A Irmandade do Pentagrama
2 Capítulo 2 - De volta para o passado
Seth abriu os olhos devagar. Não tinha pressa para iniciar um dia que parecia-lhe interminável antes mesmos de começar. Desde quando seus pais manifestavam tanta vontade em mudar de país? Lembrava-se que durante sua infância passaram por diversas cidades sem, no entanto, se estabelecer em nenhuma. Quando Seth completara 14 anos, seu pai comunicara que se mudariam definitivamente para a França pouco antes de o segundo semestre letivo se iniciar. Ele se indignara e discutira com os pais, mas ambos eram evasivos quando questionados do porquê de se mudarem tão repentinamente para a Europa.
–Mas, por que a França mamãe?- já perdera a conta de quantas vezes lhes fizera essa pergunta — O Canadá não é grande o suficiente? -Seth perdera as estribeiras na noite anterior à mudança e recomeçou a discussão durante o jantar.
Jason, pai do garoto, era um homem alto e corpulento, cujos cabelos castanhos rareavam nas têmporas. Cansado dos ataques do filho, respondeu mal humorado:
– Já lhe disse um milhão de vezes que eu e sua mãe decidimos nos mudar para dar à você e à sua irmã acesso às melhores escolas e universidades. A Europa é o lugar perfeito para vocês e para sua educação...
Seth bufou e deu-se por vencido, não pretendia argumentar que Montreal era referência em educação no Canadá e no mundo. Deixou metade do que parecia um delicioso pernil no prato e se retirou da sala de jantar, pisando forte nas escadas. Jason se irritou ainda mais com o comportamento do menino e ameaçou segui-lo, quando foi impedido por uma mulher magra e alta com olhos castanhos amendoados e cabelos vermelho vivo.
– Jason, por favor! Deixe o menino. Brigar agora não vai levar à nada. Vamos, leve Jenny para a cama. — disse com tom de voz brando enquanto ajudava uma garotinha com longos cabelos ruivos à descer da cadeira — Passou da hora de ela dormir.
– Gostaria de poder explicar à ele, mas esse garoto está cada vez mais inacessível, Anne. — disse Jason ao pé da escada.
– Deixe o tempo acalmar as coisas, querido. — entregou a menina ao pai e rumou para a cozinha para a limpeza habitual do domingo.
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Seth ainda espumava quando se lembrava da noite anterior. Irritado, colocou suas roupas na mala já abarrotada e fechou-a com força. Penteou os cabelos castanhos, que caíam na altura do ombro e prendeu-os num coque displicente, colocou os óculos de armação grossa e trocou o confortável pijama xadrez por sua habitual camiseta preta, jeans surrados e tênis converse. Após olhar-se no espelho, ficou satisfeito e acho que já era hora de encarar os pais, que arrumavam as coisas para a mudança. Estava exausto da peregrinação da família e Montreal fora sua casa nos últimos 5 anos. Tinha conseguido fazer novas amizades e estava indo bem na escola. Por que os pais insistiam em mudar-se? Será que não percebiam que isso mais o prejudicava que ajudava? Com os pemsamentos a ocupar-lhe a mente, fechou as cortinas daquele que fora seu maior e melhor quarto até então e desceu as escadas vagarosamente. Encontrou-os na soleira da porta. Seu pai guardava a pouca bagagem no porta malas da caminhonete Chevrolet vermelha que o velho Paul, vizinho da família, emprestara. Sua mãe ajustava o cinto de sua irmã mais nova, Jenny, de 7 anos. Ao vê-lo, a mulher, que acabara de atingir a meia idade, sorriu:
–Venha querido, entregue sua mala para o papai, estamos com as horas contadas!
Seth podia estar mal humorado, aliás há tempos perdera o controle de seu humor, mas não conseguia sentir-se irritado com a mãe, que sempre o tratara com desvelo. Ergueu a mala e entregou-a ao pai, decidido à ignorá-lo pelo resto da viagem. Ele ainda não sabia ao certo para qual cidade estava indo, era-lhe indiferente. A família se mudava com tanta frequência, que Seth jamais conseguira pensar em qualquer cidade como sendo seu lar. Só mais quatro anos e estaria livre das viagens inesperadas e preparativos de mudança, pemsava ele. Poderia iniciar seus estudos na faculdade e se tivesse sorte, arranjar um emprego decente fora do setor de comércio, em que seus pais atuavam como confeiteiros. Sonhando com as possibilidades que a maioridade lhe ofereceria, adormeceu e deixou-se sacolejar pelo carro em movimento.
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Algumas horas depois, a família Collins desembarcava em frente à sua nova casa. Um simpático sobrado azul cobalto, com floreiras nas janelas a lhe colorir a fachada. Seth olhou ao redor, as ruas de paralelepípedos eram margeadas pelos sobradinhos coloridos e pareciam ter saído de algum livro de conto de fadas de Jenny. Mal podia acreditar em sua má sorte. Saíra de uma cidade tecnológica para viver no meio do mato, numa casa que parecia de bonecas. Aquilo já era demais.
– O que... -tentou controlar a raiva que borbulhava na boca do estômago- O que diabos estamos fazendo aqui? Que lugar é esse mamãe?
– Ora, estamos na França, querido!
–França? Ok, mas em que lugar da França?
Jason, sentindo que uma explosão de raiva de Seth se aproximava, respondeu em tom calmo:
–Eguisheim, Seth. Estamos no interior da França. Um vilarejo que existe desde a idade média e foi preservado pelos moradores. Vamos entrar, pois não vai demorar a escurecer e, como você pode ver -apontou para Jenny, que dormia à sono alto no colo de Anne- Estamos exaustos da viagem.
–Eguisheim? Tem certeza de que essa cidade existe no mapa? — disse com ironia.
–Escute aqui, garoto. — Revidou Jason já impaciente- Estou cansado de suas críticas e ironias. O que deu em você ultimamente? Você tem 14 anos, mal saiu das fraudas e acha que tem o direito de questionar nossas decisões. Deixe eu te dizer uma coisa, você não tem esse direito. Assim que descarregar suas coisas, vai subir para o seu quarto e amanhã, quando estiver mais "calminho", conversamos.
–Mas... — começou, com a cabeça latejando de raiva.
– Nem pense em revidar, Seth. Não é um pedido, é uma ordem. Tome, seu quarto é a primeira porta do corredor. — terminou Jason, entregando-lhe a mala e virando as costas.
Sem ter como argumentar, Seth pegou suas coisas, entrou na velha casa repleta de móveis coloniais e subiu as escadas barulhentas. Bateu a porta do quarto com força proporcional à sua raiva e percebeu que tudo no quarto estava perfeitamente arrumado, como se aguardassem a chegada dos novos inquilinos. O quarto era simples. Uma cama de solteiro, paredes brancas e um lustre antigo que mal iluminava o ambiente. As cortinas escondiam uma janela que parecia ser grande. Seth sentiu que fazia uma viagem ao passado ao olhar para aquele cômodo. Deixou a mala num canto, não arrumaria nada naquela noite. Deitou-se na cama de dossel e encarou o teto de madeira envernizada pensando na má sorte que tivera ao parar naquele fim de mundo.
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