A Hóspede

9 Waffles, cappuccino e um passado trágico


Notas iniciais
Desculpem a demora gente.
Minha festa de 15 anos foi sábado então eu estava super ocupada com os preparativos.
Vou postar alguns capitulos agora.
Só para compensar.
;)

-Não pareço um gangster com esses casacos? –Perguntou-me quando entrei na cozinha.

–Parece uma pessoa bem agasalhada. –Peguei uma caneca de cappuccino.

–Fiz waffles. –Disse me passando um prato com meia dúzia. –Espero que goste, já confesso que não caprichei muito! –Provei um. Estava delicioso. A puxei para perto de mim, sem jeito, com os lábios melados de mel. –Está ótimo! -Ela parecia estar a vontade com o ambiente, comigo, como se nos conhecêssemos havia anos. Quando iniciou o beijo doce, não queria que parasse, pois tudo em minha volta e um pouco mais distantes haviam se focado nela. Não sabia se eu gostava disso, afinal, nunca senti algo parecido antes, da mesma forma, eu só queria continuar preso àquele momento por mais um tempo.

–Era para estarmos almoçando sabia?

–Isso não tem importância! –Disse recomeçando o beijo, mais intensamente, já a afagando sob as blusas.

–Claro que tem! –Disse entre as carícias. –Saco vazio não para em pé e eu o quero bem firme e ativo! –Arrumou o colarinho do meu suéter. Sorri pensando nas variáveis interpretações cabíveis para esta frase. Tomei um último gole da mistura e comentei:


–Precisa me ensinar a fazer cappuccino assim.


–É um segredo da casa. –Não deve ser revelado –Negou pondo um pedaço de waffle na boca.

–Eu não poderia ser uma exceção? –Desci um pouco mais minha mão nas suas costas.

–Vou pensar no seu caso em particular. –Disse mordendo os lábios.

Tomamos cappuccino agarrados no balcão do centro da cozinha, rindo a toa das besteiras que dizíamos um no ouvido do outro, como dois tolos se descobrindo. Isso fez da manhã gélida algo mais ameno, das simples palavras, promessas que não foram prometidas, mas que seriam seguidas a risca.

Passamos a tarde juntos no sofá conversando, implorando em silêncio para que o tempo passasse menos de pressa, não voltaríamos tão cedo para nossas rotinas solitárias. Cada segundo com ela eram preciosos.

–Por que veio morar aqui, sozinho e afastado de sua família? –Afastado da minha família? Se fosse qualquer pessoa que me perguntasse isso eu seria grosso, extremamente mal educado. Sakura poderia ser sim alguém que acabei de conhecer, mas eu não sentia isso quando estava com ela e, de certa forma, ela não perguntou por maldade, eu sei, não há nem motivos para eu ficar bravo.


–É uma longa história. –Usei o clichê que parece funcionar usualmente para desviar o assunto.

–Boa para evitar o tédio! –Fracasso. Boa para distrair e trazer más recordações também.

–Eu não tenho família. –Esta afirmação pareceu ser dita de frente à um espelho, dita por mima mim mesmo. Depois de anos sem unir essas palavras nessa ordem, a frase pareceu dura como uma rocha, pareceu pesar em algum cantinho da minha mente e me despertou de um sonho que vivenciava com Sakura para um pesadelo de anos atrás.

–Eu sinto muito, não deveria ter...

–Sem problema, você não sabia. Além do mais, estamos nos conhecendo e esse fato faz parte de mim. –Ela permaneceu em silêncio me olhando com aquela expressão de pena, isso porque ela não sabia da história. –eu tinha dezesseis anos. Havia sete meses e dezoito dias que mudamos para o Alasca. Eu sempre contei [...].

Flash Back On

Um produtor musical consagrado do Estados Unidos acabara de me descobrir como pianista em um shopping da cidade de Anchorage, queria me levar para um estúdio oi para sua gravadora para fazer uns teste ou até um contrato, mas eu só tinha dezesseis anos, precisava de orientação dos meus pais, então liguei. Liguei em minha casa e ninguém atendia, para o meu pai e para minha mãe individualmente, mas nem eles me ouviram chamar. Como último recurso, tentei Itachi, ele me atendeu.

–Que foi?

–Cara, pega a mamãe e vem para o shopping. Agora!

–Fazer?

–É importante!

–Eu to numa festa! Não vou sair daqui por você sem ao menos saber o que houve.

–Não tem como falar por telefone...

–Tá perdendo a virgindade? Broxou? Engravidou alguém? Tá envolvido com drogas? Foi expulso da escola? Sofreu um acidente ou algo do tipo?

–Lógico que não! Eu estou bem!

–Então por que precisa de mim e da mamãe?

–Itachi, se não quiser vir, fala logo. Eu já disse que por telefone não dá para falar.

–É sério?

–Sim, muito sério!

–Não sei se vai dar para sair da festa...

–Ah! Tenta! Por mim!

–Tá...

–Mesmo?

–É.

–Vem rápido! Rápido mesmo!!!

Flash Back OFF


Fiz um silêncio angustioso tentando abafar a dor que eu sentia, a dor da culpa. Eu teria que contar o resto, não por ela, mas por mim mesmo. Precisava superar isto.

–Itachi estava a 120km/h, não viu a lombada a frente e... capotou o carro. –Levantei de supetão e fui para o ateliê. Tinha que pintar algo para abafar meu ódio ou começaria gritar e chorar como um louco depressivo. –Sasuke! –Ela correu atrás de mim preocupada. Peguei o pincel e comecei pintar qualquer coisa, para qualquer direção, mais rabiscos do que arte, mas ódio do que outra coisa cabível. Não me acalmou. Peguei a tela e a quebrei em duas partes, chutei, pisei, despejei vidros de tinta sobre, fiz uma bagunça enquanto ela estava a uns metros de mim, assistindo tudo aquilo acontecer com os olhos marejados. Acho que entendeu o final da história. O que me deixava mais nervoso é que ela mal continha o sentimento de compaixão por mim. Como eu odiava aquilo!

–Faltava três dias para o meu aniversário. –Sentei no assoalho de madeira encerado, mas relaxado e continuei. –Ela havia comprado esse piano para mim, estava limpando ele para quando eu chegasse em casa. Meia calda estava lustrada quando o vi pela primeira vez. Foi quando Itachi a chamou para ir com ele. Ir com ele bêbado! Eu juro que se soubesse jamais teria lhe pedido para ir, mas ele não me disse! –Uma gota escorreu no rosto de porcelana dela e posteriormente um mar brotou nos meus olhos, embaçando minha vista. Não queria piscar ou um dilúvio seria feito bem na minha face angulosa e áspera. Não queria isto. –Eu mandei ele vir rápido, levar nossa mãe para fazer minha ambição. Por causa do meu sonho bobo minha mãe está morta! Meu irmão está em coma! Meu pai é um alcoólatra, perdido em algum bar de Anchorage. –Soltei as lágrimas. Elas rolaram pelo meu rosto com uma destreza... Pareciam querer fugir de mim. Até minhas lágrimas sentem nojo do meu ser. Quem não sentiria? Hoje, tudo o que eu tenho é de valor zero. Foi tudo construído em cima de tragédias, é tudo irrelevante sem ninguém para compartilhar. –E eu estou sozinho há nove anos! Sozinho!

–Por que você se culpa tanto? Não está vendo que isso está te destruindo?

–Mas se não fosse por mim, nada teria acontecido! Ela estaria viva! Ele estaria bem! –Pára! Isso te machuca demais, dá para sentir nos seus olhos como é doloroso! –Ela se agachou junto de mim e segurou meu rosto com ambas as mãos. –Se eu soubesse a magnitude da coisa não perguntaria, acredite. –Limpou minhas lágrimas. –Não devia se culpar tanto. Você não sabia. Não haveria como saber. –Eu chorava como uma criança enquanto suas lágrimas já secavam. Como senti inveja de seu autocontrole... Não, não era bem inveja. Não sei se preferiria estar indiferente quando contasse isso. Não salgo meu rosto há tanto tempo... Era gostosa a sensação de pequenos filetes quentes e úmidos afagando meu rosto. –Você é tão belo! Tão jovem! Parte o coração te ver assim. Precisa se erguer e seguir em frente com sua vida maravilhosa que te abençoou. É o que sua família desejaria nesse momento.

–É muito egoísmo viver minha vida enquanto meu irmão está há quase uma década em coma e minha mãe enterrada a sete palmos!

–Mas precisa! Parece que você não tem nenhum prazer em viver!

–Viver sem um propósito é o mesmo que estar morto.

–Eu não quero vê-lo morrer. –Alisou meu cabelo. –Nem que eu tenha que te dar um propósito! –Mais uma lágrima escapou de minha íris; antes de se ver livre, Sakura a capturou com um beijo. Sorriu e me abraçou. Abraço forte, sem malícia, só afeto. Como eu desejei um toque daquele... Me senti protegido. Amado. Amado... Amado por quem? Por ela? Suponhamos que sim, mas e eu. Esse conforto que eu sinto apenas com o abrir e fechar seus olhos é normal? Acho que não. Será que já a amo?

Notas finais
comentem ^^