A Ilha

28 Inconsciente, Alegria e Engolido


A anaconda mal havia engolido o leopardo e já tinha conseguido localizar John na outra margem. Mergulhou e desapareceu dentro d\'água onde John imaginou que deveria estar a primeira anaconda.

As costas de John ardia, a pancada que o urso havia lhe acertado, de certa forma ficaria como uma lembrança em sua carne. Tico continuava desmaiado, e sem muita opção, John o carregou até um canto da arena, deixando-o repousar. Pegou sua Espada, colocou a lança na outra e seguiu até as proximidades da margem do rio onde ele ficaria esperando pelas anacondas.

No camarote Zudin não parecia expressar alguma coisa, e com sua máscara não era possível ver se está nervoso, tenso ou calmo e relaxado. Pulik estava de pé com as mãos no grande vidro que ficava a frente do camarote, estava olhando o homem que lhe traria uma fortuna, deitado ao canto da arena, próximo ao fosso que dividia entre a arena e a arquibancada. Sua expressão era de tristeza e mostrava também estar muito nervoso com tudo o que ocorreu. Develin continha seu riso e estava quase se levantando para ver o momento em que a anaconda apareceria para encerrar a batalha.

- Pulik sente-se para que possamos enxergar totalmente a arena. — disse Develin em tom zombeteiro.

- Não quero me sentar. — Pulik respondeu quase gritando. — Vou ficar aqui vendo o que acontece com Tico se não puder ver nada apenas levante-se e venha mais perto ver.

- Zudin, o que você acha desse combate? — perguntou Develin.

- Acho bastante injusto, mas sei que eu irei ganhar.

Develin que já não continha mais às risadas, agora ficou apreensivo e irritado com a resposta de Zudin.

- Acorda Zudin, aquele John não tem nenhuma chance contra duas enormes cobras daquelas, como você pensa que ele pode vencer?

- De algum modo eu percebo isso, e tenho plena confiança em minha vitória. — Zudin falava friamente o que deixava Develin cada vez mais irritado.

- Eu não agüento mais ver isso, é desastroso, não posso acreditar que perdi logo agora. — Pulik resmungava um pouco alto agora deixando os outros ouvirem.

- Mas ele está vivo ainda, você sabe. Não há por que se preocupar. — Disse Zudin acalmando-o.

- Eu sei, mas por ele estar inconsciente e com aquela ferida no estômago, eu imagino que mesmo que aquele John vença, a minha aposta não terá condições de batalhar contra ele depois. E pra piorar, a torcida vai considerar John favoritíssimo ao título e as apostas finais serão enormes em cima dele. — falou Pulik

- Já estou sabendo disso tudo, por isso continuo dizendo que não faço apostas para perder. — Disse Zudin convencido. — Irei ganhar essa.

- No que vocês dois estão falando, é óbvio, que John não tem chances contra aquelas anacondas, será que isso ainda não está claro pra vocês? — Develin continuava irritado.

- Develin apenas acalme, como você mesmo sabe, a vantagem e toda e completamente sua nesse momento, só estamos discutindo como pode ficar o torneio se você perder. — respondeu Zudin.

- É mesmo, também não sei por que estou me contrariando com algo que eu sei que já está certo. Esperemos o desfecho então. — Develin parecia ter ficado mais calmo e relaxado, se manteve em sua cadeira e olhou para a arena. — Vejam, daqui de cima podemos ter um visual das duas cobras, e aprece que uma delas vai subir logo.

Os três ficaram observando o que viria a acontecer embora Pulik se mantivesse depressivo já sabendo que suas chances eram realmente mínimas.

John parou há quase seis metros da margem, ficou esperando as anacondas, com a espada na mão esquerda e a lança na direita, estava pronto para atacar, seu coração batia acelerado e aumentava o ritmo da tensão a cada segundo que passava e nada das anacondas aparecerem, ficava movimentando os ombros e tentando relaxar as costas para que a marca feita pelo urso queimasse o mínimo possível, mas ele não podia evitar o latejar leve em suas costas.

As duas anacondas finalmente subiram, uma estava ao meio do rio e a outra saindo da margem muito próximo de John que ficou horripilado ao ver a altura do animal à sua frente.

John pensava em tudo que já havia feito e não queria perde essa batalha, mas sabia também o quão difícil seria enfrentar a cobra. Querendo aproveitar a chance de que só havia uma delas fora da terra, correu com a lança apontada para ela, a cobra o ignorou e rastejou com a cabeça erguida ao alto, quase três metros de altura do chão.

John acertou a lança próximo de onde havia um pequeno inchaço interno que deveria ser algum animal que ela havia engolido pouco tempo atrás.

\"... Esse John é formidável, ele ataca sem medo, mas a cobra o ignora como se fosse uma pequena formiga e parece nem ter sentido o golpe da afiada lança, como John fará para se salvar dessas cobras? Como Tico ficará ao final? O tempo não para e a contagem já chega aos cinqüenta minutos restantes\".

Um segundo e um terceiro golpe dado com muita força por John, mas de nada adiantou. Pensou numa estratégia e rapidamente conseguiu armar uma, mas seria muito arriscado de sua parte. Sem medo e com muita força de vontade e coragem, John subiu em cima da cobra e rapidamente escalou sua pele lisa, porém pouco escorregadia, chegou próximo à cabeça e tendo certeza de que havia chegado ao pescoço dela, passou a espada em seu pescoço tentando criar um corte.

Nada aconteceu, sua pele era muito dura, e tanto perfurar como cortar não seria muito fácil, mas de repente a cobra começou a se balançar tentando tirar John de cima dela, parecia que apesar de não ter sido cortada ela havia sentido, e chiava bastante.

John desceu dela e a encarou. Agora a cobra tinha os olhos vermelhos como o sangue demonstrando apenas naquele olhar muitas palavras. John sentiu que sua estratégia surtiu efeito e agora que viria a parte perigosa do plano. O contra-ataque da enorme cobra, ela desceu abriu a boca que ao olhar de John parecia pelo menos seis vezes maior do que o normal, ela o engoliu por completo.

A torcida silenciou de repente, o narrador ficou paralisado e em choque Develin pulou da cadeira e começou a comemorar, Pulik foi ao chão de joelhos resmungando e Zudin retirou sua máscara ficou de pé foi até o vidro e ficou observando, tentando acreditar no que tinha visto.

\"... É realmente inacreditável o poder abominável dessas anacondas, elas não têm pena nem ressentimento algum por qualquer coisa que esteja vivo a sua frente e lhe pareça uma presa fácil. Parece que assim encerraremos o torneio, que pela primeira vez não obteve nenhum campeão\".

O narrador continuou seu longo discurso como todas às vezes, o tempo marcava quarenta e oito minutos e quinze segundos.

Zudin não compreendia como aquilo pôde acontecer, era realmente inesperada a derrota daquele jeito, olhou por instantes e viu Pulik de joelhos esmurrando o chão e choramingando a derrota, voltou seu olhar para a cobra que havia derrotado John e olhou para a outra cobra que estava na margem do rio agora. Ainda inconformado, virou e disse:

- Vamos Pulik, somos pessoas de palavras, pagaremos nossas apostas. Develin, por favor me siga. Te levarei ao meu cofre no meu escritório, e poderá retirar o dinheiro lá.

- É assim que se diz Zudin. Vamos, venha também Pulik, assim eu já posso pegar seu dinheiro em seguida.

Assim, Pulik levantou passou a mão no rosto, olhou para seu guerreiro derrotado no campo e seguiu Zudin e Develin saindo do camarote.