A Hóspede

49 The lonely days are over


Notas iniciais
Justificativas da autora:
1º -Estava com problemas de internet
2º -Passei grande parte das minhas férias ajudando na reforma de casa e fazendo meu tratamento no CAPS.
3º -Não passava mais do que meia hora no computador e nesse tempo eu estava trabalhando no meu livro.
4º -Estava sem inspiração, admito.
5º -Eu NUNCA abandonaria essa fic. Jamais. Portanto não deveria haver motivos para preocupação já que eu amo isso tanto quanto vocês suas lindas! ♥
So... Aqui vamos nós com o ULTIMO CAPÍTULO DE 'A HÓSPEDE'.
P.S: Verei se compensa um epílogo com a quantidade de reviews u.ú

–Estou tão envergonhada agora... –Comentou com a voz baixíssima assim que acordamos. Ergui uma das sobrancelhas em sinal interrogativo e ela prosseguiu. –Pensei que o limite da sua loucura já tivesse sido alcançado quando me deu o anel no aeroporto. –Sorriu. –Mal posso acreditar que veio para Londres.


–Eu vim. –Respondi num timbre rouco, mais baixo até do que o dela. –Mas isso não é motivo para se envergonhar.


–Sim, não é o único. –Corrigiu. –Me sinto péssima por tudo o que fiz e deixei de fazer por você. Não me sinto merecedora de tudo isso.


–E essa é a parte em que pede para eu me afastar? –Perguntei irônico no mesmo tom de voz.


–Não! Não! Jamais! –Se exaltou, agarrando meu rosto com as suas mãos. –Agora que estamos finalmente juntos, tão perto um do outro, eu nunca pensaria tamanha crueldade com nós mesmos. Eu te amo. E espero que o que você sinta por mim seja grande o suficiente para por a parte todas as minhas faltas e falhas em relação a nós.


–Você não tem dívidas comigo, Sakura. –Garanti enfadado daquela conversa.


–Claro que tenho! Você salvou minha vida não apenas uma, mas duas vezes em um mês! O que eu fiz por você? O que te dei em troca?


–Me deu uma vida. –Respondi calmamente. Ela riu e disse ‘Te dei problemas e prejuízos’. –Se não fosse você, hoje, eu estaria jogado no sofá de casa vendo séries reprisadas, bebendo cerveja e comendo porcarias. –Sorriu. –A minha dívida com você é muito mais alta, pois você não alterou somente os meus costumes, mas o de outras pessoas também, como o Naruto, por exemplo. Ele só foi para Ottawa porque sabia de nós e do meu estado sentimental quanto a isso. –Rimos sem graça. –Ele foi me dar apoio porque sabia que já se fechava um ciclo de dez anos que eu passava o natal sozinho. –Comentei distraído, tendo na minha cabeça lembranças rápidas de todos aqueles anos. –Embora eu seja meio judeu, o natal me encanta de várias formas. Parece que por um dia eu volto a ser um garoto de oito anos enfeitiçado pelas luzes e melodias... Você precisa ver como eu fico bobo! –Rimos, enquanto eu acariciava seu rosto pálido.


–Estão acho que estamos quites. –Disse. –Te dei uma vida, você salvou a minha... O que vem agora?


–Mesclar as duas. –Ela curvou os cantos da boca para baixo em sinal de contentamento.


–Não vai ser uma tarefa fácil. –Avisou passando os braços em volta do meu pescoço. –Vai ficar perdido na minha correria!


–Bom, é relativo, já que agora somos namorados. –Sorriu enrubescida. –Mas eu quis dizer no literal. –Falei com uma rouquidão desconfortável. O sorriso limpo dela se tornou em confusão por uns segundos até ela perguntar o que eu queria dizer. –Eu só... Imagino como seria se nosso filho estivesse... –Ela pressionou o dedo em cima dos meus lados me calando. Depois de muitos minutos, falou a respeito.


–Não imagine coisas sem necessidade. –Falou com a voz falha. –Não imagine sobre isso exclusivamente, por favor. –Assenti. –Talvez tenha dito isso por... não sei. Receio de que eu guarde mágoas. –A fitei. –Se for isto, não se preocupe, é um assunto que eu evito, às vezes até me esqueço. É como se nunca tivesse acontecido então não vale a pena. –Ergueu os lábios num impulso claro, como se forçasse o rosto a esboçar um contentamento.


–Eu fui um idiota... –Abaixei o olhar. –Mas prometo não tocar novamente nesse assunto, ok? –Beijei sua testa e ficamos longos minutos assim, num silêncio moldado e pensamentos absortos. Até ela se pronunciar.


–Quando percebeu que gostava de mim? –Aquela pergunta me surpreendeu de inúmeras maneiras. Era algo que eu não sabia. Quando? Será que foi mesmo nos dias em que ela ficou em casa? Ou foi depois? Quem sabe recentemente?


–Creio que na noite do acidente. –Disse sem deixar transparecer minha dúvida. –Percebi o quanto você representava para mim assim que me dei conta de que poderia te perder para sempre, e que não suportava essa ideia esboçada nem nos meus pensamentos. –Ela me fitava séria, com o verde da íris brilhante e os lábios entre abertos me ouvindo atenta. –Eu descobri que te amava. –Depois de um beijo rápido, perguntei ‘E você?’. E então ela disse:


–Quando me contou sua história. Senti uma imensa necessidade de cuidar de você, pois embora sejamos tão diferentes, eu consigo te entender. E assim que os dias passavam, eu percebia que era inevitável não pensar em você sem sentir um aperto no coração. –Balançava a cabeça para os lados. –Senti isso por um ano e nunca tomei iniciativa de ir atrás de você, saber se estava bem para acabar com aquela agonia. –Seus olhos já marejavam, mas antes das lágrimas rolarem pelo seu rosto, beijei seus olhos e a abracei junto a mim, achando que assim ela parasse de chorar. –Eu não sei se devo dizer ‘desculpa’ ou ‘obrigada’ agora. –Falou com a voz rouca. –Espero que não cobre nada além do meu silêncio. –Acariciava seu cabelo e fitava as luzes da cidade através da janela. Estava quieto o bastante para ouvirmos os carros, pessoas e diversos sons e estranhamente isso era tranquilizante.


Não tinha preocupação nenhuma quando ela estava nos meus braços. Sentia sua respiração bater no meu peito de forma ritmada, o cheiro único do seu cabelo, sua pele alva arrepiada... Tudo nela inflava meu humor de uma forma dúbia e extasiante. Me sentia calmo, completo, desprovido do mundo e das pessoas. Queria abraçá-la forte, trazê-la de junto a mim, nos unir em um só para que jamais nos separássemos, para que nunca houvesse o risco de um partir. Como eu amava Sakura... É estranho me expressar assim sem nenhum constrangimento, mas que mais eu poderia falar a não ser sobre a felicidade que eu sentia em tê-la ali tão próxima? Só Deus sabe o quanto esperei por isso, todas as vezes que pensei que isso nunca fosse acontecer e de toda a angustia que sentia ao imaginar que poderia ter perdido Sakura para sempre.


Como a vida foi generosa comigo! Por Deus! Eu não mereço tanto! Dali quinze dias estaria em Ottawa com novidades, fotos de nós dois para mostrar à Itachi e presentes para Hinata e Naruto. Ainda precisava acertar as mudanças do meu contrato com a cede da Universal daqui de Londres. Pobre Kakashi... Estava furioso comigo por ter tomado uma decisão desse nível tão de repente, o que era compreensível, mas analisando a coisa não faria muita diferença, afinal, nosso meio de contato era por e-mail e às vezes por telefone. Poderíamos muito bem continuar nosso trabalho eu estando em Londres ou em Ottawa. Mas veja, esse não era o único problema.


As amostras de música que ele havia me solicitado para duas semanas não estavam prontas, eu nem se quer havia passado perto do piano nos últimos dias e segundo o empresário, ignorar prazos dos clientes era o mesmo que perder credibilidade. Para mim, perder um cliente ou dois não fazia diferença, mas para ele era quase um holocausto ficar sem trabalho. Coitado... Também não tem nenhum outro afazer da vida senão o trabalho. Devo muito à Kakashi, muito mesmo. Seríamos grandes amigos se a distância não fosse tão incômoda, mas essa possibilidade agora é mínima. Se nem quando morávamos no mesmo continente nos relacionávamos de maneira informal, imagina agora que estou do outro lado do Atlântico!


Também precisava definir meu imóvel. Naruto e eu havíamos pesquisado alguns apartamentos e casas, mas de modo tão breve que não pude nem ter uma ideia do que escolher. Queria uma casa simples que atendesse as minhas necessidades: em média três suítes, sala e cozinha ampla, dois cômodos vagos para academia e ateliê em um local agradável, não muito quieto e não muito agitado. Não era pedir demais. Precisava arranjar esse recanto nesses quinze dias.


–Você vai morar comigo agora, não vai? –Ela suspirou e disse:


–Não. –Eu entendia e aceitava, mas se dissesse que ficava feliz com essa decisão, eu estaria mentindo. Já imaginava que ela fosse me dar essa resposta quando eu propusesse para morarmos juntos. Não me surpreendia com a recusa. –Eu fui para Ottawa buscar independência e não consegui. Voltei na esperança de que aqui mesmo eu me ajeitasse, então cá estou! –Revirou os olhos. –Eu não saí da casa de uma pessoa para morar de favor na casa de outra!


–Não ia morar de favor na minha casa, ora. Seria sua também. –Disse calmamente.


–Que meigo! –Levantou a cabeça e me deu um beijo. –Mas não. –Riu. –Vou trabalhar muito aqui, juntar bastante dinheiro e voltar para o Canadá. Aí vou comprar uma casa ao lado da sua. –Falou com a voz dengosa.


–Quatrocentos mil dólares! –Avisei.


–Não importa! Serei uma bailarina muito famosa depois que estrear!


Dizia com uma confiança indiscutível na voz. Seus olhos de topázio chegavam reluzir enquanto falava como seria bem sucedida e aclamada, todas as coisas que queria ter e fazer. Daí percebi que o que eu poderia fazer pela Sakura, o que eu já tinha feito pela Sakura, era realmente pouco e incomparável às coisas que ela almejava. Meu dinheiro não poderia comprar seu sucesso(não de forma justa), seu contentamento próprio, seus desejos físicos e realizações. Isso era algo que não dependia de mim e sim dela.


Senti orgulho da Sakura. Finalmente entendi o que ela queria quando veio para Inglaterra.


–Estarei ao seu lado vendo tudo isso acontecer.

_.o0o._

Um relógio nunca me deixou tão aflito como aquele. Acho que nunca me senti tão aflito como estava, o que era muito estranho. Minhas mãos iam e vinha nas minhas coxas de uma forma nervosa. Às vezes elas esfregavam meu rosto ou bagunçava mais meus cabelos, só não ficavam quietas. Senti vontade de fumar, mesmo não sendo um fumante assíduo. Senti vontade de andar de um lado para o outro, de tomar uma dose pura de whisky, de ligar a televisão a minha frente ou fazer qualquer coisa que me distraísse daqueles pensamentos pessimistas, mas me faltava ânimo e tudo o que era de bom no meu humor.


Sakura não saía do banheiro. Começava a achar que ela tinha se afogado na banheira. A mãe dela logo chegaria em casa e se depararia comigo sentado no seu sofá com cara de otário. Via a cena na minha cabeça perfeitamente: ela fechando a porta atrás de si com os pés, ao mesmo tempo em que jogava sua Louis Vitton em algum lugar, arregaçando as mangas da blusa, vindo em minha direção. Eu lhe daria um sorriso amarelo num ultimo recurso de tentar amenizar seu rancor ou no mínimo seduzi-la com minha beleza oriental, mas tudo o que conseguiria seria um dente ou dois quebrados.


Estava quase tendo um colapso quando Sakura saiu do banheiro enrolada numa toalha branca e com uma outra menor na cabeça, secando os cabelos.


–Caramba! Pensei que não ia sair mais de lá de dentro! –Recuou com as sobrancelhas erguidas num misto de confusão e deboche.


–Você tava apertado? Tem um banheiro no quarto da minha mãe...


–Não, não é nada disso! –Revirei os olhos. –Já pensou sua mãe chegar aqui e me encontrar no sofá dela com cara de paisagem? –Ela riu. –Não posso nem imaginar o que ela faria comigo... –Disse num tom mais controlado, mais ainda nervoso. Sakura ria que chegava a ficar vermelha, secando os cabelos e de tempo em tempo subindo a toalha que escorregava no seu corpo. De repente a porta abre e ninguém mais ri, nem se mexe ou respira. Abaixei a cabeça como um garotinho envergonhado e esperei Sakura cumprimentá-la.


–Oi. –Falou a rosada. Ouvi a porta sendo fechada novamente e um peso ser jogado em cima da mesa de jantar. Quase a cena que eu havia desenhado na minha cabeça, o que não me acalmou de forma alguma.


–Oi. –Respondeu a outra depois de muito tempo. O silêncio só poderia significar que o olhar de Tsunade caia sobre mim pesado e cortante. Tinha impressão de sentir seu ódio penetrar minha pele de tão intenso que deveria ser.


Tomei coragem de encará-la com mais firmeza do que eu pensava ter naquele momento. Acenei com a cabeça e voltei discretamente meu olhar para Sakura que agonizava segurando uma risada, enquanto a loira a sua frente se mantinha séria com uma ruga entre as sobrancelhas. Provavelmente esperava explicações.


–Bom... –Sakura começou como uma pessoa prestes a contar uma piada muito boa, mas que não conseguia por conta do riso que se adiantava. Eu sei que ela ria de mim. Eu também riria no lugar dela.


Eu devia estar parecendo um idiota encolhido ali, evitando contato visual com sua mãe de um metro e oitenta, dona de uma força de um homem como eu ou mais largo. É vergonhoso admitir, mas é fato e é obvio que eu me borro de medo da Tsunade. Ela parecia o gingante homem das neves loiro com os peitos tamanho 52.


–Sasuke e eu estamos namorando. –Informou me olhando discretamente.


–E...? –Tsunade tinha os braços cruzados e uma expressão impassível.


–E que eu quero pedir seu consentimento. –Tomei coragem para dizer, limpando a garganta em seguida. Ela me olhou, soltou uma risada amarga balançando a cabeça para os lados enquanto se sentava no sofá a frente do qual eu estava, gesticulando para Sakura ficar ao meu lado.


–À que propósito? –Sakura deu os ombros. Eu massageei as têmporas ao sentir um fio de irritação percorrer minha cabeça. No fundo, me sentia grato, pois o sentimento de irritação encobria o medo que eu sentia de levar uma surra ali mesmo. –Estamos em que século? –Debochava. –Há trinta anos já não faziam mais isso.


–Faziam sim. –Corrigiu Sakura.


–Comigo não foi assim. –Replicou servindo-se de uma pequena dose de whisky.


–Talvez porque você sempre se achou independente demais para pedir a autorização dos meus avós para alguma coisa. –Era quase visível a forma amarga como aquele líquido deve ter decido sua garganta assim que Sakura lhe disse isso. –De qualquer forma, eu não sou assim. –Antes de falar alguma coisa, ela esboçou um sorriso sutil e deixou o copo quase vazio sobre a mesinha de centro.


–E se eu não desse meu consentimento para os dois. O que aconteceria? –Perguntou como se aquele fosse um mero detalhe a ser esclarecido. Eu a considerava uma pessoa má então não me dei ao trabalho de responder, e nem se quisesse poderia já que Sakura foi mais rápida do que qualquer pensamento meu e disse:


–Seria uma convidada a menos no nosso futuro casamento. –E cruzou os dedos no meu lançando um sorriso triunfante para a mãe.


–Se não faz diferença, pra que precisam disso? Ora, que palhaçada! –Se levantou pegando o copo.


–Mãe. Por favor. –Tsunade se virou. –Tem como fingir ser uma pessoa legal ao menos por dez minutos?


–Ter, até tem, mas eu não vou fingir nada. –Se aproximou. –Não daria meu consentimento se ele valesse de alguma coisa, não daria apoio, não os aclamaria, não os felicitaria por estarem juntos porque eu simplesmente não aprovo a união dos dois. Sejam como amigos, namorados ou marido e mulher. Não concordo em absoluto. –Disse olhando nos olhos de Sakura, o que pareceu dar mais dureza as suas palavras. –Não preciso nem dizer por que, não é? –Me olhou irônica.


–Eu não entendo como você pode ser assim... –Sakura balançava a cabeça para os lados com o olhar preso nos olhos castanhos de Tsunade.


–Franca? Toda mãe é quando se trata do filho.


–Você não dá a mínima para mim! Por que fala como se se importasse? –Se exaltou. Tsunade revirou os olhos e bebeu o restante do whisky.


–Não vamos discutir na frente do sujeito, querida. –Bufei. –Quer chorar suas mágoas porque eu não aprovo o namorico de vocês, faça isso com a classe que eu te dei.


–Me erra! –Se alterou.


–Vocês são adultos, sabem o que fazem. Não precisam de consentimento, aprovação ou felicidade minha. Não precisam de droga nenhuma de mim, assim como eu não preciso de vocês.


–Queria que o papai estivesse aqui e a ouvisse falando desse jeito. –Tsunade parecia não ter terminado de falar o que queria quando Sakura a interrompeu. Ela no mesmo instante parou, encarou a filha com uma expressão dolorida, o que não foi impedimento para Sakura prosseguir. –Ele com certeza se envergonharia...


–Cala a boca! –Disse com a voz falha, saindo ligeiramente da sala.


–Eu me envergonho de você! –Sakura gritou para que ela ouvisse do outro lado da casa. Tsunade não se pronunciou mais. Sakura também não. Eu muito menos. E isso perdurou por algum tempo que soou uma eternidade. Então Sakura tombou no sofá, pensativa, com a ponta do nariz avermelhada, sem querer avisando de que iria chorar.


Obviamente eu me sentia deslocado ali, aquele era um conflito do qual eu não fazia parte e também não conhecia todos os sentimentos e mágoas por trás. Não havia o que eu pudesse fazer. Não havia o que resolver. Era isso o que me deixava aflito. Eu apenas ficava ali sentado e observava as duas discutirem, sem saber ao menos o que pensar. Patético.


Isso me levava de volta ao meu passado e minha convivência com meus pais. Minha mãe era daquele tipo de mulher cheia de sonhos, mas que colocava a família acima de qualquer coisa e acabou desistindo de tudo para ser uma mãe presente, uma boa dona de casa e mulher para meu pai. Este, por sua vez, era exatamente o oposto. Estava sempre fora de casa, e quando estava, se enfiava em seu escritório e por lá ficava, tempo o bastante para eu ir para a cama, Itachi ir para a cama, mamãe ir para cama e ele continuar lá, lendo, escrevendo, fazendo contas e telefonemas internacionais. Quando lembrava que tinha família, sua atenção era totalmente voltada para Itachi, o primogênito, o grande herdeiro de todas as suas ações e blá blá blá. Eu era criança, não entendia o porquê de ele tratar meu irmão com tanta atenção e para comigo uma mera batidinha no topo da cabeça antes dele ir ao trabalho. Às vezes culpava Itachi. Às vezes o culpava. Às vezes culpava a mim mesmo. Depois de acompanhar o declínio de Itachi diante das expectativas do meu pai, percebi que não era aquilo em absoluto o que eu queria, então ao invés de inveja e raiva, comecei a sentir pena do meu irmão e até um pouco do meu pai. Mas isso foi na minha adolescência, um pouco antes de nos mudarmos para o Alasca.


Foi Naruto quem me fez perceber que eu não tinha do que reclamar, pois minha mãe, apesar de uma mulher frustrada e esgotada daquela vida tão monótona, dava seu melhor por mim e por Itachi, nos enchia de mimos e cuidados, chegava a ser sufocante. Ela era aquela mulher com quem você poderia sentar para conversar sobre garotas, videogames e filmes e ela te ouviria atentamente, queria entender, fazer parte daquilo conosco, e impressionantemente, ela conseguia. Largava tudo o que estivesse fazendo para brincar de carrinho comigo quando Itachi estava na rua com os amigos; Fazia o que eu pedia para o jantar; Sabia comprar minhas roupas e vez ou outra escondia um CD de música na minha gaveta de meias com um recado para eu arrumar o quarto. Ela era sem dúvidas, além de uma supermãe, minha melhor amiga. A melhor mulher que já conheci.


Meu pai era um homem de sorte por tê-la e minha mãe uma mulher de paciência por ter estado tantos anos ao lado de um alguém que não a enxergava dessa forma tão incrível como eu e meu irmão enxergávamos. Ainda assim, também não tinha muito do que reclamar do meu pai tirando a sua ausência e ignorância para com o pessoal de casa. Tanto eu quanto Itachi tínhamos tudo o que tínhamos direito e vontade de ter. Até mais do que deveríamos. Era ele quem sustentava a casa e todos nela, nos dava do bom e do melhor sem pedir nada em troca. Para mim eram pequenas coisas, mas quando Naruto parou para conversar sobre isso comigo vi que era muito em comparação a ele, por exemplo. E em comparação a milhões de jovens como eu ao redor do mundo. Passei a valorizar mais o que eu tinha, bem quando nos mudamos e eu perdi um pouco disso, como meu amigo, a casa e a cidade que eu adorava. Um tempo depois acabei perdendo tudo.


Mas essa história vocês já sabem e é demasiadamente frustrante retomar isso. Essas coisas passaram como um flash na minha cabeça assim que olhei para Sakura ali sentada. Eu não a entendia, pois minha mãe nunca me tratara como Tsunade a trata. Tudo o que pude fazer foi trazê-la para perto e afagar seus cabelos úmidos. Não disse nada e ela não parecia à vontade para escutar um consolo qualquer de alguém que não sabia como era ter uma mãe indiferente e arrogante. Depois ela me deu um rápido beijo e sumiu no corredor, não demorando muito para voltar vestida e com uma bolsa maior.


–Preciso sair daqui. –E então saímos do apartamento, rumo a um lugar qualquer onde pudéssemos jantar e nos distrairmos daquela tarde tão desagradável.


Era para o jantar ser na casa dela, com sua mãe, uma tentativa de nos conhecermos melhor e deixarmos os ressentimentos para trás, bem para trás, tipo lá em Ottawa e não aqui. Não deu desta vez. Paciência. Eu estaria sendo muito otimista se esperasse que com o tempo essa situação melhorasse?


–Sabe o que eu acho? –Comentou Sakura depois de alguns dias do ocorrido. –Minha mãe deve ter ficado muito frustrada ao receber a notícia de que estaríamos juntos.


–Mas isso foi óbvio! –Exclamei. –Particularmente, não é algo que me surpreenda. Eu até a entendo. Bom, eu pelo menos não gostaria de ver uma filha minha saindo com um cara que eu não gostasse de jeito nenhum!


–Não Sasuke. Quis dizer: agora eu entendo verdadeiramente o porquê dela ter agido assim. –E parou pensativa. –No dia em que você chegou eu tinha brigado com ela. Ela havia me dito que me queria em Londres não para eu tentar me ajeitar na vida e sim para lhe fazer companhia, já que eu era sua única família. Isso me enfureceu! –Suspirou. –Eu lá pensando que ela se preocupava comigo... No fim só estava pensando em si mesma. –Aquilo me lembrou meu pai, que só me contatava para pedir dinheiro, nunca perguntava sobre Itachi ou se eu estava bem. –Acho que quando dissemos que ficaríamos juntos, ela percebeu que iria me perder de vez. –Limpo a garganta. –Eu me preocupo com ela, de verdade. Mas que eu posso fazer quanto a isso? Ela fez escolhas, uma delas foi ficar sozinha. Só porque eu sou filha dela não significa que eu deva ser usada como álibi. –Me sentei junto a ela e peguei seu rosto.


–Eu sei como é se sentir sozinho. Sei também que na maioria das vezes, você é sozinho porque quer. Caí na real a tempo, agora tenho você e Naruto comigo, mas poderia ter sido bem diferente. Sua mãe percebeu muito tarde que a solidão é assustadora, recorreu à única pessoa que tinha no momento. Foi um gesto de desespero, e embora pareça rude da parte dela, pense: a primeira pessoa em quem ela pensou foi você. Ela te ama Sakura, o problema é que ela não sabe lidar com isso.


–Talvez. –Disse quase num sussurro. –Ela não pode fazer melhor do que isso, não é? –Me olhou.


–Só você pode saber. –Então ela voltou a fitar as meias. Suas sobrancelhas franzidas formavam uma linha reta indicando que ela estava perdida em pensamentos que eu não poderia decodificar. Lentamente fui me desvencilhando dela, a deixando sozinha no quarto.


.o0o.

No segundo fim de semana eu já estava de volta a Ottawa, deixando em Londres uma Sakura ocupada com o concerto de primavera do balé e com suas aulas de Educação Física na universidade e um Kakashi louco atrás de uma casa confortável em Londres para mim. Quando entrei no meu carro após sair do aeroporto, fui observando todo o percurso, as ruas do subúrbio sempre quietas e simétricas, com um desfile de árvores secas e algumas ainda decorada com luzes.


Senti falta daquela cidade. Daquele bairro, em especial. Naruto falava e falava, contando tudo o que havia acontecido nas duas semanas em que estive fora. Creio que ele contou muita coisa, mas só prestei atenção realmente quando ele comentou sobre a saída de Itachi do hospital e de seu grande progresso. Ouvir aquilo me deu uma felicidade imensa, mas tudo o que meu rosto pôde traduzir disso foi um tímido sorriso torto.


–Oh Sasuke! –Hinata exclamou assim que apareci na porta, vindo correndo em minha direção.


Deu pausa naquele momento só para analisar o porque que Hinata se felicitara tanto com a minha volta. Isso porque foram apenas uns treze dias, porém, não importasse o tempo que eu ficasse distante. Um mês, um ano... A reação de Hinata me era perfeitamente previsível: ela ouviria a porta se abrir e Naruto anunciar escandalosamente a minha chegada. Quando eu entrasse em seu campo de visão, ela me lançaria aquele olhar frio e indiferente, curvaria minimamente o lábio para cima e voltaria a fazer o que fazia antes de minha presença infortuna acabar com o seu dia. Enfim, cheguei a duas conclusões: ou nesse tempo todo em que fiquei fora ela percebeu que me amava loucamente ou ela sabia que tinha coisas da Europa para ela no meu porta-malas.


Então ela veio correndo na minha direção de braços abertos. No momento em que me convenci de que ela havia seguido o caminho da luz e descoberto que eu era um cara muito legal, até fiz menção de também abrir os braços, exatamente quando ela passou por uma pequena fresta entre Naruto e eu, fazendo nossas costas se chocarem no batente da porta. E lá se foi Hinata Hyuga correndo para o meu carro igual a uma gazela.


–Sim, ela sabe. –Disse auto demais.


–O quê? –Naruto perguntou confuso contorcendo as costas.


Por mais que eu odeie admitir isso, mesmo sabendo que daqui a algumas horas irei me arrepender de ter feito tal declaração, eu preciso dizer que senti falta do rancor e autoridade de Hinata. Aproveitando também para dizer que era bom saber que ela continuava a mesma, me odiando e me esnobando. Sabia que no fundo ela gostava de mim, só que da maneira dela de gostar.


Ino também estava na sala, mais a Tenten e a Temari, a enfermeira de Itachi. Havia trazido presentes para todos, menos para Temari, mas Hinata teve a bondade de lhe dar um cardigã dizendo que já tinha muitos em seu vestíbulo. Ela disfarçava bem, mas podia ver em seu jeito de sorrir e observar que ela estava se sentindo deslocada, principalmente quando o nome de Sakura surgiu no meio da conversa. Só quem convive sabe que se Ino não gritar ao ganhar um presente, ficar calada por mais de um minuto e tomar chá sem cubos de açúcar é algo tremendamente alarmante. Decidi que iria conversar com ela mais tarde. Estava ansioso para ver Itachi.


Quando entrei no quarto, imaginando vê-lo deitado lendo algum livro de Allan Poe, me deparo com um Itachi assistindo Two and a Half Men com salgadinhos e latas sobre o colo, mais parecendo aqueles adolescentes preguiçosos que passam o dia todo no quarto alternando as horas em que ficam acordado para assistir TV a cabo ou se masturbar.


–Sasuke! –Foi tudo o que ele disse, com a boca cheia de nachos. Não pude segurar uma risada, muito menos deixar de abraçá-lo e quase chorar(quase!) por finalmente tê-lo em casa comigo.


–Queria estar em casa quando você viesse, mas tive que ficar lá e resolver uns assuntos da gravadora. –Me justifiquei, mesmo notando pela expressão que ele tinha que aquilo não era necessário.


–Que isso! Naruto cuidou de tudo! –Deu uma piscadela para o loiro atrás de mim. Então eu me surpreendi novamente, e antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me respondeu. –Ah, antes que se alarme, sim, eu já estou conseguindo falar quase que perfeitamente. Ainda muito de vagar, e ainda troco algumas palavras. –Olhei maravilhado para Temari.


–Ele deu um grande progresso! –Disse a loira. –Surpreendeu todos no hospital.


–Por que não me contaram?


–Naruto pediu para mantermos surpresa. –Olhei para o Naruto.


–Só queria dar mais emoção para a coisa! –Justificou-se levantando ambas as mãos.


–Obrigada! –Disso com ironia, logo me voltando para Itachi. –E por que está comendo essas porcarias?! Devia manter a dieta do hospital...


–Não seja tão paternal, por favor! –Ri.


–Isso é bebida?! –Peguei uma das latas. Ele tomava medicamentos, certo? Não poderia ingerir bebidas alcoólicas. Meu olhar para Temari não foi dos melhores.


–C-claro que não! É refrigerante de blueberry!


–Isso existe?! –Perguntei cheirando a o conteúdo.


–Tem gosto de xarope. –Informou Itachi ao mesmo tempo que enchia boca com uma pequena porção de nachos, concentrado no seu seriado.


Meio cabreiro, deixei passar, advertindo Temari para que todo esse relaxo não virasse rotina e que a partir do dia seguinte ele daria início a uma dieta ideal, sem excesso de sódio ou açúcar. Naruto e Temari saíram e deixaram-nos à sós por uns instantes, trocando conversas sobre minha breve estadia da Inglaterra e sobre a fisioterapia e chegada dele na casa. Pude perceber algumas dificuldades em sua fala, mas não corrigi e agi como se me passassem despercebidos. Tinha que ter na cabeça que ele não iria curar da noite para o dia e que o avanço dele em menos de um mês foi realmente incrível. Para mim, poder sentar na beirada da cama e ver seus lábios secos se racharem ao sorrir, olhar em seus olhos tão iguais aos meus, ouvir sua voz, suas piadas com tudo... era o bastante. Tê-lo vivo e tão próximo de mim já me fazia alguém realizado.


Esperei mais algumas horas para poder chorar no banho agradecendo à Deus por tudo o que eu tinha, pelo meu irmão, pela Sakura, pelo Naruto e até por Hinata e por Ino. No meio desses pensamentos gratificantes, sem saber se rezava ou se conversava comigo mesmo, percebi que não queria voltar para a Inglaterra na segunda de manhã. Eu queria ficar. Queria ficar e ver Itachi evoluindo um pouquinho a cada dia. Queria sentar com ele todos os dias e conversar besteiras, checar se sua alimentação e medicação estão mesmo nos conformes. Não há necessidade de eu ficar em Londres o tempo todo, já que Sakura passava o dia todo fora e nem morava comigo. Eu sei que ela entenderia.


A casa já estava sendo providenciada, a transferência também. Nisso não tinha como voltar atrás, então eu poderia fazer diferente, não? Poderia de quinze em quinze dias passar o fim de semana com a Sakura e as semanas aqui com Itachi. Pelo menos até não assumirmos um compromisso mais sério ou até ela ficar menos ocupada como ultimamente. Ainda assim, voltaria segunda feira para encontrá-la. Se tivermos que mudar os planos, que seja numa conversa pessoalmente, que seja da forma certa, embora eu tenha absoluta certeza de que com um telefonema ela entenderia que não estava dando para trás, muito pelo contrário, estava querendo fazer cada coisa de cada vez.


Tinha absoluta certeza que ela também sabia que se em um ano meu amor por ela não cessou, não seria duas semanas sem nos tocarmos que mudariam minha cabeça. Eu pertencia a ela e ela me pertencia. Não havia mais dúvidas quanto a isso.


.o0o.

No domingo à tarde Hinata e Ino prepararam um “almoço para mim”.


–[...]Fecha aspas! –Naruto gesticulou me informando no sábado à noite enquanto eu escovava os dentes. Ele não me disse se o “almoço para mim” teria algo a mais ou se era mesmo para mim, mas só com aquele gesto sutil, extremamente discreto, eu poderia presumir que haveria algo a mais. E havia.


–Bem... –Começou coçando a nuca, uma mania que ele tinha desde os tempos de colegial. Sempre que ficava nervoso ou embaraçado, era comum vê-lo erguendo o braço atrás da cabeça e tentando mirar um ponto qualquer em lugar nenhum. Era engraçado observá-lo. –Eu gostaria que a Sakura estivesse aqui quando eu fizesse isso, mas obviamente isso não foi possível. –Franziu as sobrancelhas para mim, que não entendi nada. Aquela mera enrolação foi suficiente para atrair a atenção de todos na mesa. Itachi, num cantinho em sua cadeira de rodas, abafava um riso com a costa da mão. –De qualquer forma, o Sasuke deve bastar. –Me senti especial com essa fala, lê-se ironicamente. –Sem mais delongas... –Tirou anéis de um embrulho luxuoso, todo trabalhado a mão (um guardanapo amassado) e se levantou, olhando para Hinata. –Quer casar com este pobre médico? –E fez a cara (uma tentativa na verdade) do Gato de Botas do Shrek.


A resposta de Hinata foi imediata. Ela literalmente avançou nele o cobrindo de beijos e lágrimas que se formaram rapidamente após o pedido. Algumas taças de champanhe caíram, algumas passas também, mesmo assim não deixamos de bater palmas entre risadas e assobios. E no meio dos parabéns, a boca santa da Ino disse exatamente o que eu estive pensando no momento do pedido “Poderia ter sido mais romântico Naruto”.


Poderia ter sido de várias maneiras diferentes, mas isso não importava nenhum pouco. Ela pediu a mão da Hyuga, ela aceitou e assim eles antecipam seus felizes para sempre. Estava orgulhoso, até com um pouco de inveja. Mal esperava para ser a minha vez de pedir Sakura em casamento, porém, faria diferente. Tudo o que tive com ela foi coisa de momento, rápida, decidida ali na hora, agora faríamos as coisas com calma, tudo no seu tempo. Tínhamos muitas coisas para resolver antes de dar um passo tão grande em nossas vidas.


–Ino? –A chamei um pouco antes de ir embora. –Por que você está assim? –Fui direto, hesitante, mas seguro o suficiente para ela não me ignorar e dar uma desculpa qualquer.


–Se está se referindo ao meu humor e comportamento, já deve imaginar o motivo! –Sorriu sem graça.


–Não sou de especular! –Me desculpei num tom bem humorado. Ela deu um risinho amarelo, balançando a cabeça para os lados. Cruzou os braços e desabafou.


–Eu... Eu apenas me sinto péssima por tudo o que aconteceu. –Fitou os próprios pés. –Também sinto saudades suas e da flamingo. –Sorriu.


Num impulso, numa reação que não soube avaliar na hora, eu a abracei. Não deveria, digo, para mim ela continuava sendo aquela amiga-companhia-falante, mas pra ela isso poderia ter um sentido maior do que o real, que era assegurá-la de que está tudo bem entre nós. De verdade. Considerava a história dela gostar de mim daquele jeito uma tremenda piada. Toda vez que me lembrava dela e da Sakura brigando não conseguia evitar um breve riso, pois tudo parecia tão hilário e sem sentido! E não podia deixar de me sentir mal porque o afastamento de Ino e Sakura, afinal, eu tive grande participação nisso já que as duas brigaram por causa de mim.


Nessas horas eu me pergunto ‘Por que esse povo não me baniu de vez de suas vidas?’, será que não percebem que desestruturei todos eles?


Deve ser o meu dinheiro. Ou minha beleza incontestável (isso é autoestima e não egocentrismo, diga-se de passagem).


–Sakura também sente saudades suas. –Informei enquanto afagava seus cabelos. –E você deve deixar de ser besta e esquecer essa história porque eu e ela nem lembramos mais disso, ok? –Ela meneou a cabeça e eu a afastei um pouco de mim para olhá-la. –Você é uma mulher linda demais para ficar pelos cantos se lamentando por banalidades como aquela! Onde estão suas festas? Sua voz capaz de ser ouvida a quilômetros de distância? –Riu. –Só... Continue sendo a mesmo Ino.


–É difícil todos continuarem o mesmo sem a Sakura. –Disse com a voz baixa. –Moramos juntas por quase três anos. Acostumamos uma com a outra muito rápido, sabe? Ela era nossa garotinha. –Rimos. Se eu estivesse certo, naquele exato momento flashs rápidos de momentos com a Sakura passaram por sua mente como passaram pela minha. –Mas estou feliz por ela estar construindo sua vida lá na Inglaterra... Espero sinceramente que ela consiga tudo o que quer. –E sorriu.


–Ela deseja o mesmo para você.


–Ah, isso é meio improvável! Não agora que estou saindo regularmente com o ex-marido da minha patroa. –Arregalei os olhos. –Ela nunca me perdoará por isso! –Disse com um ar cansado.


–Não tem medo de ser despedida? –Perguntei sem deixar transparecer na minha voz a reprovação que eu tinha em relação a funcionárias saindo com os ex de suas patroas.


–Se ela me despedir terá um prejuízo dos grandes! Eu trabalho por três naquela cafeteria e ganho uma miséria! É quase escravidão, e eu nunca reclamei de nada. –Deu os ombros.


–Não se sente... humm... constrangida ao chegar no trabalho e ver ela lá e...


–Claro que não! –Exclamou. –Foi ela quem me apresentou o marido. Não tenho culpa se ele era um canalha e resolveu traí-la comigo. Não éramos amigas, além do mais, trabalho é uma coisa, vida amorosa é outra. Fora do estabelecimento comercial, cada um com sua vida! –E me deu uma piscadela.


–E pretende levar um relacionamento a sério com esse cara? –Perguntei casualmente ao perceber que ela não se incomodava com essa situação.


–Não. –Respondeu. –Ele é atraente, esperto e nenhum pouco preguiçoso, mas é muito sério e um pouco mais velho do que eu. Sei que já estou demasiadamente grandinha mais quero aproveitar minha disposição enquanto posso, ou melhor, enquanto meu rosto não exibir rugas!


–Entendo. –Sorri.


–Não sei se deveria te contar, mas de qualquer forma você vai descobrir... –Franzi o cenho. –Lembra-se do Gaara? O ruivo do natal do ano retrasado, o que trabalha na farmácia...


–Sei, sei. –Me lembrava do sujeito, aquele que deixara Sakura incomodada toda a noite, preocupada se ele revelaria para o restante do pessoal da sala que ela estava grávida. Puxa... Parecia ter sido há muitos anos que isso aconteceu.


–Então: ele é o irmão mais novo da Temari, a enfermeira do Itachi. –E fez uma careta. –Coincidência, não? –Forçou um riso. Eu estava sem palavras. Parecia que aquele era mesmo um dia de surpresas! –Bom... –Continuou ao notar que eu não falaria nada. –Eu havia apagado o número dele da minha agenda e começado a frequentar outra farmácia –duas vezes mais longe do que a que ele trabalhava-, tudo para não... Sei lá. –Parou por um tempo, ponderando o que dizer. –Se eu continuasse me relacionando com ele, não seria legal para a Sakura, entende? –Falou com um pesar na voz. –Seria impossível para ela não olhar para ele e relacionar tudo. –Sorri de forma sincera. Estava feliz em ouvi-la dizer isso. Não conhecia esse lado racional da Ino, quero dizer, ela é sempre tão egoísta e desligada! Nunca imaginei que ela fosse abrir mão de um namorico para não ver uma amiga mal por isso. –Agora que a Sakura está lá nas Europa toda chique e distraída de Ottawa, acho que dá para investir em nós dois, já que o acaso resolveu nos unir de novo.


–No seu lugar eu investiria. –A encorajei. –Vocês se davam bem?


–Muito! Exceto pela comida. Ele gosta de comer muita gordura! Mas isso não releva! Posso facilmente mudar seu cardápio! –E exibiu um belo sorriso.


–Hey vocês! Venham cá tirar fotos!!! Quero guardar registros desse dia para quando Naruto e eu casarmos fazermos um slide de fotografias para passar na nossa retrospectiva! –Hinata se animava. Estava radiante!, beijando o Naruto a cada trinta segundos. –Sintam-se especiais! Vão aparecer no vídeo.


E então fomos tirar as fotografias que não demoraram muito para serem enviadas para Sakura. Mesmo ela estando longe, todos faziam questão de incluí-la na comemoração. Me sentia orgulhoso por estar ao lado de alguém tão estimado entre todos ali.


.o0o.

Alguns meses depois

Seus pés se moviam naturalmente embora todo o peso de seu corpo estivesse sendo sustentado pelos dedos. Os movimentos eram tão espontâneos quanto o respirar e inspirar de seus pulmões, era fácil compará-la com as folhas quedando lentamente das árvores naqueles meses de outono, em sua transição do verde oliva para um laranja fumegante. Era de se invejar tanta destreza, deixaria a melhor das bailarinas impotente, como dizia a senhora ao meu lado.


–Seus movimentos não são concisos, mas ela tem uma leveza que cega qualquer imperfeição. –Comentava.


–Ela não está fingindo. –Falei, me intrometendo em sua análise, sorrindo para a mulher de idade avançada, para caso ela achasse uma grosseria eu escutar sua conversa com o senhor ao lado.


–Parece mesmo não estar. –Retribuiu o sorriso, concentrando-se novamente na performance da bailarina. Era o ato final do concerto “O Quebra-Nozes”. –O mais interessante é que suas técnicas de dança são totalmente opostas as da mãe. –Comentou. –Nessa estreia, todos esperavam assistir uma versão perfeita de Tsunade, mas tenho que admitir que não fico decepcionada em ver o contrário. Essa garota contradiz todos os requisitos clássicos e imutáveis do balé. Tanto em relação aos seus movimentos quanto a sua idade. Já viu bailarinas estrearem aos vinte e sete anos? –Exclamou num sussurro. Eu, como um péssimo entendedor do assunto, apenas meneei a cabeça para os lados concordando com a mulher. –De qualquer forma, farei uma boa coluna para o jornal de amanhã. –Olhei para o lado tentando verificar melhor quem estava sentada ao meu lado, mas as luzes não ajudavam muito.


–Você é a colunista do The Mirror? –Perguntei.


–Talvez. –Falou num tom divertido. –Você deve ser jornalista para sentar na primeira fileira, ou é apenas um homem rico sem muito que fazer nesta noite. Julguei certo?


–Em partes. Sou o compositor principal da Universal e namorado daquela moça ali no meio do palco. –Apontei para Sakura. –E fico aliviado em saber que a senhora está disposta a escrever uma boa crítica da minha futura esposa. A faria muito feliz. –E a mulher riu baixinho, humorada.


–Não a faria mais feliz do que estou agora! –Sussurrou sem me olhar. –Vim do Japão em segredo para ver a estreia de minha neta e acabo me sentando ao lado do seu namorado! –E esta foi minha vez de ficar surpreso. –Particularmente adoraria tê-lo como genro. Parece ser um homem culto, além de gostar mesmo dela.


–Sou obcecado! –Respondi, mais para mim do que para a senhora.


Os violinistas manobravam seus instrumentos com severidade, gradualmente a sinfonia ia ficando mais intensa e Sakura entrava numa perfeita sincronia com a música e o bailarino que a conduzia. Assim que a música cessou, ambos pararam no meio do palco numa pose que me deu uns calafrios de ciúme, nada insuportável o bastante para encobrir meu sorriso orgulhoso assim que levantei ao mesmo tempo da mulher ao meu lado e a aplaudi.


Naquele momento eu desejei demasiadamente abraçá-la e lhe dizer o quanto eu estava orgulhoso.


Jogaram rosas e lírios no palco, uma das bailarinas de corpo a entregou um lindo buquê e pude perceber, daquela curta distância, a pontinha de seu nariz adquirindo um tom avermelhado sabendo que ela choraria. Ela olhou para mim e mandou um beijo de vento, em seguida esfregando a mão na barriga.


Demorei muito tempo para decifrar o que ela queria dizer com aquele sinal. Primeiramente pensei que ela estava querendo dizer que estava com fome. Uma sugestão de jantar, talvez. Depois, quando eu de fato parei para ponderar aquele gesto, não pude deixar de parar de aplaudir e arregalei ligeiramente os olhos. Quando os ergui para ela, senhora pegou minha mão e me arrastou para uma das cochias, mostrando aos seguranças nossas credenciais.


Quando a encontramos, seus olhos brilharam e eu não fiquei emburrado por ela ter literalmente pulado nos braços da avó ao invés dos meus. Segundo a mesma, não se viam desde o enterro do Sr. Haruno, há quase vinte anos atrás! O reencontro perdurou menos tempo do que eu imaginava, já que ela parecia impaciente para falar comigo, assim como eu me segurava para não arrancar os braços de sua avó da sua cintura.


Ela hesitou um pouco, com os olhos marejados e um sorriso tímido, me perguntando sem emitir nenhum som ‘Entendeu?’. Fiz que sim com a cabeça e abri a abracei, não conseguindo conter minhas lágrimas por mais que tentasse e tivesse apoio. Tinha umas vinte bailarinas naquele camarim com os olhos vidrados na gente, quando viram que eu estava emocionado, fizeram um coral ridículo de ‘Own...’ que me deixou corado, para variar.


Conseguia sem esforços guardar as emoções do espetáculo para quando estivesse sozinho com a Sakura e fosse parabenizá-la, só que não podia me conter ao saber que ela estava grávida de um filho meu. De novo.


A noite era dela e era eu quem recebia os presentes, olha que filho da mãe sortudo que sou!


–Te amo. –Falei olhando seus olhos verdes e encharcados.


–Te amo. –Sussurrou me dando um beijo rápido, afinal, tínhamos plateia. Deixaríamos a grande comemoração para quando estivéssemos entre quatro paredes.


Quando ela anunciou para toda a equipe inclusive para a sua avó que estava grávida, em vez de parabéns, recebeu uma grande bronca por ter dançado nessas condições. No modo clássico de Sakura Haruno de resolver seus constrangimentos, mandou todo mundo se foder e irem para a festa de comemoração.


–Tentei arrastar sua mãe, mas ela alegou estar se sentindo mal... Problemas no fígado! –Explicou a avó de Sakura, Shiori Haruno.


–Ela veio vovó. –Sakura disse com um sorriso travesso. –Eu a vi no fundo da platéia, de pé.


–Tem certeza? –Perguntou descrente.


–Quem seria inconsequente o bastante para fumar dentro do teatro, repleto de material inflamável e seguranças?


–Não entendo por que ela é assim... –Lamentava. –Não sei quem puxou! A mim que não, foi isso te garanto! –Rimos. –Ela está orgulhosa de você, mas é carrancuda demais para admitir.


–Eu sei. –Sorriu. –E acho até bom assim. Me sentiria constrangida caso ela me enchesse de beijos e chorasse descontrolada, gritando para imprensa que ela era minha mãe, que havia dado a luz à mim num bar japonês. –Essa eu não sabia. –Longa história! –Disse ao notar minha cara de confuso.


A festa era de gala e os parabéns para Sakura eram divididos entre a sua apresentação e a sua gravidez que todos já sabiam e comentavam. Não saí do seu lado um minuto sequer, porque não queria e não podia, já que ela agarrava meu braço com uma força tremenda. Talvez estivesse insegura, não sei. Da variedade de aperitivos e bebidas coloridas, Sakura só conhecia os bolinhos de camarão e o petigatô, então além de seu protetor de lá se sabe o que, eu servia de uma espécie de enciclopédia ambulante, lhe informando sobre cada uma das iguarias que nos ofereciam.


Uma outra grande surpresa da noite foi um mero convidado sem nenhuma ligação com a companhia do balé londrino. Sakura me apresentou ao moço, dizendo ‘Foi ele quem pintou o quadro que é meu avatar no facebook, sabe?’. Pela segunda vez na noite tive de vestir aquela cara confusa que não me deixava nenhum pouco atraente. Mal pude pensar na observação dela e o homem me estendeu a mão, começando o falatório.


–Prazer em conhecê-lo, Sasuke. –Forcei um sorriso com o aperto de mão. –Sou Idate Morino, pintor de vanguarda. –Levantei as sobrancelhas num sutil gesto de ironia. –Vi a sua pintura e achei muito bem feita. –Sakura me olhou com aquelas íris brilhantes e eu não pude deixar de agradecer o elogio. –Sakura também contribuiu muito para a beleza do quadro, ouso dizer! –Ela sorriu tímida. Tive que limpar a garganta quanto a isso, me perdoem o ciúme evidente. –Bom, daqui a algumas semanas haverá uma amostra em Liverpool. Você poderia exibir o seu quadro. Tenho certeza de que seria muito bem criticado. Infelizmente não pude avaliar sua arte pessoalmente, mesmo assim, é notável que suas técnicas são muito fiéis a pintura a óleo que é uma das mas difíceis.


–Realmente. –Concordei brevemente para não parecer metido ficando calado durante toda a conversação.


–Também poderia ganhar um bom dinheiro caso leiloasse...


–É um presente. –Falei olhando para Sakura.


–De qualquer forma, me ligue se estiver interessado em expô-lo. Posso dar destaque à obra e...


–Eu não sei... –O interrompi. –O quadro está no Canadá, além de eu considerá-lo algo muito íntimo para ser exposto num evento desta magnitude. –Falei o mais educadamente que pude.


–Bem, você quem sabe! –Sorriu embaraçado, provavelmente notando meu desinteresse na oferta. –Minha proposta está feita, e eu seria muito grato se aceitasse.


–Espero que entenda.


–De qualquer forma, aqui está meu número. –Disse anotando na borda de uma caderneta, rasgando em seguida para me entregar. –Pense um pouco e me dê uma resposta, mesmo que negativa. –Meneei a cabeça e ele se despediu cordialmente. Assim que se afastou, olhei pelo canto do olho como Sakura estava, bebericando uma taça de água (já que ela não podia beber) muito mais pensativa do que costumava ficar. Decidi não reforçar o assunto, pelo menos não ali. Contudo, o ambiente estava agradável para se desperdiçar com discussões que podiam ser resolvidas posteriormente e a sós, como é preferível.


Foi o último quadro que pintei e para mim tem um valor muito mais profundo do que o físico. Lembro-me daquela tarde, estava completamente sem inspiração, sem motivação, mesmo assim, queria devastar o branco daquela tela, deixar minhas ideias criarem formas e meus sentimentos ganharem cores, porém, eu não passava de um recipiente vazio e desbotado. Sem graça. Sem vida. Sem rumo. Sem nada. Era apenas mais uma pessoinha sobre a Terra vagando a imensidão minúscula da minha sala diante de toda a grandeza do Universo. Me considerava O Sabe Tudo. ‘Sou bom demais para isso, sou bom demais para aquilo’. Mas eu não vivia ali isolado no meu mundo por opção, como costumava achar, eu vivia assim porque eu era sozinho. No fundo, eu sabia disso, eu percebia, mas atribui ao restante das pessoas a arrogância e ignorância que encontrava dentro de mim, mas não aceitava de jeito nenhum.


Então no meio de toda a brancura, dos ventos velozes e cortantes, um pontinho vermelho me chamou atenção. Não sou um homem curioso ou interessado em algo que não me envolve, mas a ideia de ter alguém vagando naquela tempestade fazia com que o gosto cremoso do meu cappuccino ficasse amargo e algo dentro de mim queimasse. Minutos depois lá estava ela, encolhida de junto a porta, tremendo mais do que aparelho de massagem.


As memórias fluíam naturalmente, deixando-me absorto do restante do mundo para observar apenas aquela pequenina bolha de vidro que envolvia minha vida e a dela. Eu devia estar sorrindo bobamente fitando um ponto qualquer porque balançava meu braço rindo de uma forma encantadora.


–O que é que você tem hein seu estranho? –Dei pausa na minha retrospectiva mental para olhá-la.


–Que foi? –Perguntei ingenuamente.


–Você fica aí com essa cara de bobo sorrindo pro nada! –Dizia bem humorada enquanto arrumava o colarinho do meu traje. –Viu algo engraçado?


–Não.


–Viu alguma moça atraente?


–Não... –Disse depois de pensar um pouco, levando um tapa.


–Me diz no que você estava pensando? –Pediu com a voz calma. –Estou cansada de sorrir para todos do salão! –Resmungou acomodando a cabeça no meu ombro. Copiei seu movimento pelo costume, cruzando as mãos na altura de seu cóccix, ao mesmo tempo em que me concentrava no cheiro preso em sua nuca. Um cheiro suave e natural, impregnado na sua pele como se já tivesse nascido junto a ela em vez de ter sido aplicado algumas horas antes. Acalmava.


–Estava lembrando de quando nos conhecemos. –Respondi baixinho. –Você perdida naquele acolchoado de neve... –Ri. –Agora parece engraçado, não? –Levei mais um tapa.


–Já devia saber que estava rindo de mim...


–Estava rindo da situação e não de você, querida. –Expliquei. –Assume que é uma forma um tanto esquisita de duas pessoas se conhecerem! –Ela deu os ombros.


–Num país como o Canadá onde tempestades assim são até que frequentes, não duvido que algumas dezenas de pessoas abriguem outras dezenas em suas casas e comecem uma conversação, uma amizade e quem sabe até um relacionamento como a gente. –Curvei ligeiramente o canto dos lábios para baixo impressionado com a teoria dela. –Preciso te confessar uma coisa. –Começou. –Naquele dia eu não estava voltando para casa, nem perdida, nem algo do tipo.


–Então o que fazia debaixo daquela chuva de neve? –Perguntei com uma das sobrancelhas arqueadas.


–Queria achar um barzinho ou armazém onde tivesse mais cigarro. –Falou com um timbre tímido. –Se não percebeu, bem pertinho do meu antigo trabalho tem uma estação de metrô.


Putz! Perceber eu havia percebido, só não havia relacionado uma coisa na outra.


–Espero que não me largue por causa disso. –Falou numa voz chorosa quando demorei muito tempo calado. Continuávamos naquele abraço frouxo e minha cara de deus grego continuava com a mesma fachada de sempre. Aquilo era só mais uma coisa para mais tarde eu me lembrar e rir de tão irrelevante que era.


–Só me pergunto qual a necessidade de você me falar isso!


–Sei lá. Não poderia enganar você a vida toda com a impressão de que eu era uma pobre garota na neve tentando achar o caminho de casa. Não passava de uma fumante assídua sendo movida pela necessidade de nicotina nas vias renais. –Falava de uma forma tão casual que eu não podia deixar de rir baixinho. –Poderia ter me deixado na neve. Se eu não morresse congelada morreria de câncer ou de qualquer uma daquelas doenças que aparecem no verso das embalagens.


–Você teria uma morte muito rápida caso a deixasse no frio. Câncer e seus derivados é uma forma mais dolorida e lenta de se morrer. Compreende minha crueldade? –E lá desce sobre mim um terceiro tapa, só que mais forte do que os anteriores.


–Você é um sociopata! –Disse entre dentes.


–E você uma hóspede sem vergonha que pulou em cima de mim! Pronto, venci! –E não demorou muito para eu ser estapeado e chamarmos atenção dos convidados da festa, em seguida abafando o riso um no ombro do outro, corando pelos olhares estarem sendo dirigidos a nós sem censura. –Imagina o que eles devem estar pensando... –Comecei. –Para você me estapear, eles devem pensar que disse algo muito absurdo. –Ela se agarrou mais a mim. –Eu só disse a verdade, concorda?


–Para! –Exclamou envergonhada. –Foi culpa daquele vinho do porto que você me deu... Não sou assim, você já me conhece o suficiente para saber!


–Eu sei amor. –Falei com a voz gentil, fechando um pouco mais meus braços em torno de sua cintura. –Eu sei quem você é. –Sakura inclinou um pouco a cabeça para trás e me olhou com um sorriso sereno, se assim podia ser considerado um sorriso. Seus olhos se perdiam numa mecha do meu cabelo que ela enrolava da ponta do dedo e soltava, numa tentativa falha de formar um cacho.


–Amo seu cabelo. –Encostei minha testa na dela e fechei os olhos sentindo sua respiração contra meu rosto. –Quero que o bebê tenha um cabelo assim como o seu. –Rocei meus lábios no dela.


–Os olhos como o seu. –Acrescentei enquanto abria os meus próprios, me deparando com os dela, verdes, cristalinos e frágeis. O beijo que veio em seguida eu posso facilmente classificar como um sopro. Os lábios se tocavam, um puxava o outro lentamente, sutilmente, talvez nem se tocassem. Eu já estava tão acostumado com aquela boca que parecia já fazer parte da minha.


Percebi a coisa mais importante que eu tinha na vida estava ali nos meus braços, que eu tinha permissão de segurá-la, evitar que qualquer mal a afetasse e a despedaçasse em mil pedaços. Então o quadro não importava tanto assim. Se o tal Idate quisesse, poderia exibi-lo na exposição, eu não me importava. Era apenas uma gravura, o que importava era a inspiração que dava história à tela e isso eu já tinha do meu lado.


Felicidade? Creio que não é algo sólido que possamos possuir e carregar conosco no bolso para o resto da vida. Era um momento. Não, um momento não, um fragmento da metade da metade de um momento. Uma sensação. Um sopro na boca do estômago. Uma imagem. Uma textura sobre nossa pele. Um gosto. Um lugar. Alguém. Eu sabia que nem sempre Sakura e eu poderíamos terminar um debate com um beijo ou um olhar mais afável do que qualquer palavra proferível. Eu não sabia de nada. Eu ainda não sei. Eu só acho. Eu só acho que não importa o aconteça, sempre vamos acabar encontrando um meio de recarregar nossa pequena felicidade um no outro. E em breve, poderíamos encontrar isso multiplicado em nosso filho.


E sabe a única coisa que saltava na minha vida? A única coisa que me deixaria completamente satisfeito? Que me fizesse sorrir assim que escorasse a cabeça na cabeceira da cama após acordar? Que alguém registrasse e isso e possibilitasse outras pessoas de saberem que ainda há um pouco de esperança no mundo. Um tiquinho de amor ali, um tiquinho de compreensão ali. Se você recolher pedacinho por pedacinho, talvez consiga achar sua forma de felicidade assim como achei a minha.


Basta querer.


Notas finais
Meus mais sinceros agradecimentos a todos que leram, comentaram ou acompanhou de forma anônima toda a história, que foram pacientes quanto as minhas demoras em postar, aos erros, os desvios irritantes que a história teve e acima de tudo a esses personagens tão teimosos que criei.
Sorry.
Sou uma pessoa muito frígida, mas tenho de dizer que em certas vezes ao longo do ano quando fiquei sem acesso nenhum ao mundo(true story), eu colocava créditos no meu celular só para ler os reviews que vocês deixavam e por muitas vezes chorei no banco de espera da rodoviária ao saber que espalhado no meio dessa imensidão do Brasil, há pessoas que veem potencial em mim, que leem minhas histórias e fazem com que eu me sinta de alguma forma útil para alguma coisa, no caso, entreter vocês com um romance casual que escrevi em Julho do ano passado para minha colega de classe Thais Fernandes.
Mesmo sendo essa pessoa frígida que sou, eu assumo que me emocionei muitas vezes ao escrever a história e ao ver a participação das leitoras e leitores. É algo que me vejo na obrigação de deixá-los sabendo porque quem escreve sabe o que é isso, a sensação de gratificação que se sente com esses simples recados. Uns de quarenta caracteres, outros que são maiores do que o capítulo! Por isso digo para vocês: deixem o autor saber que você está aí, em algum lugar, percorrendo seus olhos por aquilo que ele escreveu. Deixe-o saber que você gosta ou não daquilo. Se abra. Opine. Aja. Não custa mais do que cinco minutos, dependendo do que você quer expressar.
Bom, acho que extrapolei demais, dei até sermão (sorry again), falei por tudo que deixei de falar nas notas ao longo de toda a história, mas é que estou realmente feliz de ter finalmente terminado algo que comecei. E com a ajuda de vocês! Só Deus sabe as dificuldades que tive de um ano pra cá então eu ainda estar com essa fic em andamento é meio que um milagre.
Eu sempre digo no fim dos reviews ou das notasbeijos ou abraços e essas coisas carinhosas, mas não tenho destreza com esses afetos físicos e me sentiria muito falsa caso terminasse essa declaração falando isso. Mesmo que eu nunca vá beijá-las nem abraçá-las, é importante para mim ser honesta do início ao fim, então, um tapa na bunda de todas vocês, meninas e meninos! Obrigada de verdade por tudo e se estiverem afim, fiquem ligados porque eu to com uma fanfic nova que começarei postar em breve, viu hospedeiros?
Até mais pôneis malditos!
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