A Hóspede

11 Talvez haja mais de uma pessoa certa


-Agora você passou dos limites. –Sentou-se na cama com a pior cara de ódio que poderia demonstrar. –Te dei permissão de pegar meu celular? Te dei permissão de ler as mensagens?

-Eu só li uma...

-Não interessa! –Me cortou. –Você não tem esse direito, sabia? Conhece uma coisinha chamada privacidade? É uma coisa muito boa e eu gosto quando a praticam, principalmente pessoas como você que
não tenho ligação afetuosa ou amigável. –Ela já estava humilhando, mas estava certa, disso ele sabia, mas não queria admitir seu erro. –Sabe que tipo de gente que eu odeio? As intrometidas e possessivas! Você se encaixa perfeitamente nas duas categorias, estou errada? –Fiquei calado a olhando furioso. –Dá para acreditar em uma coisa dessa?! –Riu com deboche do comentário que pareceu ser dito para ela mesma do que para mim.

-Se você não devesse, não estaria assim tão alterada.

-Quem se alterou foi você por uma coisa que não lhe diz respeito! Estou nervosa porque você fuçou meu celular e ficou lendo coisas pessoais minhas!

-Foi sem querer!

-Nada é feito ‘sem querer’ por um adulto de vinte e cinco anos, você sabia bem o que estava fazendo, sabia que era falta de respeito e fez porque quis!

-Dá para parar de gritar?! –Pedi irritado com seu timbre fino de voz entrando pelo meus ouvidos me ensurdecendo aos poucos. Obrigada. Vai me deixar explicar?

-Não dou garantia de que vou ouvir. –Virou o rosto.

-Ótimo, me poupa saliva! -Me deitei virando as costas para ela, que pegou o celular e saiu do quarto pisando fundo. –Aonde vai? –Perguntei temendo ela ir embora em uma tempestade dessas.

-Não te interessa! –E bateu a porta deixando o quarto iluminado por apenas uma fina vela consumida até o meio. Fiquei pensativo. Ela se estressou demais por causa de uma mensagem. Bem, não posso falar nada porque eu também fiquei estressado por causa dessa mesma mensagem, só que não foi por um motivo bobo. Ou foi? Ah,
quem se importa?

Eu estava mais constrangido do que preocupado. Nunca ninguém falou tantas coisas desagradáveis como ela me falou a pouco, mas talvez eu merecesse, talvez ela exagerou, quem sabe? Eu não sei e estou muito atordoado para pensar a respeito. Tivemos uma tarde perfeita(ou quase) no ateliê, apreciamos a presença um do
outro, compartilhei coisas íntimas do meu passado com ela para no fim acabar assim, com uma mensagem de texto. Maldito seja esse torpedo! É por isso que eu não tenho celular, todos tem essa frescura que só trás confusão e dor de cabeça. Minha vidinha calma e rotineira não dá boas vindas a problemas, ou melhor, costumava não dar, depois de Sakura, não duvido de mais nada.

Problemas. Problemas. Problemas. Parece que mulheres não conseguem ser menos complicadas de lidar, de calar e conquistar, tem todo um esquema complexo que me deixa louco! Por que ela não aceita que eu cobre dela o que ela cobrou de mim? Por que ela tem que dar a última palavra? Por que ela tem que estar certa sem ao menos ouvir a minha versão da história? Isso me deixa irritado! Que mulher! Que
gênio forte!

Toquei no seu celular e parece que toquei na matéria mais sagrada do mundo após sair do banheiro sem lavar as mãos. Grande merda um celular touchscream cheio de frescura como qualquer outro. Foi por acaso que li a porcaria da mensagem subliminar de lá se sabe quem, não tenho interesse em fuçar nessa coisa inútil que ela trata como se fosse gente. Ontem eu peguei de intrometido mesmo, queria saber algo sobre ela, descobri o apelido, grande bosta. Doeu para ela? Alguma coisa aconteceu com o super-telefone? Não! Então pronto! Para que todo esse escândalo?

Eu sim tenho meus motivos, afinal, aqui é minha casa, eu sou o anfitrião, tenho direito de saber o básico sobre quem eu hospedo. Me recuso a ter uma hóspede cheia e segredinhos que possam relevar a mim, mesmo que eu seja uma pessoa qualquer para ela, dessas que sentam ao seu lado no vagão de um trem. Me diz se eu não tenho o direito de ficar puto: abrigo a mulher, dou conforto, companhia, sexo, conto sobre mim e depois descubro que a moça é dessas fáceis estilo corrimão, onde todos passam a mão. Isso não tá certo porque ela me fez crer que era uma pessoa diferente dessas fúteis com que eu me envolvi casualmente. Isso que vivemos foi casual, não vai ter continuação(ainda bem), só que por um momento eu acreditei que ela fosse mais do que isso. Foi uma decepção.

De qualquer forma, não estou dando muita importância. Se ela quiser partir, que vá, amanhã ou depois iria embora mesmo, ir agora só está adiantando o processo. Não estou sendo indiferente ou inflexível em relação a isso, os momentos que tive com ela foram ótimos, mas todos com finais previsíveis. Não vou ficar me iludindo, sabe? Apesar de inexperiente em relações, sou experiente em mim mesmo e me conhecendo como eu me conheço, sei que é uma questão de algumas semanas para eu estar completamente esquecido e lívido ao que aconteceu nesses dias.


Ela vai embora, voltar a limpar manchas de café
nas mesas de madeira e a dançar obscenamente para caminhoneiros em abstinência. Eu vou continuar fazendo cappuccino sem espuma, preso ao meu notebook, compondo melodias e recheando minha conta e banco cada vez mais, já que não gasto mais do que seiscentos reais por mês.

Às vezes para e penso: pra que tanto dinheiro sendo que não uso um décimo do que eu ganho por bimestre? Não tenho filhos para criar, pai nem mãe... Tenho um irmão hospitalizado, o plano de saúde dele é o melhor, mas o valor é irrelevante. Perdi contato com papai desde que saí de Anchorage, e creio que se tivéssemos contato não desperdiçaria meu dinheiro com um bêbado sem rumo. Não é maldade, é ser realista. Por minha culpa, minha mãe e meu irmão estão mortos(praticamente), nem por isso me afundei em drogas ou em putas para aliviar minha dor. Bem que eu poderia, mas não fiz. Sakura diz que não estou vivendo minha vida por causa disso. Talvez não esteja como eu tenho condições de viver, mas estou vivendo de uma forma melhor do que a que o meu pai vive e isso é tudo.


Sakura voltou de novo ao meus pensamentos? Desde quando ela virou referência? Intrigante. Estava demasiadamente cansado para refletir mais a respeito. Sem dar muita importância se Sakura se foi ou não, eu adormeci, sozinho, no grande quarto escuro. De repente, o vazio do lado oposto do colchão me incomodou. Há quanto tempo eu não me sentia tão solitário?


Notas finais
"Isso é tudo velhinho!"