Subo as escadas do prédio bem devagar; me preparado para o encontro com minha mãe.

Abro a porta do apartamento e a fecho assim que entro, passo pela sala de estar e vou para a cozinha, sei que ela está lá fazendo o almoço.

–Cheiro bom. – Digo me sentando na cadeira que fica junto à bancada que divide a cozinha da sala de estar.

–Você foi para escola mesmo depois de eu ter falado que garotos normais não vão á escola nos primeiros dias de aula. – Ela se vira com uma colher de madeira na mão e uma expressão mortífera no rosto.

Olhar para ela me da vontade de rir, mas me seguro.

–Ainda bem que eu fui mãe – falo sorrindo. – Porque além de o professor chato de inglês ter passado um exercício avaliativo, eu vi muitos dos garotos normais lá hoje; acho que até o Asher Beal está na minha sala – minha mãe ama os Beal, seu sonho é que eu e o Asher sejamos amigos. – E eu falei com a Karen Franco depois da aula... O Asher terminou com ela.

Minha mãe joga a colher encima da pia e começa a bater palmas e isso realmente me assusta.

–Eu te falei que esse ano vai ser diferente, João. E agora que a Karen não está namorando o Asher, e você está conversando com ela... Talvez vocês... – Ela esfrega o dedo indicador da mão esquerda no da direita indicando que eu e Karen podíamos... Você sabe.

–Eu disse que falei com ela, e não que estamos conversando e caminhando em direção a um relacionamento sério e á uma noite de sexo, mãe.

–Eu não disse isso – ela diz sorrindo e se vira para o fogão. –Quase que o arroz queima. – Ela grita.

Me levanto e vou para o quarto sorrindo.

Abro a porta e jogo a bolsa encima da cama que fica do lado direito do quarto, ao lado da cama fica minha estante e ao lado dela a escrivaninha com o computador. Do lado esquerdo tem uma poltrona de couro preto e próximo a ela está à porta de vidro que vai para a varanda. Na parede que fica a porta, do lado esquerdo para quem entra no quarto está o meu guarda-roupa.

Tem vários pôsteres espalhados pelas paredes do meu quarto: de séries que assisto, de livros que comprei pela internet e vieram com pôster, e de DVDs de filmes baseados em livros que eu “peguei emprestado” dessas lojas que vendem DVDS e CDs. Tenho exatamente cem livros, minha estante é pequena e faz parecer que tenho livros demais.

Tiro a calça e visto um short jeans escuro e em seguida abro a porta entrando na varanda. Nosso apartamento é diferente dos outros do prédio, ele é a junção de dois e por isso tem quatro pequenas varandas: uma na sala de estar, uma no meu quarto, uma no quarto do meu irmão e outra no quarto da minha mãe.

Olho para a cidade e respiro fundo, daqui da pra ver o telhado velho da escola e o prédio onde a Karen mora... Balanço a cabeça ao perceber que estou pensando nela. Não acredito que estou considerando a loucura que minha mãe disse. Como se ela com sua pele branca cheia de maquiagem, seu cabelo preto cheio de química e seu corpo magro fosse combinar comigo, com minha pele queimada de sol, meu cabelo castanho encaracolado e minha barriga com gordurinhas.

Viro para esquerda e percebo que meu irmão está na varanda de seu quarto lendo um livro – que eu não consigo ver a capa e sei que vou ficar maluco querendo saber qual é o livro que ele está lendo – ele não percebe que eu estou ali então entro no quarto devagar e deixo a porta aberta.

Pego O Pacto que está encima da escrivaninha e me sento na poltrona e começo a lê-lo. Estou com fome, mas estou com mais vontade ainda de terminar o livro, então deixo o almoço para lá.

É quase quatro e meia da tarde, eu estou mexendo no computador fazendo uma resenha no Skoob sobre o livro ótimo que acabei de ler, e então Pit me liga e diz que está subindo. Saio rapidamente do quarto e vou abrir a porta, uns três minutos depois ele chega subindo a escada.

–Nem pensar que eu subo nessa coisa velha. – Ele aponta para o lado do elevador.

–Veio na hora certa – eu digo assim que ele entra. – Minha mãe chega daqui meia hora.

Pit já veio em minha casa antes, é claro, mas isso foi nas férias e minha mãe estava trabalhando; por isso ela não o conhece.

–Trouxe um filme para nós vermos. – Ele diz balançando uma pequena caixa retangular de plástico na mão direita.

–Só vou postar uma resenha no Skoob e a gente pode assistir. – Vou em direção ao meu quarto e ele me segue.

Me sento em frente ao computador e escrevo: “Esse é um livro que eu realmente indico”. Logo depois clico em “Salvar Resenha”, fecho o navegador e desligo o computador.

–Qual você vai ler agora? – Pit pergunta enquanto olha a lombada dos livros em minha estante.

–Esse. – Levanto e tiro o livro vermelho da primeira fileira da estante.

Ele lê o nome na capa do livro e diz:

–“Perdão, Leonard Peacock”? De novo?

–Ele não é meu livro favorito à toa. Um livro realmente bom deve ser lido mais de uma vez. E além de tudo eu pretendo decorar todo o livro, então dessa vez vou lê-lo duas vezes.

Guardo o livro de volta no lugar e falo:

–Vamos logo assistir o filme, e afinal que filme é esse?

–“Somos tão Jovens”. – Ele me entrega o filme e nós vamos para a sala.

Na capa do filme está um cara com uma guitarra com a boca muito aberta junto á um microfone e um monte de pessoas atrás dele.

–Esse não é o filme do Renato Russo? – Pergunto quando chegamos à sala de estar e percebo o quanto minha duvida tem uma resposta óbvia já que na própria capa do DVD está escrito “Thiago Mendonça é Renato Russo”.

Pit responde do mesmo jeito:

–Sim, eu já assisti e tenho certeza que você vai amar.

Claro que eu vou gostar principalmente se tiver as musicas da Legião Urbana na trilha sonora (outra coisa totalmente óbvia).

Ligo a TV e o aparelho de DVD e logo depois coloco o filme. Fecho as cortinhas da porta da varanda para evitar a claridade que vem de trás da televisão e nós nos sentamos no sofá.

O filme é realmente bom, começa com o Renato Russo andando de bicicleta e abrindo os braços como naquela cena épica de “O Titanic” e então de repente eu sou jogado para dentro do filme e nem vejo as coisas passando.

Então, quando o filme chega na parte que o Renato Russo e seus dois amigos estão fazendo um show em um espaço fechado, a porta do apartamento se abre.

–João! Cheguei. – Minha mãe entra com sua bolsa preta no ombro direito.

Dou pausa no filme e me viro para ela.

–Oi, mãe! Esse é o... Alexandre, meu amigo – dei uma pausa para dizer o nome certo de Pit, se eu falasse o apelido dele ela iria querer que explicássemos agora mesmo.

–Ah! Oi Alexandre, eu sou Marta – ela chega para perto do sofá e aperta a mão dele. – Vocês estão assistindo um filme? – Essa coisa de fazer perguntas com respostas óbvias deve ser de família. – Vou fazer pipoca para vocês.

–Não precisa mãe, o filme já ta acabando – na verdade não está, mas se minha mãe fosse fazer pipoca para nós ela ficaria conversando e não nos deixaria assistir.

–Tem certeza?

–Sim, tenho certeza.

Ele assente com a cabeça e vai em direção ao seu quarto. Eu aperto o “Play” e o filme começa novamente.

–Sua mãe parece ser legal – Pit fala assim que a porta do quarto da minha mãe se fecha.

–E ela é, o problema é quando ela começa com suas ideias malucas de me tornar uma pessoa normal.

–Sobre isso, vou começar a tentar a ser normal com você.

–Mentira – começo a rir, nós nem estamos mais assistindo o filme.

–Meu pai começou com essa história de que eu deveria sair mais e como ele mesmo disse “Não ficar tanto tempo preso no quarto jogando vídeo-jogo”.

–Vídeo-jogo? – Comecei a rir.

–Ele disse que esse ano vamos fazer vários programas de Pai e Filho.

–Não tem como piorar.

Ele olha para mim com uma expressão série como se pedisse ajuda e diz:

–Tem sim! Ele disse que estou velho demais pra ainda ser virgem, e eu acho que ele ta pensando em me levar em uma... Não sei como dizer isso.

–Em uma casa de prostituição? – Pergunto e ele assente com a cabeça. – Ainda bem que minha mãe não pensa assim, ela quer que eu conquiste uma menina e tenha uma noite maravilhosa. Na verdade ela começou a pensar que isso poderia acontecer com a Karen, só porque conversei com ela hoje.

–Você conversou com a Karen?

Conto para ela sobre o que aconteceu depois da aula e sobre o Asher ter terminado com a Karen. Ele ficou sério quando eu disse isso, acho que é porque começou a imaginar o quanto a Karen irá ficar ainda mais chata com todos.

–Acredite ou não – começo a falar. – Estou ansioso para ver como vai ser na escola amanhã.

A porta do quarto do meu irmão se abre e ele sai usando uma calça jeans, uma camiseta preta e um tênis All-Star preto. Sua bolsa marrom de uma alça só está sob seu ombro direito. Ela está indo para a faculdade.

–Oi – ele diz para Pit ao passar por nós e ir em direção a porta.

–Oi – Pit responde, e Julio sai logo em seguida. – Seu irmão é tão estranho.

–E ainda sim é mais normal do que eu – respondo.

Terminamos de assistir o filme e eu chamo Pit para comer um sanduíche – e foi só então que percebo o quanto estou com fome.

Minha mãe sai do quarto e vai para o banheiro tomar seu banho enquanto comemos na cozinha.

–Oi, pai – Pit diz quando seu telefone toca e ele atente. – Tudo bem, já vou descer – ele desliga e diz para mim – meu pai está me esperando lá embaixo.

Ele vai em direção a porta com seu sanduíche na mão.

–Até amanhã, então. – Falo passando em sua frente e abrindo a porta.

–Amanhã é a sua vez de ir na minha casa – ele diz parando do lado de fora.

–Ah, eu vou sim, e minha mãe vai amar saber que eu vou a sua casa. Tenho certeza que ela vai dizer “Garotos normais sempre vão na casa de seus amigos”.

Nós rimos.

Em seguida Pit desce correndo a escada.

Ouço algum barulho vindo do apartamento vizinho do lado esquerdo, e como a porta ta aberta – e também porque sou muito curioso – vou até lá ver o que o é.

–Por que você ta limpando aqui, Isaias – pergunto ao ver o porteiro do nosso prédio varrendo o apartamento vazio.

–O atual proprietário vai colocar á venda – ele responde com seu típico ânimo.

Volto para dentro de casa um pouco animado, seria bom ter novos vizinhos.