A Inimiga de Dentro

1 As Primeiras Fissuras


Yumi Nakamura tinha apenas oito anos quando aprendeu uma das lições mais cruéis da vida: as pessoas podem desaparecer para sempre.

Era uma tarde fria de Outono em Yokohama. As folhas vermelhas e douradas dos bordos espalhavam-se pelos passeios, rodopiando ao sabor do vento como pequenas chamas arrancadas ao céu. O ar trazia já o anúncio silencioso do Inverno que se aproximava, e as nuvens cinzentas cobriam a cidade com uma melancolia difícil de explicar.

Nesse dia, Yumi estava sentada junto à janela de um quarto de hospital. As pernas curtas balançavam no vazio, sem chegarem ao chão, enquanto as mãos seguravam com cuidado um desenho que tinha feito para a mãe. Era um desenho simples, como só uma criança consegue fazer: uma casa de telhado vermelho, três pessoas de mãos dadas e um cão sorridente que, na realidade, nunca tinham tido.

A mãe encontrava-se deitada na cama, imóvel e frágil. A doença tinha-lhe roubado muito mais do que o peso; tinha-lhe apagado parte da vitalidade que Yumi sempre conhecera. Ainda assim, quando viu o desenho, sorriu.

— Está muito bonito — disse ela, com uma voz suave.

O rosto de Yumi iluminou-se imediatamente.

— Quando saíres daqui, podemos pôr flores verdadeiras na varanda? — respondeu com entusiasmo.

Por um instante, a mãe desviou o olhar para a janela. O silêncio prolongou-se durante alguns segundos. Depois, voltou a sorrir.

— Sim... podemos.

Mas ambas sabiam que não era verdade.

Mesmo uma criança consegue sentir quando os adultos estão a esconder alguma coisa. Talvez não compreenda todas as palavras, mas percebe o peso que elas carregam.

Nessa mesma noite, a mãe morreu.

Yumi não entendeu verdadeiramente o que tinha acontecido. Assistiu ao funeral como quem observa algo distante, quase irreal. Não chorou durante a cerimónia. Não chorou quando o corpo foi cremado. Nem sequer quando regressou a casa e encontrou o quarto da mãe vazio.

As lágrimas só chegaram semanas depois.

Numa tarde aparentemente banal, abriu um armário da cozinha e encontrou uma chávena esquecida numa prateleira. Era apenas uma chávena de chá, igual a tantas outras, mas ainda conservava um leve aroma ao perfume da mãe. Foi o suficiente.

Nesse momento, algo dentro dela se partiu.

Não foi uma ruptura dramática nem visível. Não houve gritos nem desespero. Foi apenas uma pequena fissura, quase imperceptível, que se abriu algures no fundo da sua alma. Uma fissura silenciosa, mas permanente.

O pai, Hiroshi Nakamura, nunca soube lidar com a perda.

Antes mesmo da morte da esposa, passava a maior parte do tempo a trabalhar numa empresa tecnológica em Tóquio. Depois dela, mergulhou ainda mais profundamente no trabalho. Saía de casa antes do nascer do sol e regressava muito depois da hora de jantar. Em alguns dias, nem sequer regressava a tempo de a ver acordada.

A casa tornou-se um lugar estranho. O silêncio ocupava todos os espaços, infiltrando-se nas paredes, nos corredores e nos quartos vazios. As refeições deixaram de ser preparadas em família e passaram a vir de lojas de conveniência. Os aniversários deixaram de ser celebrados. As pequenas tradições desapareceram sem que ninguém desse por isso.

As conversas entre pai e filha resumiam-se ao essencial.

— Fizeste os trabalhos de casa?

— Sim.

— Está bem.

E era tudo.

Com o passar dos anos, Yumi habituou-se à solidão. Na escola era considerada uma aluna exemplar. Tirava boas notas, respeitava os professores e raramente causava problemas. Aos olhos dos outros, era uma jovem educada e responsável.

Mas sentia-se diferente.

Enquanto observava os colegas a rir, a brincar e a criar amizades aparentemente sem esforço, tinha a sensação de estar separada deles por uma parede invisível. Via tudo acontecer à sua volta, mas nunca conseguia sentir que pertencia verdadeiramente àquele mundo.

Foi durante o quinto ano que a voz apareceu pela primeira vez.

Não era uma voz real. Não era uma alucinação nem algo que pudesse ser ouvido. Era apenas um pensamento persistente que surgiu discretamente no fundo da sua mente.

"Ninguém gosta realmente de ti."

No início, ignorou-o. Parecia apenas uma insegurança passageira. No entanto, a frase regressou. E depois voltou novamente.

Cada erro alimentava-a. Cada momento embaraçoso dava-lhe mais força. Quando se esquecia de um exercício. Quando tropeçava à frente da turma. Quando enviava uma mensagem e não recebia resposta.

"Ninguém gosta realmente de ti."

A repetição transformou-se lentamente numa crença.

Aos treze anos, Yumi já não a questionava.

A adolescência chegou como uma tempestade inevitável.

À sua volta, tudo parecia exigir perfeição. O sistema escolar japonês exigia resultados. Os professores exigiam excelência. O pai esperava excelência. E, acima de todos eles, era a própria Yumi quem se pressionava mais.

Dormia pouco. Estudava demasiado. Passava horas a tentar corrigir os seus erros e a antecipar os próximos. Contudo, por mais que se esforçasse, a perfeição continuava sempre um passo fora do seu alcance.

E a voz tornava-se cada vez mais forte.

"Nunca és suficiente."

"Nunca vais conseguir."

"Olha para os outros."

"São melhores do que tu."

Com o tempo, começou a encontrar defeitos em tudo o que via ao espelho. O rosto parecia errado. O cabelo parecia errado. O corpo parecia errado. Até a forma como falava ou caminhava lhe parecia inadequada.

Nada era suficientemente bom. Nem sequer ela própria.

A primeira crise de ansiedade surgiu aos dezasseis anos, durante um exame importante.

Sem aviso, as mãos começaram a tremer. O coração acelerou de forma descontrolada. O peito apertou-se e o ar pareceu desaparecer dos pulmões. Durante alguns minutos, teve a certeza absoluta de que estava a morrer.

Os professores levaram-na para a enfermaria da escola. Depois de alguns exames rápidos e muitas perguntas, disseram-lhe que não era nada grave.

Era apenas stress. A expressão perseguiu-a durante anos.

Porque aquilo não parecia apenas stress. Parecia algo maior. Algo escondido nas sombras da sua mente. Algo que crescia lentamente, alimentado por anos de silêncio, perda e exigência.

Nessa noite, sentada sozinha no quarto escuro, permaneceu longos minutos a olhar para a janela. O reflexo devolvia-lhe a imagem de uma rapariga cansada, com olheiras profundas e um olhar demasiado adulto para a sua idade.

Então sentiu algo estranho. Por um breve instante, teve a sensação de que o reflexo a observava.

Não era ela a olhar para o reflexo. Era o reflexo que olhava para ela. Piscou os olhos.

A sensação desapareceu imediatamente. Mas deixou um arrepio frio a percorrer-lhe a espinha.

Sem o saber, Yumi acabara de encontrar a sua futura inimiga.

Ela própria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.