de tal maneira que até ele chegou a senti-los.
Sábado a Domingo
Ele a viu saindo com as colegas, cabelos presos, maquiagem feita.
Ele a viu voltando sozinha, cabelos soltos na noite. Saltitante e sedutora, era tão natural e tão perfeito as imperfeições de seu ser, que ela parecia estar estrelando sua vida, estar atuando. Era como se soubesse que estava sendo observada. Era encantadora, sob o céu claro com tantas estrelas, confundia-a com uma fada. Ela mudou o caminho que sempre fazia que a levava até em casa. Ele a perdeu de vista, a luz de seu quarto continuava apagada, ele começou a se preocupar com seu desaparecer repentino.
Minutos depois sem nenhum sinal dela ter chegado na casa, ele pegou o celular, na mesma hora sua campainha tocou.
Ao abrir a porta, lá estava ela, de maneira impulsiva ela o abraçou e grudou os lábios seus nos lábios dele.
Domingo a Segunda.
Novamente ele a observava desfilar pela rua debaixo, quando reparou que um homem desconhecido aproximava-se dela. Ela entretida em saltitar e com os pensamentos em outro mundo, não notou. Ele gritou para ela de sua janela, ela não o ouviu. Ele gritou de novo, ela fechou os olhos quando uma brisa fez balançar seus cabelos. Ele correu, saiu da casa, desceu as escadas. O homem aproximou-se ainda mais rápido dela.
Ele correu.
Um grito!
O grito fez o som da noite se silenciar. Na rua que era dela, ele não a achou, o poste que antes a iluminava, exibia seu sapato.
Segunda a Sexta.
Foi uma volta amarga, preocupada, atenta e sofrida. A esquina de nada o separou.
Quando entrou na casa, viu um pedaço de papel dobrado, que fora deixado em baixo da porta. Ansioso, pegou-a, abriu e leu.
Seu corpo endureceu, arrepiou-se, sua garganta secou.
Na folha dobrada, entregue por debaixo da porta, haviam escrito: " Não era só você que a observava de uma janela".
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