A Inocência do Mau
2 A capela
Notas iniciais
A capela
No dia seguinte fomos eu e a babá levar Simon para passear e aproveitei para conhecer mais a cidade. Havia muita gente na rua, pessoas de várias raças e de outras nacionalidades, mas estranhamente, não sei como explicar, eu conseguia reconhecer no rosto de cada uma das pessoas quem era daquela cidade e quem não era, como se as conhecesse há muito tempo. As ruas estavam enfeitadas para a Festa da Padroeira da Cidade. Porém, havia um beco entre duas ruas em que se erguia imponente uma casa muito antiga que prendeu minha atenção, afinal quem morava naquela casa tão antiga, mas de repente a babá me chamou para irmos para praça principal, por causa da festa, e tínhamos que participar, Laura, a babá, adorava aquele evento da cidade. Enquanto caminhávamos com Simon preso na coleira, percebi uma garota brincando com um leque e pedi para a babá comprar um para mim, afinal estava muito calor. Escolhi o mais lindo dos leques, todo cor-de-rosa com uma katana negra desenhada no fundo. Por um segundo tive a impressão de que aquela katana ricamente desenhada estava se movendo sobre a superfície do leque. Havia muitas conversas alegres, sorrisos e empolgação. Pude perceber como aquele povo era festivo. Era animado. E ao mesmo tempo, misterioso.
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Logo começaram os foguetes. Simon, muito sensível ao barulho começou a se debater e me puxar, e acabou se soltando da coleira. Gritei por ele, mas ele não escutava, eu corria o quanto podia até que Simon sumiu das minhas vistas, e eu, por minha vez, saí das vistas da babá.
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Continuei procurando, seguindo a direção em que ele foi correndo, e quando passei em frente ao cemitério, tive a impressão de ter escutado um latido. Será que o meu cachorrinho tinha entrado naquele lugar? Só podia ser Simon. Entrei, com muito medo. Olhava desconfiada para um lado e para o outro, só havia túmulos, mausoléus e lápides antigas, ricamente ornadas, mas flagrantemente gastas pela erosão de sol, chuva, ventos, e a ação do tempo. Tive medo de procurá-lo por detrás das altas lápides e fiquei um tanto desconcertada. Não sabia o que fazer, então comecei a chamar baixinho:
-Simon! Simon vem aqui.
Senti uma presença se aproximando por de traz de mim. Pensei que fosse Simon, mas se fosse ele, com certeza estaria se aproximando com alegria e festa para mim, até mesmo latindo. Não quis olhar para trás. E se fosse um... fantasma????? Decidi seguir adiante, e dessa vez andava bem mais rápido. A única coisa que eu queria àquela altura era encontrar meu cachorrinho e sair daquele lugar o mais rápido possível.
-Olá Sayaka
-Ai!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ouvi. Tenho certeza que ouvi meu nome, mas mesmo tão nova me convenci a acreditar que foi só uma impressão minha, ou coisa da minha imaginação. Continuei procurando, com o coração cada vez mais apertado. Ouvi de novo. Como um eco que me perseguia.
-Olá Sayaka
“Quem está aí? Laura?” Perguntei. Se fosse ela, minha babá, com certeza me responderia, mas a voz cessara, como se não tivesse sido mais que o silvo do vento. Pensei ter ouvido o latido do meu cãozinho novamente. Olhei na direção de onde acreditava que o som do latido tinha vindo.Havia muitos mausoléus antigos naquela direção, e logo atrás deles uma torre de pedras se erguia, com uma rústica cruz em seu topo. Então ouvi meu nome uma terceira vez.
-Olá Sayaka
Comecei a correr assim escutei aquela voz bem atrás de mim. Corria tanto por todos os lados que tive a impressão de estar correndo em círculos, como em um labirinto, até que vi a capela e entrei lá.
-Ufa! Aiii... Que medo!!! Onde Simon se meteu?! Nossa que tanto de fotos!
Eu andava pela capela e estranhava tudo em seu interior. Era uma capela católica, e eu esperava encontrar muitas imagens de santos, pinturas sacras, de anjos e santos, ou cenas bíblicas pelo teto e por todas as paredes. Mas na verdade, a capela era um tanto escura, triste, poucas imagens e... Lápides... Em todas as paredes e pelo chão.Inúmeras delas tinham incrustado fotos algumas delas tão antigas que se podia perceber que foram pintadas à mão.
- Credo toda essa gente está enterrada aqui?
Uma lápide em especial a chamou a atenção, como se brilhasse, se destacando entre as outras. Na verdade não tinha nada de especial, era mesmo uma das mais simples que se encontravam ali, mas por algum motivo esta em especial parecia mais clara, mais luminosa, talvez, em um tom mais avermelhado, no meio daquele tanto de pedras cinzas.
-Nossa que linda moça, seus olhos brilham, tanta tristeza, tanto ódio, seus cabelos... Peraí! Parece-me bem familiar... Essa moça estava chorando... Mas porque? E essa cicatriz profunda no rosto e... Hummm! Deixa-me pensar... quem seria??? Ela me dá medo, consigo sentir arrepios por todo corpo.
Não saberia ler o que havia escrito na lápide, mas mamãe já havia me explicado que normalmente elas contém o nome da pessoa ali enterrada, bem como as datas de nascimento e morte, e alguma frase em homenagem à pessoa. Então tentava adivinhar o que estava escrito enquanto contemplava o rosto na foto desbotada.
-Au au au !!!!!
-Aiiii Simon!!! Quer me matar de susto? Onde você se meteu hein!!
-Au au !!
-Espera vou abrir para você. Já esta mesmo na hora de sair desse lugar horrível.
-Hum, Vamos! Abre, porta! Meu Deus!!! Estou presa aqui!Calma, Sayaka. Respira. Você é linda e vai conseguir. Ahhhh! Quero sair daqui! Simon, vai procurar ajuda.
-Au au!!
-Oi Sayaka. Algum problema?
Meu Deus! É o Senhor daquele dia. Agora era tarde demais, não havia como fugir. E nem adiantava mais ter medo. Era ele mesmo, o velho do portão. O melhor a se fazer era conversar com ele:
-Por favor, estou presa aqui. Tem como me ajudar?
-Claro, minha querida. Afaste-se um pouco, ahm?
-Não vai me machucar não, né?
-Claro que não. Eu nem poderia. A forte aqui é você.
Fiquei sem entender o que ele acabara de falar, mas o mais importante era sair dali. De repente, o Senhor deu um chute no portão da capela e ele se abriu fazendo grande barulho.
-Esses portões antigos, minha menina, já não funcionam bem.
-Obrigada, mas quem é o senhor?
-Na verdade você já sabe quem sou, só não se lembra?
-E o que você fazia aquele dia em frente deste cemitério?
-Te esperando.
-Ai o sr está em assustando! Mas... Me esperando para que? Afinal qual o seu nome e o que senhor quer comigo?
-Na verdade, você é que tem me chamado, por muito mais tempo do que imagina.
-E porque o senhor está aqui, sozinho, nesse lugar triste, em vez de estar na festa, com os outros, se divertindo.
-Porque aqui é o meu lugar, e foi aqui que marcamos de nos encontrar...
-Sayaka! Sayaka! Onde você está???
Era a voz de Laura, aterrorizada, assustada, procurando por mim.
-Estamos aqui. – respondi.
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