A Ira de Éris
1 One-shot
Notas iniciais
O som metálico, provocado pela queda de um saco surrado em cima da mesa, atraiu imediatamente a atenção dos homens por perto. Com alguma surpresa, desviaram os olhos para a figura feminina que surgira na taberna.
Sem dúvida, tratava-se de uma mulher extremamente bonita. Tinha a pele morena e levava os longos cabelos negros soltos, que ondulavam toda vez que se movia. Os olhos pareciam de uma cor âmbar viva, perspicazes. A beleza comparava-se a de uma deusa em forma humana.
Mesmo já conhecendo a moça, a entrada dela provocou um calafrio involuntário em um dos homens conhecido como capitão, que abriu a bolsa de couro.
— Mmmmm... Já estaria pago o custo da viagem — disse o capitão, analisando o conteúdo. — Não, ainda assim, não vale o risco.
Em seguida, empurrou o saco com rúpias para longe, como se o desprezasse. Um murmurinho percorreu a mesa, enquanto o restante dos marujos debatia a oferta entre si, a maioria concordando com a decisão tomada. Não se tratava de uma simples viagem.
— Ah, posso assegurar que, de onde vem, há muito mais. E eu ficaria feliz em lhe fornecer, se aceitar esta minha última oferta. — A mulher arqueou as sobrancelhas com um sorriso discreto.
Lembrava-se bem da primeira vez que oferecera ao capitão o acordo, confiando em seu poder de persuasão e sua beleza inconfundível, sem ter sequer um tostão. Não funcionara.
Bom, por outro lado, usando a mesma estratégia com um rico sultão da região, tivera êxito em sua busca por um financiamento suficiente — ela esperava — para convencer qualquer homem a arriscar a própria vida em uma viagem suicida.
No final das contas, depois de muita negociação, como imaginava Éris, a ambição prevaleceu sobre o bom senso.
— Em toda minha vida navegando, é bem verdade que nunca havia visto o mar tão calmo — comentou o capitão, certa vez.
Éris soltou o ar pela boca com impaciência. O capitão não era o único a compartilhar esse pensamento.
Os dias no mar pareceram à Éris incansavelmente tediantes. Antes, bastariam alguns segundos para desaparecer e reaparecer no lugar onde desejava ir. Mas agora, não possuía seus poderes.
Tudo porque a deusa do caos e discórdia estava aprisionada em um... uh... reles corpo mortal. Seu plano, inicialmente, era algo terrível para se vingar dos deuses que a haviam punido. Percebendo que nada poderia ser feito enquanto estivesse naquela prisão que era o corpo humano, decidira ir em busca de sua liberdade, não importando o preço que pagasse por ela. Finalmente, recuperados seus poderes, Éris estava certa que o mundo não iria aguentar por muito tempo diante do caos que ela iria provocar. Ao pensamento, segui-se um sorriso furtivo por parte da deusa.
Os primeiros cinco dias e cinco noites passaram. A calmaria, é claro, continuava, para a surpresa do capitão e os outros marujos. Passaram por diversas ilhas no caminho, mas nenhuma que servisse para seus propósitos. Afinal, em certo momento, a bela moça de cabelos negros disse ao capitão:
— Fiquem com os olhos bem abertos. Já não falta muito.
Éris já contava que não seria tão fácil dali pra frente. Os deuses, certamente, não deixariam a ilha desprotegida, agora com um valioso e inestimável tesouro, que não era composto de ouro, joias ou pedras preciosas.
Mesmo sabendo dos perigos, o canto aveludado que veio do mar surpreendeu tanto os marujos como a deusa.
Os homens, curiosos e inocentes, abandonaram suas tarefas para espreitar o mar, atraídos pela tal melodia. Não havia tempo para que Éris apreciasse a cena que seguiria: as místicas criaturas surgindo das águas e puxando os marujos para as profundezas negras do mar. E as pobres almas só perceberiam a verdade tarde de mais, quando já estariam nos braços frios da morte.
Éris poderia até ser a favor do caos, mas aquele evento iria contra seus planos. Então, pela primeira vez em sua existência, decidiu impedir o caos.
Correndo contra o tempo, alcançou o galpão de mercadorias e voltou para o convés com um saco de algodão — um dos produtos transportados para ser revendido. Encontrou uma cena conhecida: os marinheiros debruçados no parapeito, com os olhos vidrados e sem foco e os ouvidos surdos para qualquer outra coisa que não a melodia das sereias.
De um em um, Éris colocou algodão em seus ouvidos, e de um em um, os marinheiros foram acordando de seu devaneio. É claro! Se não pudessem ouvir as sereias, não poderiam ser seduzidos por seus encantos. Dentro de pouco, não sobrava mais nenhum homem sob os efeitos das criaturas marinhas (que não arriscaram novas investidas).
Continuaram navegando, e continuaram, e continuaram...
Sem ilhas por perto para atracar, os mantimentos ficavam mais escassos a cada dia. E nada de chegarem à misteriosa ilha. Os marujos, e mesmo o capitão, pareciam ter perdidos as esperanças, certos de que aquela seria a última viagem de suas vidas.
E foi. Para muitos.
Pois no dia que se seguiu, a situação ficou caótica para a grande maioria dos marujos. Não por falta de comida — e sim, por causa dela. Uma intoxicação alimentar, algo muito comum de acontecer em alto mar...
“Espero que alguns homens resistam” pensou Éris com ironia. “Odiaria ter que trabalhar.”
... Já para a deusa do caos, era apenas uma maneira eficaz de diminuir a competição por comida e selecionar os mais fortes.
Afinal, seus esforços acabaram não sendo tão necessários, pois dali a dois dias o barco chegava ao seu destino, com bem menos tripulantes do que partira.
O lugar parecia desabitado, com a vegetação crescendo sem impedimentos. Caso uma pessoa estivesse na praia e olhasse para o interior da ilha, veria apenas escuridão. E, naquele momento, era onde toda a pequena tripulação estava localizada. Observavam as enormes palmeiras que balançavam as folhas com a ventania.
Um grito de gelar a espinha, disparado por um dos marinheiros, chamou a atenção de todos para algo que se desenrolava no mar, às suas costas. E quando viraram-se não conseguiram acreditar no que seus olhos mostravam.
O mostro marinho, um polvo gigante, com seus tentáculos enroscados por todo o navio, puxava a embarcação para o fundo do oceano, lugar onde, em poucos minutos, encontrava-se. Muitos rostos abalados, outros apavorados. Apenas um sorrindo.
— Bem, bem. Cetus sempre gostou de se exibir — falou Éris, sem tentar esconder o tom orgulhoso em sua voz.
Sabendo o que estava à sua espera, Éris ignorou completamente as expressões confusas e caminhou em direção à escuridão, pronta para o último desafio que os deuses lhe reservavam. Sem precisar se virar para trás, soube que o restante dos marujos a estava seguindo, com uns bons passos de folga. Deu um risinho com a perspectiva de que o grupo de homens estivessem com medo de uma donzela inofensiva. Logo, teriam um bom motivo para isso, pensou sombriamente.
Andou pela mata, até que suas pernas humanas doessem e os ossos tremessem. Acabou parando um instante, ao pé de uma ravina, para descansar. Distraidamente, olhando para cima, achou ter visto um brilho dourado, um reflexo do sol, vindo de um buraco na pedra do tamanho de um navio.
— Achei você, Apus — disse. — Agora, que tal me dar uma ajudinha para subir?
Um chamado não teria surtido mais efeito. Assim que terminou de falar, Éris foi contemplada com a visão de uma cabeça saindo do buraco e espiando embaixo. Depois de um instante, a imensa criatura abriu as enormes asas e se lançou para baixo a uma incrível velocidade. Pensando que a ave havia visto a própria deusa, Éris olhou à sua volta procurando um esconderijo. Só então reparou o alvo da enorme águia albina: o grupo de marinheiros e seu capitão.
Não houve tempo para fugir ou se esconder. Em um décimo de segundo, as imensas garras vieram, e agarraram a primeira vítima. Protegida pelas pedras, Éris viu, ou melhor, ouviu os gritos de socorro de um dos homens, aos poucos se distanciando, acompanhado do vum, vum de imensas asas batendo. Esperou um pouco para ouvir o som de ossos quebrando, quando a ave jogasse o homem lá de cima para uma morte rápida e sem dor — a não ser pelos momentos que a antecediam, caindo no abismo, pelo que pareceria ser uma eternidade para a pobre alma.
Entretanto, não foi o que aconteceu.
Éris espiou para cima, decepcionada. Apus devia ter levado o homem para seu ninho, provavelmente guardando seu lanchinho para mais tarde. Foi aí que uma ideia lhe veio à cabeça.
Atraindo a atenção da imensa criatura que um dia ela comandara, a deusa do caos teve o mesmo destino que o capitão: foi levada pelas garras da águia até seu ninho na pedra, muitos e muitos metros acima.
Com a pouca luz do sol que se punha, Éris encontrou o homem coberto com suor e seu próprio sangue. Ele contemplava o motivo por ter arriscado seu navio, sua tripulação e sua própria vida naquela viagem insana.
No meio das palhas do gigantesco ninho havia uma gaiola. Atrás das grades douradas, um corvo de asas negras como o céu noturno encarava os visitantes com frieza. O homem não havia reparado na presença de outra pessoa até ouvir uma voz, gélida como neve, em seus ouvidos:
— Sem testemunhas.
O corpo caiu pesadamente no chão, com um som metálico provocado por um saco surrado em posse do capitão. A ave dentro da gaiola agitou-se, batendo as asas freneticamente e emitiu um grasnido agudo.
Segurando a gaiola com ambas as mãos, Éris abriu a porta, deixando que o corvo encontrasse seu caminho para a liberdade. Assim como o animal, seu próprio ser encontrou uma porta e escapou da prisão que era o corpo mortal.
Em sua verdadeira forma, Éris gargalhou com vontade, sentindo as lágrimas escorrerem pelos olhos. Em tom de promessa, gritou para os céus, em desafio:
— Agora, é a vez do caos!
Fale com o autor