A Irmandade das Trevas.
1 ........ O naufrágio.
A neve caía pesada e úmida. Montada no cavalo sentia minha pele arrepiada mesmo debaixo do grosso manto. Um pescador trouxe a notícia que um navio naufragou durante a noite. Os destroços apareceram na praia próxima a Dyfed. Providenciei um pequeno destacamento para me acompanhar até o local, antes que os aldeões saqueassem os destroços. Havia também o risco de derramamento de sangue, caso o navio encalhado ainda estivesse ocupado por marinheiros determinados a manter a carga intacta. Confrontos violentos e até mortes já tinham acontecidos em tais disputas. Somente a presença de soldados poderia evitar que o povo fosse ferido pelos marinheiros que permanecessem no navio.
Atravessamos o portão principal da cidade, descendo a estrada que levava à Dyfed. As ondas quebravam forte quando avistamos os destroços. Os aldeões que estavam no local se espalharam assim que surgimos. Puxei as rédeas e o cavalo parou, desci e fui na direção dos destroços seguida pelos soldados.
Quando nos aproximamos do barco observei mais atentamente: — Este navio não encalhou nas rochas, parece que foi pego por uma tempestade. — Comentei com Megar, o segundo em comando.
— Não sobrou muita coisa. — Ele observou.
Perguntei se houve alguma tempestade durante a noite; um pescador que olhava a cena me informa que sim. Um temporal incomum para essa época do ano. O mastro despedaçado e a vela se erguiam a poucos metros acima da espuma da ondulação das ondas. A proa estava sobre as rochas, presa até que a maré subisse. Um detalhe me chama atenção. Da linha do convés para baixo o casco era pintado de preto. Um enorme olho azul e branco pintado próximo à proa. Com certeza não era uma embarcação do reino.
Ordenei a Megar que os soldados mantivessem os curiosos distantes dos destroços.
— Vamos olhar mais de perto. — Escolhi dois soldados para me acompanhar.
— Comandante, é melhor termos cuidado. Tem algo muito estranho por aqui. — Disse um deles.
Olhei ao redor procurando algum indício para o temor do soldado. — Acho que não. A tempestade que arrebentou aquele mastro e jogou esse navio nas rochas com tanta força a ponto de destruí-lo dessa maneira deve ter matado os ocupantes. — Respondi.
Chegando mais perto encontramos pequenos objetos espalhados ao seu redor, atirados entre as rochas pelas ondas. Remos quebrados e tábuas, pequenos baús, pedaços de lona da vela rasgada e cordas. Subimos até uma saliência do recife para podermos ter acesso à proa.
— Senhora veja..., corpos! — Apontou um dos soldados.
Saltamos para o convés. A parte da frente estava perigosamente inclinada em direção à água. Eu sentia o navio se movendo sob meus pés. No convés, jaziam três homens, todos vestidos com armaduras negras detalhadamente trabalhadas. Um deles tinha a cabeça esmagada, o segundo tinha uma grande estaca fincada na barriga, mas o outro não apresentava sinais de ferimentos graves. Na cintura tinham uma adaga de aspecto estranho, era curva de lâmina serrilhada e bastante afiada. Presa às costas do homem, via-se uma espada de aparência incomum, de lâmina larga e fio também serrilhado. Usavam um elmo diferente, trabalhado como a armadura, que lhes protegia o nariz, as laterais do rosto e a nuca. Deixando ver apenas os olhos, boca e queixo.
— Senhora, a maré está subindo. Vai erguer o que resta do navio e esmagá-lo contra as rochas. Temos que sair daqui. — Gritou um dos soldados.
Ignorei o aviso do soldado, embora soubesse que ele estava certo quanto ao perigo que estávamos correndo. Mas minha curiosidade sobre a embarcação e seus ocupantes me inquietava. Em todo convés os destroços criavam uma cena confusa. Corrimões partidos, pedaços de tábuas boiando, degraus da escada quebrados, os restos destroçados de uma mesa, bancos, pequenos baús com conteúdos espalhados. Os olhos dos soldados estavam arregalados de pavor. Insisti em permanecer no navio que oscilava cada vez mais. Vi uma porta entreaberta a direita da escada que se dirigia para o interior da embarcação. Deparamos com uma cabine às escuras, apenas uma portinhola deixava entrar um facho de luz. A água entrava vagarosamente pelas tábuas do chão.
Fiquei parada, pois algo na cabine chamou minha atenção. Uma sensação estranha e assustadora tomou conta de mim logo que entrei no ambiente.
O navio oscilou violentamente, desequilibrando todos nós. — O navio está subindo. É melhor irmos Senhora. — Berrou um soldado com o terror estampado no rosto.
Não respondi concentrada na estranha sensação. O soldado agarrou meu braço. — Senhora o navio vai se partir num minuto.
Sacudi o braço para me soltar e respondi asperamente: — Um momento. Tem alguma coisa... — Atravessei a cabine em desordem e abri a gaveta de uma escrivaninha, abri a segunda e depois a terceira. Nessa encontrei um pergaminho enrolado com uma fita negra, onde se via um selo de lacre também negro. Guardei-o dentro do gibão e gritei para os soldados. — Vamos!
A maré havia levantado o navio numa altura que permitiu que subíssemos até o recife com certa facilidade. O navio boiava ao sabor da maré. A proa deslizou entre as rochas, as madeiras cederam com um estrondoso ruído. A carcaça do navio flutuou inclinando-se devagar até que uma onda mais forte atirou os restos do navio contra as rochas. Os ruídos das madeiras quebrando-se foi assustador.
Já estávamos na praia quando um demorado gemido me fez virar e deparar com o estranho homem que estava estirado no convés. A estranha espada serrilhada arrastando na areia. Seu braço estendido junto ao corpo não tinha força para erguer a espada; o sangue escorria sob a couraça e sob o elmo. Deu um passo cambaleante. Estava pálido e com os olhos arregalados de dor e confusão. Gemeu palavras incompreensíveis. Os soldados fizeram menção de atacar, mas os detive; o estrangeiro estava seriamente ferido. O homem deu mais um passo e os joelhos cederam; a espada caiu de sua mão. Cada vez mais pálido, com grande esforço levantou-se e deu mais três passos cambaleantes e caiu de bruços na areia.
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Um grupo inquieto estava sentado à mesa redonda do conselho da Princesa Regente. A chegada do navio estrangeiro era encarada como uma fragilidade na defesa do litoral e potencial ameaça de invasões.
A princesa Gabrielle foi a primeira a falar. — Relembrando tudo que sabemos até agora, temos alguma novidade sobre o náufrago?
Kurgan, o capitão da guarda falou em seguida: — Vossa Graça, o material dos artefatos que foram trazidos é desconhecido para nós. As armas e armadura são ainda mais intrigantes. Olhe bem para a espada, só um louco se atreveria cavalgar contra um homem que usasse essa arma.
— Cortaria o cavalo por baixo. — Observou Aragon, o Mestre da Cavalariça. — Já a armadura é leve, muito resistente e bem feita. Eu diria que o homem pertence à infantaria.
— E você Chennai, o que diz, já que você examinou o navio? — Perguntou a princesa.
— Pelo que pude ver, era indiscutivelmente um navio de guerra. A proa era projetada para abalroar e o convés elevado era o lugar perfeito para arqueiros, lanceiros e facilitava a abordagem de outras embarcações. – Respondi.
— E quanto ao homem? — A princesa pergunta.
— Tinha um pedaço de madeira cravado entre as costelas do lado direito e um golpe grave na cabeça. O elmo protegeu-o um pouco, mas está com febre e perdeu muito sangue. Pode ser que não sobreviva. — Informei.
A princesa ficou pensativa. Por fim disse: — Vamos suspender a reunião até descobrir alguma novidade sobre o assunto. — Levantou-se. Todos fizeram reverências e foram saindo da sala. Ninguém dissera nada, mas era óbvio que estava sendo considerada a possibilidade de que o navio estrangeiro fosse a dianteira de uma frota invasora.
Quando a porta se fechou me dirigi à princesa: — Veja o que encontrei no navio. — Disse entregando o misterioso pergaminho. O selo do lacre tinha o mesmo símbolo pintado no casco do navio. Como desconhecíamos o símbolo Gabrielle manda chamar o abade Tully.
— Tully, você que está aqui a mais tempo do que nós. Alguma vez já viu esse símbolo? — Pergunta a princesa mostrando o pergaminho para o abade.
Tully empalideceu quando viu o símbolo e num reflexo fez o sinal da cruz sobre si. Gabrielle me olhou espantada com a reação do abade.
— Onde..., onde a senhora encontrou isso? — Perguntou o abade gaguejando, com o pavor estampado no rosto.
— Numa escrivaninha do navio. — Respondi.
— Tully, o que isso significa? — Gabrielle pergunta curiosa.
— Alteza, se me permite irei buscar um livro para melhor explicar sobre isso. — O abade sai e algum tempo depois retorna trazendo um grande e grosso livro encadernado de couro vermelho-acastanhado desgastado pelo tempo. Abriu-o folheando as páginas amareladas, até por fim encontrar o que queria. — Aqui está Vossa Graça. Essa é uma história dessa terra. É uma tradução de um texto celta com mais de 400 anos. – A princesa ficou maravilhada.
O abade começa a explicação: — Há muito tempo, todas estas terras faziam parte do território chamado Hallstatt ocupado por um povo pagão chamado Celta que era dividido em múltiplas tribos. Muito longe a leste, existia uma ilha que era governada por um rei chamado Balor, cultuado como o deus da morte. Ele é descrito como um gigante com um olho no meio da testa que governava os Fomorianos; demônios que viviam na impenetrável escuridão das profundezas do mar e em lagos e poços negros. Conta-se que essa tribo fazia sacrifícios humanos em oferenda a Balor e aos demônios da escuridão em troca de riqueza e poder. Começaram a se expandir para o continente levando sua cultura de sangue e terror. As outras tribos eram como pequenas nações. Cada uma por si só, não conseguiria enfrentar a Irmandade das Trevas, como eram conhecidos. Mas uniram-se contra os malditos e mostraram estar à altura deles; aconteceram longos e sangrentos conflitos por muitos anos. Até que finalmente acuados eles foram isolados nessa ilha. Até que chegaram os conquistadores romanos e nunca mais se ouviu falar da Irmandade das Trevas... Até agora.
Eu e Gabrielle ouvíamos a explicação atentamente. Olhei o pergaminho e senti um arrepio na nuca. A princesa parecia paralisada. A fisionomia séria revelava sua preocupação. Subitamente Tully pareceu cansado; pedindo licença subiu para os seus aposentos.
........ Um mau presságio.
— Ninguém sabe nada sobre o estrangeiro, estamos nos baseando em suposições e superstições. Estamos andando em círculos. — A princesa observou.
Continuei calada, descansando com olhos fechados, acariciando os sedosos cabelos de minha princesa que está deitada aninhada em meus braços, com a cabeça apoiada em meu ombro. Sentir o calor daquele pequeno corpo nu aconchegado ao meu é uma sensação maravilhosa. Senti que estava sendo observada por Gabrielle.
— Mil moedas de ouro pelo seu pensamento. — Ela diz sorrindo.
Deito-me de lado desalojando a doce princesa de meu corpo. Acaricio os loiros cabelos da testa e beijo seus lábios com delicadeza. Por fim rompendo o silêncio falei: — Vou procurar saber mais sobre essa história.
— Como assim? — Gabrielle pergunta surpresa.
— Quero visitar a Abadia de Dalay. Os sacerdotes de lá são os guardiões do saber e da história mais antigos do Reino, possuem a maior biblioteca já vista, quem sabe lá possa encontrar mais alguma coisa sobre a tal “Irmandade das Trevas”?!
— A Abadia de Dalay fica a oito dias de viagem e estamos no inverno. Você é mais útil aqui ao meu lado. — A princesa me responde com certa rispidez e continua. — Não autorizo sua saída do castelo, está decidido. Estou com problemas de sobra.
Gabrielle faz uma pequena pausa. — Primeiro as notícias sobre as tentativas cada vez mais frequentes de invasões de nossas fronteiras pelos Saxões. Depois o comandante das tropas que te substituiu, está se mostrando incapaz de manter a ordem na fronteira. O descontentamento entre os soldados se torna cada vez maior, isso fatalmente vai levar a insubordinação, e a perda de comando numa área em conflito seria catastrófica. E como se não bastasse, tive notícia que os nórdicos voltaram a invadir Ânglia do Leste. As nações da Mércia e da Nortúmbria estão em alerta total, mas a dissidência interna está causando a divisão do reinado, e o enfraquecimento da aliança entre os reis vai tornar possível uma invasão mais letal e destruidora que a sofrida sob a regência de meu falecido pai.
Confesso que me surpreendi com a atitude de Gabrielle. A experiência dos anos mostrava que a menina mimada cheia de vontades e arrogância deu lugar a uma mulher inteligente e segura no comando do principado. Mas meu instinto diz que em breve estaremos com um sério problema em nossos portões.
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Logo pela manhã olhei a murada e percebi que no alto das passarelas os guardas patrulhavam mais alertas do que de costume. Desde a invasão dos nórdicos não se via tanto alvoroço no castelo. Caminhei até a torre; procurei por Tully para saber mais detalhes sobre a Irmandade. Encontrei-o rezando ajoelhado na pequena capela do castelo. Estava tão concentrado em suas orações que não percebeu minha presença. Aguardei pacientemente ajudando-o a se levantar. A idade já pesava no corpo do bom abade.
— Tully, ontem o senhor nos falou sobre a tal Irmandade... — Minha frase foi interrompida com o berro do abade.
— NÃO PRONUNCIE ESSE NOME MALDITO. É UM MAU AGOURO! — Disse o abade repetindo o gesto do sinal da cruz sobre si.
Meu olhar de espanto foi percebido pelo velho que levantando a mão ossuda disse: — Perdoe-me Chennai. Estou velho e cansado e esqueço minhas boas maneiras. Mas a verdade é que não podemos ignorar o que aconteceu.
— Ora, por favor, não vai me dizer que acredita nessas crendices de demônios..., gigantes de um olho só. Isso não passa de uma lenda que foi escrita por um povo pagão 400 anos atrás. — Sorri com certo deboche da superstição do velho abade.
O abade me lançou um olhar de reprovação. — Não é isso que me preocupa, mas sim o reaparecimento da Irmandade.
— Deus não deixaria isso acontecer. — Disse com um sorriso de sarcasmo.
— Sua descrença em Deus ainda será sua ruína Chennai. Mas o Senhor ainda lhe mostrará o caminho nem que seja de uma maneira dura e penosa. — E virando-se saiu da capela. Senti o peso das palavras do abade como se fosse um presságio.
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O pátio encheu-se de soldados apressados, que fariam parte da escolta da princesa. A alvorada começava a despontar; o tom cinzento das pesadas nuvens de inverno contrastavam com a neve branca que cobria toda cidade. Lady Marna, como inseparável acompanhante da princesa, cuidava dos detalhes finais para a viagem. As lembranças da noite de amor não me deixavam em paz e lamentei a necessidade de ficar substituindo a princesa na regência do principado como sua Conselheira. Ficaria mais tranquila se pudesse acompanhá-la.
Estava nos aposentos da princesa aguardando para conduzi-la até o pátio. Gabrielle reparou meu ar de preocupação e perguntou: — Por que essa cara fechada?
— Nada, só estava pensando... Você não deveria sair da segurança do castelo. A passagem Norte já está bloqueada pela neve. Você terá que ir pela passagem Oeste e seguir pela floresta. Estou com um mau pressentimento. — Respondi com certa angústia.
Gabrielle se aproxima e acariciando meu rosto diz: — Minha amada Chennai, não se preocupe. Não posso adiar essa viagem, tenho que tratar de assuntos urgentes com o Rei. Entrego-lhe o governo por poucos dias, não irei demorar na corte de meu tio.
Nos despedimos com um longo e apaixonado beijo. — Eu te amo Gabrielle. Sentirei sua falta. Volte o mais rápido que puder. — Digo encarando seus olhos verdes esmeralda.
— Também te amo. Fique bem minha amada. Voltarei logo. — A princesa responde.
Os serviçais acomodavam a bagagem na carruagem. Uma comitiva de vinte soldados faria a escolta. Recomendei ao fiel Megar, sargento da guarda real, o máximo de cuidado com a senhora do castelo. O séquito partiu. Senti meu coração apertar.
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Vinte dias se passaram sem notícias da princesa. A ansiedade começava a afetar minha concentração. Enviei um mensageiro à corte com uma mensagem para a princesa. Quatro dias depois o homem retorna com a notícia que a princesa deixara a corte seis dias atrás. Meu coração quase parou. O pavor tomou conta de mim. Mandei chamar Kurgan, Aragon e o abade. Informei o ocorrido. Passados os primeiros instantes do choque todos começaram a falar ao mesmo tempo numa confusão total de vozes e palavras.
— SENHORES! — Berrei esmurrando a mesa. — Senhores..., temos que nos acalmar e pensar com a razão. — Procurei no fundo de minhas entranhas forças para me acalmar. Minha cabeça latejava, sentia como se meu coração fosse sair do peito. Suspirei profundamente e recostei-me na cadeira da princesa. O silêncio desceu sobre a sala. Senti o peso dos olhares dos três homens. Por fim rompi o silêncio: — Kurgan, você assumirá o meu lugar. Aragon, você ficará temporariamente responsável pela guarda da cidade e do castelo. Tully você... — Fiz uma pausa. O velho abade me olhou com atenção. — Você..., ajudará Kurgan no que for necessário e peça a Deus que a princesa esteja bem.
Com as ordens determinadas tratei de providenciar a busca por minha amada princesa. No pátio gelado uma tropa de trinta soldados terminava os preparativos, amarrando alguns mantimentos nos cavalos enquanto a neve caía. Eu ajustava as correias dos estribos quando Kurgan e Aragon vieram ao meu encontro.
— Fique tranquila Senhora, tomarei conta de tudo..., e tome cuidado. São muitos os problemas que a esperam lá fora. Lhe desejo boa sorte. — Disse o capitão com um sincero olhar e um forte aperto de mão.
Recebi os mesmos votos de Aragon. Vi o abade parado no patamar da escadaria do castelo e fui até ele. Murmurando ele me diz: — Traga nossa princesa de volta... e que Deus lhe proteja minha filha. — Disse o bondoso Tully ungindo minha testa e me abraçando emocionado.
— Trarei meu amigo. Eu prometo. — Respondi também emocionada.
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Ao saber do ocorrido Morloch, o Mestre de Caça, ofereceu-se para participar da caravana juntamente com três de seus batedores. Toda ajuda seria bem vinda, principalmente com a experiência desses homens em rastrear. Montei e ordenei que a coluna avançasse. Passamos pelo portão seguindo na direção da passagem oeste. A neve caía em flocos úmidos e pesados, gelando meu rosto. O frio parecia penetrar no grosso manto e agasalho, entrando como espinhos em minha pele.
Já cavalgávamos a um dia, mas a neve pesada dificultava o avanço da tropa. Meus músculos estavam tensos e doloridos. Morloch e seus batedores já tinham se embrenhado na floresta, examinando os sinais atentamente, mas até o momento nenhum rastro que indicasse um grupo de cavaleiros, uma carruagem ou qualquer sinal de luta.
Grande parte da floresta tinha vegetação retorcida e densa. — Um lugar apropriado para uma emboscada.— Pensei. — De repente Morloch aparece cavalgando de encontro à formação e avisa: — Fiquem atentos, essa é a parte mais sombria da floresta. Estou com o pressentimento que estamos sendo observados. — A observação do Mestre de Caça confirmou minhas suspeitas de que nas últimas horas olhos rastejavam sobre nós.
O vento gelado cortava meus lábios. Minhas mãos e pés estavam dormentes. Mesmo ao meio dia a luz era escassa na floresta coberta de neve. O ambiente estava soturno; os ruídos da floresta tinham diminuído. Era como se os animais e aves evitassem aquela parte da mata. De repente a nevasca caiu impiedosa dificultando enxergarmos o caminho. Eu sentia a tensão se acumular nos soldados a cada hora que cavalgávamos. O andamento da tropa estava cada vez mais vagaroso, e isso estava me irritando.
— VAMOS. NÃO PODEMOS PARAR! — Tentei gritar mais alto que o vento que uivava entre as árvores.
— Senhora não temos mais como prosseguir. Os cavalos e os homens estão exaustos e não conseguimos enxergar nem cinco passadas além. Temos que procurar um abrigo. – O Mestre de Caça me avisa.
Olhei ao redor. Morloch estava certo, a ventania congelante castigava os homens e os animais. Embora contrariada, concordei. Ele indicou o caminho para uma pequena caverna.
Estava perdida em pensamentos sobre Gabrielle quando um grito ecoou vindo de trás. Eu, Morloch e alguns soldados, retornamos a tempo de ver a luta que se desenrolava. O som das lâminas se chocando quebraram o silêncio até pouco tempo existente. Conseguíamos ver apenas vagamente formas escuras e encobertas que golpeavam com espadas os soldados montados. Uma silhueta afastou-se evitando o golpe de um guarda e correu em minha direção. O estranho guerreiro com um grito de fúria ergueu a espada para me golpear. Aparei o golpe com o escudo. No instante seguinte o guerreiro com um grito levou a mão à cabeça enquanto o sangue jorrava entre seus dedos. Minha espada partira o elmo e cravara na cabeça do homem. De todos os lados se viam figuras com mantos negros e armaduras surgirem da floresta. Das árvores voavam flechas que atingiam certeiramente os soldados enchendo o ar de gritos de dor. Os escudos eram quase inúteis. Ao redor jaziam corpos tanto de atacantes quanto de soldados e batedores. Poças de sangue manchavam a neve branca.
Eu gritava acima do tumulto: — ESTAMOS CERCADOS. JUNTEM-SE A MIM!
Ao mesmo tempo Morloch gritava: — POR AQUI!
Os sobreviventes nos seguiram galopando floresta adentro, perseguidos por gritos e flechas dos misteriosos guerreiros. Forçávamos os cavalos já espumando ofegantes a abrir caminho pela densa vegetação. Perdi a noção da distância percorrida. As vozes foram se distanciando até que só ouvíamos o som arquejante dos cavalos e nossa respiração ofegante. Apesar do frio o suor escorria pelos nossos rostos. A caverna nos serviu de abrigo; quando o último soldado chegou, perguntei: — Perdemos quantos?
Morloch contou os sobreviventes e respondeu: — Perdemos dezoito homens e temos quatro feridos.
— Deixem os cavalos descansarem um pouco. Mantenha dois homens de guarda. Temos que sair daqui o mais rápido possível. Eles virão tenho certeza. — Ordenei.
— Senhora, os cavalos não resistirão muito mais tempo nesse ritmo. — Disse Morloch. — Os cavalos estavam ofegantes, tremendo e bufavam espuma.
Uma silhueta se aproxima correndo. Imediatamente as espadas são desembainhadas. Morloch reconhece um de seus batedores. O homem chega correndo exausto, arquejando e diz: — Eles estão vindo..., chegarão em uma hora.
— Quantos são? — Perguntei ansiosa.
— Não sei ao certo Senhora..., talvez uns quarenta ou cinquenta homens. — Entrega uma adaga a Morloch. Tomei o objeto das mãos do homem, senti como se meu coração parasse de bater. O Mestre de Caça percebe meu choque e pergunta:
— Quem são eles?
Quase me faltando ar, num murmúrio respondi: — A Irmandade das Trevas.
........ A perseguição.
A neve caía em flocos úmidos trazidos pelas rajadas de vento. Fazia três dias que cavalgavam retornando da corte do Rei. Sendo que no último dia a princesa e sua escolta tinham entrado na floresta. Megar Seguia a frente da tropa atento aos sons e movimentos da mata. Subitamente um ruído chama atenção do sargento. Ele vira o cavalo em direção aos soldados e avisa: — Fiquem atentos, não estamos sozinhos. — Vira novamente o cavalo e retorna para frente da formação.
Megar era um veterano marcado por cicatrizes de quem enfrentara bandidos e invasores em outros tempos. Não era o tipo de se impressionar com facilidade. Os soldados viajaram o resto do dia em silêncio e atentos, com os olhos pregados na floresta em busca de sinais de problemas.
Continuaram seguindo pela passagem oeste tão depressa quanto possível. A neve dificultava a viagem. A princesa estava ansiosa para chegar em seu castelo e encontrar sua amada. Perdida em seus devaneios não observa a tensão que se instala entre os soldados. Todos de lanças e escudos em prontidão. Mais algumas milhas e já estariam próximos do rio que marcava a divisa do Ducado de Deira, uma das províncias vassalas do principado de Crydee.
Megar e alguns soldados não tardaram a ver manchas negras correndo e se esgueirando entre as árvores. Megar fez sinal para que parassem. Ordenou que mudassem a formação de linha de modo a conseguirem proteger a carruagem de qualquer ponto de um ataque iminente.
— Problemas sargento? — A princesa pergunta estranhando a breve parada.
— Vossa Graça, por favor, feche as janelas da carruagem e tranque a porta. — Pede o sargento sem dar maiores explicações.
Uma flecha, logo seguida por outra, voou das árvores próximas e um soldado tombou. As lanças e os escudos se levantaram aguardando o ataque. — VAMOS! — Gritou o sargento.
A todo galope possível a tropa se embrenha mais na floresta. Passaram mais algum tempo galopando através das paisagens sombrias. A fuga era acompanhada pelos gritos dos misteriosos homens. Os guerreiros que os seguiam não os atacavam, mas se mantinham por perto com a clara intenção de aterrorizar.
— MALDITOS SEJAM! ESTÃO NOS CERCANDO! — Gritou Megar.
De repente não se ouviam mais os gritos nem os sons de perseguição. Megar levantou a mão e a coluna parou. Todos escutavam atentamente.
— Senhor..., acho que os despistamos. — Disse um soldado em voz baixa. — Nesse instante uma flecha raspou o elmo do sargento.
— Senhor parece que a intenção deles é nos desviar para a passagem Norte. — Gritou outro soldado.
— A passagem Norte está bloqueada. Se formos para lá vamos cair numa cilada, não teremos por onde sair. — Megar gritou. — NÃO TEMOS SAÍDA. TEMOS QUE LUTAR!
O sargento levanta a mão e a tropa para. Aguardando que todos os homens se juntassem ele ordena: — Quero dez homens seguindo com a princesa, o restante ficará comigo. À minha ordem virem para direita e ataquem. — A tropa se separou, com a princesa escoltada seguindo na direção de Crydee. O sargento aguardou que os soldados aprontassem as armas e escudos, rezando para que os cavalos aguentassem mais um galope. Foi então que o sargento gritou: — AGORA!
Como um todo, a pequena coluna virou-se para a direita e os soldados instigaram as enfraquecidas montarias. Choveram flechas das árvores e ouviram-se gritos de homens e cavalos. Megar assistia os corajosos soldados serem abatidos pouco a pouco. O sargento foi atirado ao chão no momento em que seu cavalo caiu exausto jorrando sangue espumoso pelo nariz. Levantou rapidamente e se viu cercado por seis guerreiros. Uma expressão de raiva impotente apareceu em seu rosto. Com espada e escudo em punho deu uma última olhada na direção por onde a carruagem seguira.
— Adeus princesa. Que Deus a proteja! — Despediu-se num sussurro.
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A tropa em fuga prosseguia exausta. Por mais que os animais fossem instigados, já estavam nos seus limites. Os galopes eram vacilantes. Gabrielle não sabia dizer quanto já tinham percorrido. Ouviam-se gritos na floresta, mas já a grande distância. O soldado em comando fez sinal para que andassem mais devagar.
— Nós os despistamos? — Pergunta Lady Marna.
O soldado confirmou com a atenção concentrada nos gritos distantes. A princesa correu o olhar pela tropa restante. — Se ao menos encontrássemos um esconderijo. — Gabrielle murmura.
Aos poucos a neve foi parando de cair, a luz pardacenta da tarde foi sendo coberta por um espesso nevoeiro.
— Alteza, se me permite atrevo a dar uma sugestão. — Disse o soldado em comando.
A princesa consentiu. O soldado disse: — Já está escurecendo, em breve vai se tornar impossível ver além de poucos passos. Não podemos caminhar com tochas acesas, seríamos vistos à distância. Existe uma mina abandonada próxima daqui. Podemos nos abrigar por lá e descansar os homens e as montarias por algumas horas.
— Como você sabe disso? — Lady Marna pergunta desconfiada.
— Nasci e fui criado nestas terras Senhora. Meu pai, meu avô e o pai dele, trabalharam na mina. Como ela já não estava mais produzindo, Lord Borik mandou fechá-la... E tem mais uma coisa Alteza... — O soldado baixa os olhos sem coragem de olhar a princesa. — Gabrielle aguarda; por fim impaciente: — Diga logo homem, o que é?!
— Alteza..., me perdoe, mas a carruagem..., está deixando rastros fáceis de serem encontrados.
A princesa entendeu o que o soldado temia dizer e concorda sob protesto da resmungona Lady. Tirando as mantas e agasalhos da bagagem, a carruagem é levada e abandonada numa encosta do lado oposto do caminho de onde vieram e os cavalos trazidos de volta.
— Lady Marna, a senhora consegue cavalgar? — A princesa pergunta.
— Estou velha mais não estou inútil. — Ela responde aborrecida.
Um soldado ajusta as correias da sela, os estribos e as rédeas para melhor acomodar a velha senhora. Logo que se inicia a cavalgada, ouviu-se um “Êia” de pânico vindo das costas da princesa. Lady Marna em desespero puxava as rédeas do cavalo com força.
— Não puxe com tanta força. — Gabrielle avisa. — Vai machucar a boca do animal e ele vai lhe derrubar. — A princesa prossegue com rápidas instruções básicas e a cavalgada é reiniciada.
Chegaram à entrada da mina, coberta de arbustos. Os soldados limparam o caminho que revelou um túnel largo embora baixo. Já dentro da mina as tochas foram acesas. Os tuneis eram úmidos e cheirando a mofo. As chamas faziam sombras que dançavam nas paredes, conforme iam caminhando a escuridão os engolia rapidamente. Ouvia-se apenas o som dos cascos no chão rochoso.
Passado algum tempo, chegaram a uma grande caverna de onde saíam vários tuneis. O soldado indicou que seria um bom lugar para ficarem. O calor aconchegante de três pequenas fogueiras aqueciam os corpos gelados. O jovem soldado determina que no primeiro turno dois homens ficassem de vigia, mesmo tendo se aprofundado na mina, não podiam ficar desatentos. Todos se acomodam como possível no chão pedregoso. Lady Marna e a princesa se recolhem num canto mais reservado. Embora seja visível certo alívio nos rostos cansados, ninguém tem ânimo para conversas. Exaustos todos dormem quase imediatamente. Algum tempo depois os dois vigias são substituídos e vão se aquecer junto à fogueira e adormecem pesadamente abraçados as suas armas.
As mulheres acordaram assustadas com as vozes dos soldados se preparando para retornarem a viagem. — Alteza, mil perdões, mas é melhor irmos andando, ainda temos um longo caminho até Crydee. — Disse o soldado.
— Achei que passaríamos a noite aqui. — Responde a Lady.
— O dia já amanheceu Senhora. — Informa o homem.
Lady Marna parece atordoada. A princesa sorri da desorientação de sua acompanhante. Ao voltarem para a entrada da mina se deparam com a neve que voltou a cair. Todos se acomodaram nas montarias e começaram a viagem. O dia seria longo e penoso.
........ Caminhando com a morte.
A noite já tinha caído, mas ordenei que continuássemos avançando, receando que os perseguidores retornassem. Os homens cavalgavam com cautela na escuridão. Dos trinta e quatro homens, incluindo Morloch e seus batedores, que tinham partido comigo de Cymru, restavam apenas dezenove, dos quais quatro estavam feridos. Avançávamos penosamente, sentindo o corpo castigado pelo cansaço e o frio.
— Senhora, não podemos ficar andando às cegas. Os homens e os cavalos estão exaustos. Temos que parar. — Insistiu Morloch.
Meu desespero por não encontrar sinal da princesa e seu séquito me deixava cada dia mais tensa e ansiosa. Era impossível um homem experiente como o Mestre de Caça não ter encontrado nenhum sinal até agora. Numa explosão de raiva e desespero agarrei o manto de Morloch e gritei: — NÃO SE ATREVA A ME DIZER O QUE FAZER, ENTENDEU?
O olhar de surpresa do homem foi imediatamente substituído por raiva. Estava me descontrolando. Agora mais do que nunca dependíamos uns dos outros ou ninguém sairia vivo daquela floresta. Percebendo o quanto tinha sido irracional disse: — Perdoe-me Morloch. Você tem razão.
O homem responde num tom frio: — Eu compreendo sua responsabilidade Senhora. Estamos todos tensos e abatidos. Mas de nada vai adiantar andarmos nessa escuridão.
— Mas a neve vai cobrir qualquer rastro antes do dia raiar. — Insisti.
— Senhora farei o possível para encontrar algum sinal da princesa. Dou-lhe minha palavra. — Morloch respondeu num tom mais amigável.
Apesar do coração amargurado concordei: — Está certo. Existe algum lugar onde possamos nos abrigar? — Perguntei.
— Não Senhora, mas podemos conseguir algum abrigo se descermos o barranco. Temos que improvisar usando o que tem na floresta. — Morloch responde.
E assim foi feito, desembainhando as espadas cortamos galhos que se transformaram em abrigos rudimentares que nos protegiam dos ventos noturnos. Os animais foram amarrados todos juntos e coberto com as mantas que seriam usadas para forrar o chão.
— Nada de fogueiras. — Ordenei.
— Está frio demais para acamparmos sem fogo Senhora. — Disse um soldado.
— Concordo, mas se aqueles filhos do inferno estiverem por perto, uma fogueira os trariam até nós... Juntem-se para se aquecerem e ninguém morrerá de frio. Eu e mais dois soldados faremos o primeiro turno de sentinela e que o restante descanse. Ao amanhecer quero me distanciar daqui o máximo possível. — Respondi.
No meu período de descanso senti os homens sentados se juntarem a minha volta. A falta de conforto piorava ainda mais as dores dos músculos, mas a exaustão pouco depois me fez cair num cochilo vacilante, acordando sobressaltada diversas vezes durante a noite. Até que de repente, o dia começou a despontar.
Levantei me sentindo dormente. Alguns soldados tremiam enquanto batiam os pés e balançavam os braços, tentando estimular o corpo gelado e dolorido.
— Maldição! — Ouviu-se a voz de Morloch. Ajoelhado ao lado do corpo imóvel de um soldado. — Morreu durante a noite Senhora, era um dos feridos. — O homem foi despido e seu corpo enterrado na neve.
— Vamos embora imediatamente! — Ordenei. — Levantamos acampamento, cobrindo os sinais da nossa passagem pelo lugar e recomeçamos a marcha.
Passado mais um dia. Chegaram os ventos sibilantes com lâminas geladas que feriam a pele exposta. Amarramos trapos nas botas na tentativa de evitar queimaduras de frio. Andávamos lentamente a passos pesados puxando as montarias.
— Senhora, aproxima-se uma tempestade. Temos que encontrar um lugar ou vamos morrer. — Gritou Morloch acima do uivo do vento.
Me limitei a balançar a cabeça concordando. Morloch acenou ao seu batedor e um soldado. Os dois partiram. O som de um baque surdo na neve e um soldado gritou que mais um companheiro ferido morrera. O Mestre de Caça rogando pragas ordenou que o despissem e o enterrassem na neve.
Algum tempo depois os dois homens retornam com a notícia que tinham encontrado uma mina abandonada a pouco mais de quinhentos metros dali. Mandei que indicassem o caminho. O céu escureceu rápido, a neve nos fustigava com as rajadas de vento; o esforço era tremendo para erguer os pés da neve resistente.
Seguindo os dois homens chegamos à mina. Cambaleando exaustos entramos na escuridão protetora. Lascas de madeira se tornaram tochas e nos embrenhamos pelo túnel até chegar numa grande caverna. Enquanto os homens acomodavam os animais e acendiam as fogueiras, Morloch percebeu que a caverna tinha sido usada recentemente. Lascas de madeira velha empilhada, cinzas de três fogueiras e marcas de botas e cascos. Morloch examinou os sinais e concluiu que quem usou o lugar partiu talvez a dois dias. Meu coração disparou.
— É a princesa? — Perguntei aflita.
— Não sei dizer com certeza Senhora, mas é possível. Quem ficou aqui, foi apenas para descansar e se aquecer. Veja as marcas em volta das fogueiras. Não existem restos de comida..., e aquela fogueira foi feita afastada das demais, num local mais reservado. Nem tiveram o cuidado de apagar os sinais. — Informa o Mestre de Caça.
A inquietação e a angústia me consumiam. Pensar que talvez fosse minha doce Gabrielle quem estivera ali e novamente eu a perdera doía meu coração. Tive ímpeto de seguir viagem; como se tivesse lido meu pensamento, Morloch me diz: — Senhora estamos todos fracos. Se sairmos agora o temporal vai nos matar.
Olhei para minhas mãos dormentes, dobrei os dedos e senti dor, tirei as luvas; meus dedos estavam com uma coloração arroxeada. Olhei os rostos abatidos dos soldados se aquecendo em volta das fogueiras. Me senti responsável pela vida daqueles homens. Ordenei que todos tirassem as botas para ver se tinham sofrido queimaduras de frio, o que fatalmente causaria gangrena. Apenas um homem apresentava as fatais queimaduras, mas o valoroso soldado não se queixara momento algum. Com dificuldade o homem se levanta e vai conversar com Morloch que está de guarda na entrada da caverna. Observei os dois conversando a certa distância. De repente um olhar arregalado apareceu no rosto do soldado e seus joelhos dobraram. Os olhos do Mestre de Caça se arregalaram ao ver duas flechas cravadas nas costas do pobre homem. Imediatamente ele grita: — ATAQUE!
Sob a luz vacilante da fogueira vi que eram apenas cinco atacantes. Levantei de um pulo e ataquei. O choque das espadas ecoava na caverna. Os Irmãos das Trevas foram rapidamente mortos. Ordenei que os corpos fossem levados para um dos túneis, inclusive o do soldado.
— Provavelmente eram batedores Senhora! — Exclamou Morloch ofegante. — Deviam estar procurando abrigo. Duvido que estejam andando por aí às cegas.
— Espero que você esteja certo. Este seria um péssimo lugar para lutar..., ou para fugir. — Murmurei. Ordenei que dois soldados fizessem o primeiro turno de sentinela.
No meio da noite, quando as fogueiras já estavam quase apagadas, acordei assustada com a voz de Gabrielle me chamando. Sentei com o suor frio escorrendo pelo rosto, olhei ao redor e vi os guardas de sentinela junto às tochas e formas de corpos adormecidos à minha volta. Resolvi levantar e render um dos guardas. Com o dia amanhecendo preparamos nossa partida. Já mais descansados continuamos a busca.
........ A captura.
As mulheres e a escolta chegaram a uma clareira. O guarda que comandava acenou que parassem e não fizessem barulho. Ouviram-se passadas aproximando. Os soldados cercaram as mulheres com armas e escudos a postos. As vozes ficavam cada vez mais próximas. Os passos avançavam pela neve fechando o cerco sobre o grupo; Lady Marna e a princesa estão paralisadas. Os soldados aguardavam nervosos. No nevoeiro algumas silhuetas se dirigem à clareira. A figura se aproxima, revelando um elmo e armadura semelhante ao do náufrago. Gabrielle estremeceu.
Os olhos verdes do arqueiro cravaram-se em Gabrielle. Ele se adianta e grita: — LARGUEM AS ARMAS, VOCÊS NÃO TEM CHANCE ALGUMA!
Os soldados vão recuando lentamente. Não podiam arriscar a vida da princesa num confronto tão desigual. Apenas dez soldados contra dezenas de arqueiros e espadachins. A princesa percebe que seria um suicídio tentarem um confronto. Num rompante de autoridade Gabrielle grita para o arqueiro que a olhava fixamente e parecia ser o líder:
— Senhor ordeno que nos deixe seguir nosso caminho em paz.
Vários guerreiros da Irmandade riram, tal como o arqueiro que a olhou com sarcasmo, dizendo: — E quem é a nobre Dama que nos “ordena” tal coisa?
O terror domina Lady Marna que segura o braço da princesa com força e sussurra: — Por favor princesa, não responda.
Gabrielle ignora a Lady e responde: — Sou a Princesa Gabrielle de Cymru, Senhora do Principado de Crydee.
Os guerreiros da Irmandade se entreolharam surpresos. O arqueiro se aproxima devagar, inspecionando a defesa inimiga a sua frente. Parou e disse sarcástico: — Ora, ora..., então temos aqui uma Dama de sangue real. — Ele faz uma pausa em seguida solta uma gargalhada. — Imagine só que sorte..., e o que faz a princesa perdida nesse lugar cercada por apenas dez miseráveis soldados e uma velha?
Antes que a princesa respondesse um soldado precipitadamente investiu contra o arqueiro. No instante seguinte o guarda cai ao chão com barriga e peito perfurado por três flechas.
Os soldados ensaiaram uma reação. Imediatamente dezenas de arcos apontam para o círculo de soldados. As espadas serrilhadas são empunhadas aguardando apenas a ordem do arqueiro.
A princesa grita: — PAREM! NÃO ATAQUEM. SEREMOS TODOS MORTOS!
— Vejo que a princesa tem bom senso. — Disse o arqueiro.
— Quem é o senhor? — A princesa pergunta.
— Sou Lugh, filho de Ethlinn descendente de Balor, Rei da ilha de Tory. — Respondeu o homem.
— O que vai acontecer conosco? — A princesa pergunta, temendo pela vida de todos.
— Vocês são nossos prisioneiros. Mas Vossa Graça é um espólio muito mais valioso, não será jogada numa prisão. — O homem responde se dirigindo a princesa.
Gabrielle ouviu com terror a resposta. O olhar fixo do arqueiro a incomodava. Era um olhar carregado de frieza e perversidade.
— Mande seus soldados se entregarem imediatamente. — O arqueiro diz com tom autoritário.
Por alguns instantes a princesa olha para Lady Marna e os leais soldados que a cercam. Lembrou-se de sua querida cidade e de sua amada Chennai. Uma lágrima dolorida escorreu por sua face. Um grito de dor e um baque surdo de um corpo caindo na neve a faz voltar a realidade. Um guarda próximo a Lady Marna teve o peito perfurado por uma flecha. O arqueiro retirou outra flecha da aljava e calmamente arrumava a flecha na corda do arco e mirou em outro homem.
— Senhora, aconselho que se apresse. Matarei um soldado a cada minuto. E então..., vai ordenar a rendição? — Pergunta o arqueiro.
— Liberte todos..., eu seguirei com você. — Gabrielle responde resignada. O vento gelado batia no seu rosto, fazendo com que o nevoeiro se misturasse as suas lágrimas. Secou o rosto em silêncio e após um profundo suspiro ordenou que baixassem as armas.
A princesa abre caminho entre os soldados se dirigindo ao guerreiro.
— Senhora não faça isso! — Protestou o soldado em comando.
— Eu também irei. Não vou deixá-la sozinha nas mãos desse miserável! — Gritou Lady Marna se juntando a princesa.
— Lady Marna... — Gabrielle tem a frase interrompida.
— Não adianta Alteza, vou segui-la aonde for! — Responde a Lady com determinação.
— Louvável a fidelidade e coragem de sua acompanhante. Mas essa velha não nos serve para nada. — Diz o arqueiro mirando na direção de Lady Marna.
— NÃÃO. — Gritou Gabrielle se colocando a frente da Lady. — Se me quer viva, deixe-a vir comigo!
O homem fica parado por alguns instantes avaliando a situação; os olhos ansiosos iam de um rosto ao outro das mulheres examinando cada um, por fim diz: — Está bem, ela pode vir.
Lugh sussurra algumas palavras para o que parecia ser o segundo em comando. A princesa e Lady Marna são imediatamente cercadas por dez Irmãos das Trevas e os restantes cercam os soldados. A pequena escolta já tinha saído da clareira quando as mulheres ouvem os gritos dos homens ecoando na floresta. Ela olha o arqueiro atordoada. Como se estivesse lendo o pensamento da mulher, ele responde friamente: — Não fazemos prisioneiros.
— SEU BASTARDO DESGRAÇADO! — Num ímpeto de fúria Gabrielle se atira contra ele tentando esmurrá-lo; Lugh impaciente revida lhe dando uma violenta bofetada. O impacto da pancada faz o rosto da princesa virar para o lado, a dor é imediata, pouco depois ela identifica o sabor de sangue na boca. Um fio escorre pelo corte do lábio atingido.
Lady Marna grita: — FILHO DO DEMÔNIO, BASTARDO MISERÁVEL!
Sem hesitar ele desembainha a adaga. O ódio cintila nos olhos do guerreiro. Gabrielle se refaz do golpe e grita para que Lady Marna se controle. A breve confusão é controlada e eles seguem para o acampamento dos invasores.
........ E as trevas chegaram.
A meio galope nos embrenhamos ainda mais na floresta, diminuindo a velocidade seguimos até chegarmos a uma clareira. A visão foi aterrorizante, dez corpos jaziam na neve ensanguentada, todos dilacerados. Aproximando-nos reconhecemos os uniformes dos soldados de Cymru, eram da escolta da princesa. Foram massacrados sem piedade. Pulei do cavalo desesperada, a angústia comprimia meu peito, mal conseguia respirar, me recusava a acreditar que o pior tivesse acontecido. Morloch e os demais procuravam entre os cadáveres, alguns deles irreconhecíveis tamanha foi a carnificina. A revolta e o ódio ferveram meu sangue, mais do que nunca tinha que encontrar a princesa, nem que tivesse que usar todo exército de Cymru, Gabrielle tinha que ser encontrada.
Agora os rastros ficaram mais fáceis de serem seguidos, a neve parou de cair, dando chance de Morloch e seu batedor seguirem os numerosos sinais e nos guiarem ao covil dos Irmãos das Trevas.
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Já passava de meio dia quando a tropa dos Irmãos das Trevas chegou à encosta de uma montanha. Uma estreita passagem entre imensas rochas cinzentas sem vegetação servia de acesso para o acampamento dos invasores. Uma saliência no alto da rocha servia de posto de sentinela. O solo era inclinado e rochoso, as poucas árvores não eram frondosas. Lady Marna e a princesa olhavam o caminho surpresas por existir tal lugar no reino da Nortúmbria. Do outro lado da montanha o tempo parecia mais ameno, o caminho era íngreme, subindo cada vez mais até o pé de uma colina. Chegaram a um imenso terreno plano que antecedia outra elevação. Lugh ordenou que parassem. A princesa e Lady Marna admiravam espantadas a paisagem. Diante delas erguiam-se os picos majestosos das montanhas conhecidas como Torres Cinzentas. Apesar do céu permanecer encoberto por uma penumbra cinza, a neve não caía mais, mas para onde quer que olhassem a paisagem estava coberta de branco.
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Os rastros nos levaram a uma encosta de imensas rochas cinzentas, o chão pedregoso não deixava mais pegadas. Eu e Morloch observávamos atentamente cada trecho do caminho, cada reentrância das rochas, procurando novos sinais. De repente muito ao longe, no alto do rochedo vi o cintilar de metal. Fiz sinal para que todos se escondessem atrás das pedras. Indiquei o lugar a Morloch.
— É o caminho para as Torres Cinzentas. É impossível chegarmos lá sem sermos vistos. — Disse o Mestre de Caça. — Só existe uma estreita passagem até lá.
Enquanto Morloch falava eu planejava como chegar ao sentinela. Avaliando os riscos disse: — Dá para subir pelo lado leste até onde ele está. Você fica aqui, se algo der errado volte para Cymru, avise Kurgan e Aragon onde eles estão e salvem a princesa. — Disse decidida.
— Senhora, isso é loucura..., nós somos apenas quinze, eles devem ter centenas de homens lá em cima, não teremos nenhuma chance. — Morloch avisa.
— Eu vou sozinha. — Olhei para o céu e perguntei: — Você acha que vai nevar?
Apesar de ter diminuído de intensidade, o vento continuava soprando gelado. O homem observa e responde: — O vento mudou, está vindo do noroeste, é certo que sim.
— Ótimo, espero que neve bastante. — Fiz uma pausa e disse: — Leve os cavalos para a orla da floresta para evitar barulho. Me dê até amanhã ao meio dia, se eu não aparecer faça o que ordenei.
Estava debilitada pelos dias de tensão, dor, frio, cansaço de noites mal dormidas e quase sem me alimentar, mas a esperança e a ansiedade me davam forças para continuar. As nuvens começaram a chegar e o céu escureceu. Já estava a certa altura quando senti o rosto úmido e olhei para cima; a neve começava a cair. Subia penosamente respirando com esforço, me equilibrando na superfície escorregadia e praguejando sempre que perdia o equilíbrio nas pedras cobertas de gelo. As pontas dos meus dedos sangravam pelas luvas rasgadas. O grosso manto e o agasalho me atrapalhavam subir. Tirei o manto, o que aliviou muito o peso de meus ombros. O frio entranhava sob o agasalho como se fossem milhões de espinhos penetrando em minha pele, meus dentes batiam sem controle. Me pareceu uma eternidade mas finalmente cheguei ao topo, me agarrei à beira de uma saliência pouco acima da rocha onde estava o sentinela. Ofegante, tentei subir, mas meus braços estavam sem força e trêmulos. Fiz mais uma tentativa, cerrando os dentes de dor, num esforço imenso consegui levantar meu corpo. Permaneci parada alguns instantes enquanto recuperava o fôlego. Levantei-me devagar; observando qual a melhor maneira de me aproximar do sentinela sem ser vista. O caminho era muito estreito, mas se caminhasse cuidadosamente, o risco de cair seria menor. Andando devagar com as costas grudadas na pedra cheguei ao ponto limite de visão do guerreiro. Me virei devagar, ficando com o rosto junto da rocha, desembainhei a faca, e com a arma entre os dentes deslizei até ficar pendurada. Com um impulso caí às costas do homem.
Antes que pudesse se recuperar da surpresa o homem teve a faca profundamente cravada em sua barriga e a garganta cortada. Com o sangue espirrando pela garganta ele caiu sem nenhum som. Agora era procurar pela princesa.
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Lugh caminhava a frente de dois guerreiros em direção as prisioneiras. Ele era alto, ombros largos, feições de traços belos e fortes, cabelos curtos e negros que realçavam os olhos verdes. Tinha um sorriso cínico e um olhar carregado de crueldade e frieza. Gabrielle já tivera a prova de que era impossível prever seus atos ou confiar em suas palavras.
Várias fogueiras se espalhavam pelo acampamento. Os homens mantinham constantemente o fogo acesso, o cheiro de comida exalava por todo local. A princesa e Lady Marna se aqueciam junto a uma fogueira, vigiadas por quatro homens. Lady Marna resmungava tremendo sob do manto.
Lugh se aproxima e pergunta: — Estão com fome?
Gabrielle e Lady Marna se entreolham, não sabiam dizer a última vez que tinham comido, os caldeirões borbulhantes com ensopado tentavam seus sentidos. Orgulhosamente a princesa responde: — Estamos bem, obrigada.
O homem as observa, com um sorriso sarcástico e diz: — Uma comida quente vai lhes fazer bem. Tem certeza que não querem? — Ele molha um pedaço de pão no ensopado e o saboreia lentamente, instigando a fome das mulheres. Molha novamente outro pedaço de pão e o aproxima da boca de Gabrielle. A princípio ela resiste, mas a fome dói nas suas entranhas. Com o olhar desconfiado ela morde vagarosamente o alimento. — O homem sorri e entrega a tigela com ensopado e o pão para Gabrielle e outra para Lady Marna que come com voracidade.
As chamas realçavam a extraordinária beleza da princesa, sua pele clara que lembrava a suavidade do pêssego, seus cabelos loiros e longos, seus olhos verdes esmeralda e os lábios apetitosos perfeitamente desenhados que completavam as feições mais belas que ele já tinha visto. O olhar dele cintila nas chamas da fogueira. Ele se agacha e acaricia o rosto de Gabrielle.
— TIRE ESSA MÃO IMUNDA DELA! — Grita Lady Marna atacando o homem, mas é detida pelos guardas. Se debate, mas seu esforço é em vão.
— SOLTEM-NA! — A princesa grita se atirando contra os guardas.
Lugh tenta segurá-la. Na confusão a princesa arranha com violência o rosto dele. Os guardas conseguem contê-la com dificuldade. Ele passa a mão pelo ferimento e vê um pouco de sangue nos dedos. Saca a adaga e encosta a afiada lâmina serrilhada no pescoço de Gabrielle. E bufando de raiva diz: — Eu devia matá-la! — Os olhos arregalados expressavam a fúria prestes a explodir.
— Meu Senhor, não faça isso, ela é nosso trunfo. — Grita Baruk, o homem que era o segundo em comando, segurando o braço de Lugh.
Respirando fortemente tentando se acalmar Lugh diz: — Tem razão... — faz uma pausa e ordena. — Eu acho que uma noite ao relento vai esfriar seus ânimos. Prendam-nas no paredão sem os mantos.
........ A escapada.
A princesa lembrou-se das histórias que o velho abade contava sobre os conquistadores. Dizia que os romanos haviam deixado várias construções de assentamentos por onde passavam, e agora ambas estavam acorrentadas nas ruínas do muro de uma dessas construções.
Aquela era sem dúvida a mais fria das noites que Gabrielle vivera. Seu corpo encharcado da neblina fria da noite parecia sem forças para sustentar o próprio peso. Se esforçava para conter as lágrimas. Não queria que a vissem chorando. Mas as lágrimas teimavam em descer pelas suas faces. Jogada como um trapo, ao lado estava Lady Marna, tiritando de frio, o vestido sujo, os cabelos grisalhos se soltando do coque malfeito.
Gabrielle encostou a cabeça na pedra úmida e olhou para o céu. Estava cansada, esgotada. Com os pulsos presos pelos grilhões pesados ela pedia a Deus que seu suplício acabasse. Lembrou-se com saudade de sua Cymru, cidade cheia de tradições e do aconchegante e do protetor colo de sua amada Chennai.
— Eu não posso mais..., não posso! — O murmúrio de Lady Marna trouxe a princesa de volta a dura realidade. Ao longe ouvia o falatório dos guerreiros comendo e bebendo. Encostada no muro frio, Gabrielle olhava para a Lady que adormeceu sentada após tanto chorar, recostada no muro velho e sujo de limo.
A princesa viu os cavalos do cercado agitados. Um homem saiu de uma das tendas ainda mastigando a refeição. Os olhos cor de esmeralda o observavam desconfiados. Ela reconhece Baruk. Ele olhou para as duas cativas. Temeroso voltou a olhar para a tenda e se dirigiu até o muro despedaçado, ele chegou devagar, atento a qualquer barulho ou risada mais alta que viesse dos guerreiros já bêbados.
Ele abaixou-se, amordaçou Lady Marna e ameaçou: — Se der um pio, eu mato a princesa. Entendeu bruxa velha? — Em seguida se dirigiu para Gabrielle, o olhar lascivo denunciava as intenções do homem. A princesa assustada se levanta tentando se livrar dos grilhões. Ele se aproxima e pressiona a adaga na garganta dela e sussurra: — Está com frio princesa? ... Vim esquentá-la.
Ele desce com a ponta da lâmina do pescoço ao colo. De repente ele segura firmemente seu queixo, lambendo seus lábios. A princesa tenta se desviar, mas com os movimentos limitados não conseguia evitar aquele contato asqueroso. Ameaça gritar. O homem tapa sua boca com força, pressionando a adaga na sua garganta diz: — Um gemido e vou enfiar essa lâmina até o punho na sua garganta. — Ele se aproxima e aperta os seios dela com força enquanto morde e lambe seu pescoço. Gabrielle se debatia, tentando se soltar, mas era inútil, quanto mais força fazia, mais os grilhões cortavam sua pele. Ela estava totalmente a mercê daquele homem. Ele não precisaria de muito tempo para dominá-la. Enquanto pressionava a lâmina no pescoço da princesa, com a outra mão alcançava os pelos de seu sexo.
— Você é combativa, eu gosto disso. — Baruk sussurra já excitado.
Após tanto esforço Gabrielle não tinha mais forças para continuar reagindo. Impossibilitada de fazer alguma coisa sem arriscar a vida de sua princesinha, Lady Marna chorava desesperadamente com a cena. Não quer olhar, mas para sua surpresa vê no instante seguinte os olhos arregalados do homem e a ponta de uma lâmina traspassando seu peito; com um gemido o corpo desaba no chão.
O grito da princesa tira Lady Marna do choque. — CHENNAI!
Ao ouvir a voz de minha adorada princesa compreendi o quanto sentia falta daquela mulher. A espada serrilhada partiu as correntes velhas sem muito esforço. Abracei Gabrielle. As lágrimas de emoção brotaram em nossos olhos. Mas não tínhamos tempo a perder. — Vamos embora, rápido! — Murmurei.
— Como nos encontrou? — Lady Marna pergunta curiosa.
— Eu digo depois... Vamos rápido! — Respondi conduzindo as duas mulheres pelo caminho pedregoso.
Andávamos apressadamente, mas com cautela, as pedras escorregadias e a escuridão dificultavam muito a descida. Os tombos eram constantes e a ofegante Lady preocupava Gabrielle. Sem a preocupação de sermos vistas pelo sentinela descíamos pelo caminho íngreme que dava na estreita passagem entre as rochas. Não tardaria o dia começaria a clarear e encontrariam os dois corpos. Tínhamos que estar o mais longe possível daquele lugar. Diversas vezes tivemos que ajudar a velha senhora que caminhava ofegante com dificuldade.
— Chennai, Lady Marna está esgotada. — Murmura a princesa.
— Lamento princesa, mas não podemos parar. Ela terá que aguentar. Falta pouco, logo que sairmos da passagem teremos ajuda. — Respondi.
— Não se preocupe Alteza..., estou bem... — Disse a Lady arfando fortemente.
Após mais alguns escorregões chegamos à passagem; caminhamos mais algum tempo e transpomos as rochas.
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— Morloch, ouvimos barulho junto às rochas. — Murmuram os guardas.
Morloch sussurra para os homens: — Fiquem apostos!
Todos empunharam as espadas imediatamente. Não demorou para que ouvissem passos avançando. O som foi aumentando, aproximando-se cada vez mais. De repente o som das passadas deixou de ser ouvido. Ouviu-se depois o caminhar de apenas uma pessoa. Morloch aguardava nervoso, segurando a espada com a tensão fervilhando nas entranhas. Uma silhueta alta murmurou seu nome. O Mestre de Caça e os soldados sorriram aliviados.
Chamei pela princesa e Lady Marna que se aproximaram. Os homens insistiam em me cumprimentar, mas ainda não estávamos a salvo. — Vamos, temos que chegar aos cavalos antes do dia raiar. — Disse apressando todos.
Lady Marna tropeçando de cansaço, seguiu amparada por dois soldados.
— Tem notícias de Megar? — A princesa perguntou enquanto caminhávamos.
— Eu os encontrei... Não temos mais nada a fazer Alteza! — Disse enquanto olhava o semblante triste de Gabrielle.
Finalmente chegamos aos cavalos. Após três tentativas sem sucesso a teimosa Lady insistia que não precisava de ajuda para montar.
— Vamos ter trabalho. — Sussurrei para Morloch. Ouviu-se a gargalhada do homem, e por instantes, a tensão deprimente dos últimos dias diminuiu.
Irritada desci do cavalo e com ajuda de Morloch a colocamos no lombo do animal e montamos em seguida, ignorando as reclamações da rabugenta mulher.
Iniciamos a viagem. Estávamos todos ansiosos para chegar a Cymru. A princesa seguia montada ao lado da Lady, zelando pela sua acompanhante.
Instigávamos os cavalos num trote rápido, mas tentando mantê-los vivos; ainda tínhamos um longo caminho a percorrer. Para minha surpresa, passadas algumas horas a velha senhora já montava um pouco melhor, embora ainda agitasse os braços como uma galinha tentando voar quando éramos obrigados a um trote mais rápido. O que causava risos disfarçados meus e dos homens. A princesa vez por outra me lançava um olhar de reprovação.
O arvoredo era denso; continuamos a avançar penosamente quando um grito ecoou vindo de trás. Ordenei que sete soldados protegessem e seguissem com as mulheres para Cymru.
— VÃO EMBORA. NÃO PAREM POR NADA NESTE MUNDO! SE ALGUM HOMEM TOMBAR, DEIXEM PARA TRÁS. A PRINCESA TEM QUE SER SALVA! — Gritei com toda força de minha garganta.
O pequeno grupo parte a toda velocidade. Eu e Morloch viramos as montarias na direção dos gritos. Os sons das lâminas se chocando quebravam o silêncio da floresta. Vi com terror um soldado ter o corpo rasgado pela espada serrilhada de um Irmão das Trevas.
— SENHORA TEMOS QUE FUGIR, ELES SÃO MUITOS! — Gritou Morloch enquanto abatia um inimigo.
Ordenei a retirada, cavalgávamos abaixados junto ao pescoço dos cavalos tentando escapar das flechas, batíamos nos arbustos. Ouvi um relincho, olhei para trás e vi um soldado ser atirado no chão no momento que seu cavalo foi atingido por flechas. Voltei até o lugar da queda do cavaleiro e estendi a mão oferecendo a garupa do meu cavalo. Antes que o homem se levantasse totalmente foi atingido por uma flecha que entrou na sua nuca. Levantei o escudo a tempo de evitar que três flechas se cravassem no meu peito. Virei o cavalo e voltei ao caminho. Morloch galopava em zigue-zag na minha frente e próximos a mim os quatro soldados sobreviventes.
À medida que as árvores iam rareando, começamos a ganhar velocidade e quando chegamos à clareira já galopávamos em grande velocidade. Se conseguíssemos passar pela clareira e entrar novamente na floresta do outro lado, estaríamos próximos ao rio que fazia divisa com o principado. O que tornaria nossa fuga com mais chances de sucesso, pois conhecíamos estas terras como nenhum outro recanto do Reino.
No fundo da floresta o sol já se aproximava do topo das colinas e um brilho rosado começava a cobrir a paisagem. Os cavalos já mostravam sinais de cansaço. Já avistávamos as árvores na extremidade da clareira.
— FIQUEM JUNTOS, ESTAMOS QUASE LÁ! — Gritei.
De repente algo passou por cima do meu ombro zumbindo como uma abelha. Olhei para trás e vi dezenas de homens saindo a galope da floresta. Estávamos ao alcance das flechas. Encostei mais ainda no dorso da montaria, tentando diminuir o alvo dos arqueiros que vinham atrás. De repente o ar ficou repleto de flechas. Meu cavalo relinchou e caiu atingido por várias flechas. Fui atirada por cima da cabeça do animal, caindo sobre o ombro esquerdo. Uma onda de dor tomou conta do meu corpo.
Morloch olha para trás no exato momento em que meu cavalo cai. Ele e os outros retornam para me socorrer. Ouvi a voz do Mestre de Caça chamando meu nome, levantei-me com esforço, sacudindo a cabeça como querendo me livrar do atordoamento e da dor. Nesse momento senti uma flecha ricochetear no elmo e uma dor terrível na face esquerda. Tocando com os dedos senti a umidade, foi quando vi o sangue.
Os cavaleiros da Irmandade das Trevas nos alcançaram. Meus fiéis companheiros pulam dos cavalos e me cercam para me proteger. Vários guerreiros da Irmandade nos cercaram com as espadas serrilhadas em punho enquanto oito arqueiros nos miravam com suas flechas ameaçadoras. Eles circulavam a nossa volta com a clara intenção de amedrontar. Até que um cavaleiro puxou as rédeas do cavalo para se aproximar do grupo. Seus olhos verdes eram frios e perversos. Ele ergue a mão e os guerreiros param; ele desce da montaria e caminha na nossa direção com a espada em punho. Numa atitude suicida um dos guardas parte para o ataque, sendo seguido por todos nós. Imediatamente a agressão foi revidada. Ouvia a voz de Morloch e os gritos de fúria dos soldados sendo abafados pelos berros dos guerreiros e o som das lâminas se chocando. Apesar da dor indescritível no ombro, consegui matar dois guerreiros. Me lancei ao homem de olhos verdes, decidida a derrubá-lo. Atingi o guerreiro, enterrando meu ombro no seu estômago, mas não tive forças nem rapidez suficiente para levantar o escudo e me defender do golpe que atingiu meu elmo. Subitamente me senti caindo num profundo poço de escuridão.
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Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Abri os olhos por um momento, me esforçando por focar a visão. Um gosto estranho inundou minha boca. Não entendia de onde vinha o sabor. Meu corpo pesava, na verdade eu mal o sentia. Era como se tivesse um cavalo nas minhas costas. Com dificuldade nos movimentos dos braços e mãos limpei os olhos molhados de água da chuva. Água? Com os olhos embaçados vi que não era água nenhuma e sim sangue escorrendo pelo meu rosto e pescoço e caindo na minha boca. Comecei a me contorcer para me libertar do peso as minhas costas, até que algo rolou e caiu ao meu lado. Era um dos soldados ferido na barriga e com a cabeça deformada. Com muito esforço consegui levantar, cambaleando. Foi quando a dor me fez perceber o corte profundo na minha coxa direita. Mal acreditava no que meus olhos embaçados viam. Os corpos ensanguentados e mutilados de meus companheiros.
Tinha que sair dali o quanto antes e procurar ajuda. Ouvi um gemido; a poucos metros de mim Morloch estava caído com um ferimento que vinha do alto da cabeça até a face próxima ao queixo e um grande corte do ombro esquerdo ao peito.
O sangue e alguns pedaços de corpos espalhados pela neve só me dava certeza de um único propósito: VINGANÇA. Com uma expressão de ódio implacável, fiz um voto silencioso de aniquilá-los, custasse o que custasse.
Cambaleante fui até Morloch, tentei levantá-lo, mas o profundo corte no peito o impedia de se erguer. Olhei em volta, o cavalo de Morloch andava a pouco mais de cem metros de nós. Amarrei uma tira de pano na coxa e apoiada na minha espada caminhei até a orla da floresta. Cortei alguns galhos firmes dos arbustos e usando tiras de panos e as roupas dos mortos, improvisei uma maca.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Morloch gritava protestando, mas estava enfraquecido demais para impedir que eu o colocasse sobre a maca amarrada ao cavalo. Após algumas tentativas consegui montar e iniciamos nossa viagem até a divisa de Crydee, esperando que os inimigos ainda não tivessem conseguido ultrapassá-la.
Meus pensamentos viajavam até Gabrielle. Será que teria conseguido chegar ao castelo?
A noite já caía sobre a floresta quando chegamos ao rio. Desci do cavalo e me joguei com roupa e tudo, esfregando o rosto com a água gelada senti o corte no rosto provocado pela flecha. Me senti revigorada, apesar da dor do ombro deslocado e dos ferimentos. A cabeça parara de latejar.
Fui até Morloch. Estava desmaiado, a fraqueza e o cansaço tinham sido demais para ele. Limpei seus ferimentos e com trapos de nossas próprias roupas fiz bandagens. Agora só restava procurar um abrigo. Encontrei uma pedra próxima à margem do rio, poucos metros abaixo. Tinha uma cavidade suficiente para nos abrigar. Conduzi o cavalo até lá e acomodei meu companheiro da melhor forma possível. Deitei-me próximo e ele e tudo escureceu.
........ A caminho de casa.
O relinchar de cavalos alerta os sentinelas. Um pequeno grupo se aproximava na escuridão. Quando já estavam próximos iluminados pelas tochas da muralha, o sentinela grita: — QUEM SE APRESENTA NOS PORTÕES?
Um soldado se aproxima e responde: — ABRAM OS PORTÕES. É A PRINCESA GABRIELLE! ABRAM OS PORTÕES, RÁPIDO!
O sentinela hesita, mas nesse momento Aragon que fazia a inspeção dos soldados na muralha ouve o anúncio e se debruçando reconhece a princesa.
— É A PRINCESA. ABRAM O PORTÃO. RÁPIDO! — Gritou e ordena a um soldado que vá avisar Kurgan. Ao mesmo tempo corria escada abaixo para o grande pátio.
Os cavalos entram num trote veloz. Em pouco tempo a princesa, Lady Marna e os exaustos soldados estavam cercados por guardas, cavalariços e uma pequena multidão de criados e pessoas da corte curiosas em saber o que tinha acontecido. Kurgan, Aragon e Tully se impressionam com o reduzido número de soldados que regressaram e o estado das duas mulheres. Amparadas pelas aias as mulheres seguem para o castelo.
— Meu Deus. O que aconteceu Alteza? — Kurgan pergunta quando se aproxima.
Imediatamente a princesa estranha a ausência de Chennai e pergunta por ela. Os três homens se entreolham surpresos. Os olhos verdes ansiosos iam de um rosto ao outro examinando cada um, aguardando a resposta.
— Vossa Graça precisa descansar..., venha vamos entrar, conversaremos quando estiver descansada. — Diz Tully abraçando-a carinhosamente pelos ombros.
Com um solavanco a princesa se solta do abade. A preocupação e a ansiedade tomam conta dela. — Aconteceu alguma coisa? Onde ela está? — Pergunta aflita.
Após um breve silêncio Kurgan explica: — Como ficamos sem receber notícias de Vossa Graça. Chennai enviou um mensageiro a corte. Ele trouxe a notícia que a Senhora já tinha deixado o palácio a vários dias, com tempo suficiente para chegar aqui. Ela partiu há vários dias com uma pequena tropa a vossa procura... Pelo visto ouve um desencontro.
Gabrielle sente o coração apertar. Sob o olhar horrorizado de todos, num resumo ela relata o ocorrido. A expressão de preocupação é visível em todos os rostos. Ignorando a exaustão, a princesa ordena: — Não acredito nisso. Deve ter acontecido alguma coisa grave. Kurgan prepare uma tropa imediatamente, vamos procurá-la! Vou me trocar e já lhe encontro no pátio.
Lady Marna parecia que ia desmaiar. A princesa dá alguns passos inseguros em direção à escadaria que a levaria aos seus aposentos, mas a total exaustão acaba por vencê-la, ela desmaia.
........ Retornando das trevas.
Abri os olhos por um instante, não sabia onde estava. Me senti atordoada. Um rosto com barba pairava sobre mim. Tentei me levantar, mas o homem me impediu. Virei ligeiramente a cabeça e vi mais dois homens sentados perto de Morloch. Momentaneamente pensei termos sido capturados, mas logo vi que os homens usavam túnicas de couro verde-escuro com o brasão de Cymru. Eram os batedores que permaneceram no castelo.
— Fique calma Senhora... Ainda está fraca. – Disse o homem amigavelmente.
— E Morloch? – Perguntei com voz rouca.
— Cuidamos dele. Está fraco, perdeu muito sangue. — Respondeu um batedor que estava próximo ao Mestre de Caça.
Olhei ao redor, foi quando percebi que estávamos debaixo de um abrigo feito com galhos de árvores, com agasalhos limpos e os ferimentos tratados. — Há quanto tempo estamos aqui? — Perguntei.
— Três dias. — O homem me responde.
— QUÊ? — Berrei surpresa. Tentei me levantar, mas o corpo dói terrivelmente. A tonteira e a fraqueza me faz deitar novamente.
— A Senhora e o Mestre ficaram a beira da morte. Tivemos que retirá-los do rio e carregá-los tão longe quanto possível. Tratamos seus ferimentos da melhor maneira possível, só restava esperar que nossos remédios fizessem efeito.
Nesse instante Morloch abre os olhos e com um gemido vira a cabeça na direção das vozes para voltar a fechá-los em seguida. Eu insisti — Como nos encontraram? – Perguntei.
— O Mestre de Armas nos mandou Senhora. Depois que encontramos os sinais de luta foi fácil segui-los. Vocês deixaram rastros que qualquer um encontraria. — O batedor me responde. Por mais que eu lutasse para permanecer acordada, a sensação de exaustão me abateu repentinamente. A última coisa que me lembro foi o homem próximo de mim levantar a mão sinalizando para os outros dois e um sono pesado me envolveu.
Mais três dias se passaram lentamente. Os poucos momentos que passava acordada eram como uma névoa pesada na consciência. Parecia tudo tranquilo. No abrigo só eu e Morloch, que permanecia dormindo. Com algum esforço sentei-me, senti a cabeça girar, esperei passar e tentei me levantar. Nesse momento um dos batedores entra no abrigo a tempo de me segurar e evitar que eu caísse.
Senti um cheiro de comida sendo feita. O meu anfitrião acenou que trouxessem uma tigela e pão. Comi com apetite. Enquanto comia observava os homens que agora se acomodavam dentro do abrigo. Todos três me olhavam, mas somente um deles se mostrava mais amigável.
— E a princesa, tem notícias? – Perguntei ansiosa.
O homem sorriu. — Ela está bem, chegou sã e salva ao castelo.
Suspirei aliviada. Pedi que me informasse da situação. Ele fez um breve relato do avanço que o inimigo tinha feito pela região. De alguns povoados que tinham sido destruídos e da surpreendente ferocidade dos guerreiros da Irmandade. Que tinham recebido reforços e que agora marchavam para Cymru. A notícia me bateu como um coice. Imediatamente parei a refeição.
— Como está se sentindo Senhora? — Pergunta o batedor.
— Vou sobreviver... Muito bem não vamos perder mais tempo, vamos embora! — Tentei me levantar, dei alguns passos cambaleantes; ainda estava um pouco trêmula.
— Senhora compreendo perfeitamente sua pressa, mas aconselho que fiquemos aqui até começar a clarear, falta pouco menos de duas horas. Sugiro que durma um pouco, pois ainda temos um longo caminho pela frente.
A ansiedade me inquietava. Olhei Morloch. — Ele tem condições de viajar? – Perguntei ignorando o conselho.
— É arriscado Senhora. Ele ainda está fraco. — Responde o batedor.
— Não podemos deixá-lo aqui. Estamos perto da divisa de Crydee, temos que arriscar. Se o levarmos com cuidado chegaremos quase ao anoitecer.
— Decidida como Lyceus. — O homem murmura.
Ao ouvir o nome de meu irmão olhei o homem surpresa, então observei com mais atenção às feições do batedor que desde o início me pareciam conhecidas.
— Você..., não me é estranho. Você é... – Gaguejei, me esforçando para lembrar de onde conhecia aquele homem.
— Martin, filho de Aragon, Mestre da Cavalariça, Senhora... Nos conhecemos a muitos anos atrás. Tive o desprazer de sentir sua força. — o homem disse enquanto apalpava o nariz torto, quebrado por um soco.
Lembrei-me da briga entre ele e Lyceus em que acabei me envolvendo. — Sim... Lembro-me do dia do jogo no pátio do castelo. — Sorri. – Embora você tenha mudado muito nesses anos.
— Certo Martin... Prepararem tudo, vamos partir ao amanhecer! – Ordenei dando um amigável tapa em seu ombro.
Aos poucos a luz pardacenta da madrugada foi sendo espantada pelos raios de sol. Passei alguns minutos me movimentando, tentando acabar com a rigidez de vários dias dormindo no chão. Sentia as forças voltarem aos poucos e senti o ombro e a perna curada. O corpo já não me doía tanto e assim que me vi sobre o lombo do cavalo, fiquei ansiosa para partir. Nossa viagem de retorno ao castelo foi vagarosa com várias paradas para descanso de Morloch.
As tochas da muralha já estavam acesas quando nosso pequeno grupo se aproxima na escuridão. Quando já estávamos próximos, iluminados pelas tochas o sentinela grita: — QUEM SE APRESENTA NOS PORTÕES?
Após nossa identificação os portões são abertos. Imediatamente fomos cercados pelos guardas que vieram correndo em nossa direção, nos saudando. Antes que o tumulto acalmasse Kurgan e Aragon se aproximaram dando ordens de comando para os soldados retornarem aos seus postos. Quando todos se afastaram Kurgan e Aragon deixaram que a alegria que sentiam transparecesse. Apesar da alegria que sentia por retornar a Cymru, meus sentidos procuravam ansiosamente por minha amada princesa.
Segui na direção do castelo; parados no patamar da escadaria Lady Marna e o abade Tully me receberam com um emocionado e sufocante abraço.
— Onde está a princesa? – Perguntei ansiosa.
— Está em seus aposentos. Ela já foi avisada do seu retorno. — Lady Marna responde. — É melhor você aguardar na sala do trono.
Meu coração batia forte como se fosse sair do peito, procurava forças no mais fundo de minhas entranhas para conter a vontade de subir correndo as escadas e ter Gabrielle em meus braços. Os minutos se tornaram uma eternidade, quando finalmente ela apareceu linda, deslumbrante. Senti como se meu coração parasse, a visão maravilhosa de Gabrielle me paralisou momentaneamente.
Ela caminhou em minha direção em passos contidos dignos de uma princesa, a tiara incrustada de rubis realçavam seus cabelos dourados caindo naturalmente sobre seus ombros, seus olhos de um verde profundo tinham o brilho das estrelas, a pele branca tinha a suavidade de pétalas de rosas e os lábios vermelhos e apetitosos emolduravam o sorriso mais lindo que poderia existir em todo reino.
Eu estava trêmula de emoção e desejo de tê-la em meus braços, de acariciar seu rosto e beijá-la com o mais profundo amor que alguém poderia ter. Mas me contive com todas as minhas forças. Com o ar quase me faltando e o coração batendo forte. Aproximei-me e fiz a respeitosa reverência que era exigida.
— Venha, você deve estar cansada da viagem, vou mandar preparar um banho, roupas e você virá cear comigo. — A voz de Gabrielle soa como uma música divina nos meus ouvidos.
Durante a ceia a princesa me colocou a par das intenções de Lugh de usá-la como refém contra o Rei. A conversa prosseguia com a narração dos fatos que aconteceram durante o tempo que ficamos separadas. Por fim achamos por bem nos recolher, pois a noite já ia adiantada. Nos despedimos e caminhamos para nossos respectivos aposentos.
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Abri a porta rapidamente logo após a terceira batida. O vulto encapuzado entra rapidamente. Tranco a porta, caminho até o vulto e abaixo o capuz descobrindo o lindo rosto que se ilumina com um sorriso sem igual. Numa explosão de alegria Gabrielle abraça meu pescoço; a levanto do chão rodopiando abraçada ao seu pequeno corpo. Estamos extasiadas de felicidade. A coloco delicadamente no chão e a beijo com paixão. Emocionada beijei seu rosto, seus olhos e as lágrimas que escorriam por suas faces. Encostei a cabeça dela em meu peito, e por segundos ficamos abraçadas, coladas uma na outra, Eu a abraçava com toda força, mas não era o bastante. Queria que não houvesse espaço algum entre nós. Por fim nos separamos. Nossos olhos se encontraram de uma maneira diferente. Era um olhar de assombro pela enormidade do amor que sentíamos uma pela outra. As lágrimas também escorriam pelo meu rosto. Nenhuma das duas conseguia dizer nada. E novamente nos beijamos. Gabrielle responde com a mesma intensidade.
— Gabrielle, eu quero você... – Sussurrei. – Não conseguia mais controlar a onda de desejo que tomava conta de meu corpo e sentia que o furor de Gabrielle era igual. As roupas vão sendo despidas entre carícias de lábios, línguas e mãos. Suspiros apaixonados junto aos ouvidos causavam arrepios, as línguas ávidas examinam cada contorno de orelhas, seios, ventres e coxas. Por fim bocas e mãos encontram as grutas úmidas de nossos sexos. E a noite de prazer se inicia. Nos amamos com sofreguidão por várias vezes até que num último êxtase de orgasmo nos entregamos a um cansaço reconfortante e incomparavelmente maravilhoso. Me acomodando na cama dei um profundo suspiro, beijei sua franja molhada de suor e aninhei a princesa junto de meu corpo. Gabrielle suspirou profundamente e sorriu.
Acariciando os sedosos cabelos de minha princesa, com desgosto disse: — Você precisa voltar para seu quarto, não pode ficar aqui.
— Eu quero ficar aqui com você. – Gabrielle insiste.
— Meu amor, eu gostaria que isso fosse possível, mas você sabe que isso só serviria para alimentar ainda mais as fofocas da corte. – Respondi. — É mais sensato você ir. Além do mais preciso dormir, amanhã cedo tenho uma reunião com Kurgan e Aragon. Você ficando aqui será impossível eu dormir.
Gabrielle permaneceu em silêncio, pensativa. — Sou forçada a concordar com você... Chennai...
— Huum. – Resmunguei.
— Eu te amo. – Ela murmura a mais doce frase que já ouvi.
Abracei-a mais apertado, aconchegando-a ainda mais ao meu corpo. — Você é minha vida Gabrielle, eu também te amo, mas é necessário que você vá embora, amanhã nos veremos.
Peguei o manto jogado no chão e cobri minha amada princesa. Levei-a até a porta, abri uma fresta e examinei atentamente o corredor. Certificando-me não ter ninguém por perto, deixei-a sair.
........ A invasão de Cymru.
A cidade ainda estava adormecida quando um mensageiro que tinha cavalgado numa marcha ininterrupta por toda noite avistou os muros de Cymru. Logo foi avistado pelos guardas da muralha e assim que se identificou e apresentou-se a Kurgan teve autorização para levar a notícia urgente à princesa.
Assustada a princesa saiu de seus aposentos e se juntou ao capitão indo encontrar com o mensageiro no salão do trono. O homem esbaforido ao ver a princesa se ajoelha e diz: — Senhora, me perdoe pela pressa, mas trago mensagem do Duque de Deira. – O homem respira fundo procurando fôlego.
— Calma homem, respire. — Kurgan recomenda.
— O Ducado de Deira está sob ataque — o mensageiro arfava. — Guerreiros chegaram ontem antes do sol nascer e começaram o ataque. Vários navios começaram a aparecer nas praias enquanto as vilas ainda estavam adormecidas. Houve carnificina, os moradores foram mortos sem piedade e as vilas destruídas. Agora partiram para as vilas e fortes ao longo da costa de Deira.
— Kurgan mande chamar Aragon e Chennai na sala do conselho imediatamente. — A princesa ordena.
— Não é preciso, já estou aqui... — Todos se viraram na minha direção. Como se lesse os pensamentos continuei. — Vi o alvoroço no portão e o mensageiro ser trazido para o castelo essa hora, só podia ser coisa grave e urgente.
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O grupo estava sentado à mesa redonda do conselho da Princesa Regente. Todos ali sabiam que Deira não oferecia mais proteção, os territórios no caminho para Cymru estavam vulneráveis. O mapa do principado de Crydee mostravam os locais atacados pelo inimigo. Assumi o comando da operação com aprovação da princesa.
— Mande mensageiros ao Rei e todos os Ducados avisando da invasão e dobre a guarda nas muralhas. — Ordenei a Kurgan.
— Aragon providencie homens para ir às vilas, aldeias e fazendas próximas avisando que todos deverão deixar suas casas urgentemente e mande Martin aqui. — Ordenei.
Dirigindo-me à princesa perguntei por mera formalidade, pois sabia qual seria a resposta: — Vossa Alteza permite abrirmos os portões para receber os fugitivos?
— Claro. Acolheremos todos quanto for possível. — A princesa responde imediatamente.
Kurgan e Aragon saem em seguida para cumprir as ordens; a notícia do mensageiro já havia se espalhado. A cidade em pouco tempo ficou em polvorosa. Alguns minutos depois Martin se apresenta. Ordenei que ele e os batedores seguissem pelas colinas: — Quero ser avisada de qualquer movimentação deles.
Após três dias um batedor chegou, afirmando que os invasores se aproximavam de Cymru pelo norte. Isso significava que estavam aportados na baía de Swan. Um porto seguro para desembarque; eles já tinham ultrapassado a divisa com Deira. A grande infantaria ainda estava se organizando, não chegava a ser um alívio, mas isso dava tempo de nos prepararmos.
— Kurgan, mande um mensageiro ao Duque de Cair Lion, avise que existem navios invasores na baía de Swan.
Na sua inexperiência em batalhas a princesa estava confiante que conseguiríamos nos defender e expulsar os invasores dos territórios de Crydee rapidamente, mas eu, Kurgan e Aragon sabíamos que não seria tão fácil. Pelas notícias trazidas pelos batedores o contingente inimigo era muito superior ao nosso. Eram guerreiros treinados e sanguinários e estavam apenas sete dias de distância. Montei uma verdadeira operação de guerra. Analisávamos estratégias, mapas, números, armamentos, provisões e montarias. Para rearmar os soldados, os ferreiros trabalharam dia e noite fabricando pontas de lanças, flechas e espadas.
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Leves flocos de neve começaram a cair durante a noite do sexto dia. Na madrugada houve a troca de guardas nas muralhas e nos portões. Do alto da murada avistavam-se as planícies e as colinas que circundavam a cidade. Pareciam intocadas, não havia movimentação de animais. O sentinela fixou o olhar num ponto do horizonte e apertou os olhos. Havia algo ao longe meio sem definição. Aos poucos apareceram na colina formas humanas as centenas, muitos a pé e outros a cavalo. O sinal de alerta no sino do portão norte alarmou a todos.
Saindo do alojamento dos soldados Kurgan colocando o elmo já se dirigia para o castelo quando me viu descer as escadas com pressa para seguir para o quartel, já paramentada de armas na cintura e a espada embainhada às costas. Aragon, um pouco atrasado, terminava de se vestir e também correu aos tropeços.
— ARQUEIROS TOMEM POSIÇÕES! — Kurgan gritava. Corremos os três para murada.
O pelotão de arqueiros correu para junto da murada, onde pelos espaços estreitos se acomodaram com suas armas.
Gritando além do tumulto ordenei: — ARAGON ESCORE O PORTÃO! – O homem correu com parte do pelotão da cavalariça em direção ao portão grosso de madeira. — Continuei: — LANCEIROS TOMEM POSIÇÕES! — Parte da tropa de lanceiros se acomodou na muralha permanecendo agachados em quanto os arqueiros aguardavam a ordem de ataque. Pegando um arco próximo, atirei uma flecha que se cravou no chão a dezenas de metros de distância.
— QUANDO ELES PASSAREM PELA MARCA JÁ ESTARÃO AO ALCANCE DAS FLECHAS. AGUARDEM MEU SINAL E ATIREM! — Ordenei.
Da janela do alto da torre Lady Marna e a princesa assistiam o alvoroço dos soldados e seus comandantes. Lágrimas de angústia e aflição brotaram dos olhos das duas mulheres.
— Senhoras. — Elas se viraram assustadas com a voz do abade.
— Sim Tully, o que foi? — A princesa responde.
— Gostariam de rezar comigo na capela? — Era um hábito antigo do velho abade. Aos anúncios de uma batalha iminente, ele se prostrava no chão da capela e fazia suas orações. As mulheres o seguiram sem nenhuma palavra.
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Os guerreiros da Irmandade começaram com uma marcha lenta em direção a cidade, gradativamente os passos foram aumentando até chegarem a uma corrida furiosa e desenfreada. A simples visão da linha de guerreiros era assustadora. Levantei o braço, os arcos se ergueram prontos. A primeira leva de guerreiros ultrapassou a marca da flecha e correu em direção ao portão. Senti o corpo tenso. Meus dedos abriam e fechavam no punho da espada. Sentia meu coração bater forte.
— ATIREM! – Gritei com toda força de minhas entranhas.
Uma chuva de flechas cobriu o céu. Os guerreiros foram caindo, mas como formigas surgiam outros, passando por cima dos cadáveres de seus companheiros como se nada fossem. Nova carga de flechas atingiram os alvos, mas nada parecia deter a corrida enfurecida. Várias escadas eram colocadas junto à muralha ao mesmo tempo em que um aríete era jogado com força contra o portão. Aragon e seus homens se comprimiam contra o portão usando o máximo de suas forças enquanto ouviam os berros irados do outro lado. Os soldados foram surpreendidos com o tranco no portão.
As flechas continuavam abatendo os guerreiros, mas uma parede de escudos diminuía o número de baixas no inimigo.
Com as lanças longas Kurgan e os soldados empurravam as escadas, tentando evitar a entrada dos guerreiros. Uma chuva de flechas inimigas deu cobertura aos escaladores. Vários guerreiros conseguiram transpor a muralha, com destreza e ferocidade demoníaca eles rasgavam peitos, barrigas, rostos, decepavam pernas, braços e cabeças com suas espadas serrilhadas. Um Irmão das Trevas faiscando de raiva pulou sobre mim. Aparei o golpe com o escudo e girando a espada no ar decepei-lhe a cabeça. O barulho de metais se chocando agora era próximo. Vi Kurgan e alguns soldados envolvidos numa luta à retaguarda. Eu e um grupo de soldados atacamos com violência e os Irmãos das Trevas tombaram. Simultaneamente o aríete continuava sendo jogado com a força de um gigante esmurrando o portão.
— CONTINUEM SEGURANDO! — gritava Aragon. O portão e as escoras rangiam a cada pancada.
Nossas flechas eram inúteis contra os escudos que protegiam os guerreiros que forçavam o portão. Praguejei e chamei os lanceiros. Me posicionei em cima da murada e arremessei com tanta força que a lança transpassou o escudo se cravando no rosto de um deles. A linha de lanceiros se adiantou aos arqueiros e seguiram meu ato. Conseguimos derrubar muitos guerreiros, mas não tínhamos lanças suficientes para todos eles.
A luta prosseguia com baixas em ambos os lados, para nós cada perda era preocupante, pois éramos em menor número. Meus pensamentos são interrompidos pelo aviso de Aragon: — CHENNAI, O PORTÃO NÃO VAI AGUENTAR MUITO TEMPO!
— PREPARE A CAVALARIÇA! LANÇAS LONGAS! — Gritei do alto da murada.
Mais pressão sobre o portão. — PREPAREM-SE PARA O COMBATE CORPO A CORPO! — Gritei descendo correndo as escadas da murada. Mal terminara a frase ouvi o estalar de madeiras despencando levantando uma nuvem de neve com o baque. Um enxame de homens furiosos entrou derrubando tudo em seu caminho, trombando com soldados e matando-os. Os guerreiros que estavam a cavalo aproveitaram a confusão e invadiram a galope atropelando o que estava pela frente. Os soldados começaram a se dispersar. A desordem tomou conta da área.
— MANTENHAM A FORMAÇÃO! — Gritei. — NÃO SE DISPERSEM!
Avançamos furiosos para os homens de armaduras negras. Da murada Kurgan e os arqueiros também derrubavam os homens com flechas certeiras. Passei os olhos pelo campo sangrento em que Cymru se transformara. Um grupo de soldados se deslocava de costas acuados pelos Irmãos das Trevas. Atacamos com violência; lanças e espadas perfuraram corpos sem piedade. Ao meu lado Aragon derrubou um guerreiro acertando em cheio o peito dele com uma lança. Aragon grita: — ELES SÃO MUITOS..., ESTAMOS PERDENDO ÁREA..., TEMOS QUE REAGRUPAR!
Um cavaleiro sobre um cavalo negro que se mantinha à distância, como se avaliasse a luta, ordenou algo aos homens apontando para a porta do castelo. Assim que receberam a ordem mais de vinte homens e cavalos arrastaram o aríete até a escadaria. Um calafrio percorreu minha espinha. — A PRINCESA! — Gritei o mais alto que pude.
Derrubei dois homens que entraram no meu caminho. Alguns soldados me acompanharam. Subitamente uma sólida barreira de escudos se formou a nossa frente. Não conseguíamos atingi-los a ponto de causar sérios danos. Vez por outra encontrava uma brecha, enfiava a espada e acertava um guerreiro, mas logo que um caía, outro tomava seu lugar.
Desesperada vi o cavaleiro disparar na direção do castelo seguido por mais quatro cavaleiros e um grupo de guerreiros. Eles sobem a escadaria e uma luta se inicia, mas a selvageria dos guerreiros das trevas é impressionante e a pequena tropa que impedia seu acesso é dizimada. Começaram a golpear a gigantesca porta.
— NÃÃÃO! – Gritei desesperada. — GABRIELLE!
A porta cedeu e os cavaleiros entraram no castelo. Um ímpeto de fúria tomou conta de mim. Atirei-me sobre a parede de escudos gritando: — DEMÔNIOS MISERÁVEIS! DESGRAÇADOS!
Nesse instante chega a cavalariça. Os cavalos pisoteavam os homens e as lanças longas permitiam golpear por cima dos escudos. Eu Lutava com uma selvageria assustadora, massacrando quem se aproximasse. Atravessamos a barreira de escudos.
........ Encontro com o inimigo.
Um pequeno grupo de dez guardas protegia a capela. A princesa, Lady Marna e o abade ouviam aterrorizados o som de gritos e metais se chocando no corredor. Após um breve silêncio, a porta foi escancarada ruidosamente por um violento chute e o cavaleiro empunhando a espada ensangüentada entra seguido pelos outros quatro. O olhar perverso é imediatamente reconhecido por Gabrielle. — Se conseguiram chegar até aqui, significa que Cymru caiu.— A princesa pensou engolindo o choro e a revolta.
— Então princesa..., nos encontramos de novo. — Diz o homem de olhos verdes fixos em Gabrielle.
Tully se pôs na frente das mulheres pedindo que elas e o lugar sagrado onde se encontravam fossem respeitados. O cavaleiro se aproxima e sorri para o abade. Lady Marna chorava em silêncio. Gabrielle passou o braço pelo seu ombro tentando confortá-la. De repente um gemido foi o único som emitido pelo abade quando teve seu peito perfurado pela espada de Lugh que sorria enquanto a lâmina atravessava a vítima.
— NÃÃÃO! – Gabrielle grita desesperada. Tully cambaleia para trás e desaba no chão.
— Meu Deus, não! Tully olhe para mim! — Gabrielle gritava enquanto aconchegava o velho em seu colo. — Não nos deixe, por favor! – A princesa insistia. Ela segurava a mão do abade e Lady Marna em prantos segurava a outra.
O sangue brotava em abundância pelo ferimento. Ele não conseguia falar, via-se no seu rosto magro e pálido a agonia da morte. Tentou falar, mas não conseguiu. Ele apertou as mãos delas uma última vez, seu corpo relaxou e uma golfada de sangue escorreu pela boca, os olhos abertos fixados nas duas mulheres. Desnorteada Gabrielle o sacudia em vão e fortemente abraçada ao corpo chorava a perda do querido e velho amigo.
Mãos brutais agarraram as mulheres que com muita resistência se puseram de pé. Lugh se aproxima da princesa e tira o elmo. Os olhos verdes do guerreiro pareciam faiscar de perversidade. Algo nele transmitia um ar de fúria bestial. Eles se encaram por alguns segundos. Lugh levanta delicadamente o queixo de Gabrielle e diz: — Não adianta resistir bela princesa, sua cidade agora me pertence..., e você também.
— TIRE SUAS MÃOS IMUNDAS DELA SEU BASTARDO! — Lady Marna grita se debatendo, tentando se livrar dos brutamontes que a seguravam.
— CHEGA! JÁ CANSEI DE VOCÊ BRUXA NOJENTA! — Lugh avança enraivecido para a velha senhora. Gabrielle grita. No último instante ele vira o punho da espada e dá uma violenta pancada no rosto da mulher. A mulher é atirada no chão desmaiada com o nariz ensanguentado.
Voltando-se para Gabrielle com o rosto bem próximo diz: — Vou mantê-la viva por sua causa, já percebi que essa bruxa significa muito para você..., eu não quero ver minha rainha triste.
Com lágrimas escorrendo e os olhos faiscando de ódio, sem nenhuma resposta Gabrielle cospe no rosto de Lugh. O homem recua surpreso com a atitude da princesa, limpa o rosto e num acesso de fúria esmurra o rosto de Gabrielle. A pancada é tamanha que ela desmaia.
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O cintilar de metal ao longe chama atenção de Kurgan, da murada ele vê centenas de cavaleiros e soldados se aproximando pela planície, o estandarte amarelo com a águia negra do Ducado de Gwent e o javali negro do Ducado de Sewyn esvoaçavam agitados pelo galope vigoroso. Os cavaleiros empunhando suas espadas instigavam os cavalos, gritando e exibindo toda sua fúria. A retaguarda da tropa da Irmandade começou a correr para dentro da cidade. O choque acontece. Um enxame de guerreiros furiosos entrou derrubando tudo no seu caminho. Os cavalos atropelavam os inimigos sem piedade causando pesadas baixas. As ruas da cidade se transformaram num mar de sangue. Viam-se corpos por todo lado. O comandante do exército de Gwent ordenou que a cavalaria desse cobertura aos que estivessem a pé. Os cavaleiros e soldados do exército de Sewyn aproveitando o caos entraram mais profundamente na cidade. Derrubavam os guerreiros com golpes impiedosos, passando suas espadas sobre cabeças, peitos, barrigas e costas inimigas. O som de metais se chocando, os gritos de ódio e dor dos feridos de ambos os lados se misturavam num caos indescritível. A luta continuava intensa dentro da cidade. Nas ruas a população assustada corria sem saber para onde ir aumentando ainda mais a desordem.
Kurgan transfere o comando dos arqueiros para seu tenente e desce da murada para liderar os soldados de Cymru. A infantaria da Irmandade recuava cada vez mais cercada pelos três exércitos. Finalmente encurralados os irmãos das trevas se renderam. Os soldados queriam degolar os sobreviventes para que não restasse nenhum deles. Foram todos desarmados. Kurgan com sua experiência e controle, ordena que os prisioneiros sejam levados para arena de treinamento do quartel.
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Eu segurava o punho da espada como se fosse estrangulá-la. Não hesitei em estripar os guerreiros que encontrei pelo caminho. Entrei no grande salão principal agora vazio. Os corpos mutilados de vários soldados que defendiam a porta do castelo criavam uma cena grotesca. Encontramos alguns guerreiros da Irmandade dentro do salão. Aragon que me seguia juntamente com um pequeno destacamento de lanceiros se encarregou de tirá-los do caminho, me jogou uma lança e gritou: — VÁ SENHORA, SALVE A PRINCESA, NÓS DAREMOS CABO DESSES DEMÔNIOS!
Com os sentidos em total estado de alerta corri para a porta no canto do salão que conduzia ao interior de outra sala onde ficavam os acessos as áreas mais altas e nobres do castelo. Com a fúria borbulhando no sangue subi a escada em caracol de dois em dois degraus e logo encontrei a ala dos aposentos de Gabrielle. Estranhei o corredor vazio, nesse momento ouvi o grito de Gabrielle. — A capela!— Corri para o local a tempo de encontrar cinco homens da Irmandade e três corpos ensanguentados no chão.
Fiquei paralisada quando vi o corpo ensanguentado de Gabrielle. Minha respiração parou, meu coração se partiu em pedaços. Tudo ao meu redor pareceu cair num silêncio de sepulcro. Eu não acreditava no que via. Minha mente rodopiou... Tomada por uma fúria bestial e uma força vinda do inferno parti para o ataque. Atirei a lança com tal força nas costas do primeiro homem que o impacto o jogou sobre o outro guerreiro, em seguida cravei minha espada no pescoço do segundo homem que tombou com as mãos no pescoço, sufocado no próprio sangue. A surpresa dos outros foi logo superada e revidaram. Consegui me esquivar do pesado golpe de um deles, enquanto com o escudo aparava o violento golpe da espada do outro. Com rapidez girei o corpo evitando uma estocada, desci a espada com toda força decepando a perna de um deles na altura do joelho, o homem grita e antes que seu corpo atingisse o chão, com um golpe fiz sua cabeça voar pela capela. Lugh parecia atônito, não entendia como era possível apenas um guerreiro em questão de minutos ter matado três irmãos das trevas.
O quarto homem era mais ágil que os outros. O golpe da espada serrilhada desceu pesado sobre meu escudo partindo-o, atirei o que sobrou do escudo sobre o homem e peguei a espada serrilhada de um dos mortos. Ele se defendia das estocadas com rapidez. Lugh me ataca, instintivamente girei o corpo e me curvei, evitando o golpe que fatalmente me degolaria. Nesse instante a chegada de Aragon e seus soldados assusta o homem. Aproveitando o segundo de distração girei a espada e numa abertura de guarda do guerreiro enfiei a espada serrilhada na barriga dele, rasgando-o até o peito. O homem cai se contorcendo como um porco no abatedouro. Lugh recua encurralado, agora a situação se invertia. Os soldados queriam degolá-lo ali mesmo. Eu estava cega de dor e ódio. Meu elmo, meus braços e armadura estavam cobertos de sangue e eu gostava disso, o cheiro da morte me agradava.
— O que vamos fazer com ele, Senhora? — Aragon me pergunta.
— Ninguém toca nele!... Ele é meu! — Respondi com os olhos faiscando e um sorriso malévolo.
Os soldados formaram uma barreira impedindo a porta da capela. E a luta se inicia. As espadas se chocavam com tanta força, que por vezes podia se ver faíscas saindo das lâminas. As estocadas de Lugh eram ágeis e potentes. Algumas vezes acontecia um contato de corpos, que eram imediatamente separados por empurrões.
As estocadas mortais eram defendidas com agilidade. Num rápido movimento girando a afiada espada, Lugh cortou minha cota de malha rasgando meu braço próximo ao ombro esquerdo. Senti o sangue escorrer pelo braço. Nossos olhares faiscavam de puro ódio. Como se o demônio emergisse de minhas entranhas ataquei e ataquei sem dar qualquer chance de revide, empurrando o homem contra a parede da capela; com uma violenta pancada com o cabo da espada em seu queixo consigo desequilibrá-lo e o derrubo. Ainda no chão num rápido golpe ele corta minha perna acima do joelho, fazendo o sangue escorrer pela bota. Ele se levanta com uma agilidade espantosa. Em seguida ele tenta acertar meu tornozelo, abaixo a espada aparando o golpe ao mesmo tempo em que cravo a espada serrilhada na perna dele. Lugh solta um grito pavoroso se retorcendo de dor. Com outro rápido giro corto seu peito. Mas a resistente armadura impediu que o golpe fosse profundo.
Tamanha era a fúria do homem, que rugindo e girando a espada serrilhada, veio disposto a acabar definitivamente com a luta, Lugh tenta me derrubar com o impulso e força bruta. Inclino-me para trás um segundo antes da espada passar rente ao meu pescoço. Num giro de corpo golpeio para frente acertando o homem no ombro, mas o guerreiro pareceu não sentir o golpe.
Lugh ataca tentando me estripar do ventre ao peito. Aparei o potente golpe e revidei com toda força. Com uma investida repentina consegui desequilibrá-lo e o golpeei uma, duas vezes, com golpes poderosos usando toda força que ainda tinha. Minha lâmina cortou profundamente o dorso de sua mão. Lugh grita. O sangue jorrava em abundância do ferimento e então ele percebeu que ia morrer, mas não desistiu cambaleante ainda insistia em lutar, pegando a espada com a outra mão, tentava me acertar. Voltei a golpeá-lo, dessa vez a armadura não resistiu ao violento golpe no peito. Ele cambaleou me olhando incrédulo.
Caiu de joelhos, ainda olhando para mim. Tentou falar, mas nada saiu e lhe dei o golpe de misericórdia. Ele ainda não tinha morrido, mas iria morrer, porque no último golpe minha espada tinha entrado fundo traspassando seu pescoço. Então Lugh estremeceu e se ouviu um ruído rouco do sangue borbulhando em sua garganta, como um último suspiro.
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A princesa jazia caída próximo ao altar. Pulo por sobre os corpos, tiro o elmo e me ajoelho junto ao seu corpo acolhendo-a em meu colo. A cabeça pendendo para trás e uma grande mancha vermelha em seu peito mancha o vestido.
Em choque acaricio seus cabelos loiros e seu rosto; embalo a princesa em meu colo como se segurasse uma criança. Não veria mais aqueles lindos olhos verdes, não sentiria mais o aconchego do seu corpo nem seu abraço. A realidade desaba sobre mim abruptamente, a infinita dor da perda me destrói. Meus olhos lacrimejam implorando perdão.
— Foi tudo culpa minha..., me perdoe..., eu não consegui protegê-la...
As lágrimas escorrem pelo meu rosto. Lágrimas de dor, de desilusão com a vida. Agarro-me aquele corpo com vontade de não o largar mais. Me entrego a um choro convulsivo. Minha alma esta vazia, o peito dói. E grito desesperada, chamando pelo seu nome. Abraçada a Gabrielle meu corpo se sacode em soluços intermináveis.
— Aaaaiii... – Um gemido me chama atenção. Meus olhos já inchados se abrem tentando identificar a origem do gemido. Minha esperança renasce, olho para Gabrielle, mas logo em seguida me decepciono. O gemido era de Lady Marna, que tentava se levantar com dificuldade. A mulher recobra a consciência vagarosamente; reclama da dor na cabeça devido o impacto da pancada contra o chão, limpa o rosto ensanguentado; olha em volta atordoada, até que me vê agarrada ao corpo de Gabrielle. Com esforço, cambaleando se dirige para onde estamos. Mal consegue dizer uma palavra, a imagem da princesa naquele estado a deixa desesperada.
— O que..., o que houve? – Pergunta sem tirar os olhos de Gabrielle, seus olhos marejam, acaricia os cabelos da princesa.
Não consigo responder, caio novamente em prantos, agarrada fortemente ao corpo.
— Aaahhh...
Um novo gemido. Olho para a velha senhora que também chora descontroladamente.
— Aaahhh... Humm...
O gemido vem do meu colo, não acredito no que ouço, olhei para Lady Marna que surpresa olha para a princesa.
— AH MEU DEUS, ELA ESTÁ VIVA! – Gritei. – ELA ESTÁ VIVA! – Repeti gritando de alegria, minhas lágrimas se misturam a risos de felicidade. A Lady também comemora entre risos e lágrimas.
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— Você nos deu um susto menina. — Disse Lady Marna olhando-a com ternura, enquanto acariciava seu rosto e cabelos. A princesa agora está em seus aposentos sentada na cama, ainda atordoada com o acontecido. Seu rosto dói, Ela olha para Chennai ajoelhada a sua frente e depois para Lady Marna que está sentada ao seu lado aplicando unguento, para aliviar a dor e desmanchar a grande vermelhidão do soco recebido, mas não tem nenhum ferimento grave.
O olhar da guerreira é pura ternura e admiração, um olhar amoroso que era correspondido na mesma intensidade pela princesa. Lady Marna percebeu que sua presença era desnecessária no momento.
— Bem..., agora se Vossa Alteza me permite, tenho muito trabalho a fazer. Tenho um castelo para arrumar. – Diz, enquanto guarda o pote de unguento, levantando-se e se dirigindo à porta. Esboça um sorriso malicioso e fecha a porta atrás de si.
Quando ficamos a sós, pego as mãos de Gabrielle e as beijo, demorando-me para poder sentir o cheiro da pele macia de minha amada e olhando-a nos olhos, murmuro: — Ah minha amada, você não pode imaginar meu desespero quando te vi com o vestido ensanguentado. Imaginei-te morta. Enlouqueci de dor.
— Quando me abracei ao corpo de Tully o sangue dele molhou meu vestido. — Gabrielle acariciou meu rosto, abriu um sorriso maravilhoso e disse: — Eu também fiquei desesperada quando Lugh me disse que Cymru tinha caído em seu poder, deduzi que isso significava que você estava morta. Sei que você daria a sua vida para nos proteger e a cidade... Estou muito orgulhosa de você.
Meus olhos lacrimejaram: — Não diga isso minha princesa, não mereço tal elogio. Não consegui salvar nosso querido Tully..., que sua nobre alma descanse em paz.
A princesa fica em silêncio por alguns instantes, um aperto na garganta dificulta falar, mas controlando as lágrimas que brotavam, ela diz: — Não se culpe, tenho certeza que você fez o que pôde... Mandei construir um túmulo para ele ao lado do de meu pai. Que seja enterrado com honrarias por todo serviço que sempre prestou a meu pai e a mim.
A princesa ficou calada pensativa, deu um profundo suspiro, levantou-se e caminhou para a janela. Levantei-me, mas continuei junto à cama, olhando-a encostada no parapeito da janela olhando o céu. Após alguns minutos ela se volta e diz: — Convoque para daqui a dois dias uma reunião no pátio do castelo, quero todos que participaram da batalha, tenho um pronunciamento a fazer.
........ Olhando para o céu.
Nas horas e dias que se seguiram da janela da torre a princesa olhava os soldados e cidadãos recolherem as centenas de corpos espalhados, se encarregando de tirá-los dali em carroças e o mais rápido possível. Soube que o Duque de Cair Lion com suas tropas, queimou grande parte dos navios inimigos ancorados na baía de Swan. Alguns navios zarparam apressadamente quando viram despontar na praia centenas de homens. Conseguiram escapar da fúria dos soldados e com toda certeza pensariam duas vezes em repetir a invasão. Os mortos na batalha foram enterrados em uma gigantesca cova única fora da cidade e uma enorme cruz de pedra foi erguida na praça central de Cymru em homenagem a eles.
Chega o dia do pronunciamento. Os exércitos de Cymru, do Ducado de Gwent, de Sewyn e de Cair Lion, tendo a frente seus respectivos comandantes estavam enfileirados no pátio aguardando a princesa. O arauto surge no patamar da escadaria do castelo. O silêncio desceu sobre o agitado pátio. Todos se enfileiram aguardando a princesa. As gigantescas portas de carvalho do castelo começaram a se abrir. Vários guardas portando estandartes com bandeiras vermelhas com o símbolo de um leão coroado estampado assumiram suas posições nas laterais do patamar.
Finalmente a princesa surge com passos firmes, mas elegantes. Usava um vestido verde escuro como a cor dos vales ao redor de Cymru. Seu cabelo estava cuidadosamente trançado desde o alto da cabeça e enfeitado por flores de ouro. Usava um cinturão com leões coroados esculpidos em alto relevo, o que lhe dava um ar de nobreza digno de uma grande rainha. Mantinha-me respeitosamente afastada da princesa. De onde estava admirava suas belas feições. Ao ver a princesa, todos a reverenciam se ajoelhando.
— Levantem-se bravos soldados... – Ela prosseguiu: — Felicito todos que aqui se encontram. Assistimos acontecimentos terríveis nos últimos dias. Passamos por situações inimagináveis. Vocês provaram sua coragem no campo de batalha... – O discurso seguiu exaltando a coragem de todos e agradecendo aos Duques de Gwent, Sewyn e Cair Lion por terem se engajado na luta contra a Irmandade das Trevas.
Os duques se mostraram surpresos, pois nunca alguém da realeza havia agradecido seus apoios. Os Ducados sempre foram vistos como vassalos e, portanto obrigados a cumprir as ordens do principado quais quer que fossem. Terminado o discurso da princesa, os três duques se aproximam da escadaria, desembainham suas espadas e juram fidelidade eterna a princesa. O anúncio causou um surto de vivas e assim as discórdias seculares entre os ducados e o principado foram diluídas.
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Entrei na capela de construção simples na forma, com exceção dos vitrais. Os raios de sol invadiam com sua majestade, multicolorindo o ambiente. Lembrei-me das palavras de Tully — Sua descrença em Deus ainda será sua ruína Chennai. Mas o Senhor ainda lhe mostrará o caminho nem que seja de uma maneira dura e penosa.— O bom abade sábio em sua humildade. Ajoelhei-me e pedi a Deus que cuidasse da alma de Tully e das almas de todos que amei e amo.
Confesso que senti um alívio inexplicável. Saí da capela e fui procurar Gabrielle. Queria rever minha amada princesa. Encontrei-a apreciando a brisa fresca no ponto mais alto do jardim onde se viam as silhuetas das montanhas além dos muros da cidade. Os fios loiros de seus cabelos esvoaçavam enquanto ela admirava o céu.
— Princesa? — Chamei-a com ternura.
Ela vira-se e por segundos fico paralisada, extasiada. É como se uma aura irradiasse de seu corpo. Ela sorri iluminando ainda mais aquele belo rosto. Sinto um imenso carinho e orgulho por essa mulher que se mostra forte, nobre e poderosa. Aproximo-me e com suas delicadas mãos entre as minhas, digo comovida: — Juro por Deus que te protegerei com a minha vida se for preciso... Seu pai, onde quer que ele esteja, está orgulhoso da mulher que você se tornou.
— Espero que nunca mais tenhamos que enfrentá-los. – A princesa responde olhando o horizonte.
Sob a luz dos últimos raios de sol que se escondiam por trás das montanhas nossos olhares se cruzam numa declaração de amor onde não são necessárias palavras. Nossas almas se entendem e se completam de maneira plena. A temperatura começava a cair juntamente com a tarde. O sol criava reflexos dourados na neve sobre as montanhas e o céu no horizonte começava a mostrar leves tonalidades róseas, mescladas com leves tons alaranjados e cinza bem claro. Observávamos o belíssimo entardecer.
O principado agora estava liberto e aproveitando uma paz que poderia ser ilusória, mas que precisava ser vivida intensamente, assim como nosso amor.
Continua...
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