Chegamos à praça e Thomás nos guia para o grupo de mais ou menos vinte pessoas que está em um espaço na parte de trás do palco.
— E aí Thomás – um garoto com um violão no colo grita. – Oi Aline.
Alguns outros também os cumprimentam e ninguém parece achar estranho que estejamos usando esses macacões.
— Caso esteja se perguntando – Aline diz próxima a minha orelha. – Todos da escola já estão acostumados com nossas loucuras.
Nos sentamos os três em um espaço na roda e ficamos cantando junto com os outros algumas musicas um pouco românticas demais para o “meu gosto próprio”.
— Não achei que esse fosse o tipo de musica que vocês curtissem – digo para Aline e Thomás. – Pensei que vocês gostassem de algo mais animado.
— E nós gostamos, mas... – Aline começa a falar, mas Thomás a interrompe.
— Vou resolver isso – ele diz e se levanta batendo palma para chamar a atenção de todos. – Sejam sinceros, vocês querem passar a noite toda aqui cantando musicas deprê e entrando na profunda bad? – A maioria do pessoal balança a cabeça dizendo que não. – Então eu vou resolver isso.
Thomás sai da roda e vai andando em direção do palco, ao chegar lá ele sobe pela escada lateral sem hesitar. Mais ou menos três minutos depois uma musica eletrônica começa a tocar nas grandes caixas de som ao lado do palco e Thomás desce todo animado pela escada.
— Vamos lá para frente! – Ele chama e vamos todos atrás dele.
Ele vai até uma barraca de bebida que está iluminada com luzes de diferentes cores e então começa a distribuir bebidas para todo mundo.
— Por que alguma coisa me diz que isso não está nem perto da “coisa” mais animada que ele já promoveu? – Digo dançando ao lado de Aline e olhando para Thomás.
— E não é mesmo! – Ela responde sorrindo. – Uma vez nós fizemos uma festa na casa dele e todo mundo ficou super bêbado e acabou dormindo no chão da casa dele ou no jardim, teve até um garoto que sofreu um coma alcoólico.
Thomás vem andando em nossa direção dançando e com umas latas de bebidas nas mãos.
— Caso isso seja para mim, devo avisá-lo que eu não bebo – digo.
— Hoje você não é o Alexandre, é o urso pardo – ele diz e me entrega a bebida. – O urso pardo bebe.
— Você é bem persuasivo – abro a lata e dou um gole, o conteúdo dela é amargo e não me agrada em nada o paladar.
— Como assim vocês ousam fazer uma festa e não me convidam? – Diz um garoto meio gordinho de trás de Thomás.
— E aí Pedro – Thomás diz dando-lhe um abraço rápido. – Foi uma coisa de última hora, vamos pegar uma bebida para você. – Ele vai andando com o garoto em direção à barraca de bebidas.
— Esse é o garoto que sofreu o coma alcoólico na festa que eu te falei – Aline diz perto do meu ouvido. – Acabei de ver uma colega de classe, vou ali conversar com ela e volto agora – e então ela sai e eu fico lá parado sozinho.
Fico lá parado por alguns segundos até que, como se tivesse se teletransportado, um garoto alto meio estranho para em minha frente.
— Você é um belo urso marrom – ele diz sorrindo. – Eu sou Frederico.
— Alexandre – estendo a mão para apertar a dele. – Prazer em conhecê-lo. – Digo por educação.
— O prazer é todo meu – ele diz sorrindo. – Mas pode ser um pouco maior...
— Sai daqui Frederico! – Thomás aparece de repente.
Ele anda até o meu lado, coloca o braço esquerdo sobre os meus ombros e então sem que eu esperasse dá um beijo em meu pescoço e eu agradeço aos céus por estar vestindo algo que tenha mangas longas para esconder que estou completamente arrepiado.
— Você tá se metendo no meu território... Cadê o seu namoradinho possessivo?
— Eu já falei que nós não estamos mais namorando – o garoto parece estar irritado. Ele dá as costas para nós dois e então sai andando.
Thomás tira o braço de trás do meu pescoço e então fica parado em minha frente.
— Desculpa por isso, mas se eu não agisse com você como um cachorro marcando território o Frederico continuaria dando investidas.
— Tudo bem... digo, sem problema. – Tudo bem? Sério Alexandre?
— O que eu perdi? – Aline diz parando no mesmo lugar que estava antes.
— O Frederico estava dando encima da nossa fração loira natural do trio. Mas eu já o botei pra correr, e está na hora de aproveitarmos a festa.
Thomás nos puxa para junto do pessoal de sua escola e nós começamos a dançar e a beber cada vez mais – e estranhamente eu sinto realmente como se não fosse o Alexandre, nessa noite eu sou o Urso Pardo!
*
Horas depois eu estou completamente cansado, mas ainda estou muito animado. Todo o álcool que eu ingeri subiu para minha cabeça e tudo parece estar rodando ou se movimentando estranhamente.
— Eu preciso me deitar – digo para a segunda Aline em minha frente, deve ter umas três ou quatro dela aqui.
— Todos precisamos – Thomás aparece do meu lado e entrelaça o seu braço ao meu e Aline segura o meu outro braço.
Nós andamos juntos até o espaço gramado um pouco distante do palco e nos deitamos um do lado do outro; viro o rosto para o lado e antes de cair no sono vejo o sol nascendo no horizonte.
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