Ficamos alguns minutos parados no ponto de ônibus completamente em silêncio, até que Aline decide que quer uma foto minha.

—Por que você quer uma foto minha? – Pergunto com a mão sobre o rosto.

—Porque você parece ser alguém especial, e eu quero me lembrar de você – ela diz simplesmente.

Ela acabou de me conhecer e já acha que eu sou especial? Essa garota é mesmo maluca!

—Aline vai embora para a Itália depois que nos formarmos no terceiro ano – Thomás começa a falar. – Então ela decidiu fazer um mural com fotos de todas as pessoas que conhecer em seu último ano no Brasil, para não se esquecer de ninguém.

—Bem, dois mil e quinze só começa depois de amanhã – digo, e sorrio por dentro ao pensar que com toda certeza meu pai irá conseguir resolver todos os seus assuntos com o Sr. Lavorini até amanhã de tarde.

—Tudo bem – Aline diz sorrindo. – Então você promete que no primeiro dia do ano que vem vai deixar que eu tire uma foto sua?

—Claro, por que não?! – Sorrio ao dizer.

—Sorte minha que o pai de Thomás gosta de revisar tudo nos mínimos detalhes quando se trata de negócios – ela diz sorrindo. – Então eu tenho certeza que você vai estar aqui no ano novo.

Inevitavelmente o sorriso sai do meu rosto.

—Lá vem o nosso ônibus – Thomás avisa e nós ficamos parados na calçada esperando ele parar. Subimos um atrás do outro e Thomás paga ao cobrador a passagem de nós três, quando eu tento dizer que não precisa ele simplesmente tira o dinheiro do bolso e entrega ao homem do lado da catraca.

Eu e Aline nos sentamos um do lado do outro e Thomás fica em pé do lado do assento. Viro a cabeça para a janela e fico olhando a rua enquanto o ônibus vira para a direita.

—Esse não é o caminho da CARM – Thomás fala e então anda até o cobrador. – Qual ônibus é esse?

—Esse é o 0303 – o homem responde sem olhar para ele.

Thomás volta andando e para no mesmo lugar de antes.

—Eu achei que esse era o 0363 – ele diz sorrindo, e então olha para mim – bem, pelo menos vamos fazer a sua vontade de conhecer a cidade.

—É, o destino está sempre arrumando alguma forma de brincar com nossas vidas. – Digo e viro a cabeça olhando para a rua.

****

Trinta ou quarenta minutos depois – o que eu acharia tempo demais sentado dentro de um transporte se já não estivesse acostumado com as viagens que faço com meus pais – chegamos ao destino final do ônibus e Aline e eu descemos atrás de Thomás.

—Bem-vindo ao São Pedro, o segundo maior bairro de Rosa Maria – Thomás fala enquanto seguimos andando pela calçada.

—E também o bairro mais perigoso – Aline fala.

—Você está brincando, não está? – Pergunto assustado.

—Na verdade ela não está não – Thomás responde com calma. – O índice de assaltos do São Pedro é maior que o de qualquer outro bairro da cidade.

Olho para os dois sem conseguir entender porque eles estão agindo com calma e eu fico me perguntando como alguém pode ficar calmo estando no bairro mais perigoso da cidade?

—Não fica preocupado, ninguém vai fazer nada com a gente à luz do dia – Aline diz sorrindo.

—Que pena – digo sarcasticamente. – Eu bem que sempre tive essa vontade ser perseguido por criminosos.

Os dois riem enquanto seguimos andando.

Pelo caminho Thomás mostra alguns prédios antigos que foram construídos quando o seu tataravô fundou a cidade – sim, o garoto estranho é tataraneto do fundador da cidade –, alguns dos prédios estão totalmente acabados, já outros parecem ter recebido uma reforma inicial que não foi completada; quando atravessamos a rua alguns minutos depois começam a aparecer casas relativamente novas, e eu fico assustado ao ver que os muros de todas elas têm cerca elétrica.

—Gente, não que o passeio esteja ruim, mas será que podemos ir embora? – digo quando vejo um ponto de ônibus na esquina da rua em que estamos.

—Tudo bem... – Thomás começa a falar, mas é interrompido por uma voz que vem de trás de nós.

—Parados os três – diz uma voz masculina, e nós três nos viramos juntos. – Passem tudo o que tiverem nos bolsos – diz um homem branco e alto usando um gorro preto e com uma faca enorme na mão.

—Tudo bem, todo mundo calmo – Thomás fala e o que acontece a seguir não é bem uma coisa que eu tenha escolhido fazer.

Ando até o homem devagar enfiando a mão no bolso como se fosse tirar meu telefone e quando estou perto o suficiente dele levanto a perna rapidamente e dou um chute em sua mão o que faz com que a faca caia no chão.

—Corre! – Grito ao me virar e olhar para Aline e Thomás e começo a correr.

Corremos os três lado a lado e quando olho para trás vejo o ladrão vindo atrás da gente com a faca na mão.

—Ele está atrás da gente! – Grito com força para caso alguém passe pela rua possa nos ajudar.

—Vira à direita – Thomás diz indicando a próxima esquina.

Atravessamos a rua correndo em direção a esquina que Thomás indicou e no mesmo momento um ônibus passa virando no mesmo lugar e agradeço imensamente ao ver um ponto de ônibus logo à frente.

—Muito obrigado, Deus! – Digo quando o ônibus para e a porta se abre.

Paramos na porta do ônibus esperando as duas pessoas que estavam no ponto subir e viro a cabeça para tentar localizar o assaltante, ele começa a atravessar a rua no momento em que começamos a subir.

—Por favor, feche a porta aquele homem estava tentando nos assaltar – Aline diz para o motorista, o homem fecha a porta rapidamente e então arranca com o ônibus.

Thomás paga a nossa passagem e nós nos sentamos – eu ao lado da janela, ele do meu lado e Aline em seu colo.

—Esse ônibus vai para onde? – Pergunto ainda ofegando.

Aline se levanta e vai até a cobradora.

—Qual ônibus é esse? – Ela pergunta.

—Esse é o 0363 – diz a mulher.

Só pode ser brincadeira.

Aline volta e se senta no colo de Thomás novamente.

—Sabe Alexandre, acho melhor você tomar um pouco mais de cuidado com o que você pede – Thomás fala. – Espero que você nunca tenha desejado algo que seja prejudicial à saúde.

—E revidar a um assalto por acaso não é prejudicial à saúde? – Aline fala e no mesmo momento os dois começam a rir, e inevitavelmente eu acabo rindo também.