A Incineradora
2 A chantagem
“Pobres animais” Pensa você.
Mas a garota não tinha o sangue tão frio para queima-los vivos, não ainda.
Ela os encontrava na rua e os levava par aos fundos inabitados da grande mansão.Cautelosamente ela acendia o fogo com um fósforo e então, só depois de ter certeza de que as chamas estavam na temperatura certa, ela jogava os animas na fogueira.Não tinha que se preocupar com os pais, pois estes estavam sempre viajando ou trabalhando.
Era somente ela, os empregados e seu amante a queimar os cadáveres endurecidos de
animais.
Todo o amor e carinho reservado para os pais nunca presentes eram depositados no fogo.Sua paixão se tornara tão desenfreada que ela até chegara a queimar algumas folhas secas na escola...Nada mais do que miseras cinco folhas, mas isso fora suficiente para que falsos boatos sobre suas queimaduras fossem soltos.
A garota não se importava, pois só precisava do fogo, e este nunca a deixaria.Sempre estaria presente quando ela quisesse, bastava um fósforo para que este se apresentasse.Só seria necessária uma folha de papel para que este permanecesse ao seu lado por mais tempo...
Em um dia de outono, a garota resolveu levar seu amado para sua casa.Trancou-se no quarto, pegou a tesoura, cortou uma mecha do cabelo e pegou um fósforo.Em uma bandeja de prata chamou por seu amado, e este se apresentou como um leal servo...
Mas a garota não percebera que seu amado trazia muita fumaça consigo, e esta por sua vez, trazia consigo muita atenção.
Ela nem se lembrou que seu primo estava em casa, e ela também não viu o vulto que entrou pela varanda.
Só percebeu a presença de uma 3ª pessoa em seu quarto (também ela considerava o fogo como uma pessoa) quando olhou para o chão e viu a sombra que se projetava atrás dela.
-Ora, isso lá é coisa que se faça priminha?
Falou o garoto de cabelos cor-de-areia.Em sua fala havia sarcasmo e desdenho.
-O que você quer?
Perguntou ela sem retirar os olhos do seu amante que agora estava se esvaindo.
Ela só olhou para seus olhos quando, este passou os dedos na mecha que fora cortada.A garota ficou corada quando seu primo passou a mão pelo seu rosto.
Ele olhou para a bandeja de prata onde o rosto da garota estava refletido.Seus olhos castanho-escuro e seus cabelos castanhos pareciam tão majestosos em meio às cinzas...
A garota não entendia por que ele agia daquela forma.Ele a olhava de forma que a fazia ficar nervosa e envergonhada.
Foi então que aconteceu.Foi que então o sonho se realizou.Foi então que ele a beijou.
A garota levou as mãos a boca, e ele parecia ter feito algo errado.Tentou se desculpar, mas entendeu que desculpas não adiantariam de nada.
O garoto teve uma grande idéia.Encontrou uma forma de poder ter o que tanto almejava.
-Eu quero você.
Ela cambaleou, andou para trás e pisou na bandeja.As cinzas mancharam sua meia e então se lembrou...Lembrou-se de seu amante.Ela acabara de trai-lo...
Ele se aproximou e pôs-se a explicar sua idéia.
-É simples: você namora comigo ou eu conto para seus pais sobre o que vi agora...
E agora?O que a garota faria?
Se não aceitasse seu primo a delataria e ficaria sem poder se encontrar com seu amante.Se o fizesse estaria o traindo...
Ela aceitara a proposta.
Foi então que se iniciou a triste relação onde se envolvia um garoto, uma garota e o fogo...
O garoto aparecia todos os dias para por seu plano em prática.
A garota parecia não se importar com os abraços e beijos que ele a mandava dar...Só os fazia por pensar que se por um acaso alguém viesse a descobrir seu segredo ela tivesse que parar em um manicômio...
Se por um acaso ele não tivesse a ensinado a queimar formigas, ele poderia a ter por forma natural.E não através de uma ameaça.
Então assim eles formariam um belo casal...
Quem sabe se ela tivesse sido apresentada ao seu amante...
Ela não teria que morrer em chamas?
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