A Indeterminada
1 Ser o caçula tem suas desvantagens
Notas iniciais
Connor
Primeiro eu quero deixar bem claro que tudo isso é culpa do centauro.
O dia no acampamento começou tranquilo.
Era quinta-feira, final de dezembro. Desde a batalha contra o exército de Cronos no verão passado o numero de semideuses no acampamento vem tendo mudanças consideráveis.
Primeiro, a grande perda na batalha de Manhattan.
Depois, a promessa dos Deuses de proclamarem seus filhos, o que aumentou novamente o número de campistas.
Com o acampamento mais cheio do que nunca e sem o Sr. D. em seu posto de diretor, consequência da sua esquizofrenia divina , Quíron assumiu seu lugar .
Não que eu esteja reclamando. Jamais.
Não ter o Sr. D. ameaçando transformar qualquer um que não se comportasse em golfinho é um alívio, mas não deve estar sendo fácil pro centauro . Controlar 300 semideuses hiperativos não é uma tarefa fácil mesmo pra alguém que já viveu mais do que todos nós juntos.
Mas ele vinha se saindo bem. A prova disso é o recente "teste” que vinha aplicando a Travis e a mim.
Entenda, toda vez que meu irmão e eu roubamos a loja do acampamento, Quíron a reforça com um novo tipo de proteção antifurto contra semideuses. Não que um boneco de esgrima encantado, um frasco de fogo grego ou mais algum enigma envolvendo algum verso de A Odisséia conseguisse parar dois filhos de Hermes, mas ele vinha se superando.
Quando saímos do pavilhão do refeitório está manhã, estávamos mais ansiosos do que nunca.
Quíron lançara olhares à mesa de Hermes, quase como se quisesse nos avisar de algo, não façam isso! , seus olhos advertiam. Diferente das outras vezes quando ele apenas passava trotando por nós soltando risinhos como se pensasse, “dessa vez vocês não conseguem“, mas sempre conseguíamos e tinha a estranha sensação de que ele ficava orgulhoso com isso.
Como eu disse, estranha.
Mas dessa vez não teve piadas nem risinhos, apenas o olhar de advertência de Quíron e isso somente atiçou nosso desejo de descobrir o que ele tinha preparado para nós dessa vez.
Estávamos em frente à loja há quase dez minutos.
Do lado de fora, não parecia grande coisa. Com uma construção baixa e pequena e um telhado vermelho e paredes externas verdes poderia ser confundido com uma casa de um mortal comum, só faltava à cerca branca envolta. Uma folha de metal cobria sua frente, presa a três cadeados de bronze celestial do tamanho de maçãs colados ao chão.
Mas para alguém que já esteve em seu interior tantas vezes quanto eu, sabe o que escondia.
Armários encantados repletos de suprimentos de todos os gêneros, cofres de dracmas e dinheiro mortal escondidos sob as paredes, o reservatório de néctar e o depósito de ambrosia no subterrâneo, sem falar das coleções completas de Hércules Arrebenta Cabeças embaixo do balcão.
Mas desde que Quíron começou á protegê-la com a segurança de um banco nacional, um alicate e um pé de cabra não eram mais o suficiente.
Já estava quase desistindo. Passeava minha mão por toda superfície da folha de metal procurando sentir se havia algum mecanismo interno escondido. Ao meu lado, via que Travis fazia o mesmo. Se o encontrássemos, não era preciso mais nada. O que quer que nos impedisse de entrar na loja poderia ser desarmado apenas com um pouco de concentração , cortesias de ser um filho de Hermes , deus dos ladrões .
— Eu desisto — Travis se sentou frustrado — se continuarmos apalpando essa coisa vão achar que estamos fazendo carinho na loja.
—Tem razão, — disse— se Katie ver você fazendo carinho em qualquer coisa ela vai fazer saírem flores de suas orelhas, de novo.
—Foram galhos, e cale a boca. Pelo menos eu tenho uma namorada.
Há algumas semanas Travis e Katie Gardner, de Demetér, começaram a sair juntos, logo depois meu irmão a pediu em namoro. Mas Katie é extremamente ciumenta. Na semana passada Travis estava ensinando esgrima a uma filha de Afrodite, e na manhã seguinte acordou com galhos de árvore saindo das orelhas. Travis odeia quando falo sobre isso.
Faço questão de lembrar lhe todos os dias.
— Se eu quisesse ter uma namorada, —disse— preferiria escolher uma que não me transformasse em arvore toda vez que eu olhasse para o lado.
—Fala sério Connor, você não me engana. Sou seu irmão mais velho, ah o que, 18 anos?
— Provavelmente, considerando que essa é a minha idade.
—... Por isso sei que você quer uma namorada.
— Travis tem certeza que Katie não esqueceu nenhum galho ai dentro? Ele deve estar cutucando seu cérebro.
—Há. Há.
E assim mais cinco minutos se passaram e a única coisa que conseguimos foi um novo grau de frustração.
Malcom, uma garoto de Atena, tinha acabado de passar por nós com um pergaminho em mãos — provavelmente fazendo a inspeção dos chalés, o que me lembrava de não ter arrumado meu beliche está manhã – e deve ter visto nossas expressões de fracasso aparente, porque parou e disse:
— Ela está encantada.
— Jura? — Travis murmurou
Bufei. Aquela altura isso já estava bem óbvio.
— Certo, agora diga algo que não sabemos gênio — falei.
Malcom pareceu ofendido, ele não é o tipo que gosta de apelidos, mas apenas se virou e continuou caminhando com um olhar arrogante, como se não valesse a pena perder mais tempo conosco, mas antes de sumir a nossa vista seu orgulho falou mais alto e ele virou-se novamente e falou:
— Névoa. O que vocês, ladrões ignorantes, procuram está escondido sob a Névoa.
E com essas gentis palavras Malcom dobrou na área de Artes e Ofícios e nos deixou com um problema pra trás.
Encarei Travis.
—Como não me lembrei disso? Que droga. — Travis queixou-se.
—Sim tem razão é tudo culpa sua.
—Considerando que eu peguei toda a inteligência de nós dois.
—E eu peguei a beleza, sim, já discutimos sobre isso. — falei e nós rimos. — Não se culpe Travis, entendo que só tenha espaço pra pensar em uma coisa de cada vez no seu cérebro e agora Katie está estabelecida nele.
Ele me mostrou o dedo do meio.
— Além do mais— continuei —, Quíron manipula a Névoa há mais tempo que você e eu roubamos.
— É — Travis concordou com a cabeça — são apenas alguns milênios de diferença.
— Tanto faz. O fato é que não sabemos como dissolver a névoa —disse — e eu duvido que Malcom nos ajude de novo, mesmo que pra provar sua própria inteligência.
— E eu acho que não temos alguns milênios pra praticar considerando que Quíron volta da conferência de arqueiros equinos daqui a duas horas e arrombar a loja com ele trotando por ai está fora de questão, que tipo de ladrões nós seriamos? ...
Travis continuou falando algo sobre centauros, furtos mal planejados, stress e algo como roubar uma banheira de hidromassagem, que foi quando eu parei de escutar porque a solução veio a até mim como uma cena de desenho animado, mas ao invés da lâmpada se ascender sobre mim, ela me atingiu com força na cabeça.
— Travis!!!!
Ele se virou com um pulo. Provavelmente o acordei de algum sonho com banheiras de hidromassagem automáticas, bolhas de sabão ou patinhos de borracha.
— Hã, que? – ele olhou pra mim, ansioso.
— Nós não sabemos como dissolver a névoa– disse, na esperança de que ele me entendesse de primeira.
—Você já disse isso – ele respondeu.
Todos os traços de ansiedade que apresentava antes começaram a murchar, parecia estar pronto pra mergulhar em sonhos de novo quando eu o virei com força, seus reflexos de guerra foram muito rápidos e se eu tivesse demorado um segundo a mais poderia ter ficado com um olho roxo, mas segurei seu pulso com força quando veio em direção ao meu rosto, um movimento involuntário, e o encarei.
— Nós não sabemos como dissolver a névoa – repeti -, mas conhecemos alguém que sabe.
Sorri também ao ver o sorriso do meu irmão, ele sabia de quem eu estava falando.
Estava na hora de fazer uma visita ao chalé 20, o chalé de Hecáte.
Sobre o chalé: mesmo do lado de fora, é fácil dizer a quem pertence.
Ele tem o mesmo formato que se pode ver nas casas de São Francisco, estreito, porém, alto. Fora inteiramente construído em granito negro, e em suas paredes símbolos e inscrições cintilam em verde-esmeralda.
Há alguns meses Quíron ordenou que fosse criada uma barreira mágica em volta do chalé depois que um feitiço saiu errado e todo semideus em um raio de 300 metros foi transformado em cacto. Eu estava na patrulha de vigia naquele dia então não fui afeado, mas tive que ajudar os outros a juntar todos os semideuses-cacto para reverter o feitiço.
E mesmo assim lá estávamos nós parados em frente ao chalé de Hecáte prontos pra pedir ajuda a Lou Ellen, conselheira, a qual nós fizemos uma brincadeirinha boba na semana passada, correndo o risco de sairmos de lá com espinhos espalhados pelo corpo.
Bati na porta.
Quem atendeu não foi bem à garota asiática que procurávamos. E sim Mike O’ Connel, seu irmão. Um garoto baixinho e mal humorado de 11 anos.
— O que querem aqui? — perguntou direto.
Travis olhou com um sorriso melancólico pra mim e entendi que não tínhamos tempo pra perder com aquele garotinho.
—Olá pra você também Mike — disse— onde está sua irmã?
— Ela não está – direto de novo.
— E onde ela está? — perguntou Travis tentando parecer despreocupado, mas seus olhos faiscaram.
— Em uma missão especial para o Quíron, mas ela me deixou no comando — respondeu estufando o peito, claramente se gabando. Não quis mencionar o fato de que Lou ele era sua única companheira de chalé e essa era sua única opção.
— Droga de centauro— disse Travis.
Não sei se foi sorte ou azar.
Sorte porque se tivesse sido Lou Ellen a atender a porta, agora, provavelmente seriamos plantas áridas. Ou azar porque se Mike o fez, Lou realmente não estava — ela não deixa mais que ele atenda depois que ele nos deixou entrar da ultima vez e trocamos os ingredientes de sua poção — e teríamos que contar com a ajuda do menino de 11 anos.
—Lá se vai seu plano de flertar com Ellen— murmurou Travis, baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse —, a menos que você também queria tentar com Mike.
—Eu passo. Mas você podia tentar, não acho que Katie se oponha.
—Me faça um favor e peça a Clarisse usar aquela maldita lança elétrica para ago útil e mandar um choque no seu traseiro. Katie não me controla.
—Engraçado, ela adoraria ouvir isso.
—Você não ousari...
— Vocês vão criar raízes na frente do meu chalé? Digam logo o que querem estou perdendo meu filme favorito. — Mike nos interrompeu.
—Esqueça garoto — disse Travis —precisamos da ajuda da sua irmã, não a sua.
—Eu estou no comando— se impôs —digam o que querem!
Troquei um olhar rápido com meu irmão. Ele entendeu.
—Não sei... — disse, fingindo falsa hesitação.
—O que precisamos requer muito esforço... — Travis continuou
—E alguém que tenha muita experiência.
—E capacidade, claro.
— Eu tenho, eu tenho — agora Mike ansiava nos demonstrar que tinha essa capacidade, que podia ser tão bom quanto sua irmã.
Virei para meu irmão.
— Será? — questionei, meu irmão tentava fazer uma cara pensativa, mas via sua mão cobrindo um sorriso— Ele parece tão novo, ainda acho que deveríamos procurar Ellen.
—Eu consigo! —Mike agora esperneava.
Foi minha vez de tentar esconder o sorriso.
Aquele garoto tinha um ego inflado. Pra conseguir sua ajuda precisávamos fazê-lo pensar que não acreditávamos que ele era capaz. Funcionou.
—Tudo bem — disse finalmente. — Você pode nos ajudar.
— Diga.
— Você sabe dissolver a Névoa? — perguntei.
Mike riu. Por alguns aterrorizantes segundos temi que ele não soubesse e segurei a vontade de balançá-lo pelos ombros. Por fim finalmente disse:
— É só isso? — perguntou com deboche. — Curso básico de magia n° 2, esperem aí vou pegar meu livro.
E bateu a porta na nossa cara.
— Claro, curso básico de magia, caramba como não pensamos nisso antes?
Quase ri dá expressão de Travis.
Apesar de ser um semideus, ele era meio cético em relação à magia depois que roubou um coelho da cartola de um mágico quando tinha nove anos e descobriu que era só um truque. Acho que foi decepcionante.
—Dá um desconto, ele está nos ajudando não é.
— Mas ainda parece que saiu de um filme do Harry Potter, será que ele já recebeu a sua carta de Hogw...
Ele parou no meio da frase.
A porta do chalé se abriu e Mike saiu de lá segurando um livro grande, velho e empoeirado. Devia ter 10 cm de espessura.
Se aquele era o do curso básico, não queria ver o do avançado.
Mike levantou a cabeça e expôs um sorriso que raramente se via em seu rosto. Ele parecia mal poder segurar aquele livro, já estava caminhando a nossa frente. Virou-se para nós e disse:
—Vamos lá.
— “Vapor cincinnis obscurant aspectu infirmos...” *
— Isso é sinistro — sussurrou Travis.
—Muito — respondi.
Uma massa de ar branco-perolada sai da folha de metal que cobria a frente da loja e ondulava em volta de Mike, em espiral, como um redemoinho. Seus braços erguidos para o céu enquanto lia as palavras do livro pousado aos seus pés.
—Acho que ele vai precisar de um banho depois. —disse.
Travis riu baixinho.
Agora não era apenas a Névoa que ondulava a sua volta, terra e poeira se misturaram com o vento, ambas concentradas em Mike.
Estava prestes a fazer mais um comentário sarcástico quando um frio súbito me assustou.
— In spiram et dissipat! — Mike gritou.
Então toda Névoa que estava a sua volta foi sugada pelo chão.
O que Travis e eu fizemos depois foi um tanto egoísta.
Não para Mike para ver como ele estava ou para parabenizá-lo, corremos para frente da loja pra ver se tínhamos conseguido alguma mudança.
Epa. Isso também foi egoísta.
O certo seria pra ver se Mike conseguiu alguma mudança.
Chegamos à frente da loja a tempo de ver algo tremeluzir no seu canto inferior direito.
Quando vi aquilo troquei um olhar confuso com Travis.
— Isso é uma ferradura? — perguntei passando a mão pela extensão em formato da letra grega ômega.
Cada lado tinha quatro pequenas cavidades, sem duvida aquilo era uma ferradura.
— Sim — Travis deu uma tapa na minha mão para que ele pudesse sentir também —, mas é muito grande pra ser de cavalo, provavelmente é de bode.
Bode. Hm.
Então Mike colou sua cabeça entre a de Travis e a minha para olhar também.
— Sim, com certeza é de bode — concordou.
— Hey Mike aquilo foi muito legal — Travis deu tapinhas em sua costa.
— Foi? — ele perguntou
— Claro cara, deve ter sido difícil — eu disse. O garoto tinha se saído bem, merecia um pouco de bajulação.
—Na verdade não. Eu poderia ter estalado os dedos e dissolvido a Névoa, mas isso não tem nenhum estilo.
Na verdade aquilo não me importava, mas ainda tínhamos mais um desafio antes de poder entrar na loja, e ao que parecia Mike esperava ficar conosco. Não me leve a mal, eu gosto do garoto, mas não podemos perder mais tempo. Então eu vi a chance de nos livramos dele.
— Você poderia ter simplesmente dissolvido a Névoa, mas preferiu se sujar todo desse jeito? — falei fingindo falsa indignação.
Pelo visto meu irmão também não se importava nem um pouco porque olhou pra mim como se perguntasse você está louco?
— Lou vai nos matar se descobrir que você ficou assim por nossa causa — continuei —, você devia ir pra se chalé e tomar um banho antes que ela volte.
Olhei de relance pra Travis e finalmente vi brilho de entendimento nos seus olhos.
—É. Connor está certo — Travis estava finalmente me ajudando—quer dizer, depois de provar ser tão bom quanto sua irmã não vai querer levar uma bronca só porque brincou na areia né?
Isso pareceu convencê-lo.
— Vocês têm razão — falou, mas tinha um pouco de tristeza na sua voz — obrigado por me deixarem ajudar.
— Ei cara nós que agradecemos. Você foi demais. — falei e Travis concordou com cabeça.
Mike sorriu. Levantou-se, foi até onde seu livro estava e o pegou com seus braços magrinhos. Antes de se afastar muito Travis gritou:
—Não se esqueça do banho querido.
Ele virou-se para nós sorriu e depois continuou caminhando a área dos chalés até o perdemos de vista.
— Quem diria, você moldando as mentes do futuro. — debochei.
— Está brincando né? — Travis perguntou rindo — Se Ellen o pegasse imundo daquele jeito é claro que ela nos mataria.
—Você ainda duvida? — perguntei. — Vamos, precisamos ir atrás de alguns bodes.
Descobrimos sem muita surpresa que os sátiros do acampamento, não estavam no acampamento. A maioria deles estava à procura do Percy, sumido desde o verão passado, e só depois de muita persuasão em cima de algumas ninfas do bosque, e com persuasão quero dizer que prometemos regar suas raízes por um mês, descobrimos que Grover tinha retornado ao acampamento para fazer uma visita rápida a Juníper, sua namorada.
O procuramos por todos os lugares, quadra de vôlei, campo de morangos, anfiteatro, e nada. Depois de meia hora sugeri que nos cobríssemos de enchiladas de queijo e Grover que viria correndo até nós, mas Travis vetou minha idéia.
Em seguida fomos até o lugar onde o Conselho dos Anciões do Casco Fendido se reúne – uma clareira no meio da floresta que nos proporcionou 15 minutos de caminhada – e não encontramos nenhum sinal de que um sátiro já passara por ali, como latas ou maçãs. Já estava quase me convencendo de que não queria tanto assim saber o que tinha no interior da loja quando ouvi um som que faria qualquer um tapar os ouvidos instintivamente. Era agudo e desafinado.
Seguimos na direção de onde ele vinha.
Quando nos aproximamos mais, descobri que o som tinha uma melodia parecida com o tema de “O guarda-costas”.
Andamos mais alguns metros e chegamos ao um lugar onde se abria outra clareira.
Linda. Cercada por arbustos repletos de flores silvestres que fariam Katie Gardner suspirar, a grama que cobria o lugar onde o sol batia claramente era a mais verde eu lá vira em qualquer lugar da floresta e a nascente de pequeno riacho corria à direita. Sentados em duas pedras em seu leito estavam Grover tocando “I Will as Love You” em sua flauta de bambu e Juníper balançando os cabelos verdes no ritmo dos guinchos da flauta.
Encarei Travis.
Ficamos tentados a não interromper esse lindo momento entre criaturas da natureza.
Não, mentira.
Fomos correndo em direção a ele gritando o nome de Grover, que virou os chifres para nós e viu que estávamos ali.
—Travis? Connor? — exclamou o sátiro.
—Ei cara — falamos juntos —precisamos de ajuda.
—Ah não, não, não. — repetiu — Dá ultima vez que ajudei vocês fiquei com o pelo rosa por uma semana.
—Sim, a vez em que pintamos o chalé de Ares de rosa — sorri me lembrando desse dia.
—Bons tempos — Travis completou.
Então me lembrei da surra que levamos de Clarisse e acordei do flash back.
— Sim, mas dessa vez não é nada de mais — disse.
— E prometemos sem efeitos colaterais.
— O que é? — Grover perguntou, desconfiado.
— Só precisamos do seu casco. —Travis falou.
—O QUE? MEU CASCO? — Grover exclamou.
Olhei para Travis e perguntei:
—Não podia ter escolhido outras palavras?
E quando vimos Grover já tinha pulado o riacho e foi corrido em direção a floresta se embrenhado no mato.
Tentamos correr pela mesma direção que ele, mas Juníper, que nem lembrávamos que estava ali, se transformou em arvore na nossa frente e batemos de cara no seu tronco.
—Isso é pro terem estragado meu encontro. — ela choramingou lagrimas cor de clorofila e saiu correndo levantando uma leve brisa.
Quando Travis se levantou e vi que ele tinha um galo na testa comecei a rir. Mas quem riu foi ele quando me levantei e percebi que meu nariz estava sangrado.
Limpei meu nariz com a barra da camisa.
—Vamos logo cara, ainda temos que pegar o Grover.
E corremos em direção à floresta.
Alcançamos Grover depois de darmos uma volta inteira na floresta gritando para ele que não iríamos arrancar seu casco, que só precisávamos que ele o pusesse em um lugar, o que também não ajudou muito. Mas depois ele se cansou e deixou que nos o levássemos ate a loja do acampamento, mas ameaçando que se nós tirássemos seu casco, os espíritos da natureza iriam nos punir pra sempre
Finalmente chegamos e a impressão em formato de ferradura ainda estava lá.
Segurei Grover pelos braços e Travis o segurou pelos cascos.
O sátiro choramingava e balançava as penas peludas enquanto Travis tentava encaixar no lugar certo.
— Faça ele se acalmar! — gritou meu irmão.
— Grover, latas! — falei a primeira coisa que me lembrei.
Ele diminuiu o ritmo, mas Travis ainda está tendo dificuldades.
— Latas? — perguntou o sátiro.
— Sim— respondi —e maçãs, muitas latas e maçãs.
— Maçãs... — agora ele murmurava pra si mesmo.
Ele parou de mexer as pernas e essa foi à deixa pra Travis encaixar seu casco.
Foi preciso apenas um toque e a porta começou a fazer barulho de engrenagens se movendo. Soltamos Grover que saiu correndo em direção as forjas, provavelmente ver se lá tinha um pouco de sucata para comer.
Quando nos aproximamos da porta ansiedade transbordava por meus poros.
Sempre que cumprimos os desafios anteriores Quíron nos presenteou. Da ultima vez conseguimos um diamante rosa pink usado pela própria Afrodite, e antes disso um cilindro de 10 cm de pura energia tirado do raio mestre de Zeus, e nem foram desafios tão difíceis. Não sabia o que esperar dessa vez, mas esperava algo que valesse a pena todo o trabalho.
Então finalmente as engrenagens pararam de estalar e o folha de metal começou a subir. Olhei pelo canto do olho e vi Travis tão vidrado quanto eu.
Estava na hora de receber a recompensa.
Então a folha de metal subiu por completo. E o que estava atrás dela realmente nos surpreendeu.
Rachel, o Oráculo, sentada em um banco nos encarando com uma expressão de... pena?
Então ouvimos trotes as nossas costas e Quíron apareceu. Usava uma camisa escrita Arqueiros Equinos 2014 e seu arco e aljava estavam pendurados em sua costa.
—Qual deles? — perguntou o centauro, como se perguntasse qual de nós deveria ser morto.
Quando Rachel respondeu não foi sua voz quem falou, foi o sibilo rouco do espírito de Delfos.
— O primogênito tem seu papel a cumprir, mas para resgatar a indeterminada o caçula deve ir. — então Rachel se curvou pra frente e desmaiou. Ela teria batido a cabeça no chão se não fossem os reflexos rápidos do meu irmão. Eu estava estático.
Olhei para Quiron em busca de respostas, mas a única coisa que ele me disse foi:
— Vamos garoto, chegou à hora de decidir o seu destino.
E partimos em direção a casa grande.
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