Bato na porta do quarto 23 no segundo andar e a porta se abre rapidamente, olho para minha mãe enquanto entro e vou à procura do meu pai. O encontro sentado na grande cama de casal com seus óculos de grau refletindo a luz do computador a sua frente.
— Sabe o que algumas pessoas do escritório do Raphael Lavorini me contaram? – Ele diz olhando para mim por cima dos óculos e nem espera que eu responda. – Que o filho dele, aquele Thomás, é bem conhecido aqui na cidade... digamos que por ter uma visão de sexualidade bem ampla.
— Não entendi – digo simplesmente.
— E não precisa, apenas tenha cuidado ao andar com ele, só não te proíbo de sair por aí com ele porque preciso fechar esse negócio com o Lavorini, e de qualquer forma não vamos ficar muito tempo por aqui. – Ele vira para o lado e se estica para pegar uma chave sobre a cômoda ao lado da cama e a joga para mim. – Você vai ficar no quarto ao lado, não durma tarde.
— Eu estava pensando em sair com o Thomás e a Aline – digo. – A gente vai ao circo.
— Você vai ao circo? – Ele diz de forma ríspida, mas percebo que está se segurando para não rir. – Tudo bem pode ir com eles, mas não deixe o telefone no silencioso.
— Obrigado, pai – me viro para sair do quarto, mas ele me chama novamente.
— Aquela menina, a Aline, é muito bonita, Alex – ele diz sorrindo. – Aproveitar a vida ás vezes faz bem.
Não digo nada, apenas me viro e dou um abraço na minha mãe antes sair.
— Coma algo antes de ir para a rua – ela diz e eu assinto.
Eu simplesmente odeio quando meu pai tenta me fazer ser esse tipo de garoto que dá encima de qualquer garota – e devo ser sincero, eu não dou encima de ninguém. Não que eu não tenha olhado para Aline e não a tenha visto dessa forma, é só que... Não acho que tenha chance com ela, e nem prefiro pagar para ver esse “acho” se tornar ou não uma certeza.
O quarto em que eu fico é uma réplica daquele que meus pais estão, espaçoso, paredes pintadas de branco gelo, cama de casal com duas pequenas cômodas, uma de cada lado da cama, e um banheiro do tamanho do meu quarto da nossa casa em Novos Montes.
Me jogo na cama e fico deitado olhando para o teto por alguns segundos até que decido pegar meu telefone, abro o meu e-mail – sim, eu sou do tipo que fica olhando o e-mail a todo momento – a caixa de entrada está cheia de propagandas de uma loja de calçados que eu comprei um par de tênis uma vez e sei lá porque motivo decidi deixar meu endereço de e-mail quando eles me pediram. Sem ter o que fazer vou de pasta em pasta olhando os diferentes categorias de e-mails, entro no espaço dos enviados e desço a página até que vejo uma mensagem no fim dela.
Para: indecisojoao@gmail.com, está escrito na mensagem, Assunto: Matéria para estudo do trabalho de Matemática.
É estranho fato de que eu não converse mais com alguém que era meu melhor amigo, mas eu não acredito em amizade a distancia, o João até me mandou um e-mail tentando falar comigo, mas eu o ignorei, não quero alimentar essa mentira. Se eu tentasse insistir nós ficaríamos alguns dias conversando, contando sobre as novidades em nossas vidas – mais na dele do que na minha, aposto –, mas então começaríamos a nos falar cada vez menos e então não existiria mais nada, apenas mais um contato na minha agenda.
Me levanto da cama em um salto e ando até o banheiro, meu pai deixou a bolsa com as minhas coisas sobre a tampa do vaso e eu tiro minha toalha verde de dentro dela e a deixo no suporte ao lado do Box do chuveiro; depois de tirar toda a roupa entro no Box e tomo um banho demorado.
Fico jogando em meu telefone até ás 18h30min, e então depois de me trocar saio do quarto e desço para o térreo pela escada. Quando chego à recepção do Hotel e ando até a saída vejo Aline e João em pé parados no meio da calçada usando o macacão que cada um escolheu – Aline com a de tigre e Thomás com a de dinossauro azul.
— Vocês chegaram cedo? – Pergunto quando me aproximo deles.
— Não queríamos deixar você esperando. – Thomás responde sorrindo.
— Fico feliz pela preocupação – digo pegando o telefone em meu bolso e mandando uma mensagem para minha mãe dizendo que já estou indo e que comi uma bolacha que estava no frigobar, e depois de tirar o telefone do silencioso o guardo no meu bolso.
— Bom, pode começar a vestir o seu uniforme de ir ao circo – Aline diz me entregando a sacola com o macacão, e eu o visto ali mesmo no meio da calçada sobre a roupa que estou usando.
— Pronto, podemos ir – digo assim que fecho completamente o zíper e coloco o capuz que é a cabeça do urso, e nós saímos andando.
Atravessamos a rua e vamos seguindo por uma longa avenida e depois de uns minutos andando viramos em uma esquina e então paramos em um ponto de ônibus.
— Nós vamos pegar a 3672 ou a 3781? – Aline pergunta para Thomás.
— A 3781, dessa vez não podemos errar.
O ônibus não demora a passar – dessa vez olhamos bem para ter certeza que não é o errado – e o motorista, o cobrador e as pessoas dentro dele ficam nos encarando. Nos sentamos em uns assentos vazios no fundo do ônibus e rimos ao perceber que as pessoas ficam se virando para trás para nos olhar; Thomás e Aline me contam sobre uma vez em que estava fazendo muito calor e eles dois, juntamente com o outro amigo deles, Marcos, convenceram a um grupo enorme da escola á irem de roupa de banho para a escola; aparentemente o diretor deles ficara tão irado que cancelara as aulas no dia e Thomás chamou todos para irem para o clube da família dele.
Sem que eu perceba chegamos ao Parque Municipal e nós três descemos completamente animados – não sei bem o porquê, mas estou ansioso para ver o espetáculo. Entramos na pequena fila para comprar os ingressos e ficamos olhando para as luzes que são possíveis ver do lado de fora, pelo som que vem de dentro do parque o espetáculo já começou.
De repente, quando já está quase na nossa vez de comprar os ingressos um homem alto vem até a gente com a cara fechada.
— Desculpe garotos, mas vocês não podem entrar com essas roupas – ele fala cuspindo.
— Qual o problema de entrarmos vestidos assim? – Thomás questiona.
— Olha crianças, não procurem problema, vão tirar essas roupas ou não poderão assistir ao espetáculo – o homem diz e então sai andando em direção à entrada e parando lá.
— Eu não vim até aqui usando esse macacão para não entrar – digo. – Qual o nome do prefeito daqui?
— Pedro Ferreira, por quê? – Aline fala.
— Vocês verão – falo e ando em direção ao homem que veio até a gente, Aline e Thomás me seguem. – Você com toda certeza não sabe, mas eu sou o filho de Pedro Ferreira, o prefeito dessa cidade. Se você não deixar que entremos eu ligo para o meu pai agora e peço para ele arrumar um jeito de cancelar o show de vocês não só aqui, mas em qualquer cidade de Minas Gerais.
Depois de uns cinco segundos – provavelmente o tempo que ele levou para interpretar o que eu falei, ou para se questionar se eu estava dizendo a verdade ou não – o homem abre a portinhola e nos dá espaço para entrarmos.
— O dinheiro dos ingressos – Thomás diz entregando algumas notas para o homem.
Solto a respiração enquanto entramos e começo a me questionar onde eu tirei coragem para fazer isso.
— Isso foi muito legal! – Aline diz rindo.
— Eu sempre quis fazer algo assim – admito sorrindo.
Lá dentro, debaixo da lona, está tudo completamente escuro a não ser o circulo no meio onde uma mulher alta está fazendo um truque de mágica de fazer um chapéu flutuar.
— Vamos sentar na parte mais alta – Aline sussurra e nós vamos andando atrás dela.
Passamos andando pelo espaço ao lado do circulo iluminado em que a Mágica está fazendo seu truque. Aline e Thomás começam a subir pela arquibancada um do lado do outro e eu vou logo atrás, até que escorrego em algo e sinto que vou cair para trás, então seguro na parte de trás do macacão dos dois, mas acabo puxando eles comigo. Nós três acabamos rolando para dentro do circulo iluminado, eu bato o braço em um refletor que há no chão e ele acaba virando para cima e então todas as pessoas comaçam a rir; por um momento penso que todos estão rindo de nós três, mas então olho para cima e vejo um homem no alto com uma vara de pesca com uma linha que vai até o chapéu “flutuante”.
Thomás se levanta e ajuda Aline e eu a nos levantarmos também. Me abaixo rapidamente e coloco o refletor na posição que ele estava anteriormente. Então ficamos os três parados um do lado do outro com a luz sobre a gente e toda a plateia nos olhando, e sem saber o que fazer abaixo fazendo uma reverência como se fosse um daqueles atores ao final de uma peça e Aline e Thomás fazem o mesmo. As pessoas nos aplaudem, acho que elas pensam que nós fazemos parte do show.
— Acho melhor irmos embora – Aline diz segurando nossas mãos e nos puxando em direção à saída.
Quando chegamos à saída decidimos começar a correr o que faz com que as pessoas na rua nos encarem ainda mais.
— Que tal se a gente for para a praça? – Thomás pergunta. – O pessoal da escola combinou de se encontrar lá.
— E desde quando você gosta do pessoal da escola? – Aline diz rindo.
— Desde nunca, mas você sabe que eu gosto de uma boa bagunça.
— Por mim tudo bem – digo. –, mas nós não vamos tirar esses macacões?
— Não! – Os dois respondem juntos e então começam a rir.
Vamos andando até um ponto de ônibus e ficamos esperando.
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