A gente fica mais ou menos uns trinta minutos dentro da água nadando e brincando, e então decidimos sair quando nos sentimos cansados. Pegamos nossas roupas e vamos para um espasso gramado próximo á estrada.

Ficamos um tempo calados até que Thomás decidi quebrar o silêncio.

–Sabe Laura, nesses dias eu estive analisando você. — Me levanto e sento ao seu lado.

–Você é psicólogo agora? — Brinco.

–Ainda não, mas um dia serei. — Ele responde sorrindo.

Quem diria que logo o Thomás pensa em fazer psicologia?

–E á que conclusão você chegou me analisando?

–Você vive na defensiva, é indiferente não por simplesmente ser assim, mas sim por esforço. Você se esforça para não gostar das pessoas...

–Porque assim não sofrerei quando as pessoas partirem. — Digo o interrompendo.

–Laura, as pessoas estão sempre entrando e saindo da vida uma das outras, estão sempre magoando e usando os outros, e isso é a vida. — Ele continua falando calmamente. — As pessoas continuarão á te deixar e continuarão á te magoar, mas e daí? Você pode passar por cima disso.

Ele se levanta e me puxa pela mão, me levantando também. Ele coloca minhas mãos sobre seu ombro, segura minha cintura e começa á se balançar.

–Pense em quantas pessoas você deixou de conhecer de verdade só porque estava com medo que elas partissem ou que elas te magoassem de alguma forma — ele diz no meu ouvido esquerdo. — Sentir medo é algo natural, mas deixar que ele te controle é burrice.

–Você é mesmo um gênio — digo sorrindo.

–Espere um pouco que ainda não acabei. — Ele diz rindo. — Não é porque uma pessoa te magoou que todas as outras farão isso; eu por exemplo, vou embora amanhã e não te magoei. Olhemos para sua madrasta.

–O que tem a Eliza?

–Ela está com você e seu pai á um bom tempo, não está? — Digo que sim. — Então, ela parece ser a melhor mãe que você poderia pedir, e você se recusa á se abrir por medo que ela vá embora; e quer saber de uma coisa? Eu vi o modo como ela te olha e aquela mulher não deixa você de forma alguma.

Aquilo me faz sorrir.

Ele me solta de seus braços e fica de frente para mim.

–Olha pelo lado bom: se as pessoas estão sempre te deixando, isso te dá espaço para conhecer outras pessoas, talvez até melhores do que as que foram embora... Quer dizer, melhores que as outras, não do que eu.

Começo á rir e dou um tapa no braço dele.

Antes que eu possa dizer algo escuto o barulho da carroça vindo pela estrada.

–Cadê minha calça? — Ele diz vasculhando sua pilha de roupas.

Visto a camiseta rapidamente e então jogo minhas pernas para dentro da calça; olho para Thomás assim que termino de abotoar a calça, o barulho está perto demais, não da tempo de calçar os tênis. Espero ele amarrar o casaco na cintura, pegamos os tênis e então corremos para a estrada.

–E aí vocês dois, como foi o banho? — O homem de cabelo grisalho diz antes de parar a carroça em nossa frente.

–Foi bastante legal — digo sorrindo.

–Que bom! Se vocês quiserem podem se sentar atrás.

Andamos até a parte de trás da carroça — os galões não estão mais aqui — e nos sentamos deixando as pernas balançando. A carroça começa andar.

–Devo dizer que você fica bem melhor só de calcinha e sutiã — Thomás sussurra para mim.

–Você também fica ótimo só de cueca. — Sussurro rindo.

*

–Nós ficamos aqui — digo para o homem assim que chegamos perto da praça. A carroça para no mesmo minuto.

Pulo da carroça e pego meu tênis, Thomás faz o mesmo.

–Obrigado pela carona — digo.

–É, muito obrigado por nos trazer. — Thomás diz.

–Por nada! Agora eu vou indo, até mais crianças. — E parte com a carroça.

–"Crianças"? — Thomás fala andando ao meu lado. — Vou com você até a sua casa, preciso saber onde vou te buscar hoje á noite.

–Ah, obrigado, Cavalheiro! — Seguro seu braço esquerdo.

Ficamos em silêncio até chegarmos em minha casa.

–Eu fico aqui.

–Tudo bem. Ás oito eu venho te buscar.

–Vou estar te esperando. — Digo e então fico olhando enquanto ele vai andando.