A Janela
1 A Reviravolta
Catarina estava deitada em sua cama ouvindo música quando escutou sua mãe gritar.
-Filha! Você pode comparecer a sala, por favor?-Disse Lídia, expressando preocupação.
-Sim, senhora. Já estou descendo.
Catarina levantou-se vagarosamente de sua cama, calçou sua pantufa e desceu as escadas de mármore que ficavam a dez passos da porta de seu luxuoso quarto.
Chegando na sala, disse:
-Senhora?
-Catarina, sente-se por favor. Temos um assunto sério a conversar.
Sentou-se na poltrona vermelha que ficava em volta da pequena mesa de vidro no centro da sala. A poltrona era tão macia que aparentava ser feita de algodão-doce.
-Filha, seu pai e eu estamos passando por uma situação financeira muito difícil, então não poderemos continuar em Chicago. Sinto muito, mas além de mudarmos de casa, você terá que mudar de escola também.
-Não mãe! Isso não pode acontecer! E como fica a minha situação? E meus amigos? E os momentos que eu passei na escola? Onde fica tudo isso? Não é simplesmente esquecer, mãe, é tirar um pedaço do meu coração! Eles fazem parte da minha vida! -Disse Catarina, a um fio de derramar suas lágrimas pelo seu lindo rosto delicado.
-Catarina, é muito drama para apenas mudar de escola, não acha?
-Drama, mãe, drama? Se fosse você, sentindo na pele o que é ser separada de todos os seus amigos, saberia o quanto isso é difícil.
Catarina derramou seu pranto sobre a poltrona vermelha.
-Filha, não temos escolha, teremos que nos acostumar com a nova rotina! A empresa do seu pai faliu, e agora não há como nos sustentar só com o dinheiro que restou. Mudaremos para a Pensilvânia depois de amanhã.
-Pensilvânia? Depois de amanhã? Mãe, por que a senhora não me contou isso antes?
-Nós, eu e seu pai, sabíamos que você não iria querer mudar, então resolvemos lhe contar "em cima da hora". Só queríamos o seu melhor.
-O meu melhor, mãe? Ah, faça-me um favor! O melhor para mim seria ficar aqui, com a minha vida ecom os meus amigos!
Catarina se irritou. Levantou-se da poltrona e subiu as escadas, mas dessa vez pisando forte, assim provocando alguns estrondos.
Catarina, eu ainda não terminei o assunto. Volte aqui. Catarina! -Disse Lídia, exaltando sua voz.
Subiu as escadas e foi direto ao quatro de sua filha. A porta estava trancada.
Dentro do quarto, lá estava ela. Derramando seu pranto, mas dessa vez era em seu travesseiro, macio feito uma nuvem. Ela olhava ao seu redor, e procurava algo que deixaria ela melhor.
Um copo. Catarina pegou-o, ainda chorando e o jogou no chão. Cacos de vidro. Ela pegou um caco e começou a passá-lo com muito cuidado e vagarosamente em seu pulso, como se estivesse desenhando algo muito valioso. Via seu sangue borbulhar, e estava gostando cada vez mais disso. Ele estava se derramando no chão, como se um pote de esmalte vermelho estivesse virado para baixo. O pulso dela estava completamente mutilado.
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