A Ilha do Rei Pirata
1 Capítulo Único
Notas iniciais

Parados em frente a uma antiga estação de trem, dois rapazes relembravam o passado. A estrutura estava deteriorada por conta do tempo, e na memória de Kurosaki Ichigo e Grimmjow Jaegerjaquez, aquele local sempre foi daquele jeito: velho e sujo. Não era o lugar mais bonito ou aconchegante do mundo, mas era ali onde se sentiam bem. Foi naquela velha estação ferroviária em que as aventuras do Morango Mascarado e do Rei Pirata começaram.
*
Ichigo tinha dez anos, Grimmjow onze. Eram vizinhos e moravam em um vilarejo pobre afastado da cidade grande. Não tinham muito luxo como os outros garotos da escola, mas eram felizes. Os pais deles eram amigos e muito gentis, mas quando os dois garotos se conheceram, se detestaram. Os dois possuíam temperamentos muito fortes, e sempre entravam em desavença. A primeira vez em que brincaram juntos foi quando se encontraram por acaso na velha estação de trem. Ichigo estava com a fantasia que sua mãe fez no dia das bruxas de super-herói, brincando sozinho. Deparou-se com Grimmjow vestido de pirata: estava com uma armadura feita de papelão pintada de dourado, uma espada de madeira, um tapa olho e uma coroa de papel na cabeça.
— O que faz aqui, forasteiro? — O garoto de cabelo azul falou firme, franzindo as sobrancelhas. — Não sabe que essa ilha é território do Rei Pirata?
Ichigo não soube o que fazer naquele momento. Não sabia dizer se o menino estava brincando ou falando sério, mas não se intimidou. Ele arrumou a máscara dourada e fechou a cara. Fez sua melhor posição de batalha e disse:
— Eu vim para prender você, Pirata.
— Não me faça rir, Morango Mascarado! — Grimmjow gargalhou, apontando sua espada para o ruivo. — Lute comigo! O vencedor será o dono da Ilha.
Os dois sorriram e começaram a brincar. Ichigo havia gostado do apelido que recebeu do seu vizinho. Batalharam pela conquista da Ilha, que o Kurosaki supôs ser a estação. Nunca se divertiu tanto na vida! Depois de muito lutarem, Ichigo conseguiu desarmar o menino, derrubando-o no chão. Pegou a espada de madeira e pôs em seu peito.
— Eu venci — disse, sentindo-se alegre. Porém, as feições de Grimmjow não eram muito boas. Ele parecia com raiva, mas não necessariamente do Kurosaki. Parecia estar aborrecido com o fato de ter perdido a luta e, consequentemente a Ilha. Ichigo sentiu o coração apertar ao ver um pouco de tristeza nos olhos azuis.
— Ótimo, Morango Mascarado — murmurou desgostoso. — A Ilha é sua.
— Esse lugar é a Ilha do Rei Pirata, então é sua — disse Ichigo, devolvendo a espada ao menino caído. Estendeu a mão para ele, sorrindo. — Desde que você seja meu amigo.
Os olhos azuis ficaram grandes por conta da surpresa. Grimmjow parecia não acreditar que ouviu aquelas palavras saírem da boca do Morango Mascarado. Via Ichigo brincando sozinho no quintal de sua casa de vez em quando, e sempre quis chama-lo para brincar, mas nunca teve coragem. Estava mesmo com sorte naquele dia! Sorriu feliz, agarrando a mão do menino.
— Sim! — exclamou alegre. — Sejamos amigos, Ichigo!
Depois daquele dia, Grimmjow e Ichigo se tornaram muito mais do que melhores amigos: se tornaram parceiros de aventuras. O Rei Pirata tratava da paz na Ilha, enquanto o Morango Mascarado mantinha os inimigos longe. Quando eles se cansavam de brincar na estação, iam até a casa de um deles para assistir filmes de heróis e de piratas. Estavam imersos em um mundo só deles, descobrindo coisas novas todos os dias. Ás vezes eles entravam em conflito, mas nada de mais. Eram apenas duas crianças, brincando e criando uma amizade tão forte que surpreendia até os adultos que os cercavam. E a Ilha do Rei Pirata havia virado o refúgio deles; seu lugar preferido no mundo. Brincaram e chamaram outros amigos para brincar ali. Quando descobriram que faziam aniversário no mesmo dia, pediram encarecidamente aos pais que fizessem uma festa naquela velha estação de trem. Enfeitaram o lugar com coisas de pirata e de herói, que posteriormente seria a decoração permanente da Ilha. Se divertiram muito ali, mas as aventuras ainda estavam longe de acabar.
Certo dia, o herói e o pirata descobriram um tesouro. Foram até a lojinha do Tio do Chapéu vestidos com suas fantasias. Foram com o dinheiro suficiente para dois picolés, mas apesar da vontade de consumir o doce, desistiram assim que viram dois novos produtos na loja: uma máscara que simulava a boca de uma caveira, e um relógio de pulso com o formato de um morango.
— É isso que precisamos, Ichigo! — exclamou Grimmjow, pegando os produtos. — Eu fico com a caveira e você com o relógio!
— É um relógio de menina. Não vou usar isso.
— Deixa de ser fresco, ruivo — reclamou, revirando os olhos. Foi até o caixa e mostrou os produtos e o dinheiro que levaram. — Vou querer isso.
— Desculpe, Pirata-kun, mas o seu dinheiro não é suficiente.
Grimmjow começou a discutir com o dono da loja, e Ichigo pensou que se não o parasse, o negócio ia ficar feio. Pediu pro Tio do Chapéu anotar a quantidade de dinheiro que faltava e pegou o amigo pelo braço, levando-o para fora.
— Cara, nunca que vamos conseguir esse tanto de dinheiro! — Grimmjow gritou, frustrado. Já haviam voltado para a ilha e estavam pensando em como conseguir o tesouro do Capitão do Chapéu Verde. — Nossos pais não tem tudo isso para nos dar.
— É, eu sei. — Ichigo olhou para o amigo, admirando sua cara de bravo. Apesar de ter achado uma péssima ideia usar um relógio de menina, achava que o Rei Pirata ficaria ainda mais assustador com aquela máscara de caveira. Por isso, decidiu que iria fazer de tudo para ter o baú do tesouro.
Ichigo não era um pirata, e sim um super-herói. Usava uma máscara dourada e uma capa vermelha, agora com as letras “MM” gravadas nela. Seu senso de justiça e amizade dizia que se queria o tesouro, deveria conquista-lo da melhor forma possível. Em um sábado de manhã, vestiu seu uniforme e ao invés de ir para a Ilha encontrar o Rei Pirata, o Morango Mascarado foi até a casa de sua tia trabalhar. Iria cuidar do jardim, dos cachorros e dos gatos dela. No fim do dia, recebeu duas notas. Ainda não era o suficiente, mas já era um progresso. Correu para a velha estação, com medo de Grimmjow estar bravo por ter demorado a aparecer. Contudo, enquanto corria pelo caminho dos trilhos, o menino ruivo deu de cara com um Grimmjow fantasiado e todo sujo de tinta. Ele havia acabado de chegar e parecia feliz.
Quando se reuniram, Ichigo descobriu que Grimmjow havia trabalhado com o pai na oficina durante a tarde e ganhou quatro notas. Juntaram todo o dinheiro que tinham e descobriram era mais do que o suficiente para terem o tesouro. No dia seguinte, os dois meninos estavam na frente da porta da lojinha antes mesmo dela abrir. Compraram o relógio, a máscara, e dois picolés. Voltaram felizes para a Ilha do Rei Pirata, usando o caminho dos trilhos.
— Achei que não ia gostar do relógio de menina, parceiro — disse Grimmjow, imitando o linguajar de um pirata. — Ele fica bem em você, argh.
— Eu não ligo para suas piadas, Pirata. — Ichigo sorriu tímido e lambeu seu picolé azul. — Nossa missão foi cumprida. Temos o tesouro do Capitão do Chapéu Verde, e usamos a honestidade pra conseguir.
— Blá, blá, blá, conversa fiada. — Grimmjow terminou seu picolé de morango e se aproximou do amigo ruivo. — Eu sou O Rei Pirata. Consigo o que quero, quando eu quero. Nada a ver esse papo de honevistidade aí.
— Honestidade.
— Que seja! Argh!
Voltaram pra casa no fim da tarde. Lá no horizonte, o sol se punha. Dava pra ver muito bem do lugar onde caminhavam, nos trilhos velhos e enferrujados. Ichigo olhou para o amigo e ficou feliz ao ver ele sorrindo. Por alguma razão que não soube explicar, sentiu vontade de andar mais devagar. Queria que aquele momento durasse para sempre. Foi para mais perto de Grimmjow e pegou sua mão, morrendo de vergonha.
— Vamos mais devagar, Grimm — sussurrou, escondendo o rosto vermelho.
— Você tem que pagar se quiser que o Rei Pirata te faça algum favor. — O menino sorriu largo e chegou perto do herói. — Sua cara tá vermelha que nem um morango mesmo.
— Ca-cala a boca, Pirata! — Ichigo soltou a mão do amigo e se afastou. Seus olhinhos amendoados se encheram de lágrimas, tamanha vergonha que sentia. — Não preciso de favores seus!
— Ei, Ichigo, não chore. — O tom de brincadeira deixou a voz infantil de Grimmjow. — Desculpa por te fazer chorar, eu não queria isso.
— Eu não tô chorando, idiota! — Ichigo gritou, nada convincente. Começou a andar depressa, sem olhar pra trás. — Eu vou pra casa! Você já me irritou demais por um dia!
— Espera! — Grimmjow correu e segurou a mão dele, impedindo que continuasse. — Eu também quero andar devagar com você. Eu não queria dizer antes porque... e-eu queria o pagamento do favor.
Ichigo parou e respirou fundo ao ouvir as palavras do outro. Enxugou o rosto com a mão livre rapidamente antes de olhar para trás. Quase caiu para trás ao ver a face do Rei Pirata coberta de um adorável rubor. O contato visual manteve por um tempo até que o ruivo se manifestou.
— Qual o pagamento pelo favor, Pirata? — disse em seu tom autoritário, como o Morango Mascarado costumava dizer.
Nada foi dito por um tempo. Grimmjow entrelaçou os dedos nos de Ichigo e encarou sua boca. Não sabia se estava fazendo alguma “cagada”, como seus pais diziam, mas queria muito aquilo já fazia um tempo. Aproximou as faces devagar, esperando rejeição. Quando ela não veio, o menino não se segurou: franziu as sobrancelhas e juntou os lábios, como viu no seu filme preferido.
O primeiro beijo da vida dos dois foi velado pelo pôr-do-sol. Como combinado, caminharam para casa a passos curtos, de mão dadas e rostos vermelhos. Não sabiam o porquê, mas seus corações batiam forte no peito.
De noite, Grimmjow assistiu a seu filme preferido mais uma vez com seu pai. Viu seu herói, Capitão Barbossa e os outros membros da Corte da Irmandade lutarem contra Davy Jones e o Lord Cutler Beckett, se animando a cada cena. No entanto, ficou pela primeira vez intrigado com algo que achava “meninice”: Will e Elizabeth. Pensou em perguntar ao pai sobre essas coisas, mas ficou com vergonha. Tirou suas próprias conclusões sobre o que aqueles dois personagens sentiam, ficando cismado. Será que era a mesma coisa do que sentia por Ichigo? Ele não era um amigo como os outros. Mas também não era uma menina.
— O Ichigo te contou, filho? — O pai de Grimmjow chamou a atenção do menino, fazendo-o se esquecer dos pensamentos esquisitos. — Que a família dele vai se mudar pra cidade grande essa semana.
É inútil tentar explicar o que Grimmjow sentiu quando ouviu aquilo. Seu coração infantil não conseguia lidar com tantos sentimentos misturados, então não conseguiu dizer uma palavra ao pai. Correu para o seu quarto e afundou a cara no travesseiro, gritando de raiva até chorar. Ficou até o outro dia achando que Ichigo o odiava e por isso não contou algo tão importante mas, ao receber a visita dele bem cedinho, descobriu que ele também não fazia ideia de que iriam partir.
A última semana de aventuras para o Morango Mascarado e o Rei Pirata foi marcada por chuvas. O tempo ruim não impediu que os amigos fossem brincar todos os dias, aproveitando o máximo um do outro. Na véspera da mudança, Grimmjow saiu de sua casa correndo no meio da chuva e foi até a Ilha. Foi a primeira vez que foi até lá sem sua fantasia de Rei Pirata. Queria ficar sozinho, mas seu desejo foi negado. Ichigo apareceu alguns minutos depois, de capa e guarda chuva, com uma mochila nas costas. Seu rosto estava vermelho e os olhos cheios de lágrimas.
— Você vai se esquecer de mim? — perguntou o ruivo, sem esconder o choro. Grimmjow estava com a cara emburrada, mas era possível notar sua tristeza. — Vai, Rei Pirata?
— Mesmo se você pegar um navio e partir para o oceano, o seu lugar sempre vai ser aqui.
Abraçaram-se em seguida. Os meninos choraram como nunca, temendo o futuro. Mas apesar disso tinham a certeza que iriam se ver de novo. Ichigo beijou a testa do Rei, e disse:
— Não tire os olhos do horizonte, parceiro. Eu vou voltar.
*
Muitos anos se passaram desde a despedida. Encontraram-se de novo já adolescentes, e foi inevitável que se envolvessem amorosamente. Lembraram-se da infância, do primeiro beijo e do quanto se gostavam. Algo tão forte não iria desaparecer, mesmo depois de tanto tempo. Depois quase dez anos de namoro, Grimmjow e Ichigo resolveram voltar para a cidade onde cresceram, encontrar a velha estação de trem. Ela estava do mesmo jeito que deixaram, até os rabiscos que fizeram quando criança estavam lá. Recordaram-se das aventuras e da festa de aniversário. Choraram e namoraram um pouquinho ao lembrar-se de tudo o que viveram. Decidiram então dar continuidade ao amor que cultivaram, no mesmo lugar onde começou.
Na Ilha do Rei Pirata.
O Morango Mascarado pediu o Rei em casamento em seu trono de madeira. Decidiram que fariam a cerimônia naquele lugar, e quem sabe até não iriam fantasiados. Empolgados e apaixonados, os dois homens deram as mãos e caminharam ao pôr do sol pelo caminho dos trilhos, prontos para começarem uma nova vida. Voltariam a morar na cidade que tanto amavam, prometendo serem para sempre parceiros.
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