A Irmandade do Pentagrama
3 Capítulo 3 - A ini MIZADE
As aulas de Seth e Jenny começaram na semana seguinte à conturbada mudança. O menino ainda estava irritado com a atitude dos pais, com quem mal falara e já imaginava o tipo de pessoa que frequentaria a escola da região. Não que ele fosse metido, mas as pessoas em Eguisheim pareciam muito diferentes das que conhecera em Montreal. Naquela cidade o tempo parecia ter desacelerado. Todos o cumprimentavam sem ao menos conhecê-lo, as lojas eram simples e as flores pareciam ser verdadeiros objetos de ostentação, pois todas as casas tinham vasos e floreiras repletas delas em seus mais variados tipos. A cidade tinha poucas crianças, para a infelicidade de Jenny, mas muitos jovens, que se reuniam à noite na praça em frente à capela em pequenos grupos e conversavam até altas horas. A esperança de Seth era fazer amigos em sua escola, não suportaria aquela vida solitária por muito tempo.
Parado em frente ao portão enferrujado da maior escola do vilarejo. Era uma comprida casa colonial antiga, cheia de portas e janelas de madeira, cercada por um alto muro branco, cuja tinta descascava em vários lugares. Guardou a bicicleta vermelha que o pai lhe dera no velho bicicletário abarrotado e resignou-se. Torcia para que os pais se mudassem dali tão rápido quanto haviam feito em Atlanta, há seis anos. Não faziam isso sempre? De certo se cansariam da monotonia mais rápido do que ele imaginava e voltariam à Montreal, onde a loja de doces que tocavam ganhara clientes assíduos e fiéis. Se aquela era a maior escola da região, sua esperança de novas amizades acabava de se extinguir. Com um suspiro, percorreu o pátio repleto de árvores robustas e os corredores ladrilhados da escola, fazendo força para se manter indiferente aos olhares curiosos dos estudantes. Após retirar sua grade de horários na abafada secretária, sentiu que seu humor melhorava pela primeira vez em dias. A primeira aula era de química, sua matéria preferida. Entrou na pequena sala de aula, cujo piso de carvalho rangia a cada passo e percebeu que a maior parte das carteiras já estavam ocupadas. Seth decidiu sentar-se logo na primeira fileira, longe dos grupos que costumavam conversar durante as aulas. Mal tirara o livro da mochila e a professora adentrou a sala, dando um bom dia sorridente à turma e largando a pilha de livros em uma antiga mesa. Seus olhos passaram pela sala e pousaram no novo estudante com ar mal humorado.
– Bom dia, bom dia a todos. Espero que as férias tenham sido proveitosas e divertidas! — a professora aparentava ter no máximo 30 anos, tinha os cabelos castanhos cortados rente à nuca, os olhos castanhos encobertos por um óculos de lentes grossas e armação vermelha, que lhe conferia um ar intelectual. — Vejo que temos novidade no Colégio Lyceé, como é seu nome querido? — perguntou, dirigindo-se à Seth.
– Meu nome é Seth. Seth Collins, professora... — respondeu timidamente.
– Lascaris. Magda Lascaris, querido. Seja muito bem vindo à nossa escola. — interrompeu a professora, terminando as apresentações para alívio de Seth.
–Hoje, iniciaremos nossa aula de química com uma questão sobre soluções ácidas.
Seth pensou que ela era o tipo de professora que não perdia tempo e ia direto ao assunto.
– Vamos à primeira pergunta! Se uma solução possui um pH equivalente a 4, poderia afirmar que é uma solução básica ou ácida? — perguntou para a turma e Seth podia jurar que seu olhar se detivera por alguns instantes no grupo de amigos que se sentava ao seu lado.
A professora esperou que alguém respondesse, ni entanto, ninguém o fez. A resposta estava na ponta da língua de Seth, que achou melhor silenciar. Não desejava chamar a atenção para si, não naquele momento. Química sempre fora sua matéria preferida e pensava seriamente em se especializar nela quando terminasse o ensino médio. Percebeu a dúvida estampada no rosto de seus colegas e viu a garota ao seu lado erguer a mão. A professora, resignada, assentiu, permitindo que ela respondesse.
–É uma solução ácida, Professora. — disse com segurança, sua voz grave ecoando pela sala.
– Correto, senhorita Avicena. E poderia explicar a seus colegas o porquê?
– Por que o pH das soluções ácidas varia de zero até sete. — Seth olhou-a de esguelha e não pôde deixar de imaginar que a garota achava enfadonho responder a uma questão tão simples.
–Exatamente. Agora vamos dificultar um pouco o nível das perguntas...
A professora continuou a questionar os demais alunos. Seth percebeu que a garota chamada Avicena e seus amigos demonstravam vivo interesse pela matéria, respondendo as questões com facilidade. Em Montreal ele era o único que respondia às questões de química com tal facilidade, tendo em vista o desinteresse generalizado de seus colegas pela matéria lecionada pelo velho senhor Bates. Sorriu ao se lembrar de sua escola em Montreal, com excessão do senhor Bates, gostava de todos os seus professores. Após encerrar o turno das perguntas de revisão, a professora deu aos alunos algumas listas de exercícios que deveriam ser terminadas em casa e pouco antes do fim da aula, caminhou até o meio da sala, enquanto falava:
– Muito bem, percebo que alguns de vocês se esforçaram bastante durante as férias. A nossa tradicional olimpíada de química está próxima e gostaria de contar com o máximo de alunos para garantirmos mais um troféu para nossa escola! — piscou para Seth e prosseguiu — Sabe, ganhamos medalha de ouro nas olimpíadas nacionais há 13 anos! Consecutivos. As inscrições serão abertas na próxima semana e gostaria de avisar aos interessados que faremos um grupo de estudos especial para a competição. Alguém tem interesse em participar?
Seth percebeu que alguns haviam levantado as mãos antes mesmo de a professora terminar a frase.
– Muito bem, anotarei os nomes. Adele, Benoit, Angus, Julie, Gigi, Breno... Mas que surpresa, o senhor também, senhor Collins?- acrescentou com um sorriso — Assim que terminar de programar os conteúdos a serem estudados, eu os avisarei. Tenham um ótimo dia!
Seth se levantou e guardou o livro na mochila. Não sabia porque erguera a mão, não queria chamar a atenção para si. Na verdade, gostaria de passar despercebido o que estava sendo difícil naquele pequeno vilarejo. Sentiu que alguém cutucava seu ombro e se virou irritado.
– Então é você o garoto novo na cidade... Os boatos eram verdadeiros, então. — ouviu a voz da menina que respondera grande parte das questões e que agora encontrava-se desacompanhada.
– Sim, garoto novo na cidade velha...- disse Seth, sorrindo.
– Bom, não posso discordar quanto à cidade velha. — respondeu a garota com um sorriso e estendeu-lhe a mão livre — Meu nome é Adele e o seu é Seth, certo?
– Certo. Você é a Avicena, certo? Aposto que sabia meu nome antes mesmo de a professora perguntar.
– Mas é claro que sabia! Cidade pequena, sabe como é, as notícias voam. Não tem muita novidade por aqui. Já recebeu seus horários? — perguntou ao ver o pedaço de papel que o garoto segurava — Posso dar uma olhada? — Pegou o papel que ele lhe estendera e disse bem humorada — Parece que temos as mesmas matérias no período da manhã. Vem comigo, te mostro o caminho até o ginásio, não que seja muito difícil de encontrar.
Seth sorriu com o comentário da menina e a seguiu pelos corredores. Notou que muitos garotos paravam para olhá-lha sem disfarçar seu interesse. Sentiu leve incômodo ao ver o brilho malicioso nos olhares, mas sabia ser impossível que a beleza de Adele passasse despercebida. Passou a reparar na garota durante as aulas que se seguiram, seus longos cabelos loiros estavam presos em uma trança que pendia nos ombros, os traços do rosto eram delicados e seus olhos eram de um verde vivo. Vestia roupas simples e alternativas e Seth sentiu que seriam bons amigos, pois esta demonstrava uma simplicidade que inexistia nas garotas com quem convivera até então. Durante o almoço, conversaram animadamente e Adele, que jamais saíra de Eguisheim, perguntara-lhe sobre a vida em Montreal e nas cidades em que Seth vivera com sua família.
–Quase dez cidades ao todo, Seth! É incrível. Não entendo como pode se revoltar com isso. Eu nunca saí daqui, vovô diz que teme pela minha segurança. — comentou, adotando um tom de voz ainda mais grave que o seu — "Sair de Eguisheim é perigoso, minha filha... Aqui é nosso lar".
– Ah, não é tudo isso, Adele. Seria legal ter amigos de infância ou um quarto decorado com o pôster da minha banda preferida só para variar um pouco. É cansativo mudar de escola a cada semestre sem conseguir manter contato com ninguém, entende? Você tem amigos de infância ou coisa do tipo?
– É, vendo por esse lado, você tem razão... — disse pensativa- Tenho sim, eles estariam aqui se não estivessem participando do grêmio estudantil. Me convidaram para entrar, sabe? Mas acho esse tipo de coisa um porre, prefiro não me envolver.
– Eram aqueles que estavam na aula de química? — perguntou Seth, e quanto cortava um pedaço das batatas em seu prato e enfiava na boca.
– Sim. Eles também fazem parte do grupo de estudos para as olimpíadas de química.
– Hmm. Nunca vi uma turma de química com tantos alunos interessados!
Adele sorriu frente ao comentário do amigo e sussurrou ao responder:
– Na verdade não temos interesse, não como você está imaginando.
– Como assim? — Perguntou Seth, confuso.
– Diria que é coisa de família, mas deixa pra lá. Você não entenderia...
– É melhor mesmo deixar as explicações "pra lá", Del. — disse um menino alto e moreno que se aproximara sem que os dois percebessem.
– Ben! Que susto. Quando foi que chegou? — perguntou Adele, surpresa com a chegada inesperada do jovem que se sentara ao seu lado.
– Pouco antes de você mencionar nossa falta de interesse em química. — disse Ben com um sorriso e encarando Seth, disse. — Prazer, sou Benoit, melhor amigo dessa hippie aqui e membro do grupo de estudos de química. Vi que você se inscreveu. Collins, não é? — e sem esperar resposta, prosseguiu. — É bom se preparar, a professora Lascaris é bem rígida, embora não pareça.
– Prazer, Benoit. Pode me chamar de Seth. — respondeu, simpatizando com o garoto e seu bom humor — ela realmente não me pareceu tão rígida, mas vou me cuidar.
– Pode me chamar de Ben, Seth. E vai por mim, é bom ficar esperto com ela. Não quero estragar o clima, mas Del, é melhor irmos andando, o pessoal está nos esperando pra aula de física.
– Essa não, Ben. Tinha me esquecido que as aulas de física começam mais cedo esse semestre. Seth, você tem literatura nesse período, então te vejo mais tarde, tá? A sala fica no fim do corredor, perto dos banheiros. Até mais!- disse Adele, se levantando com pressa e seguindo Ben por entre as mesas do refeitório.
– Até, cara. — disse Ben.
Seth se despediu de seus novos colegas e passou o período da tarde tentando manter-se acordado nas aulas de literatura e gramática. A monotonia voltara e seu humor piorou durante a dobradinha de matemática, que se estendeu até o fim do dia. Seth pegou suas coisas e rumou ao portão principal, pensando que seu primeiro dia de aula poderia ter sido pior. Percebeu uma pequena aglomeração no portão e reconheceu Adele e Ben que acenavam para ele.
– Ei, Seth. Venha até aqui. — chamou o rapaz.
Seth apressou o passo e cumprimentou o grupo.
–Esses são os outros alunos que vão competir nas olimpíadas de química, acho que seria legal você conhecê-los. — disse Ben que os apresentou, apontando para cada um — Este é o Angus, mas pode chamar de Newt, ele prefere. Julie, mais conhecida como Jouts e a Del, que você já conhece. Os outros dois membros do grupo de estudos são a Gigi e o Breno, mas esses aí nem vale a pena apresentar.
– Ben, para com isso, eles são da nossa equipe! — disse Newt, um menino loiro e magricela, cujas roupas eram o dobro de seu tamanho.
– Concordo com o Newt, Ben. — disse uma menina ruiva e alta de olhos verde esmeralda, que Ben dissera ser Julie. -Não precisamos gostar deles, mas precisamos respeitar, afinal...
– Afinal — interrompeu Newt, dirigindo um olhar significativo para amiga, que pareceu entender — precisamos vencer as olimpíadas!
– Não me lembro deles, de qualquer forma, Angus. — respondeu Seth.
– Nem precisa se lembrar! — disse Adele com um sorriso cúmplice.
– Agora que já nos conhece, o que acha de almoçarmos juntos? — sugeriu Ben.
– Sério? Eu topo. — disse Seth. — essa manhã pensei que seria difícil fazer amigos por aqui, pelo visto estava enganado.
O grupo riu, animado.
– Já que faz parte do nosso grupo, acho que é interessante saber de algumas coisas. — disse Newt.
– Que coisas? — perguntou Seth.
– a nos chamar pelos apelidos. Angus não, por favor! — disse Newt bem humorado.
Seth sorriu e concordou.
– Combinado! — olhou para o relógio que marcava 18:00, prometera à mãe que estaria em casa para o jantar e achou melhor voltar para casa.- bom, tenho que ir. Nos vemos amanhã?
– Claro, as primeiras aulas sempre são de química, então garantimos uma aula com todos juntos! — disse Adele. — Você mora perto da capela, não é?
– Sim, um pouco mais ao norte. -nrespondeu Seth.
– Moro ali perto, podemos ir juntos, se quiser. — sugeriu a menina.
– Mas e os outros? — oerguntou, fitando os colegas.
– Moramos todos no lado sul do vilarejo e a Jouts mora em Colmar, a cidade vizinha. Os pais dela vem buscá-la de carro. — respondeu Newt.
– Entendi! Nos vemos amanhã, então. Vamos, Del? — perguntou Seth.
Adele assentiu e caminhou até o bicicletário na companhia de Seth. Após despedirem-se dos amigos, seguiram por entre as ruas de paralelepípedo. Adele mostrava cada ponto turístico da cidade e resumia a história de cada um deles. O garoto sentiu pela primeira vez que a mudança para Eguisheim poderia ser uma agradável surpresa.
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Ao longo da semana, Seth conhecera também, os colegas que completavam a equipe que competiria nas olimpíadas de química. Gigi, uma menina atarracada que andava pelos corredores com ar arrogante e Breno, um garoto nariz em pé de ar sombrio, com quem Seth antipatizara desde o primeiro momento. As aulas do grupo de estudos tiveram início. O grupo se reunia três vezes na semana, no laboratório da escola. O cheiro de cloro era tão forte que impregnava o ar e os balcões estavam repletos de instrumentos para o uso dos alunos. Béquer, pipetas, balões de fundo chato, tubos de ensaio e uma infinidade de soluções de cores variadas fechadas em um armário com portas de vidro. Seth percebeu que a fama de rígidez da professora Lascaris era verdadeira. Não tinham um minuto de descanso. As tarefas, que se dividiam em teóricas e práticas eram cansativas, mas deixavam Seth de ótimo humor. Ele respondia às perguntas corretamente e realizava os experiementos com maestria, surpreendendo à todos.
– Parece que Montreal tem a fama merecida de pólo educacional. -dissera a professora após conferir os resultados dos experiementos realizados pelos alunos. — Estou impressionada com seu desempenho, Collins.
– Obrigado, professora.
Irritado com a atenção que o colega chamava para si, Breno sussurrou para Seth, zombeteiro:
– "Obrigado, professora". Você não me engana, Collins. Na certa, colou da Avicena.
Mas antes que o colega pudesse responder, Adele interviu:
– Ah, cale a boca Breno. Está com inveja por que ele se saiu melhor que você em todos os exercícios.
– Ui, ui. A sua namoradinha ficou brava Collins. — e dirigindo-se à Adele, disse. — Não entendo porque você defende tanto esse idiota, Avicena. Está bem claro pra mim que ele nunca será um de nós.
– Prefiro que não seja, Breno. Seth é muito melhor que você. Não que isso seja muito difícil. — disse Adele, mais irada que nunca.
– Chega desse blá-blá-blá aí atrás. Quero silêncio nas aulas, turma. — disse a professora.
– Deixa quieto Del. Não perde seu tempo com gente que não vale nada. — disse Seth com desdém.
– O que você disse? Repete! — disse Breno, levantando-se com o olhar carregado de ódio.
Seth teria respondido, não fosse a intervenção da professora.
– Agora chega. Breno, você passou dos limites. Se não ficar quieto e se concentrar nos exercícios, vai garantir um passe livre para a diretoria e a expulsão do grupo.
– Professora, minha mãe...
– Não importa o que sua mãe diria. Eu a tenho em altíssimo conceito, mas não irei tolerar indisciplina nas minhas aulas, entendeu?
Resignado, Breno pegou seus cadernos e se mudou de lugar, com Gigi à sua sombra. O grupo permaneceu calado até o término da aula. seth, por sua vez, sentia um nó apertando-lhe a garganta. Sentia raiva do garoto, mas não pode deixar de se perguntar sobre o que ele insinuara ao dizer que Seth jamais seria como ele e seus amigos. Afinal, o que eles tinham de diferente?
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