A Invasão
11 Eu consegui, 6 de maio de 2015.
160 dias desde que começou.
Eu consegui.
Estou aqui fora.
Não me pergunte como. Eu só corri – corri desesperadamente. E deu certo. Agora eu estou aqui, com meu caderno, uma barra de granolas e o rosto dela em minha mente. Eu provavelmente vou morrer.
É tudo muito verde. Têm pernilongos – e aranhas, e cobras, e lagartixas. Porém, eu nunca pensei que ia ficar tão feliz em ver uma abelha em toda a minha vida. Faz eu lembrar do porque de estar aqui.
Não há sinal dela. Eu já me embrenhei pelo mato. Nem faço mais ideia de onde estou. Talvez, no Norte do país, mas o Norte parece tão grande que eu me pergunto se vou morrer antes de achá-la. Provavelmente.
Eu não sei se Jeffrey vai me procurar. E, mesmo se procurar, eu ainda tenho minhas pernas – enquanto algum animal não comê-las. E como eu vou sobreviver? Boa pergunta. Uma boa pergunta com uma resposta inexistente.
É meu primeiro dia aqui. Eu estou montando alguma coisa parecida com uma cama – na verdade é só um emaranhado de folhas velhas, mas é melhor que dormir no chão frio e metálico, não?
Melissa continua em minha mente. E a única coisa que eu quero fazer é achar ela. Se ela estiver perdida como eu, ótimo, vamos viver como dois selvagens. Ou vamos voltar para as naves. Se é fácil sair, é fácil entrar.
Mas que porra de ideia maluca é essa minha?
Eu só tenho que achá-la. Só isso. Não importa como nem onde. Eu tenho que espantar essa solidão desoladora. Ela está matando tudo a minha volta. E a única coisa que eu sinto é dor. Você já sentiu esse tipo de dor? A que te afunda? A que embola um nó na sua garganta, a que te impede de respirar? A que faz você ficar 40 minutos no banho só porque quer que ela escorra com a água? Bom, a última parte não é possível, até porque faz um bom tempo que eu não tomo um banho. Mas é essa dor que vai me afundando, cada vez mais pro fundo, onde existem algas de solidão, e espécies estranhas de tristezas nadadoras, daquelas que abocanham seus pés e te puxam mais pro fundo ainda, onde não há nada mais que desespero.
E há só isso em mim. Só isso.
Veja, eu não estou indo atrás dela porque quero comê-la. Estou indo atrás dela porque eu quero alguém – qualquer um. Se de repente um ornitorrinco aparecesse do meu lado e começasse a falar, eu ia falar com ele de volta. Aliás, isso nem parece tão impossível, dada a situação.
A tinta da minha caneta está quase acabando. Quantas cartas a mais? Quatro? Cinco? Não sei dizer. Depende se eu morrer hoje, amanhã ou depois de amanhã.
Fale com o autor